terça-feira, 17 de setembro de 2019

Bonecos de Estremoz: Ricardo Fonseca (1.ª parte)


Fig. 1 - Ricardo Fonseca (1986- ). Fotografia de 2018 da autoria de Luís Mendeiros.
Arquivo fotográfico do autor.

A extensão do texto e o considerável
número de ilustrações, aconselhou que
fosse dividido em duas partes,
 que serão publicadas sucessivamente.
Esta é a 1.ª parte.
A 2ª parte será editada proximamente.

Ricardo Jorge Moreira Fonseca nasceu a 20 de Setembro de 1986 no Monte da Estrada, situado no lugar de Mártires, freguesia de Santa Maria do concelho de Estremoz. Filho legítimo de João Francisco Fonseca, de 26 anos, motorista, e de Maria José Ramalho Moreira Fonseca, de 30 anos, doméstica (1).
De 1998 a 2004, foi aluno da Escola Secundária da Rainha Santa Isabel. Aqui frequentou o 12º ano de escolaridade, cursando Artes e adquirindo saberes no âmbito da Pintura, da Escultura e da História de Arte (2).
Sobrinho de peixe sabe nadar. O seu tio Ilídio foi oleiro na Olaria Alfacinha, onde ainda trabalhava em 1983. As irmãs Flores, suas tias, são bonequeiras. A Maria Inácia desde 1972 e a Perpétua desde 1976. Não admira pois que se tenha sentido fascinado pela plasticidade do barro e pelas transmutações que ele permite já que, como diz o poeta António Simões: “Barro incerto do presente, / Vai moldar-te a mão do povo / Vai dar-te forma diferente, / Para que sejas barro novo.” Daí que Ricardo tenha começado a manusear o barro aí pelos catorze anos, fazendo a aprendizagem com as sua tias. Aos quinze anos já fazia pequenos presépios e algumas imagens que vendia aos turistas, assegurando assim a mesada para os seus gastos juvenis.
Ao sair da Escola, em 2005, começou a trabalhar (Fig. 1) com as tias na oficina-loja do Largo da República (Fig. 2). Foi então que a manufactura de Bonecos deixou de ser uma brincadeira e passou a ser o seu mester. A execução das figuras continuou, todavia, a ser feita com imenso prazer e igual paixão, pois como diz o adagiário “O trabalho é o mestre do ofício” e “O prazer no trabalho aperfeiçoa a obra”.
Trabalha muitas vezes por encomenda, o que é caso para dizer “A boa obra, se vai pedida, já vai comprada e bem vendida”. Confecciona espécimes dentro e fora do conjunto dos “Bonecos da Tradição”. Entre os modelos que registam maior procura figuram: “O Amor é Cego”, “Primavera”, “Rainha Santa Isabel” e “Presépios”. São de sua criação, figuras como “O professor”, “Fernando Pessoa”, “Cavaleiro Tauromáquico”, “Forcado”, “Rainha Santa Isabel alimentando um pobre”, “Santiago”, “Senhor dos Passos com Nossa Senhora” e “Paliteiros zoomórficos”.
A procura de coleccionadores leva-o a criar variantes de muitos exemplares, o que acontece sobretudo com “Presépios”, mas também com imagens como “Santo António”, “Nossa Senhora da Conceição” e “Rainha Santa Isabel”, o que se torna estimulante, sob um ponto de vista criativo. De resto e por auto-desafio vai criando peças cada vez mais complexas, sem abandonar porém os preceitos inerentes à manufactura dos Bonecos de Estremoz. É caso para dizer que: “Aprende por arte e irás por diante”.
De parceria com as tias tem executado exemplares como “Coreto Municipal”, “Presépio de Galinheiro” e “Jogador de bilhar”.
É sabido que cada barrista tem o seu próprio modo de observar o mundo que o cerca e de o interpretar, legando traços de identidade pessoal nas peças que manufactura e que são marcas indeléveis que permitem identificar o seu autor. Lá diz o adagiário: “As obras mostram quem cada um é” e “Pela obra se conhece o artesão”. No caso de Ricardo, o perfeccionismo está-lhe na massa do sangue, o que o leva a dedicar-se aos pormenores, não só na pintura, como na própria manufactura do rosto, das mãos, dos pés e dos enfeites que adornam as figuras.
Quanto às suas marcas de autor são múltiplas: - “RicardoFonseca” com ou sem data ou com data e “Estremoz”, manuscritas e com iniciais maiúsculas; - RF com ou sem data, pintado em cor variável, etc.
Ricardo tem participado em exposições colectivas, não só em Estremoz, como em Espanha e Itália, assim como em Feiras de Artesanato (FIAPE e a FATACIL), no stand das tias.
Ganhou o 1º Prémio no Concurso de Barrística “Rainha Santa Isabel”, promovido pelo Município de Estremoz no decurso da FIAPE 2011.
Se tivesse que se dedicar à manufactura de um único tipo de figuras, escolheria os Presépios, já que estes possibilitam um número ilimitado de cenários, o que é estimulante, sob um ponto de vista criativo.
Restaura também Bonecos de Estremoz e outras peças de cerâmica. Como gosta de artes plásticas em geral, ocasionalmente também desenha e pinta em casa.
Apesar de por opção própria trabalhar na oficina-loja das tias, Ricardo não é um aprendiz, é um barrista de corpo inteiro, que por ser deles o benjamim, tem nas suas mãos a pesada herança de assegurar o futuro dos Bonecos de Estremoz. Força, Ricardo! “Parar é morrer” e “Para a frente é que é caminho”.

BIBLIOGRAFIA
1 - Ricardo Jorge Moreira Fonseca - Assento de Nascimento Informatizado nº 256 de 2008, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
2 - Ricardo Jorge Moreira Fonseca – Processo Individual de aluno nº 11921, no Arquivo da Escola Industrial António Augusto Gonçalves e sucessoras.

Hernâni Matos


Fig. 2 - Irmãs Flores. Perpétua (1958- ) à esquerda e Maria Inácia (1957) à direita.
Fotografia de 2018 da autoria de Luís Mendeiros. Arquivo fotográfico do autor.

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