sábado, 23 de abril de 2011

Maioral e ajuda a comer

  Maioral e ajuda a comer, peça da barrística popular estremocense da autoria de Sabina Santos (frente).
 Maioral e ajuda a comer, peça da barrística popular estremocense da autoria de Sabina Santos (trás).

A HIERARQUIA NA PASTORÍCIA
No Alentejo de antanho, as relações de produção estavam fortemente hierarquizadas. De acordo com as suas funções, os pastores recebiam diferentes designações: “Rabadão” era o pastor chefe, a cargo de quem estavam a fiscalização e inspecção de todos os rebanhos de gado lanígero do mesmo proprietário. Um grande lavrador, podia possuir alguns milhares de cabeças, espalhadas por numerosos rebanhos, mas tinha ao seu serviço um único rabadão. “Maioral” era o primeiro pastor de cada rebanho. Havia tantos maiorais quantos os rebanhos. “Ajuda” era o segundo pastor do rebanho.
OS PASTORES NA BARRÍSTICA POPULAR ESTREMOCENSE
A pastorícia, actividade tradicional com peso na economia do Alentejo d’outrora, está bem gravada na nossa memória colectiva, pelo que faz parte do imaginário popular e está largamente representada na barrística popular estremocense. De facto, são conhecidas as seguintes figuras: pastor (simples), maioral e ajuda, pastor em pé com dois borregos em frente, pastor com o borrego às costas, pastor sentado a fazer as migas, pastor sentado a comer as migas, pastor deitado a fazer as migas, pastor de harmónio (em pé), pastor de harmónio (sentado), pastor ofertante em pé (com borrego), pastor ofertante em pé (com 1 pomba), pastor ofertante em pé (com 2 pombas), pastor ofertante em pé (com 3 pombas), pastor ofertante ajoelhado (com borrego à frente) e pastor ofertante ajoelhado (com chapéu à frente). Não são conhecidas representações de pastores, em peças do tipo “assobio” ou “gancho de meia”.
A composição aqui mostrada sob múltiplos ângulos, é uma representação de “Maioral e ajuda”, foi adquirida no Mercado das Velharias, em Estremoz, no passado sábado, dia 16 de Abril e é da autoria da celebrada barrista Sabina Santos (1921-2005).
UMA QUESTÃO DE TERMINOLOGIA
Sabina Santos trabalhava para a extinta Olaria Alfacinha, cuja Tabela de Preços dos Bonecos de Estremoz, datada de 1976, designa esta composição por “Pastores a merendar”. Trata-se a nosso ver de uma designação aceitável, pois são dois os pastores que estão a comer, seja ou não a merendar. Todavia, aquela designação não traduz a existência de uma hierarquia entre eles.
Posteriormente a Sabina Santos, outros barristas passaram a designar esta composição por “Pastor e ajuda a comer”, designação igualmente aceitável, uma vez que revela a presença de uma hierarquia entre eles. Contudo, a nosso ver, esta designação tem o inconveniente de chamar a um deles pastor, como se o outro não o fosse também.
A nosso ver, a designação mais adequada para esta composição é “Maioral e ajuda a comer”, uma vez que dela está ausente qualquer ambiguidade, por mostrar a existência de uma hierarquia entre os pastores.
MEMÓRIA DESCRITIVA
Passemos de imediato à descrição da peça em estudo. Trata-se de uma peça constituída por três figuras: dois pastores de ovelhas (o maioral e o ajuda) e o cão do rebanho, já que “Não há pastor sem rebanho” e “Perdido é o gado que não tem pastor nem cão”. Qualquer dos pastores usa na cabeça, o típico chapéu aguadeiro, típico do Alentejo e assenta o joelho direito na Terra-Mãe, como se estivessem a venerar um tarro destapado, repleto de olorosas migas, do qual o maioral se está a servir com uma avantajada colher que agarra com a mão direita, enquanto o ajuda empunha outra e se prepara para igual procedimento. Qualquer deles tem a mão esquerda apoiada no joelho homólogo. Para além disso, o ajuda segura um pão.
O facto de estarem a comer do tarro é revelador de que as migas não foram confeccionadas no local, mas no monte do lavrador, onde o ajuda as foi buscar, uma vez que “Abala pastor com as espaldas ao sol”.
No que respeita ao traje, o ajuda usa botas de cabedal atacoadas, calças de ganga azul e pelico de pele de borrego ou ovelha. Este é como que um colete fechado, abotoado à frente por três pares de botões pretos e que substitui o casaco. Por debaixo do pelico, uma camisa creme fechada em cima por um par de botões vermelhos e cujas mangas apresentam uma fileira lateral de dois botões da mesma cor. Quanto ao maioral traz botas de cabedal atacoadas e pintadas de preto. Por cima das calças usa safões. Estes são uma peça de vestuário confeccionada em pele de borrego ou ovelha, que se ata à cinta e se ajusta às pernas por intermédio de cinco atilhos com um botão amarelo na ponta, o qual entra no caseado dos safões. Estes têm a função de aquecer as pernas no Inverno, bem como proteger as calças. O maioral usa ainda uma samarra feita de pele de borrego ou ovelha. Esta é como que uma casaca fechada, abotoada à frente por três pares de botões amarelos e com um rabo que dá até à curvatura das pernas. Por debaixo da samarra, uma camisa cor de laranja, fechada em cima por um par de botões azuis e cujas mangas apresentam uma fileira lateral de dois botões da mesma cor. O maioral apresenta ainda sobre os ombros, um lenço às listas coloridas, como se fosse uma estola assente no pescoço e com as pontas pendentes para a frente.
Dos agasalhos de pele de borrego usados pelos pastores, existem algumas referências na literatura oral, a começar pelo adagiário que proclama que “0 agasalho e a balsa não pesam ao pastor”, enquanto que o cancioneiro popular refere que:

“Fui fazer uma viagem,
De Vendas Novas aos Pegões,
Para comprar umas peles,
Para fazer uns ceifões.” [4]

E ainda:

Tod’a vida gardê gado,
E sempre fui ganadêro,
Uso cêfoes e cajado,
E pelico e caldêra.” [4]

No chão, de um dos lados do tarro, uma cacheira que tal como o cajado e o gravato, é como que o bordão do peregrino, pois auxilia na marcha. A ela se arrimam os pastores quando estão parados, a ver se aliviam as pernas. Serve igualmente de arma de defesa contra ladrões e animais selvagens. É também uma terrível arma usada em casos de desavenças, como por vezes acontecia nas feiras de gado. Mas a cacheira é, sobretudo, a extensão do braço do pastor e serve para conduzir o gado, sendo por vezes lançada como arma de arremesso em direcção a ovelhas tresmalhadas. Nas cacheiras, cajados e gravatos, os pastores gravam a navalha, marcas indicativas do número de cabeças de gado que têm à sua guarda. Estas variam de pastor para pastor. Um tipo de marcação possível é a seguinte: redondela (100), triângulo (50), cruz (20), mossa (10), ponto (1).
Do outro lado do tarro, um corpulento, possante e ágil rafeiro alentejano, guarda, acompanhante, defensor e protector do rebanho, de orelhas arrebitadas, tem a língua de fora da boca, como quem saliva, impaciente pelo seu quinhão de migas.
O chão onde assentam todas as figuras é verde, pintalgado de branco, amarelo e cor de laranja, numa alegoria a um chão atapetado por erva e tufos coloridos de flores silvestres.
HIERARQUIA DA PASTORÍCIA TRADUZIDA NA BARRÍSTICA
Uma análise pormenorizada da composição, revela o modo como a barrista sublinhou a existência duma hierarquia entre os dois pastores, a qual tem a ver com aquilo que eles trajam e que é revelador do melhor salário do maioral, quando comparado com o do ajuda.
Na verdade, o maioral está melhor protegido do frio que o ajuda, pois usa safões que lhe protegem as pernas e samarra que lhe protege o peito, as costas e o traseiro. Em contrapartida, o ajuda não usa safões que lhe protejam as pernas do frio e o pelico, protege-lhe apenas o peito e as costas, que não o traseiro.
Por outro lado, o maioral usa botas pretas atacoadas, supostamente melhores que as botas atacoadas do ajuda, confeccionadas na cor natural do cabedal.
O maioral, usa, de resto, um lenço às listas coloridas, qual estola de dignatário pastoril, o que o distingue sobremaneira do ajuda.
NOTA FINAL
Antigamente no Alentejo, a profissão de pastor era reservada a homens robustos que conseguissem resistir às noites de Inverno dormidas ao relento e ao terrível Sol alentejano que queima como fogo e que por vezes há que aguentar sem uma única sombra a servir de abrigo. Em geral, a profissão de pastor era como que hereditária, transitando de pais para filhos. Era profissão para toda a vida, como que uma sina que, por vezes, o amor de uma mulher conseguia interromper:

“Já não há quem queira dar
Uma filha a um pastor.
É que casar, hoje em dia,
É só bom p’ró lavrador.” [4]

“Toda a vida guardei gado,
Toda a vida fui pastor,
Deixei botins e cajado
Por via do meu amor.” [4]


BIBLIOGRAFIA
[1] – CAPELA E SILVA, J. A. A linguagem rústica no concelho de Elvas. Revista de Portugal. Lisboa, 1947.
[2] – CONDE DE FICALHO. O elemento árabe na linguagem dos pastores alentejanos. Revista “A Tradição”. Serpa. Série I - Ano I (1899) – nºs 6 (Junho), 7 (Julho), 8 (Agosto), 9 (Setembro ) e 10 (Outubro).
[3] – PICÃO, José da Silva. Através dos Campos (2ªed.). Neogravura, Limitada. Lisboa, 1941.
[4] - PIRES, A. Tomaz. Cantos Populares Portuguezes. Vol. IV. Typographia e Stereotipía Progresso. Elvas, 1912.
[5] – VIEIRA DE SÁ, Mário. O Alemtejo. J. Rodrigues e C.ª. Lisboa, 1911.