quinta-feira, 25 de junho de 2020

“Emojis”, “gifts” “ou stickers” não, obrigado!



À laia de introito
Existe no Facebook um grupo designado “BONECOS DE ESTREMOZ”, destinado à divulgação dos Bonecos de Estremoz e que apoiou a sua Candidatura a Património Cultural Imaterial da Humanidade.
Regras do grupo
O grupo rege-se por um conjunto de regras aprovadas pelos seus cinco administradores, das quais consta:
1 - A publicação de posts no grupo carece de aprovação da Administração;
2 - Não serão editados posts que fujam ao tema;
3 - Os posts terão de incluir necessariamente imagens de Bonecos de Estremoz e/ou Barristas de Estremoz, os quais deverão estar identificados;
4 - Cada membro só pode publicar 2 posts por dia;
5 - Não são permitidas partilhas de outros grupos ou páginas do Facebook;
6 - Não são admitidos comentários com imagens que fujam ao tema ou do tipo “emoji”, “gift” “ou sticker”.
7 - São eliminados os posts que fujam aos critérios anteriores.
Comentário ao ponto 6 do Regulamento
O ponto 6 do Regulamento determina que os comentários não tenham expressão gráfica, para as únicas imagens serem dos Bonecos e/ou dos barristas, já que as imagens dos tipos “emoji”, “gift” “ou sticker”, funcionam como distractores daquelas que são objecto do grupo.
Por outro lado, aquele ponto do Regulamento potencia a seriedade que os Bonecos devem merecer e visa fomentar a utilização de mensagens escritas, o que acaba por ser um reforço da utilização da língua portuguesa.
Opinião pessoal
A nível pessoal, penso que a utilização de imagens dos tipos “emoji”, “gift” “ou sticker”, revela muitas vezes algum infantilismo e é revelador de preguiça mental em construir uma ou mais frases apreciativas e/ou valorativas do que se viu e leu. Basta ir aos menus onde está tal bonecada e escolher. Ora, a página do grupo não é de um grupo de banda desenhada. Os barristas e seus trabalhos merecem palavras amigas com calor humano, o qual é sempre personalizado.
Mesmo que alguém escreva com erros ortográficos ou construa mal uma frase, percebe-se o que lhe vai na alma. E a meu ver é isso que importa e é estimulante.
O calor humano tem matizes que não têm tradução gráfica. Utilizar tais símbolos gráficos condiciona a expressão verbal escrita (com a falada é o mesmo) e restringe a liberdade individual, na medida em que se está condicionado ao que vem no menu. Por outro lado, utilizar tais símbolos gráficos conjuntamente com a linguagem escrita, é subalternizar o papel da língua portuguesa. Esta vale por si e não precisa de qualquer tipo de reforço. Por isso:
- “EMOJIS”, “GIFTS” “OU STICKERS” NÃO, OBRIGADO!


domingo, 21 de junho de 2020

Jorge Carrapiço, um barrista em construção


 O amor é cego (2020). Jorge Carrapiço (1968-  ).

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Falar de Jorge Carrapiço
Hoje é dia de falar de Jorge Carrapiço. Não é a primeira vez que o faço. Já falei dele no meu livro “Bonecos de Estremoz”, assim como no blogue “Do Tempo da Outra Senhora”, no qual reproduzi imagens de trabalhos seus.
Nunca é demais falar de um barrista, das suas criações e da sua obra. Obra cuja construção só termina com o finamento do autor. Até lá, o seu trabalho é uma procura incessante de caminhos, a proclamação de mensagens e a revelação de marcas identitárias. É o que se passa com o barrista Jorge Carrapiço, que transporta consigo a pesada herança de ser bisneto de Ana das Peles. A carga genética propiciou terreno fértil à aprendizagem da modelação do barro, primeiro com o seu vizinho e pintor de construção civil, Óscar Cavaco e depois com o seu professor de Trabalhos Manuais e artista plástico, Aníbal Falcato Alves. O seu pai, pintor de construção civil, ensinou-o a utilizar as tintas e a misturá-las até àquela cor e não outra, que é capaz de transmitir um determinado estado de alma. É assim que as pinceladas mágicas nascidas da mão do pintor, acabam por falar connosco, como se tivessem vida.
O percurso de Jorge Carrapiço não é como os demais. Não aprendeu em contexto oficinal nem familiar, nem em qualquer acção de formação. Aprendeu nas condições já referidas e o resto depois tem sido com ele.
Uma figura que cega
Hoje é um dia de cegueira. Fiquei cego pela luz que irradia do seu “Amor é cego”. Uma figura luminosa pela predominância de cores quentes e pelo recurso pouco usual ao verniz brilhante, que constitui uma das suas marcas identitárias. Jorge Carrapiço intuiu e bem o calor que deve irradiar desta figura, para traduzir o calor e a cegueira da paixão.   
Os tons ocre usados no calçado e no toucado, tons de pigmentos “terras de Siena” indiciam que o amor aqui abordado alegoricamente é “Eros”, o amor romântico que se vive na Terra.
As flores que ornamentam os braços da figura em tonalidades de vermelho e com corolas amarelas, sugerem gerberas, flores que ao longo da História das Civilizações, de uma forma ou de outra,  têm traduzido a beleza da vida e a energia positiva proveniente da natureza. O simbolismo induzido pela suas cores é variável. As gerberas vermelhas estão associadas à inconsciência e à total imersão no amor (cegueira do amor).
A sensualidade expressa pelos lábios vermelhos da figura é reforçada pelas rosetas avermelhadas nas maçãs do rosto ou não se desse o caso da paixão afoguear as faces.
À espera de mais
Estou a lembrar-me de um poema de Vinicius de Morais intitulado “Operário em Construção”. Parafraseando o título do celebérrimo poeta carioca, sou levado a concluir que Jorge Carrapiço é um “Barrista em Construção”. Surpreende-me em cada trabalho em que recria o que já tinha sido criado e revela muito daquilo que tem para nos dar e nós esperamos vir a receber.