quarta-feira, 1 de julho de 2020

Inocência Lopes e a negritude de “O Amor é cego”


"Amor é cego", negro. Inocência Lopes (1973-  ).

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Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.
Luís de Camões (c.1524 – 1580)
Tradição versus inovação
A barrística popular de Estremoz não é imune à mudança a que se refere Camões. De há muito que se tem verificado uma renovação na abordagem dos temas tratados. Esta tem-se acentuado ultimamente, de modo a que os bonecos reflictam os contextos e as preocupações sociais que afligem a comunidade em geral e das quais o barrista é intérprete.
A ceifeira e o pastor de tarro e manta são registos etnográficos dum contexto sociológico agro-pastoril do Alentejo de antanho. Ficaram perpetuados nas esculturas populares dos nossos barristas, tal como no traje e reportório dos nossos grupos etnográficos, a que há que acrescentar o registo dos nossos escritores, fotógrafos e artistas plásticos.
A vida mudou, mas o barro e as mãos de quem o modela, conseguiram reportar uma época e os seus contextos sociais
Nos dias de hoje, os barristas continuam a modelar figuras criadas por aqueles que os antecederam, ainda que com as suas marcas identitárias muito próprias.
Porém cabe-lhes a importante missão de, para além disso, serem os repórteres do contexto e das preocupações sociais do presente. Apenas se lhe exige que sigam o modo de produção, reconhecido como sendo de Estremoz e que na sua essência utiliza na modelação de uma figura, a combinação da placa, do rolo e da bola. Esses têm que estar sempre presentes como “marca de água” que assegura a genuidade da nossa produção barrista, cuja origem remonta a setecentos.
O Amor é cego
“O Amor é cego”, cuja produção remonta ao séc. XIX, é uma figura de Carnaval e simultaneamente uma alegoria à cegueira do amor e ao Cupido de olhos vendados, tema recorrente na pintura e gravura universais, no adagiário português e no cancioneiro popular alentejano. Até ao presente, “O Amor é cego” tem sido representado como uma figura feminina, de pele branca.
Todavia, se o amor é mais forte do que tudo, se não conhece fronteiras, não distingue nem raças, nem credos, nem ideologias, se de facto “O Amor é cego”, esta figura da nossa barrística que é Património Imaterial da Humanidade, não pode ser um ícone exclusivo da raça branca. Tem por extensão de ser de todas as outras. É pois legítimo que a figura seja modelada com outras cores de pele [1].  Foi o que pensou a barrista Inocência Lopes.
Faça-se negro
De acordo com o Génesis, no primeiro dia de Criação do Mundo “Deus disse: “Faça-se a luz!”. E a luz foi feita”. Pois bem, pensando em “O Amor é cego”, Inocência Lopes disse: “Faça-se negro”. E o negro foi feito.
Ao criar “O Amor é cego” negro [2], Inocência Lopes exalta a negritude e proclama a igualdade racial. Trata-se assim de uma figura com forte conotação ideológica que assume especial importância num período de fortes tensões sociais que à escala global traduzem o repúdio por actos racistas praticados por partidários da supremacia branca.
A rematar
A negritude é um tema fracturante a nível planetário. Ao assumir a maternidade de uma figura que a partir deste momento passa a ser paradigmática, a barrista mostrou uma atitude corajosa, pois revelou-nos de que lado da barricada está.
O arrojo na concepção e a qualidade da modelação e da decoração, merecem que eu diga:
- PARABÉNS, INOCÊNCIA LOPES!



[1] - À semelhança de inúmeras imagens devocionais de Nossa Senhora que existem por esse mundo fora e nas quais a Virgem é representada muitas vezes como Virgem Negra.
[2] - O Amor é cego” negro insere-se dentro daquilo que se convencionou chamar “Bonecos da Inovação” e nada tem a ver com figuras como “Preto a cavalo”, “Preta florista” e “Preta pequena” que integram os chamados “Bonecos da Tradição”. Estas últimas figuras são reveladoras da colonização africana ocorrida no Alentejo, que levou a que os negros ficassem perpetuados na barrística popular estremocense.

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Inocência Lopes e o infortúnio de Santo António


Infortúnio de Santo António. Inocência Lopes (1973-   ). 

Uma viagem ao passado
Inocência Lopes (1973-  ) é uma barrista que frequentou o Curso de Formação sobre Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz, que no ano transacto teve lugar em Estremoz, no Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte.
Inocência Lopes é proprietária de uma loja de artigos regionais conhecida por Celeiro Comum, situada na Rua da Convenção n.º 11, no interior do Castelo de Évora Monte. É aí que a barrista, modela e após cozedura, decora as figuras que comercializa no próprio local. Ali, além de arte popular, respira-se História, uma vez que o edifício remonta ao séc. XVII e ali funcionou o “Celeiro Comum”, administrado pela Casa de Bragança. A função do Celeiro era a de proteger os lavradores, muito em especial os que tinham culturas cerealíferas, contra estragos que abalassem a actividade agrícola. Para tal, emprestava a crédito os seus cereais, revertendo os lucros e os excedentes de cereais a favor do Município.
Infortúnio de Santo António
A nova barrista recreou e a meu ver muito bem, uma imagem de Santo António, a qual eu tomei a liberdade de baptizar com a designação que serviu de título ao presente parágrafo.
Trata-se de uma figura muito bem modelada e esteticamente apelativa a revelar marcas identitárias próprias de quem lhe deu vida e alma.
Santo António enverga o hábito castanho da ordem franciscana, com manto e o capucho caído e calça sandálias. Das vestes fazem ainda parte integrante o cordão e o rosário, ambos à cintura. O cordão com três nós, que simboliza os votos perpétuos do Santo: obediência, pobreza e castidade. O Rosário que traduz o facto de o Santo ser homem de oração e devoto da Mãe de Jesus.
Santo António ampara o Menino no braço esquerdo, encostado ao coração, postura que traduz a intimidade de Santo António com Jesus, fonte da sabedoria e dos dons que nele se manifestavam.
Por sua vez o Menino segura nas mãos o globo do mundo, simbolizando o seu poder salvador sobre a Terra e a missão redentora da Humanidade. Na mão direita de Santo António, duas açucenas a simbolizar a pureza, a temperança e o rigor contra as tentações.
O invulgar da figura criada por inocência Lopes, reside no facto de a Bíblia estar caída aos pés do Santo. Trata-se de uma inovação que a meu ver é digna de registo e pela qual é de felicitar a barrista.
Trata-se de um instantâneo da vida de Santo António, já que a Bíblia lhe caíra aos pés e ainda não tivera tempo de a apanhar. A imagem não tem assim nada de irreverente, revela apenas a mestria de Inocência Lopes que soube fixar e perpetuar para a posteridade, o momento do alegado infortúnio do Santo. Em contrapartida, sugere a Bíblia como livro aberto, no qual está disponível a palavra de Deus, segundo os Evangelhos.
A valorização duma original representação
Sugiro que numa futura modelação desta excelente figura, seja suprimida a peanha, já que não é necessário uma imagem de Santo assentar numa peanha ou num andor, para ser imagem de Santo. Isso é para as réplicas das imagens de culto que estão nas Igrejas.
A imagem modelada é séria e não é humorística. Retrata supostamente um percalço sofrido pelo Santo. Como tal, representa alegadamente uma cena da sua vida, pelo que não deve estar assente numa peanha nem num andor, já que uma cena informal como esta não reuniria, decerto, requisitos para ser objecto de culto numa Igreja. De resto, existe uma contradição de fundo entre o carácter informal da presente figuração e o formalismo subjacente à utilização da peanha.
A eliminação da peanha numa futura modelação da excelente ideia passada ao barro, reforçará e valorizará ainda mais a original representação. 
Parabéns Inocência, pela sábia combinação de respeito pela tradição e da procura de novos caminhos. A arte popular não é estática e a barrística popular de Estremoz, também não pode ser.
 Inocência Lopes a modelar.

 Inocência Lopes a pintar.