sexta-feira, 12 de março de 2010

Os bailes das Sociedades



Em Estremoz, nos anos 60 do século passado, uma forma de encostar a calça à saia, era meter pé de dança nos bailes das Sociedades.
Os ricos iam aos bailes do Círculo. A classe média ia aos Artistas. E todos iam às Sociedades mais populares como a Lusitana, a União, a Porta Nova, os Bombeiros e o Orfeão. Havia bailes no aniversário de cada Sociedade, pelo Carnaval, pela Pinhata, pelo Natal, pela Passagem do Ano e pelo Ano Novo. Os salões eram os de cada colectividade e ainda o chamado Jardim de Inverno, no Teatro Bernardim Ribeiro, onde o Orfeão organizava os seus bailes.
Os homens iam aos bailes de fato e gravata ou de papilon e as senhoras com o seu melhor vestido. O mesmo se passava com os respectivos rebentos, fossem rapazes ou raparigas.
Para se entrar nos bailes tinha que se ser sócio e ter as quotas em dia. Podia-se também ser apresentado por um sócio, desde que não se fosse natural da cidade.
Os ritmos eram outros. Dançava-se: bolero, tango, passodoble, valsa, mambo, cha-cha-cha, merengue e uns cheirinhos de bossa nova, de samba e de rock and roll.
Os bailes decorriam com o máximo respeito e quem se portasse mal era chamado ao Gabinete da Direcção. Após uma primeira advertência, era posto no olho da rua, sem apelo nem agravo.
Nos salões de baile, havia quase sempre duas filas. Na da frente ficavam as meninas casadoiras, com idade de dançar, com namorado ou com ganas de o ter. Na da retaguarda ficavam as matronas, senhoras suas mães, guardiãs da virgindade das filhas.
Para dançar era preciso agradar à filha e à mãe, pois as mães, é que sabiam. Os pais não eram para aqui chamados. Ficavam no bufete, a relembrar uns com os outros, glórias de tempos idos, enquanto emborcavam copos e mastigavam moelas. A honra deles era entrar na função e meter um pé de dança com a respectiva matrona, já depois do intervalo, depois de estarem bem tratados, a fim de demonstrarem que ainda estavam como devia ser. Porém, nem sempre a defesa da honra corria bem, pois alguns devido ao avançado estado de alcoolemia, apanhavam uma “tampa” da respectiva matrona, ao passo que outros se estatelavam no soalho, quando porventura executavam alguma reviravolta menos comedida. Era a altura em que os mirones cantavam o “Já estás com os copos! Já estás com os copos!”.
Os bailes eram abrilhantados por conjuntos como o afamado MARILYNG, fundado a 21 de Janeiro de 1955 e que com composição variável perdurou até 1975-76. Do grupo fundador, faziam parte, da esquerda para a direita da fotografia: ANTÓNIO CONDINHO (saxofone alto), FRANCISCO XARCAS (saxofone alto e clarinete), GENARO MANTEIGAS (rabecão), MÁRIO RATO (bateria e vocalista), JOÃO MANAÇAS (piano e acordeão) e ADELINO CANHOTO (trompete). Do grupo fundador falta na fotografia, JOAQUIM CARMO PEQUITO (vocalista), antigo barítono do Teatro de Ópera de S. Carlos e proprietário da Agência de Publicidade APAL, “A Palavra Mágica da Propaganda”, conforme slogan da sua própria autoria. Apesar de pertencer ao grupo fundador, o Pequito não esteve muito tempo no Marilyng e a ele pertencia a aparelhagem sonora utilizada pelo conjunto.
O Marilyng era um conjunto integrado por músicos da Real Sociedade Filarmónica Luzitana e da Sociedade Filarmónica Artística Estremocense, todos eles com histórias de vida para além da Música. Esta não lhes dava para sustento, pelo que tinham que fazer pela vida, fora da Música. O Condinho, o Charcas e o Canhoto eram canteiros. O Genaro era merceeeiro, o Rato era alfaiate e o Manaças era empregado de escritório do prestigiado advogado oposicionista Rodrigues Pereira.
De todos, aquele que conheci melhor, era o do rabecão, o Genaro Manteigas, que tinha uma mercearia, onde ainda recentemente era o PÉ DE LÃ, mesmo ao lado da TIPOGRAFIA BRADOS DO ALENTEJO, quando se vai às burras assadas e ao briol, à taberna que antes de ser do falecido Isaías, era do seu pai Zé da Glória, onde eu ia buscar aguardente para as filhoses da minha tia e ia provando pelo caminho. Se os grandes gostavam daquilo, onde é que está o mal? Pois o Genaro tinha uma mercearia à maneira, que rivalizava com a mercearia do Adriano Pimenta, depois LOJA DO POVO e mesmo em frente dos Brados do Parelho, que antes de pregar um tiro no toutiço, escreveu a sua auto-biografia para publicar no jornal. Eu era cliente habitual do Genaro onde ia comprar rebuçados com cromos da bola. Nasci nas bordas daquela zona em 1946 e por ali morei numa casa que foi derrubada para se travestir doutra coisa. De futebol não gosto desde que o meu pai me pregou com um guarda-chuva na cornamenta por causa do malfadado pseudo-desporto em que andam 22 tarados a perseguir um coiro. Dos rebuçados é que já não gosto muito, prefiro pasteizinhos de bacalhau, mesmo que não sejam VQPRD. Agora o que continuo a gostar é de colecções e comecei a ser coleccionador a ir e vir à loja do Genaro, assim como a encher o meu talêgo no jogo do botão, já que além de razoável pontaria fui dotado pela natureza de um bom palmo, os quais consegui transmitir à minha filha que chegava a casa todos os dias com uma saquilada de berlindes ganhos aos outros na escola do ciclo da Maria Gonçalves. Talvez o ditado adequado seja: “Filha de botaneiro, sabe belindrar!”.
As histórias do Marilyng passam quase todas pelo Genaro. Vou contar algumas.
O Genaro tinha o hábito de, por vezes, talvez para se concentrar na música, tocar rabecão com os olhos fechados, dando a impressão de estar a dormir, se é que não dormia mesmo. Quem não lhe perdoava era o Mário Rato, que lhe dava cada safanão que era um consolo.
Pelo Carnaval, o Marilyng actuava durante cinco dias seguidos em bailes que acabavam já de manhã. Começavam no sábado e acabavam na quarta-feira. A rapaziada chegava ao fim, já rebentada pelas noitadas. Certa vez, deu-lhes para ir a uma farmácia comprar algodão iodado por causa das dores do peito. O pior foi que já no baile e com o calor que tinham, após uma paragem tiveram que se ver livre das pastas de algodão iodado que debaixo da roupa, lhes protegiam a tampa do peito. Onde é que hão de pôr o algodão, onde é que não hão de, o melhor sítio que arranjaram e alguém alvitrou, foi o rabecão do Genaro. Este, ao retomar a actuação, constatou que o rabecão não tinha ressonância e teve esta saída: “ - Não sei o que é que tem o rabecão, que parece que está surdo.”. Foi uma risada geral, descobriu-se a marosca e tudo acabou em bem.
Certa vez, durante umas Festas de Setembro realizadas no Rossio, no dancing dos pobres actuou o conjunto Bass do Alandroal, ao passo que no dancig dos ricos, actuou um conjunto espanhol, que tinha um vocalista alto e corpulento como o Carmo Pequito com quase 2 metros de altura e muito mais que 100 quilos de peso. Este vocalista tinha a particularidade de procurar comunicar bastante com o público, para o que se agachava, mesmo à boca do palco, ao mesmo tempo que, empunhando o microfone, se aproximava dos pares dançantes. Esta actuação teve muito êxito e foi muito bem recebida pelo público. Passado algum tempo, houve um baile na Porta Nova e o Carmo Pequito que integrava ainda o Marilyng, proclamou aos seus companheiros: “ - Hoje vou cantar como o espanhol das Festas de Setembro!” O que ele se esqueceu foi que o palco da Porta Nova não tinha a profundidade do palco do dancing dos ricos nas Festas de Setembro. Tudo correu bem até ao momento em que com ele agachado, num gesto mais arrebatado, o Genaro lhe enfia com as varas do trombone ao fundo das costas. O colossal Pequito desequilibra-se e lá vai palco abaixo, caindo em cima dumas velhas que nessa noite tiveram o azar de sair de casa. Só não foi chamado o INEM, porque nessa altura ainda não existia.
O Genaro e o Pequito eram impagáveis e viam-se envolvidos em situações que eles próprios não tinham criado. Certa vez, num baile da Lusitana, aconteceu uma que é famosa. O João Manaças, o pianista, namorava aquela que viria a ser a sua mulher. Esta, por uma questão de afecto tinha-se sentado junto ao palco mesmo à frente dele. A certa altura, talvez devido a excesso de carga, apaga-se a luz e o João Manaças, farto de estar sentado, levanta-se. O Pequito, farto de estar de pé, senta-se. A namorada do Manaças, aproveita a escuridão e resolve fazer umas festas nas canelas do Manaças. Porém, de repente acende-se a luz e o que vêem os bailarinos? A namorada do Manaças a fazer festas numa canela do Pequito. Foi uma risada geral.

Eram outros os tempos…

quinta-feira, 11 de março de 2010

Forca de fazer cordão


5,2 x 0,5 x 15,8 cm. Em madeira. Fina e profusamente decorada com motivos florais em ambas as faces. Bordado simétrico em relação ao eixo vertical da forca.
Numa das faces, de cada um dos lados do eixo vertical, imediatamente acima do orifício central, são visíveis dois trevos de 4 folhas.
De acordo com lendas celtas, os druidas praticavam rituais de colheita de plantas e animais que traziam boa ou má sorte. Acreditavam assim, por exemplo, que quem possuísse um trevo de quatro folhas poderia incorporar os poderes da floresta e a sorte dos deuses, adquirindo então o dom da prosperidade. Daí que tradicionalmente o trevo de quatro folhas seja considerado como um poderoso amuleto e usado em iconografia diversa.
Oferecer a alguém um objecto (como esta forca de fazer cordão), a qual incorpora na sua decoração um trevo de quatro folhas, é formular-lhe votos de prosperidade, saúde e fortuna. Há quem considere ainda que cada folha do trevo tem um significado próprio: Esperança, Fé, Amor, Sorte, bem como o número de folhas (4) - representa um ciclo completo, como as 4 Estações, as 4 fases da Lua ou os 4 elementos da Natureza: Ar, Fogo, Terra e Água, conforme a “Teoria dos 4 Elementos” de Aristóteles (384-322 a.C.).
Para além do que já foi dito, a abundante decoração floral desta forca de fazer cordão, merece uma reflexão mais pormenorizada acerca do simbolismo das flores.
No século XVIII, um viajante inglês de visita á Turquia teve conhecimento do “código” ali utilizado para exprimir sentimentos através das flores. O original costume teria logo chegado à França, onde se inventou uma linguagem composta integralmente por símbolos florais. Os primeiros livros sobre linguagem das flores foram, assim, publicados em França:
- Abcedaire Flore ou Langage de Fleurs - B. Delachenaye (1810) .
- Le Langage de Fleurs - Charlotte de Latour (1819).
Por influência francesa apareceram depois livros ingleses e americanos, entre os quais:
- Floral Emblems - Henry Phillips (1820) .
- The Language of Flowers; With Illustrative Poetry - Frederic Shoberl (1834) .
- The Language of Flowers - Kate Greenaway (1884) .
A existência de múltiplos livros sobre o assunto em Inglaterra na época victoriana, originava, por vezes, a atribuição de diferentes significados simbólicos à mesma flor, por parte dos diferentes livros, levando a confusão na mensagem a ser transmitida. A comunicação através das flores exigia assim que os amantes da época victoriana utilizassem o mesmo dicionário floral. Na era vitoriana, a linguagem das flores foi algo de complexo, pois diferentes flores traduziam diferentes sentimentos, assim como a maneira como eram oferecidas e aceites tinha determinado significado
Estamos em crer que as flores bordadas na presente forca de fazer cordão, encerram um significado simbólico que esteve na mente do “bordador”, o qual eventualmente seria conhecido da mulher a quem este artefacto foi oferecido. Por outras palavras: mais que mera e ocasional decoração, a forca transmitiria uma mensagem simbólica conhecida por quem ofertou e por quem recebeu. Apesar duma forte convicção nesse sentido, mas dada a estilização dos elementos florais empregues, não nos atrevemos a procurar decifrar qualquer mensagem simbólica que a forca encerre.

quarta-feira, 10 de março de 2010

A ronca


A ronca é um instrumento musical tradicional do Alentejo, bastante rudimentar, pertencente à classe dos membranofones de fricção. É composto essencialmente por um reservatório, geralmente um cântaro de barro [1], que serve de caixa de ressonância e cuja boca é cerrada com uma pele esticada, a qual vibra quando se fricciona uma pequena e fina cana presa por uma das extremidades no seu centro. O som resultante, grave e fundo, é transformado pela caixa de ressonância no ronco característico do instrumento.
A espessura e a qualidade da pele, é importante por causa do som. Por isso, usa-se pele de ovelha, borrego, carneiro, cabra, cabrito ou chibo, bem como bexiga de porco ou de carneiro.
É um instrumento usado no acompanhamento de canções de Natal ou das Janeiras, podendo ainda pode ser encontrado na zona raiana (região de Portalegre, Elvas, Terrugem e Campo Maior), onde grupos de homens agasalhados nos seus capotes para arrostar o frio, percorrem as ruas em compasso lento e solene, entoando cantares, parando aqui e ali, para dedicar os seus cantos aos moradores de determinadas casas.
Durante a sua utilização, a ronca é levada debaixo de um dos braços, enquanto o outro fricciona a cana longitudinalmente, com força. A eficácia do funcionamento da ronca exige que, de vez em quando, os tocadores cuspam para a mão que empunha a cana, a fim de lubrificar a pele da ronca. Os cânticos entoados podem ser dos mais diversos. Por exemplo:

“Qualquer filho de homem pobre
Nasce num céu de cortinas.
Só tu, Menino Jesus,
Nasceste numas palhinhas.” [2]

“Ó mê Menino Jasus
Da Lapa do coração,
Dai-me da vossa merenda,
Que a minha mãe não tem pão.” [3]

Sobre a ronca, diz-nos António Thomaz Pires [4] "Das nove horas até à meia-noite de Natal percorrem as ruas da cidade diferentes grupos de homens do povo, cantando em altas vozes, em coro, e núm rhytmo e entoação especial, trovas ao Menino Jesus, acompanhadas pelo som àspero da ronca: alcatruz de nora, ou panella de barro, a cujo bocal se adapta uma membrana, ou pelle de bexiga, atravessada por um pau encerado, pelo qual se corre a mão com força para produzir um som rouco. Somente pelo Natal é este instrumento ouvido."

[1] - Mas pode ser também uma panela de barro ou um cântaro de lata ou outro recipiente qualquer.
[2] – Recolhida em Elvas: PESTANA, M. Inácio. Etnologia do Natal Alentejano, Edição da Assembleia Distrital, Portalegre, 1978.
[3] – Recolhida no Alandroal: VASCONCELLOS, J. Leite de. Cancioneiro Popular Português, vol. III, Acta Universitatis Conimbrigensis, Coimbra, 1983.
[4] - PIRES, António Thomaz . "A noite de Natal, o Ano Bom e os Santos Reis” in Estudos e notas elvenses. António Torres de Carvalho. Elvas, 1923 ( 2ª ed.).


terça-feira, 9 de março de 2010

Brincadeiras d'outrora



Nos meus tempos de miúdo, jogava aos amalhões, à mosca, à pateira, à roda, ao botão, ao berlinde e ao soco quando era preciso. E levava também no focinho, porque lá diz o rifão: “Quem vai à guerra, dá e leva.” Nas brincadeiras o que contava era a imaginação sem limites e a arte do desenrasca, em que o português ainda hoje é mestre.
Havia também a ida aos grilos e partidas que se pregavam aos tansos como a “ida aos gambosinos” ou fazer de estribo na “brincadeira do rei coxo”.
As meninas, salvo alguma Maria Rapaz, que as havia e algumas delas encantadoras, brincavam às donas de casa, passando a ferro, fazendo jantarinhos e dando banho e biberon aos bonecos.
Hoje, reconheço que o sistema estava montado para gerar diferença de género e havia coisas que, apesar de puto, eu tinha a noção que não deveriam ser assim.
Hoje o sistema travestiu-se e foi montado de maneira diferente. Porém, deu para o torto.
Além das brincadeiras de rapazes e tanto quanto me lembra a memória dos tempos idos, sempre tive gosto por colecções, entre elas, botões, cromos, moedas, selos, postais, panfletos publicitários e mais tarde, aí pelos 12 anos, livros.
A estas colecções vieram-se juntar outras, mas as colecções primitivas ainda hoje perduram. Entre elas, as colecções de cromos montadas nas respectivas cadernetas, como é o caso das RAÇAS HUMANAS, da HISTÓRIA DE PORTUGAL, da HISTÓRIA NATURAL e dos TRAJES TÍPICOS DE TODO O MUNDO, entre eles os de Portugal.
Decerto que foi com esta última que eu fiquei fascinado pela Etnografia, antes de saber que Garrett tinha sido o percursor, Leite de Vasconcellos o fundador e Luís Chaves e outros mais, os continuadores.
As cadernetas de cromos, foram as minhas pastilhas de Cultura. Foram o meu software, antes de terem inventado as consolas electrónicas que programam e condicionam o divertimento, assim como a raça maldita dos Magalhães, que põem os putos convencidos que fazer um trabalho de pesquisa, não é mais que uma mera operação de corte e colagem.
Não trocava uma caderneta de cromos por 10 Magalhães, nem sequer o meu talego de botões (com mirôlas e chapéuzinhos de chumbo) por consolas.
O registo das memórias passadas é o melhor investimento cultural que podemos deixar aos nossos netos....

segunda-feira, 8 de março de 2010

Cancioneiro do Natal Alentejano


Grupo de cantadores. Ana Bossa

A identidade cultural alentejana reflecte-se em tudo, inclusive no cancioneiro popular de Natal, onde apesar da pouca religiosidade, é notório o respeito pela Sagrada Família, a qual apesar disso é tratada terra a terra e mesmo com uma certa ironia. Assim, Jesus é identificado como mais pobre que os pobres:

"Qualquer filho de homem pobre
Nasce num céu de cortinas.
Só tu, Menino Jesus,
Nasceste numas palhinhas." [1]

Jesus é também recriminado por ter nascido numa época de frialdade:

"Ó meu Menino Jesus
Ó meu menino tão belo,
Logo Vós foste nascer
Na noite do caramelo!" [2]

Fazendo fé no cancioneiro, ou das duas uma, tal como a minha filha, o Menino era crescido para a idade, ou S. José era um carpinteiro de obra grossa, que fazia as obras a olho, não ligando às possíveis medidas:

"O Menino chora, chora,
Chora com muita rezão:
Fizeram-le a cama curta,
‘Tá c'os pézinhos no chão." [3]

De resto, S. José poderia não ser mesmo dado a grandes trabalheiras:

"José, embana o Menino,
Com a mão e não com o pé;
Esse Menino que embanas
É Jesus de Nazaré!" [4]

Quem parece que sabia embalar o Menino era a mãe:

"Esta noite, à meia noite,
Ouvi cantar ao Divino;
Era a virgem Maria
Que embalava o seu Menino." [5]

O Menino parece que era um bébé - chorão e tanto chorava por cima como por baixo:

"O Menino chora, chora,
Chora pelos calçõezinhos.
Calai-vos, ó mê Menino
Faltam-le os botõezinhos." [6]

Como todos os bébés, o Menino era um bébé – mijão. Por isso, tinha de mudar de roupa de baixo com frequência, dando muito trabalho à mãe:

"Cantai, anjos, ao Menino
Que a senhora logo vem:
Foi lavá-los cueirinhos
À ribeira de Belém." [7]

Era cada encharcadela! Molhava não só ao cuerinhos como também a camisinha:

"Ó mê Menino Jasus,
Qu'é da tua camisinha?
Tá lá fora na ribeira
Em cima duma pedrinha." [8]

Não havia sítio que chegasse para estender a roupa, a ponto de os pastores terem de ser avisados para não arrancar vegetação, não fosse dar-se o caso, de não haver onde estender a roupa:

"Pastor do gado branco,
Não arranques o rosmaninho,
Pois é onde a Virgem Pura
Estende os cueirinhos." [9]

De resto, parece que o menino não era muito esquisito em relação à roupa:

"- Ó meu amado Menino
Quem Vos deu o fato verde?
- Foi uma moça donzela
Duma doença que teve." [10]

Mariolicices também o Menino as faria, a ponto de ter que levar o seu tabefe:

"- Ó meu menino Jesus
Quem vos deu? Porque chorais?
- Deram-me as moças da fonte;
Não hei-de tornar lá mais." [11]

O cancioneiro popular alentejano é um cancioneiro de homens sujeitos ao trabalho sazonal e ao consequente desemprego cíclico. Por isso, é um cancioneiro de homens, muitas vezes com uma barriga vazia, que dá horas, não podendo, por isso mesmo, deixar de reflectir naquilo que as poderia confortar. Para alguns, haveria mesmo que dar de comer ao Menino, sem a própria mãe saber:

"Ó mê Menino Jasus,
Quem vos pudera valer,
com sopinhas da panela
Sem a vossa Mãe saber!" [12]

Alguns deviam ter tanta fome, que chegaram a pôr a hipótese de comer a boca do Menino:

"Ó mê Menino Jasus,
Boquinha de requêjão:
Quem vo-la comera toda
C'um bocadinho de pão." [13]

Outros mais comedidos, limitaram-se a pedir ao Menino para repartir com eles a comida, porque não têm pão:

"Ó mê Menino Jasus
Da Lapa do coração,
Dai-me da vossa merenda,
Que a minha mãe não tem pão." [14]

Ou até porque não têm mesmo nada para comer:

"Ó meu amado Menino,
Boquinha de marmelada,
Dai-me da vossa merenda,
Que a minha mãe não tem nada." [15]

Chegam mesmo ao ponto de querer saber, onde é que o menino arranjou a comida que tem naquele momento

"Ó mê Menino Jasus,
Quem te deu essa boleta?
Foi a minha avó Sant'Ana
Qu'a tinha lá na gaveta." [16]

Outros, mais imaginativos, talvez pensando naquilo que não têm, pintam um menino empanturrado com aquilo que o porco e a terra dão:

"Olha o Deus Menino,
Nas palhinhas deitado,
A comer pão e toicinho
Todo besuntado!" [17]

Este o cancioneiro popular que temos e de que nos devemos orgulhar, por ser parte integrante da nossa memória colectiva e da nossa identidade cultural, que urge preservar e transmitir às gerações mais novas.
[1] - Elvas. Recolha de M. Inácio Pestana in Etnologia do Natal Alentejano, Edição da Assembleia Distrital, Portalegre, 1978.
[2] - Recolha de J. Leite de Vasconcellos in Cancioneiro Popular Português, vol. III, Acta Universitatis Conimbrigensis, Coimbra, 1983.
[3] - Elvas. Recolha de M. Inácio Pestana in Etnologia do Natal Alentejano, Edição da Assembleia Distrital, Portalegre, 1978.
[4] - Alandroal. Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.
[5] - Alentejo. Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.
[6] - Elvas. Recolha de M. Inácio Pestana in ob. cit.
[7] - Alentejo. Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.
[8] - Elvas. Recolha de M. Inácio Pestana in Etnologia do Natal Alentejano, Edição da Assembleia Distrital, Portalegre, 1978.
[9] - Elvas. Recolha de M. Inácio Pestana in ob. cit.
[10] - Alentejo. Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.
[11] - Alentejo. Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.
[12] - Alandroal. Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.
[13] - Elvas. Recolha de M. Inácio Pestana in ob. cit.
[14] - Alandroal. Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.
[15] - Alentejo. Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.
[16] - Elvas. Recolha de M. Inácio Pestana in ob. cit.
[17] - Estremoz. Recolha de H. Matos. Anos 60.

domingo, 7 de março de 2010

O pastor

Aguarela de ALBERTO DE SOUZA (1880-1961),
utilizada no cartaz e na capa do catálogo
da Feira-Exposição de Maio de 1927, em Estremoz.

 TRAJE

Mestre Alberto de Souza (1880-1961), notável aguarelista e ilustrador, calcorreou o país de lés a lés na primeira metade do século XX, funcionando como consciência plástica da Nação, pela oportunidade e rigor do registo etnográfico, efectuado através das suas exemplares aguarelas, como aquela que esteve na base da confecção de um cartaz para a afamada Feira-Exposição de Maio de 1927, em Estremoz.
Nesta aguarela, na parte superior, a parte antiga do burgo, confinada às muralhas do Castelo e, dominando tudo, altaneira e vigilante sobre a planície, a Torre de Menagem, ex-líbris de Estremoz. Em primeiro plano, o pastor de ovelhas, arrimado ao seu cajado, com o tarro com as comedorias do dia, envergando o seu traje regional constituído pelo pelico, pelos safões, pelo lenço em redor do pescoço e pelo chapéu de aba farta, como diz a cantiga da sua conversada:

“Debaixo das azinheiras
Encostado ao teu cajado,
Com o chapéu de abas largas
Vejo-te guardando o gado.” [1]

Sobre o traje, diz-nos Luís Chaves, etnólogo que na época também por aqui andava: "O traje surge-nos como produto natural do meio, isto é, de quanto dentro e à volta do homem existe, e tudo o que influi no espírito e actua nele. Desde a escolha e adopção de tecidos, até à cor e forma, desde a ornamentação ao arranjo das partes componentes, tudo aí tem razão de ser como é, e tem de estar onde está." [2]
Hoje, o pastor da região já não se veste assim e as encostas do monte onde se ergue o Castelo de Estremoz, são vinhas e não campos de semeadura de trigo. Daí a importância desta e de todas as outras aguarelas de Alberto de Souza e de outros pintores ou imagens fotográficas, no registo etnográfico de uma época, para memória futura e afirmação da identidade cultural.
Para alem do óbvio do traje revelado pela imagem do pastor alentejano de Alberto de Souza, há histórias que essa imagem suscita e que têm a ver com dois factos fundamentais: a vida ao ar livre e a grande solidão em que vive o pastor.

A VIDA AO AR LIVRE

Na sua peregrinação pelos montados e pelas abas da Serra, o pastor conhecia profundamente as ervas que podem ser utilizadas na alimentação: alabaças, cardinhos, espargos, saramagos. etc. Conhecia também as ervas medicinais, que utiliza para fazer mezinhas: a macela, a carqueija, a manjerona, o rosmaninho. Conhecia igualmente as ervas aromáticas que utiliza como condimentos: orégâos, poejos, salva, manjerona, etc.
Na sua solidão, o pastor estava coberto pelo céu, cuja observação era uma constante como nos diz o cancioneiro popular:

"Vai romper aurora,
Vai nascer o Sol,
Tinge-se o Nascente
De cores do arrebol." [3],[4]

Essa observação permitia-lhe prever o tempo. Na verdade, da observação empírica e continuada de gerações e gerações de camponeses, utilizando como indicadores a Lua, o Sol, as estrelas, o arco-íris, as trovoadas e o vento, resultaram sentenças muitas vezes condensadas em provérbios que eram axiomas práticos a seguir [5] :
- “Lua Nova trovejada, trinta dias é molhada.”
- “Chuva, ao pôr-do-sol dá ventos fortes no dia seguinte.”
- “ Nuvens vermelhas, ao Sol posto, dão vento; se andam para o Sul, chove;”
- "O arco-fris quando vem é sinal de chuva próxima;"
- "Trovões de manhã, fortes ventanias à tarde;"
- Em Estremoz, vento do Pego (Poente) trás chuva;
De resto, o pastor sabia que:
- "Há tempestade quando os carneiros e as ovelhas se marram uns aos outros e olham para o céu;"
- "Chove quando o couro se toma mais áspero;"
A vida do pastor, toda ela feita ao ar livre, embora dura, era rica de vivências e saberes. Ao longo dos tempos tem sido motivo de inspiração para poetas eruditos, como foi o caso do neo-realista alentejano Antunes da Silva (1921-1997).

A SOLIDÃO

Para além da vida ao ar livro, a vida do pastor tinha outra constante que era a grande solidão em que vivia. Por isso, o pastor alentejano ocupava o tempo que lhe sobrava da guarda do rebanho, em gravar desenhos sobre madeira, cortiça ou chifre.
Como principal instrumento de trabalho, servia-se da navalha, mas utilizava também o ponteiro e a legra.
Dentre os trabalhos executados podem citar-se os seguintes: cáguedas, colheres, cassos, garfos, copeiras, garfeiras, molduras, tinteiros, pontões de arca, sovinos, agulheiros, chavões, côxos, tarros, caixas de costura, saleiros, tropeços, polvorinhos, cornas, azeiteiros, copos, o que levou o etnólogo Virgílio Correia a afirmar em 1916 que "A Província do Alentejo é a lareira onde arde mais vivo, mais claro e mais alto, o fogo tradicional da arte popular portuguesa.”[6] Também o escritor João Falcato disse em 1953, que “Não sabe uma letra o pastor destas terras, em erudição nunca ouviu falar, e é poesia pura a linguagem da sua alma, e é poesia pura o que sai das suas mãos.
E além de tudo mais uma qualidade tem a sua poesia. Não precisa dos livros para se imortalizar. Um raminho de buxo, um nada de cortiça, e, da inspiração fugidia, ficou alguma coisa nas nossas mãos.
Perdão! nas mãos da sua conversada que cada Domingo as estende para receber a colher rendada com que se promete casamento ou o tarro com que se deseja abastança, e se acha ao fim e ao cabo com um poema em que se fala de amor.” [7]
Mas apesar de a arte pastoril ser poesia e poesia pura, na solidão da sua vida de nómada, o pastor era um poeta popular no sentido literal do termo, criando sobretudo décimas e quadras que registava no livro vivo da sua memória:

" Àlém ò pé do redil
Uma pedra me espera
Sentado ali sem dormir,
Górdando o gado da fera." [8]


Sim, por que lá diz o rifonário popular. “É ao mau pastor que o lobo dá louvor” e “Pastor descuidado, ao sol posto junta o gado” e ainda “A ovelha que não tem dono, come-a o lobo”.
A quadra podia ser brejeira:

"Assente-se aqui, menina,
À sombra do meu chapéu,
O Alentejo não tem sombra,
Senão a que vem do céu." [9]

Podia ser também o reflexo do grande isolamento em que vivia o pastor, que lhe permitia conhecer a natureza que o rodeava, muito em particular, o céu:

"As árves que o mundo tem
Cubro-as c’o meu chapéu.
Diga-me cá por cantigas
Quantas ‘strelas há no céu? [10]

Por vezes a poesia encerrava uma profunda crítica social:

"Sobe o rei no alto trono,
Desce o pastor ao val’ fundo;
Uns p’ra baixo, outros p’ra cima
Vai-se assim movendo o mundo." [11]

Felizmente que através dos tempos tem havido estudiosos que têm procedido à recolha do rico Cancioneiro Popular. Registo entre outros os nomes de Tomás Pires, Luís Chaves, Azinhal Abelho, Manuel Joaquim Delgado, Augusto Pires de Lima, Vítor Santos, Fernando Lopes Graça, Michel Giacometti, a quem presto o tributo do meu reconhecimento por terem tido a clarividência da importância que constitui o registo escrito do Cancioneiro Popular, como forma de assegurar a perpetuidade do que tem de mais rico e genuíno a nossa memória colectiva.
Termino aqui a incursão - necessariamente esquemática e incompleta que ousei fazer a alguns aspectos etnográficos e sociológicos da vida do pastor alentejano. Vida dura e heróica, mas também de partilha com a Natureza com a qual aprendeu a viver harmonicamente. Vida também de equilíbrio com o Universo cujas mensagens mais profundas, como poucos soube decifrar. Vida ainda de poesia pura, mas também de fraternidade solidária com os seus iguais. Razões suficientes para a meu ver constituir um ex-líbris de peso na divulgação da nossa alma regionalista.

[1] - Beja - Recolha de Manuel Joaquim Delgado in Subsidio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo - 2° ed. (2 vol.). Instituto Nacional de Investigação Científica. Lisboa, 1980.
[2] - Luís Chaves in A Arte Popular - Aspectos do Problema, Portucalense Editora, Porto, 1943.
[3] - Cor avermelhada do horizonte, nos pontos em que se rompe ou põe o Sol.
[4] - Mértola - Recolha de Manuel Joaquim Delgado in ob. cit.
[5] - Luís Chaves in Páginas Folclóricas, Portucalense Editora, Porto, 1942.
[6] - Virgílio Correia in Etnografia Artística, Renascença Portuguesa, Porto, 1916.
[7] - João Falcato in Elucidário do Alentejo, Coimbra Editora, Coimbra, 1953.
[8] - Beja - Recolha de Manuel Joaquim Delgado in ob. cit.
[9] - Beja - Recolha de Manuel Joaquim Delgado in ob. cit.
[10] - Beja - Recolha de Manuel Joaquim Delgado in ob. cit.
[11] – Ferreira do Alentejo - Recolha de Manuel Joaquim Delgado in ob. cit.