sábado, 23 de abril de 2011

Maioral e ajuda a comer


  Maioral e ajuda a comer Sabina Santos (1921-2005).


   Maioral e ajuda a comer Sabina Santos (1921-2005).

A HIERARQUIA NA PASTORÍCIA
No Alentejo de antanho, as relações de produção estavam fortemente hierarquizadas. De acordo com as suas funções, os pastores recebiam diferentes designações: “Rabadão” era o pastor chefe, a cargo de quem estavam a fiscalização e inspecção de todos os rebanhos de gado lanígero do mesmo proprietário. Um grande lavrador, podia possuir alguns milhares de cabeças, espalhadas por numerosos rebanhos, mas tinha ao seu serviço um único rabadão. “Maioral” era o primeiro pastor de cada rebanho. Havia tantos maiorais quantos os rebanhos. “Ajuda” era o segundo pastor do rebanho.

OS PASTORES NA BARRÍSTICA POPULAR ESTREMOCENSE
A pastorícia, actividade tradicional com peso na economia do Alentejo d’outrora, está bem gravada na nossa memória colectiva, pelo que faz parte do imaginário popular e está largamente representada na barrística popular estremocense. De facto, são conhecidas as seguintes figuras: pastor (simples), maioral e ajuda, pastor em pé com dois borregos em frente, pastor com o borrego às costas, pastor sentado a fazer as migas, pastor sentado a comer as migas, pastor deitado a fazer as migas, pastor de harmónio (em pé), pastor de harmónio (sentado), pastor ofertante em pé (com borrego), pastor ofertante em pé (com 1 pomba), pastor ofertante em pé (com 2 pombas), pastor ofertante em pé (com 3 pombas), pastor ofertante ajoelhado (com borrego à frente) e pastor ofertante ajoelhado (com chapéu à frente). Não são conhecidas representações de pastores, em peças do tipo “assobio” ou “gancho de meia”.
A composição aqui mostrada sob múltiplos ângulos, é uma representação de “Maioral e ajuda”, foi adquirida no Mercado das Velharias, em Estremoz, no passado sábado, dia 16 de Abril e é da autoria da celebrada barrista Sabina Santos (1921-2005).

UMA QUESTÃO DE TERMINOLOGIA
Sabina Santos trabalhava para a extinta Olaria Alfacinha, cuja Tabela de Preços dos Bonecos de Estremoz, datada de 1976, designa esta composição por “Pastores a merendar”. Trata-se a nosso ver de uma designação aceitável, pois são dois os pastores que estão a comer, seja ou não a merendar. Todavia, aquela designação não traduz a existência de uma hierarquia entre eles.
Posteriormente a Sabina Santos, outros barristas passaram a designar esta composição por “Pastor e ajuda a comer”, designação igualmente aceitável, uma vez que revela a presença de uma hierarquia entre eles. Contudo, a nosso ver, esta designação tem o inconveniente de chamar a um deles pastor, como se o outro não o fosse também.
A nosso ver, a designação mais adequada para esta composição é “Maioral e ajuda a comer”, uma vez que dela está ausente qualquer ambiguidade, por mostrar a existência de uma hierarquia entre os pastores.

MEMÓRIA DESCRITIVA
Passemos de imediato à descrição da peça em estudo. Trata-se de uma peça constituída por três figuras: dois pastores de ovelhas (o maioral e o ajuda) e o cão do rebanho, já que “Não há pastor sem rebanho” e “Perdido é o gado que não tem pastor nem cão”. Qualquer dos pastores usa na cabeça, o típico chapéu aguadeiro, típico do Alentejo e assenta o joelho direito na Terra-Mãe, como se estivessem a venerar um tarro destapado, repleto de olorosas migas, do qual o maioral se está a servir com uma avantajada colher que agarra com a mão direita, enquanto o ajuda empunha outra e se prepara para igual procedimento. Qualquer deles tem a mão esquerda apoiada no joelho homólogo. Para além disso, o ajuda segura um pão.
O facto de estarem a comer do tarro é revelador de que as migas não foram confeccionadas no local, mas no monte do lavrador, onde o ajuda as foi buscar, uma vez que “Abala pastor com as espaldas ao sol”.
No que respeita ao traje, o ajuda usa botas de cabedal atacoadas, calças de ganga azul e pelico de pele de borrego ou ovelha. Este é como que um colete fechado, abotoado à frente por três pares de botões pretos e que substitui o casaco. Por debaixo do pelico, uma camisa creme fechada em cima por um par de botões vermelhos e cujas mangas apresentam uma fileira lateral de dois botões da mesma cor. Quanto ao maioral traz botas de cabedal atacoadas e pintadas de preto. Por cima das calças usa safões. Estes são uma peça de vestuário confeccionada em pele de borrego ou ovelha, que se ata à cinta e se ajusta às pernas por intermédio de cinco atilhos com um botão amarelo na ponta, o qual entra no caseado dos safões. Estes têm a função de aquecer as pernas no Inverno, bem como proteger as calças. O maioral usa ainda uma samarra feita de pele de borrego ou ovelha. Esta é como que uma casaca fechada, abotoada à frente por três pares de botões amarelos e com um rabo que dá até à curvatura das pernas. Por debaixo da samarra, uma camisa cor de laranja, fechada em cima por um par de botões azuis e cujas mangas apresentam uma fileira lateral de dois botões da mesma cor. O maioral apresenta ainda sobre os ombros, um lenço às listas coloridas, como se fosse uma estola assente no pescoço e com as pontas pendentes para a frente.
Dos agasalhos de pele de borrego usados pelos pastores, existem algumas referências na literatura oral, a começar pelo adagiário que proclama que “0 agasalho e a balsa não pesam ao pastor”, enquanto que o cancioneiro popular refere que:

“Fui fazer uma viagem,
De Vendas Novas aos Pegões,
Para comprar umas peles,
Para fazer uns ceifões.” [4]

E ainda:

Tod’a vida gardê gado,
E sempre fui ganadêro,
Uso cêfoes e cajado,
E pelico e caldêra.” [4]

No chão, de um dos lados do tarro, uma cacheira que tal como o cajado e o gravato, é como que o bordão do peregrino, pois auxilia na marcha. A ela se arrimam os pastores quando estão parados, a ver se aliviam as pernas. Serve igualmente de arma de defesa contra ladrões e animais selvagens. É também uma terrível arma usada em casos de desavenças, como por vezes acontecia nas feiras de gado. Mas a cacheira é, sobretudo, a extensão do braço do pastor e serve para conduzir o gado, sendo por vezes lançada como arma de arremesso em direcção a ovelhas tresmalhadas. Nas cacheiras, cajados e gravatos, os pastores gravam a navalha, marcas indicativas do número de cabeças de gado que têm à sua guarda. Estas variam de pastor para pastor. Um tipo de marcação possível é a seguinte: redondela (100), triângulo (50), cruz (20), mossa (10), ponto (1).
Do outro lado do tarro, um corpulento, possante e ágil rafeiro alentejano, guarda, acompanhante, defensor e protector do rebanho, de orelhas arrebitadas, tem a língua de fora da boca, como quem saliva, impaciente pelo seu quinhão de migas.
O chão onde assentam todas as figuras é verde, pintalgado de branco, amarelo e cor de laranja, numa alegoria a um chão atapetado por erva e tufos coloridos de flores silvestres.

HIERARQUIA DA PASTORÍCIA TRADUZIDA NA BARRÍSTICA
Uma análise pormenorizada da composição, revela o modo como a barrista sublinhou a existência duma hierarquia entre os dois pastores, a qual tem a ver com aquilo que eles trajam e que é revelador do melhor salário do maioral, quando comparado com o do ajuda.
Na verdade, o maioral está melhor protegido do frio que o ajuda, pois usa safões que lhe protegem as pernas e samarra que lhe protege o peito, as costas e o traseiro. Em contrapartida, o ajuda não usa safões que lhe protejam as pernas do frio e o pelico, protege-lhe apenas o peito e as costas, que não o traseiro.
Por outro lado, o maioral usa botas pretas atacoadas, supostamente melhores que as botas atacoadas do ajuda, confeccionadas na cor natural do cabedal.
O maioral, usa, de resto, um lenço às listas coloridas, qual estola de dignatário pastoril, o que o distingue sobremaneira do ajuda.

NOTA FINAL
Antigamente no Alentejo, a profissão de pastor era reservada a homens robustos que conseguissem resistir às noites de Inverno dormidas ao relento e ao terrível Sol alentejano que queima como fogo e que por vezes há que aguentar sem uma única sombra a servir de abrigo. Em geral, a profissão de pastor era como que hereditária, transitando de pais para filhos. Era profissão para toda a vida, como que uma sina que, por vezes, o amor de uma mulher conseguia interromper:

“Já não há quem queira dar
Uma filha a um pastor.
É que casar, hoje em dia,
É só bom p’ró lavrador.” [4]

“Toda a vida guardei gado,
Toda a vida fui pastor,
Deixei botins e cajado
Por via do meu amor.” [4]

Publicado inicialmente em 23 de Abril de 2011

BIBLIOGRAFIA
[1] – CAPELA E SILVA, J. A. A linguagem rústica no concelho de Elvas. Revista de Portugal. Lisboa, 1947.
[2] – CONDE DE FICALHO. O elemento árabe na linguagem dos pastores alentejanos. Revista “A Tradição”. Serpa. Série I - Ano I (1899) – nºs 6 (Junho), 7 (Julho), 8 (Agosto), 9 (Setembro ) e 10 (Outubro).
[3] – PICÃO, José da Silva. Através dos Campos (2ªed.). Neogravura, Limitada. Lisboa, 1941.
[4] - PIRES, A. Tomaz. Cantos Populares Portuguezes. Vol. IV. Typographia e Stereotipía Progresso. Elvas, 1912.
[5] – VIEIRA DE SÁ, Mário. O Alemtejo. J. Rodrigues e C.ª. Lisboa, 1911.

segunda-feira, 11 de abril de 2011

As mercearias antigas


Bilhete-postal ilustrado, não circulado, da Mercearia de José Tomé Natário Feteira, na Rua
5 de Outubro, nº 16, em Estremoz, na segunda década do séc. XX. Esta mercearia seria
trespassada pelo proprietário ao seu sobrinho Alfredo Carqueijeiro Tomé (pai do Major
Mário Tomé) que desde jovem trabalhava na loja do tio. No início dos anos 50 o novo
proprietário foi para a Guiné trabalhar com o irmão, Henrique Carqueijeiro
Tomé, no estabelecimento de que este era sócio, o "Salgado e Tomé". Nessa altura a loja
foi trespassada a Ester de Matos, irmã do Coronel Homero Matos que foi director da PIDE
e comandante da Escola Prática de Cavalaria. Mais tarde viria a ser ali a Mercearia de Luís
 Raimundo, mais conhecida por Loja do Boneco. Actualmente funciona ali a Livraria e
Papelaria Aníbal, fundada por Aníbal Falcato Alves. (Texto baseado em informação prestada
pelo Major Mário Tomé, em 2013).

AS MERCEARIAS DE ESTREMOZ
Nos anos cinquenta do século passado existiam inúmeras mercearias em Estremoz, que procuravam dar resposta às necessidades de consumo da população.
Havia mercearias em muitas das ruas da cidade, algumas das quais eu frequentava, para satisfazer os avios, maiores ou menores, que a minha mãe me encarregava de fazer. Recorrendo ao nome dos proprietários, cito algumas situadas na vizinhança imediata dos locais em que morei: Genaro Manteigas (Rua do Almeida, 3), Adriano Pimenta (Largo da Liberdade, 12), Luís Campos (Largo General Graça, 31), Luís Raimundo (Rua 5 de Outubro 16), Miguel Silveira (Rua Dom Vasco da Gama, 3), Mendes, Meira e Nisa (Praça Luís de Camões, 13-14), Luís Rosado (Largo da República, 8 e Rossio Marquês de Pombal, 107-108) e Figo (Rossio Marquês de Pombal, 73).
O ATENDIMENTO
Quando eu morava na Rua da Misericórdia, número sete, numa casa que foi abatida para dar lugar à ampliação do edifício dos Correios, ia-me aviar à do Senhor Adriano Pimenta, no Largo 28 de Maio, que após o 25 de Abril, conquistou o direito à sua primitiva designação de Largo da Liberdade.
Quando na minha condição de migrante, fui morar para a Rua 5 de Outubro, número quarenta e oito, passei a aviar-me à do Senhor Luís Campos.
A mercearia do Senhor Adriano Pimenta era uma pequena mercearia, onde ele era a única pessoa que assegurava os avios, ainda que tivesse um rapaz, o Anselmo, encarregado de fazer mandados no exterior. O Anselmo ia buscar as coisas ao armazém, que era ali bem perto, assim como levar as compras a casa dalgum freguês.
O Senhor Adriano Pimenta era um benfiquista ferrenho. Quando despia o guarda-pó da mercearia, era vê-lo, ufano, de emblema na lapela, a caminho de casa, com o orgulho próprio de ser benfiquista. O Senhor Adriano era um contador de histórias nato, uma pessoa sempre bem disposta, que não se ensaiava nada de pregar uma partida das valentes, a algum sportinguista menos avisado. E quando algum tinha o azar de lhe cair no laço, ele ria a bandeiras despregadas, com sonoras gargalhadas que contagiavam os presentes. Ir à mercearia do Senhor Adriano Pimenta era um tratamento eficaz contra a má disposição.
Na mercearia do Senhor Luís Campos, o proprietário geria a mercearia duma posição estratégica, ao fundo, onde normalmente estava sentado a uma escrivaninha, colocada perpendicularmente a um extenso balcão. Era aquilo a que se pode chamar um cavalheiro à antiga portuguesa, sempre atento e solícito para com os seus clientes, no sentido de bem os servir. Ao balcão trabalhavam vários caixeiros e alguns marçanos, à procura de tarimba e da inerente promoção a ser conferida pelo patrão, quando já tivessem traquejo. Ser caixeiro era uma profissão invejada na cidade. Diz o cancioneiro popular:

“Em Estremoz fui caixeiro,
Em S. Bento, lavrador,
No Canal, carpinteiro,
Em Évora Monte, cantador.”

Um dos caixeiros mais antigos era o Senhor Marcial Louro, que foi hoquista, sportinguista ferrenho, daqueles de comer caldo verde em dia de festa. Usava o cabelo, todo ondulado, penteado para trás com brilhantina e dizia-se que dormia com rede no cabelo, a fim de não desmanchar o penteado. Outro caixeiro era o Senhor Manuel Basílio, que era o contador de histórias da mercearia, já que uma mercearia à antiga tinha que ter de tudo. O Senhor Manuel Basílio estava sempre bem disposto e tinha uma língua afiada quando era preciso – coisas que o Senhor Luís Campos aprendeu a gerir, a bem da clientela. Outro Caixeiro era o Senhor Rúdio, careca, mas de bigode e pêra, para mostrar cabelo. O Senhor Rúdio tinha o vago ar, de inspector de qualquer coisa e, trabalhava normalmente à caixa registadora, já que tinha uma perna mais curta que a outra. Porém, como em tempo de guerra não se limpam armas, quando a clientela abundava, o que era frequente, lá tinha que dar à perna e desenrascava-se como os restantes.
O AVIO E AS EMBALAGENS
Na época, a maioria dos géneros que hoje são vendidos em embalagens individuais estanques, eram manipulados pelos merceeiros que os retiravam das tulhas, dos sacos, dos caixotes, das latas de grandes dimensões, donde eram retirados com corredoras de dimensão adequada, geralmente de alumínio, mas também as havia em latão, folha de flandres e zinco. Por vezes também eram utilizadas pinças metálicas.
No avio, comprava-se sempre açúcar louro, o qual era fornecido ao cliente dentro dum cartuxo de papel acinzentado. O caixeiro batia o cartuxo em cima da pedra mármore do balcão, a fim de o açúcar assentar e com recurso a uma corredora, deitava ou retirava mais uma pitada de açúcar ou duas, até o fiel da balança “António Pessoa”, indicar o peso pretendido. Depois era o ritual do fecho do cartucho, que ficava imponentemente vertical, com o vago ar de prisma paralelepipédico, com duas orelhas de papel. Cinquenta anos depois, continuo a gostar de ver um cartucho com as orelhas arrebitadas.
Assim se pesava também o sal, a farinha, o arroz, o grão, o feijão e o café. Só que neste último caso, o aroma começava logo ali a povoar-nos as narinas e a revelar ou não a sua qualidade.
Dada a variedade dos produtos encartuchados, as mercearias dispunham de uma gama diversificada de carimbos que eram apostos nos cartuchos, para cada um de nós saber o que se transportava lá dentro.
A manteiga e a banha de porco eram retiradas de latas grandes, com o auxílio das respectivas espátulas e eram pesadas em papel vegetal, com o qual se fazia o embrulho, o qual, por sua vez, era embrulhado em papel manteigueiro.
O azeite era aviado em garrafa levada de casa pelo cliente e medido e tirado de um bidão, situado por debaixo do balcão, com o recurso a uma bomba de dar à manivela. Este azeite, na altura da sua compra ao fornecedor, tinha a acidez testada pelo merceeiro, que para o efeito dispunha dum estojo de óleo-acidímetro. É que a vida comercial era respeitável e não se podia vender gato por lebre.
As especiarias (pimenta, cravinho, cominhos, noz moscada, colorau) eram pesadas em folhas de papel de chá, de dimensão adequada, com as quais se improvisava a embalagem. Esta, algumas vezes era cónica e obtida por enrolamento, fixado no fim, através de dobragem na ponta.
As bolachas, independentemente de serem Marias, torradas ou de água e sal, eram fornecidas às mercearias em caixa cúbica, com cerca de 25 centímetros de aresta, fabricadas em folha-de-flandres, forrada a papel vegetal. Dali eram retiradas com uma pinça metálica, na quantidade pretendida e enroladas em papel de chá ou acomodadas num cartucho, dependendo da quantidade. Em ocasiões especiais também se compravam biscoitos sortidos, que eram logo pesados em cartuxos. Chegavam à mercearia, embalados em caixas como as das bolachas, mas tinham para aí metade da altura daquelas.
Enlatados, levavam-se para casa: atum “Tenório”, sardinhas em azeite “Tricana” e salsichas “Frescata”. Embalados, levavam-se caixas grandes de fósforos “Clube”, a fim de serem usados na cozinha, assim como farinha “Amparo”, “Predilecta” ou “33”, para adicionar ao leite do pequeno-almoço.
Habitualmente levava-se bacalhau que a gente escolhia e que era cortado com a respectiva faca, mesmo ali à nossa frente, para depois ser embrulhado em papel de jornal. Era uma operação que, invariavelmente, eu acompanhava sempre atento. Quando uma vez no liceu, o meu professor de História, o saudoso Dr. Azevedo, a propósito da Revolução Francesa perguntou à turma:
- Sabem o que é uma guilhotina?
Eu respondi desembaraçadamente:
- É um género de faca de bacalhau para cortar a cabeça à Nobreza!
O vinagre e o vinho compravam-se avulsos na taberna, embora também pudessem ser comprados na mercearia. Ali, se compravam para as ocasiões especiais, garrafas de vinho maduro, verde, do Porto, moscatel, assim como licores, brandes e aguardentes.
As batatas, as cebolas, os alhos, os ovos, os queijos e os enchidos eram geralmente comprados no mercado municipal, mas também podiam ser comprados na mercearia.
Para a higiene pessoal compravam-se sabonetes de glicerina ou “Musgo Real”, assim como "Pasta Medicinal Couto”.
Para a lavagem da roupa e para fazer barrelas, levava-se sabão azul e branco ou sabão macaco, vendidos à barra. Se não queríamos uma barra inteira, o caixeiro cortava com mestria, o peso certo de sabão. E dizia ufano:
- Nunca falha!
É que ele sabia empiricamente que, sendo a barra de sabão homogénea, o peso de sabão era proporcional ao comprimento cortado na barra. Feito isto, o sabão era meticulosamente embrulhado em papel de jornal, que assim cumpria mais uma fase da sua reciclagem.
O ROL
Quando ia às compras levava sempre um rol, elaborado previamente pela minha mãe. Só se comprava o que fazia falta, já que o dinheiro não nasce do chão e acabávamos de sair da II Guerra Mundial e das cadernetas de racionamento.
O rol servia também para fazer as contas do avio, desde que não se quisesse factura, o que era o meu caso. No final do avio, o caixeiro conferia sempre as coisas connosco, não se desse o caso de ter havido algum engano.
O REGRESSO A CASA
Para os miúdos como eu, o melhor do avio era o fim, pois o Senhor Luís Campos era generoso e dava guloseimas à rapaziada: rebuçados de fruta, de coco, de seiva de pinheiro, de Santo Onofre ou do Dr. Bentes. De resto, tinha sempre uma palavra amável, bem como recomendações para os meus pais, assim como os caixeiros, os quais, cada um à sua maneira, procediam de modo análogo, seguindo as orientações do patrão.
O AVIO LEVADO A CASA
O Senhor Luís Campos tinha um empregado, o Mourinha, que num carro de mão, de razoáveis dimensões, ia entregar os grandes avios, às casas dos fregueses da “alta”, assim como transportar mercadoria da estação da CP para a mercearia. Só em condições excepcionais, o Senhor Luís Campos recorria aos serviços dum carreiro, que trabalhasse com um carro de carga (alentejano, é claro!), puxado por uma besta. Lembro-me de dois carreiros: o Fateixa e outro do qual não recordo o nome, mas que trabalhava para a avó do Serafim, meu amigo e companheiro de carteira na Escola Primária. Eram eles que faziam o grosso do transporte que abastecia as mercearias. O cancioneiro popular regista a sua presença:

“Ailé,
Lá em Estremoz,
Meu amor é carreiro,
Acarreta arroz.”

O LIVRO DOS FIADOS
O “Livro dos Fiados” era uma instituição que vigorava nas antigas mercearias, no tempo em que toda a gente tinha vergonha. Ou porque o chefe de família não tinha recebido ainda o magro salário ou por dificuldades económicas, eram registadas em livros estreitos e de capa negra, os avios que as carências da época não permitiam satisfazer imediatamente, mas que a honra de cada um avalizava que seriam pagas, o que infalivelmente era feito, no mais curto espaço de tempo possível.
OLHANDO PARA TRÁS
O capitalismo ou seja a ânsia de lucro fácil e o desrespeito pela condição humana, quer de consumidores, quer de funcionários, não tinha ainda inventado, nem os supermercados nem os hipermercados, os quais são templos de consumo aos incautos, que quando se aviam estão a trabalhar para o dono da grande superfície, que não lhes paga para isso. Muitos acabam por comprar o que não querem, já que não tiveram a disciplina de fazer um rol de compras, como a minha mãe, sensatamente fazia. E que dizer do desperdício que originam, com a parafernália de embalagens e sacos que lhes impingem, umas vezes dados, outras vezes comprados?
Nos anos cinquenta do século passado, as mercearias antigas eram os nossos templos do consumo possível e necessário. Então, a barriga dava horas, como, de resto, hoje dá, porque a barriga é um imparável relógio suíço. Contudo, nós éramos mais sensatos que muitos hoje são, pois as compras eram apenas para satisfação das necessidades inadiáveis e nunca para escape de frustrações acumuladas. Comprava-se com conta, peso e medida. E éramos felizes, muito mais que alguns são hoje, com todas as loucuras de consumo que cometem.
Oh que saudades que eu tenho das mercearias antigas!

Publicado anteriormente a 11 de Abril de 2011
Texto inserido no meu livro "Memórias do Tempo da Outra Senhora"

Bilhete-postal comercial da Mercearia de José Tomé Natário Feteira na Rua 5 de Outubro,
 nº 16, em Estremoz, na segunda década do séc. XX. Expedido de Estremoz, em 30 de Janeiro
de 1912, para o Porto. Impresso na Tipografia Minerva, de Adriano Motta, editora do  jornal
 “Eco de Estremoz”, onde iniciei a minha actividade jornalística, cerca de 1960.

Bilhete-postal comercial e ilustrado da “Loja Popular” de Joaquim Teodoro Duarte Campos,
no Largo General Graça, nº 31, em Estremoz, na segunda década do séc. XX. Expedido de
Estremoz, em 29 de Fevereiro de 1916 (em plena 1ª Guerra Mundial), para o Porto. A Joaquim Teodoro Duarte Campos sucedeu Luís Campos, cuja actividade comercial é referida no texto.

Bilhete-postal dos Correios com carimbo comercial da “Mercearia Central” de Luís Rosado,
no Largo da República, 8 e Rossio Marquês de Pombal, 107-108. Expedido de Estremoz, em
12 de Maio de 1918 (já no final da 1ª Guerra Mundial), para o Porto. Mais tarde foi ali a
Mercearia  de Rosado & Louro.     

terça-feira, 5 de abril de 2011

O cavalinho de pau




ESTREMOZ NOS ANOS CINQUENTA
Nasci em 1946, em Estremoz, no Largo do Espírito Santo, que é um largo que tem como referência a fonte do mesmo nome, a Torre das Couraças, o Convento dos Agostinhos que foi Fábrica de Cortiça dos Reynolds e dos Robinson, assim como o poeta Sebastião da Gama, que ali morou no segundo andar do número dois.
O alegrete, o espaço em torno da fonte e o adro, foram os terreiros primordiais da minha infância, os palcos primitivos onde desempenhei os primeiros papéis da minha vida, enquanto brincava, o que era, sem dúvida, a minha principal e mais importante tarefa de todos os dias.
Uma das minhas brincadeiras iniciais foi o cavalinho de pau, o que é natural, pois nos anos cinquenta do século passado, eram frequentes, em Estremoz, o carro de tracção animal, os trens e as caleches, bem como o próprio acto de montar a cavalo.
Os carros de tracção animal, puxados por uma ou duas bestas, eram o veículo usado diariamente no transporte de carga: azeitona para os lagares, trigo para a moagem, mercadorias da estação da CP ou da Camionagem para o comércio local, assim como pelos hortelões que das hortas e quintas dos arredores vinham vender vegetais e fruta ao mercado municipal.
Nos trens se faziam transportar por um cocheiro fardado, as famílias dos grandes proprietários rurais.
Pela cidade circulavam também cavalos, por vezes conduzidos a pé pelos seus tratadores, a fim de beberem água no chafariz do Lago do Gadanha. É que os grandes proprietários rurais tinham casa no campo, que acumulavam com casa na cidade. Esta, estava provida de cavalariça onde alojavam os animais, assim como os seus aprestos, a palha destinada à alimentação e para enxerga, assim como os trens e as caleches. Era também corrente na época, ver alguém dessas casas, passear a cavalo pelas ruas da cidade ou trotear e voltear no Rossio Marquês de Pombal, o qual funcionava assim como picadeiro público.

O REGIMENTO DE CAVALARIA 3
Desde 1875 que está instalado em Estremoz, o Regimento de Cavalaria 3. Do extenso e valioso historial do RC3, se destaca a heróica e brilhante vitória alcançada pelos seus cavaleiros, sobre o exército espanhol na Batalha de Fuente de Cantos, travada a 15 de Setembro de 1810, no decurso da Guerra Peninsular.
Os cavaleiros do RC3 quando regressavam ao Quartel após manobras realizadas no campo, iam com as suas montadas até ao Lago do Gadanha para se lavarem e refrescarem, descendo para lá por uma rampa que existiu do lado do Jardim, até cerca dos anos 50 do século passado, assim como outra, do lado oposto àquele. Mais tarde, essas rampas, que estavam vedadas com correntes, foram sacrificadas, porventura em nome do progresso. Nos anos sessenta e com o Lago já sem rampas, eram os pelotões regressados do treino de campo para a Guerra Colonial, que ali entravam cobertos de lama, para uma primeira lavagem de corpo, que não da alma. Nessa época era vulgar, ver oficiais a passear a cavalo pelas ruas da cidade. De resto, quando havia paradas militares no Rossio, a presença da Cavalaria era uma constante.

A GUARDA NACIONAL REPUBLICANA
Onde hoje é a Igreja dos Congregados, situava-se a incompleta Igreja do Convento da Congregação do Oratório de S. Filipe Nery, que como é sabido, ao contrário da Companhia de Jesus, era aberta “às luzes” trazidas pela revolução científica de Copérnico e Galileu. Esta, duma assentada, revogou o não só bíblico como aristotélico modelo geocêntrico do Universo, levando-nos a ver o Universo com outros olhos, que não os da divina revelação.
Ali estava instalado o Quartel da Guarda Nacional Republicana e nas coxias da hoje Igreja, estavam instaladas as cavalariças. Dali saiam os guardas, aos pares, para patrulhas a cavalo nas freguesias rurais.

AS TOURADAS
O meu avô Manuel Alturas, ferroviário aposentado, republicano e amante da Festa Brava, levava-me aos touros e comprava rebuçados que comíamos durante a corrida. Eu ficava encantado com o ritual das cortesias e o evoluir elegante do ginete de Mestre João Branco Núncio, a quem os mais velhos chamavam “O Califa de Alcácer”.
Quando ia às touradas usava calças de cós alto e jaqueta que o meu pai, alfaiate de lavradores e de toureiros, confeccionara para mim. Um pequeno chapéu à Mazantina completava os meus adereços. Desse tempo, guardo como relíquia, a minúscula jaqueta que levava às touradas.

O CIRCO
Em certas ocasiões, tais como a Feira de Maio ou a Feira de Santiago, vinham a Estremoz circos que montavam tendas no Rossio Marquês de Pombal. Os melhores circos traziam cavalos amestrados e, por vezes, equilibristas que em cima deles, desafiavam o impossível, fazendo coisas incríveis, para deleite de vista.

A VASSOURA
Do exposto se conclui que o cavalo era uma presença certa na minha vida diária. Natural era, pois, que eu, habilitado com as asas da minha imaginação, sonhasse em ser cavaleiro. E fazia-o, brincando com o meu cavalinho de pau, o qual durante muito tempo foi a vassoura de cabo alto, lá de casa.
Nas minhas cavalgadas, fazia como o “Califa de Alcácer”. Por vezes mudava de montada e passava a cavalgar a cana de caiar.
Certo dia, a minha mãe, farta das minhas traquinadas com os utensílios domésticos, acabou por me comprar um cavalinho de pau, mesmo a sério, com cabeça de cavalo, crinas, arreios e tudo. E logo que o estreei, como ele não dizia nada, com todo o meu contentamento fui eu próprio que relinchei por ele, o que emprestou mais realismo à minha representação. E sabem que mais? Quando montava o meu corcel, usava sempre um barrete feito de papel de jornal, que o meu avô me ensinara a fazer numa tourada, quando me esqueci de levar o meu chapéu à Mazantina.
O meu barrete de papel era um acessório importante. Quando fazia de militar a cavalo, usava o barrete posto de trás para diante e uma espada de madeira presa no cinto das calças. Já quando era cavaleiro tauromáquico, punha o barrete de papel atravessado na cabeça e usava um pau a fazer de farpa. Mas nada de usar jaqueta ou chapéu à Mazantina, porque isso era só nos dias de festa.
As minhas representações equestres eram diversificadas, iam do trote ao galope, passando pelo volteio. Nelas, na minha imaginação, eu era sempre um garboso cavaleiro montado num puro-sangue de Alter, que cavalgava horas a fio no Largo do Espírito Santo. Acontecia às vezes que uma tourada ficava a meio do seu curso ou, o que era bem pior, não conseguia concretizar uma carga de cavalaria. Sabem porquê? É que a minha mãe aparecia à janela a gritar:
- “Hernâni anda para a mesa, que são horas de comer!”
E eu não resistia à chamada, porque com tanta cavalgada, já tinha a barriga a dar horas.

Publicado inicialmente em 5 de Abril de 2011
Texto que integra o meu livro "Memórias do Tempo da Outra Senhora"

JUNHO – iluminura do “Breviário de Eleanor de Portugal” (segundo
o uso  de Roma), manuscrito e iluminado em Bruges, c. 1500, pelo
Mestre dos antigos Livros de Orações de Maximiliano I e de Jaime IV
 da Escócia, que alguns estudiosos identificam como sendo Gerard
Horenbout. MS M.52 fol. 4V, metade superior. Morgan Libray,
Nova Iorque.  Na faixa superior, várias figuras montam cavalinho
de pau e parecem travar uma batalha simulada.

JUNHO - Iluminura (9,8x13,3 cm) do “Livro de Horas de D. Fernando”
 [Século XVI (1530-1534)],  manuscrito com iluminuras da oficina
Simon Bening. Número de Inventário: 01163.10 TC. Número de
Inventário do Objecto: 13/6v. Ilum. Museu Nacional de Arte Antiga.
Em baixo, à direita, o cavalinho de pau.

JOGOS INFANTIS (1560) - Pieter Bruegel, o Velho (1526/1530–1569). Óleo sobre madeira
(161 x 118 cm). Museu de História de Arte, Viena.

CAVALINHO DE PAU - Pormenor do quadro JOGOS INFANTIS (1560) - Pieter
Bruegel,  o Velho (1526/1530–1569). Óleo sobre madeira (161x118 cm).
Museu  de  História de Arte, Viena.

CRIANÇAS A BRINCAR NUMA SALA - Ilustração do “Splendor Solis”
(1582),  códice alemão ilustrado, que é um tratado alquímico
atribuído ao  lendário  Salomon Trismosin, considerado o mestre
de Paracelso. Harley 3469,  f.31v, British Library, Londres.

BRINCADEIRAS INFANTIS (1774) - Gravura de Daniel Nikolaus Chodowiecki (1726–1801), extraída de
“J. B. Basedows Elementarwerk mit den Kupfertafeln Chodowieckis u.a. Kritische Bearbeitung in drei Bänden, herausgegeben von Theodor Fritzsch. Dritter Band. Ernst Wiegand, Verlagsbuchhandlung
 Leipzig 1909". Representado o cavalinho de pau, o cavalo de balanço, o carrinho de bébé e o baloiço.

RETRATO DE HENRIETTE VON HEINTZE COM OS SEUS FILHOS (1803) - Óleo
sobre tela de Friedrich Carl Gröger (1766-1838), Museum Behnhaus, Lübeck.

“RIDE A COCK HORSE” - Ilustração da escritora e ilustradora
infantil Kate Greenaway (1846-1901) publicada no livro
Mother Goose” (1881).

RIDE A COCK HORSE TO BANBURY CROSS (1902) - Ilustração de
William  Wallace Denslow (1856 - 1915), ilustrador e caricaturista,
do livro “Denslow's Mother Goose”.

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Cristina Malaquias: A Alquimia das Cores


O papel é um deserto com sulcos epidérmicos que revelam a sua própria História. Nele, Cristina Malaquias começa por lançar aguarela como quem repete o gesto augusto do semeador. De seguida, a Artista transfigurada em Éolo, deus dos ventos, sopra a aguarela que passa a povoar aquele deserto. De entremeio, as suas mãos sísmicas ondulam e determinam o curso da tinta que se transfigurará em animada ria com uma miríade de braços, como uma Veneza de cores. Ora arbustos entrelaçados como amantes, que se possuem languidamente na procura do infinito, ora raízes que estabelecem uma ligação forte à Terra-Mãe, porque é preciso resistir e gritar bem alto: - “Nós estamos aqui!”. Ora ainda pássaros que se libertam do peso terrestre e ascendem ao transcendente, porque é preciso cumprir o sonho de Ícaro.
Alquimista das cores, Cristina Malaquias, na procura incessante da Pedra Filosofal, lixivia as aguarelas, cujas cores se transmutam e adquirem textura, brilho e luminosidade. Visionária na concepção e perfeccionista no acto de criação, a Artista é uma permanente insatisfeita na procura de novos caminhos e na descoberta de técnicas que potenciem a sua visão mágica das coisas. O seu atelier transforma-se em laboratório alquímico onde para nosso gáudio, a magia acontece.
“Soprados” se chama a técnica e “Soprados” foi o título escolhido pela Artista para a Exposição de quarenta trabalhos, que de 2 de Abril a 4 de Junho, estará patente ao público na Sala de Exposições do Centro Cultural Dr. Marques Crespo, em Estremoz.
Cristina Malaquias que há cerca de 20 anos está radicada entre nós, tem um extenso currículo como ilustradora de livros escolares e infanto-juvenis. Tem igualmente exposto, um pouco por todo o país e também pelo estrangeiro.
Data de 2008, a sua última exposição individual de “Ilustração e Desenho” no Centro Cultural.
A Associação Filatélica Alentejana, vocacionada para uma vasta gama de actividades exposicionais, considera um privilégio ter acolhido no seu espaço, a exposição com que a Artista divulga esta técnica inédita, de sua criação. Obrigado Cristina por esta bela exposição, que nos enche e colore a alma, com toda a sua riqueza e com toda a sua beleza.
Bem haja!

Estremoz, 28 de Março de 2011
(In catálogo de “SOPRADOS”. Centro Cultural Dr. Marques Crespo. Estremoz, Abril/Maio de 2011)

















quarta-feira, 30 de março de 2011

Cristina Malaquias: A Visão Mágica das Coisas


Um olhar fotográfico que regista a imagem e dela a forma, a volumetria, a medida, a profundidade, a cor, a textura, o contraste, a luminosidade e o brilho.
Um olhar analítico que cruza o ar, no espaço e no tempo e que, no acto visual de dissecar as partes de cada todo, procura nelas os elos de ligação, bem como as harmonias e os ritmos que as hão de reagrupar e reunificar na reconstrução dialéctica do todo.
Um olhar privilegiado que através da miríade de redes neuronais, funciona como um pantógrafo que pictogroficamente transmite à mão dextra, o impulso nervoso que não é mais que o feedback visual do raio luminoso que impressiona a sua retina e a sua alma de Poeta.
Mão que empunha um lápis de cor com a mesma determinação olímpica do ganhão que lavra a Terra-Mãe para dela extrair o seu pão de cada dia.
Mãos solidárias e cúmplices com a folha de papel que tacteiam, exploram, afagam e fecundam, ora energicamente ora duma forma mais pausada, mas sempre com a doçura própria de quem ama.
Mãos que vibram como quem dedilha com mestria uma guitarra portuguesa e arranca dela o que de mais profundo tem o sentir da Alma do Povo.
Mãos que sofrem como o olhar ou o pensamento, pois doloroso é o Acto Criador.
Este é, em traços gerais, necessariamente simplificadores e redutores, o esboço tosco do perfil biográfico da ilustradora e desenhadora Cristina Malaquias.
A Artista desculpará a ousadia com que eu, recorrendo à alquimia das palavras, transmutei as emoções que o seu trabalho e Obra, em mim despertam. Mas doutra forma não poderia ter sido.
À Artista agradeço em nome do público, o ter partilhado connosco a beleza da sua visão mágica das coisas: o esvoaçar duma borboleta, o som do restolho pisado, a intensa claridade do sul que ora se acende, ora se apaga, que esse é o ciclo do Vida.
Obrigado, Cristina!



Estremoz, 6 de Julho de 2008
(In catálogo de “ILUSTRAÇÃO E DESENHO”. Centro Cultural Dr. Marques Crespo. Estremoz, Junho/Julho de 2008)