sábado, 20 de março de 2010

Um mês de vida



Contrariamente ao que o seu nome possa levar a supor, DO TEMPO DA OUTRA SENHORA, não é um blog com barbas. Na verdade e pelo contrário, é um neófito entre os blogs, uma vez que completou agora um mês de vida, para gáudio de todos aqueles que nele se revêem.
Os dados relativos à edição e leitura de posts, estão sintetizados no quadro seguinte:


Os posts editados distribuem-se por cinco temas, pelo que tendo em conta que os posts podem abordar mais do que um tema, a distribuição dos posts por temas, está sistematizada no seguinte quadro:


Neste momento está a decorrer uma sondagem entre os leitores do blog, que visa saber quais os posts e os temas preferidos.
Como franco-atirador da escrita, o autor deste blog já deixou inúmeras marcas por aí, uma vez que já dispara na imprensa regionalista desde os anos 60 do século passado, na imprensa especializada desde os anos 80, na web desde Julho de 2002 e na blogosfera desde Junho de 2009.
Os temas abordados neste blog correspondem aos seus principais interesses, os quais são todavia mais vastos. São porém aqueles que, a seu ver, reúnem estrategicamente mais potencial para estabelecer pontes de união entre as pessoas, umas de esquerda, outras de direita, outras do centro, outras nem tanto. Umas republicanas, outras monárquicas, para não falar já dos republicanos com simpatias monárquicas e de monárquicos com simpatias republicanas. Uns mais altos e outros mais baixos. Uns mais gordos e outros mais magros. Porém, na sua esmagadora maioria, cidadãos de corpo inteiro, cuja Pátria é a Língua Portuguesa, os quais de uma forma ou de outra, se revêem na revisitação de memórias dos tempos idos, nos traços da identidade cultural alentejana e no espírito positivo com que se tem de enfrentar a adversidade e a crise, o que só pode ser feito com determinação e tenacidade, mas sobretudo com muito, mas muito humor, humor às carradas, com base em factos da vida real, que são “do tempo da outra Senhora”.
È para aqueles que se revêem na Alma Alentejana que o autor deste blog escreve com prazer e paixão, temperados pelo sentido da responsabilidade. Esta passa pela consciência de que a Alma Alentejana foi cromaticamente fixada na tela por um Silva Porto, um D. Carlos de Bragança ou um Dordio Gomes. Perpetuada na prosa por um Fialho de Almeida, um Manuel Ribeiro ou um Antunes da Silva, bem como registada poeticamente por um Conde de Monsaraz, uma Florbela Espanca ou um Manuel da Fonseca. São exemplos de alto gabarito, que nos obrigam a curvar e a tirar o chapéu, como sempre fez o camponês alentejano, em sinal de respeito. Daí que seja grande a responsabilidade do autor deste blog. Todavia ele espera não desiludir os seus leitores, pois decerto é isso que eles esperam de si. Para eles um abraço do tamanho da heróica planície alentejana.


sexta-feira, 19 de março de 2010

O Tempo da Outra Senhora - Significados

Foi com o santo nome de "O TEMPO DA OUTRA SENHORA", que no acto de baptismo, o padre de serviço abençoou o presente blog. Mas ao contrário de designações como João ou Maria que não são susceptíveis de várias interpretações, o nome deste blog é passível de interpretações diversas. Passemo-las em revista, para ser possível concluir qual é aquela que este blog assume.

A MORTE DA DONA DE CASA

Capa da revista "Ilustração Portuguesa" - II Série - Nº 581,
de 10 de Junho de 1922.

Há um ditado que remonta a tempos imemoriais e que proclama que “Lá em casa manda ela e nela mando eu.” Pese embora o conteúdo, hoje considerado machista, deste provérbio, dele é possível concluir que quem mandava em casa era a dona de casa ou seja a Senhora. Era ela que punha e dispunha. Era ela que era responsável pela gestão de toda a economia doméstica, desde as arrumações e limpezas, até à determinação das ementas e à própria confecção das refeições.
A Senhora tinha muito poder e era ela quem dizia como se havia de cortar. Esse poder, condicionado naturalmente ao poder patriarcal do Senhor, só terminava quando à Senhora lhe dava o badagaio e esta esticava o pernil, antes do Senhor seu esposo.
Durante o período de nojo que se seguia à morte da Senhora, havia um curtíssimo interregno de poder, findo o qual se tinha de cumprir a tradição. A gestão da economia doméstica passava a ser efectuada por outra Senhora: filha ou nora do viúvo ou até nova esposa, se este entretanto tivesse casado. Era então natural que a nova Senhora quisesse proceder a alterações, que podiam começar por mudanças na arrumação e decoração da casa, passando pela modificação das atribuições dos serviçais, acabando nos mais infímos pormenores a ter em conta na gestão da economia doméstica. Sim, ”Porque eu é que sei”, tem sido sempre o lema e o estandarte sob o qual se têm abrigado todas as donas de casa. As alterações ocorridas eram então sempre referenciadas relativamente às “do tempo da outra Senhora.” Esta a origem da frase “do tempo da outra Senhora", consignada há muito no vocabulário popular. Todavia, a frase pode ter outro significado muito diferente do anterior. Vejamos qual.

O ESTADO NOVO

António de Oliveira Salazar (1889-1970),
representado num cromo duma caderneta de cromos,
 do período do Estado Novo.

Muitas vezes quando dizermos “do tempo da outra senhora” queremos significar o lapso de tempo que mediou entre 1926 e 1974 ou seja no chamado período do Estado Novo. E que foi isso do Estado Novo? É importante explicar isso aos mais novos. E com rigor histórico, naturalmente. Aqui o humor é dispensável.
Devido a instabilidade política e a problemas económicos que a I República não conseguiu resolver, a 9 de Julho de 1926 deu-se em Portugal, um golpe de estado militar, encabeçado pelo general Sinel de Cordes e que levaria Salazar ao poder, dando origem a uma das mais duradouras e odiadas ditaduras do século XX.
Em 1929, dirigindo-se ao País, Salazar proclama: “Tudo pela Nação, nada contra a Nação”, um dos slogans que acabou por se converter na imagem de marca de Salazar, por resumir emblematicamente a política do Estado Novo. Adaptando o slogan de Mussolini [1], Salazar utiliza o “Tudo pela Nação, nada contra a Nação”, como máxima oficial do Estado Novo, com que terminavam os próprios ofícios da burocracia do regime.
“Tudo pela Nação, nada contra a Nação” sintetiza a decisão de Salazar em estruturar um estado forte, que garantisse a ordem, por oposição à desordem que considerava (1910-1926). O Estado forte assentava no reforço do poder executivo, de que Salazar seria chefe, na substituição do pluralismo partidário por um partido único (União Nacional) e na supressão dos sindicatos.
Salazar defendia também a preservação dos valores tradicionais - Deus, Pátria, Família - de modo a formar uma sociedade doutrinada de acordo com a moral cristã (Deus), nacionalista (Pátria) e corporativa (Família). O Estado forte caracterizava-se, ainda, pelo imperialismo colonial e pelo nacionalismo económico.
A consolidação da ideia de nação em Portugal ficaria a cargo de uma organismo governamental, o Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), criado em 1933 e dirigido pelo jornalista António Ferro, a quem cabia a espinhosa missão de, nas palavras de Salazar [2], “Elevar o espírito da gente portuguesa no conhecimento do que é e realmente vale, como grupo étnico, como meio cultural, como força de produção, como capacidade civilizadora, como unidade independente no concerto das nações”.
Como coadjuvantes da política do “Tudo pela Nação, nada contra a Nação”, existiam:
- Um partido único oficial – a União Nacional.
- Uma censura férrea aos meios de comunicação social.
- Uma polícia política que perseguia os opositores a regime.
- Prisões políticas.
- Uma política colonialista, que proclamava Portugal como "Estado pluricontinental e multirracial”.
- Uma milícia – a Legião Portuguesa - para defesa do regime e combate ao comunismo.
- Uma milícia juvenil – a Mocidade Portuguesa - destinada a inculcar nos jovens os valores do regime.
- Uma vida económica e social do país organizadas em corporações.
- Sindicatos corporativos e inexistiam os sindicatos livres.
Eram estas as características mais marcantes do auto-denominado “Estado Novo”, que para gáudio da maioria, morreu de velho em 25 de Abril de 1974.

ANTIGAMENTE

Locomotiva a vapor número 1, Dom Luiz, de duas rodas motoras e de sete pés de diâmetro. Fotografia sem data. Produzida durante a actividade do Estúdio Mário Novais: 1933-1983. [CFT003 075602.ic] - Galeria de Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian.

As mulheres usavam combinação, saiote e soutien, mesmo que pouco tivessem para meter lá dentro. Iam à missa de véu e bem cobertas de roupa.
Os homens usavam ceroulas, botas de elástico e polainitos, bem como alfinete na gravata e relógio de bolso.
Antigamente, os tempos eram outros e é precisamente nessa acepção que a frase popular “do tempo da outra Senhora” é usada neste blog.
Tempos em que se ia a Lisboa de comboio a vapor, se passeava de churrião e as pessoas civilizadas defecavam no penico.
São tempos que despertam memórias nas quais nem todos se revêem da mesma maneira.
São tempos "do tempo da outra Senhora"…

[1] - “Nada fora do Estado, acima do Estado, contra o Estado. Tudo no Estado, dentro do Estado”. – Mussolini (1883-1945).
[2] - SALAZAR, António de Oliveira. Discursos. Coimbra Editora Limitada, Coimbra, 5ª edição, 1961, vol. 1.

Hernâni Matos

quarta-feira, 17 de março de 2010

Quem não tem que fazer, faz colheres




Se é certo que é isso que diz o rifão, o que não é menos certo é que quem o fazia, não o fazia de qualquer maneira. Começava logo na escolha da madeira, sendo sabido que no Alentejo, as madeiras que o pastor tinha à sua disposição, eram as fornecidas pelas árvores ou arbustos existentes na região: azinheira, buxo, carvalho, castanho, cerejeira, cipreste, esteva, figueira, laranjeira, nespereira, nogueira, oliveira, piorno, sabugo, sobro, vimeiro.
O pastor escolhia um pau de qualidade, sem nós nem veios que viessem a fender depois da obra acabada. Naturalmente que o tamanho e o calibre do pau tinham a ver com aquilo que se ia fazer.
Um pastor adestrado a fazer colheres, começava por escolher um pau que evidenciasse o característico perfil em S, o que tinha a ver com as características ergonómicas que a colher devia reunir. Estas, podem-se resumir no seguinte: necessidade e conveniência de a concha fazer um ângulo com o cabo da colher, que na outra extremidade deve fazer um ângulo em sentido inverso. O cabo deve, de resto, ser facilmente adaptável à mão do utilizador.
É sabido que “A necessidade é mestra de engenho.” Daí que o pastor tenha empiricamente adquirido competências que se traduziram na capacidade de conceber colheres (e outros objectos) que fossem ergonómicos, isto é com qualidade de adaptação ao seu utilizador e à tarefa que ele tinha de realizar. Daí que a colher tivesse de ser usável com eficácia, eficiência e satisfação. Com eficácia, porque distintos utilizadores eram capazes de se servir delas com bons resultados. Com eficiência, já que a sua utilização exigia pouco tempo e esforço físico. Com satisfação, tendo em conta a facilidade de utilização com parcos recursos de tempo e de esforço físico.
Os utensílios usados na manufactura da colher eram a navalha ou a faca, o compasso, o ponteiro e a legra.
Com o ponteiro ou o lápis era esboçada a geometria geral da colher, sendo o corte da madeira efectuado com a navalha, ao passo que o côvado da colher era escavado com a legra, utensílio constituído por uma navalha de barba, dobrada em gancho numa das extremidades.
As colheres que eram para ser transportadas pelo utilizador tinham o cabo mais curto, ao passo que aquelas que eram para ser usadas em casa, podiam ter um cabo maior.
Da máxima relevância era a concha que tinha de ter uma capacidade adequada à sua função. E não podemos esquecer que nas herdades, muitas vezes se comia dum recipiente comum – o barranhão. Isto implicava que a colher usada tivesse a maior concha possível, tendo como única limitação, o caber na boca de quem a usava. Assim se conseguia numa única colherada, levar a maior quantidade possível de comida à boca. O que era importante em tempos de miséria e de fome.
Depois de por corte do pau ter sido conseguida a forma geral da colher, esta estava apta a ser decorada. Para tal e também com o auxílio do ponteiro ou do lápis, esboçava-se o desenho a executar, gravado ou escavado. Os motivos eram os mais diversos: ramagens, folhas, flores, animais, estrelas, cruzes, motivos geométricos como o círculo, o triângulo ou o quadrado, assim como rosetas, arabescos, cordas, zig zags, signo saimão, imagens religiosas, etc. O traçado perfeito, rigoroso e absolutamente simétrico de rosetas, de estrelas e do signo saimão não dispensava o uso do compasso.
Os motivos usados na decoração tinham não só a ver com o imaginário do criador, bem como com as simbologias que lhe estavam subjacentes, na perspectiva também do utilizador da colher ou atendendo a quem ela podia ser oferecida: à conversada, à esposa ou o que não era raro, ao patrão.
Em geral, apenas era decorado o cabo da colher, o qual além de poder ser gravado ou escavado, podia ser recortado nos bordos e/ou no interior. O cabo da colher podia mesmo apresentar uma ou mais partes móveis, tais como pequenos anéis móveis ao longo duma haste longitudinal fazendo parte integrante do cabo ou esferas móveis encerradas no próprio cabo. Naturalmente que esta requintada e engenhosa decoração com recurso a partes móveis era exclusiva de colheres que se ofereciam como presente a alguém pelo qual se nutria estima ou amor ou, perante o qual se estava numa posição subalterna. Por vezes, nas costas do cabo da colher, eram gravadas as iniciais de quem a tinha feito ou a data em que tinha sido acabada. 
Há colheres que pela complexidade da sua concepção e pelo minucioso rendilhado da sua decoração, são não só jóias de beleza ímpar dentro da arte pastoril, como também autênticos monumentos erigidos em memória dos seus criadores.
A diversidade de solicitações de utilização da colher está na génese de diversas tipologias, que sistematizámos assim:
- Colher de uso corrente
- Colher de porqueiro
- Colher para prova de comida
- Colher para prova de vinhos
À excepção da colher de porqueiro, todas as colheres eram feitas de um único pau, não havendo nunca colagem de componentes.
Vejamos alguns exemplares dos diferentes tipos de colheres:

COLHER DE USO CORRENTE

4,5 x 2,5 x 24,5 cm. Em madeira, com forma antropomórfica, que é uma figura feminina. A postura hierática faz lembrar uma divindade egípcia. A argola superior destinada a prender num gancho ou num prego, faz lembrar o resplendor dum santo e confere imediatamente um espírito de santidade ou de pureza à imagem da mulher.
Curiosa a representação arbustiva que vai dos genitais aos seios. O ventre da mulher é como se fosse um vaso com ranhura, a partir do qual desabrocham ramos que florescem nos seios. Parece que a escultura quer dizer que o ventre da mulher é o vaso de onde nasce a vida e que os seios são as flores da mulher.
Madeira transformada em poesia pelas mãos hábeis dum bordador de solidões que doem. Daí o rifão: "Quem não tem que fazer, faz colheres."

COLHER DE PORQUEIRO 

[5 x 3 x 13,5 cm (fechada) e 5 x 3 x 19,5 m aberta)]. Em madeira, constituída por duas metades articuladas em torno de um eixo que é um simples prego, aparado. Numa das metades, a que incorpora a concha da colher, a mesma está ligada a uma haste que encaixa nas duas hastes da outra metade, que compreende a tampa da colher. Quando esta se encontra aberta, a tampa funciona como cabo. Porém, quando se fecha, passa a exercer a sua função.
A metade da concha está decorada no bordo superior da haste com um duplo zig zag. Quanto à metade da tampa está decorada com motivos florais nas duas faces e com zig zag simples, quer na parte superior, quer na parte inferior das duas hastes que a suportam.
Fechada, a colher era transportada no chapéu do utilizador, com a tampa encaixada entre a fita e o chapéu.
Prática, funcional e ergonómica.

COLHER PARA PROVA DE COMIDA

19,5 x 1 x 8,5 cm. Em madeira. Constituída por duas conchas ligadas através duma haste com um rego longitudinal e com um cabo perpendicular à haste, por onde era pegada por quem a utilizava.
A concepção e utilização de uma colher com esta tipologia, remonta à época em que havia o receio de contágio por tuberculose. Deste modo, quem cozinhava a comida dos ganhões, recolhia a comida a provar com uma das conchas e inclinando a colher, fazia-a escorrer através do rego para a outra concha, donde era levada à boca para provar.
A concha que era levada à boca nunca entrava em contacto com a comida no recipiente onde esta estava a ser confeccionada. Assim se procurava evitar o contágio e com ele mortes subsequentes.
Modernamente, a colher para prova de comida foi tomada como insígnia das confrarias gastronómicas, nomeadamente da do Alentejo.
O cabo do exemplar da imagem tem a forma de um coração que encerra no seu interior, uma ave indeterminada, mas que é um ser que voa, que é capaz de se libertar da Terra e subir ao Céu. O coração é encimado por um malmequer. Também a haste que liga as duas conchas está decorada de cada lado do rego, com um malmequer, com uma folha de cada lado. Simbolicamente, através da colher são formulados ao seu utilizador, os votos de liberdade (ave), amor (coração) e dinheiro (malmequer).

COLHER PARA PROVA DE VINHOS

Em madeira, finamente bordada na zona em que pode ser segura, opondo o polegar ao indicador e ao médio. Perfeita forma de coração. Pelas suas dimensões (5 x 0,9 x 6,8 cm) podia ser transportada sem incómodo algum, no bolso do relógio, quer do colete, quer das calças.
De salientar que a prova organoléptica dum vinho é feita através da visão, olfacto e paladar, recorrendo ao aspecto, nariz e boca.
Pelo aspecto conseguimos apreciar o brilho, a tonalidade e intensidade da cor e a limpidez.
Pelo olfacto e recorrendo á nossa memória olfactiva poderemos identificar aromas (frutado, floral, tostado, etc.).
No exame através do paladar, ingere-se uma pequena porção de vinho, fazendo-o percorrer todo o interior da boca antes de o cuspir ou engolir.
Tiram-se então conclusões acerca do corpo do vinho, da acidez, da doçura ou secura, do amargor e da adstringência. Quanto mais tempo o sabor permanecer na boca, maior será a qualidade do vinho.

Publicado inicialmente em 17 de Março de 2010

segunda-feira, 15 de março de 2010

Duro que nem um corno


Fig. 1 – Lavrando à charrua, no início do século XX, na região de Évora.
Postal de editor não identificado.

"Duro que nem corno” é uma frase que integra o vocabulário popular alentejano. O corno é aí utilizado como termo de comparação de dureza. Estamos a referir-nos ao corno de boi. Na primeira metade do séc. XX era vulgar no Alentejo, a utilização de bois na lavra (Fig.1), como regista o cancioneiro popular alentejano:

“Eu sou um ganhão da ribêra,
Da ribêra sou ganhão.
Lavro com dois bois vermelhos
Que fazem tremer o chão.” [1]

E ainda:

“É bonito vêr no prado
Pachorrentos bois lavrando,
Mais atraz o lavrador
Alegremente cantando.” [2]

Na faina agrícola, os bois eram ainda utilizados no transporte de cargas (Fig. 2): “Dias depois de começarem as ceifas, dá-se princípio aos acarretos – à remoção da seara para a eira, a fim de se debulhar e recolher.
Os acarretos fazem-se por meio de carros puxados a bois ou a muares, senão por uns e por outros, simultaneamente e em separado. Ou se acarreta a pouco e pouco, para o despacho da debulha diária, aproveitando-se de preferência as madrugadas e manhãs, ou vai de fio a pavio, durante semanas, até finalizar de vez.” [3]

Fig. 2 – Carros de bois, transportando trigo para a eira, no início do século XX.
Postal edição de Faustino António Martins (Lisboa).

Além dos bois de trabalho utilizados na lavra e no acarreto, havia ainda os bois bravos, criados para abate e para toureio.
Os bois são amplamente referidos no nosso rifonário popular. Citamos alguns desses rifões, a título meramente exemplificativo:
- “Ao boi pequeno os cornos lhe crescem.”
- “Boi mau, no corno cresce.”
- “O boi protestou tirar a camisa a quem lhe tirasse os cornos.”
- “O boi disse que tanto chovera que até os cornos lhe amolecera.”
- “O ruim boi, folgado se descorna.”
- “Ao boi pelo corno, ao homem pela palavra.”
Os cornos (chifres, chavelhos ou hastes) foram utilizados pelos pastores no fabrico de múltiplos utensílos, como é o caso das cornas. Estas são recipientes que foram fabricados a partir dos chifres dos bois abatidos para consumo nas herdades ou que haviam sido conduzidos para abate aos matadouros das localidades. Para o efeito o chifre era mergulhado em água a ferver, a fim de que se pudesse separar do cone ósseo interior, o que acontecia depois de ter amolecido.
Para ser trabalhado, o chifre tinha que ser mergulhado novamente em água a ferver, a fim der ser mais fácil de trabalhar com a navalha. Depois de cortado ao tamanho pretendido e de esboçado no chifre o desenho a executar com o auxílio dum lápis ou dum ponteiro de ferro, o chifre era escavado ou gravado com a navalha, mas sempre em quente.
Depois de arrefecer naturalmente, o chifre recuperava a dureza primitiva.
Depois de escavado e/ou gravado, o chifre era coberto exteriormente com terra, limpando-se depois as partes não escavadas e/ou gravadas com um pano e polindo-o. A decoração sobressai assim por contraste entre a superfície e o escavado/gravado.
As cornas podiam ter as mais diversas funções:
A corna azeitoneira (Fig. 3) destinada a transportar azeitonas ou outro conduto, era manufacturada a partir da parte central do chifre, por ser a mais larga. O fundo era de cortiça aplicada sob pressão ou de madeira fixada por preguetas de latão. A tampa também podia ser de cortiça ou de madeira, por vezes decorada.

Fig. 3 - Corna azeitoneira primorosamente lavrada com uma cena de
caça, tema  da máxima universalidade e abrangência. Fundo de cortiça.
Abertura vedada por uma tampa, igualmente de cortiça, tendo gravada
uma bela rosácea hexalobada. Trabalho difícil, que leva muito tempo, 
pelo que actualmente os artesãos que procuram, continuar a arte pastoril,
têm que pedir preços, algo elevados, que as pessoas injustamente acham
caro. E muitos fogem a isso. Procuram safar-se, confeccionando artefactos
que sejam mais baratos e que possam ter mais saída.
 
A corna azeiteira (Fig. 4) destinava-se ao transporte do azeite ou do vinagre que fazia parte dos avios (Fig. 5) dos pastores (Fig. 6) e dos ganhões e era confeccionada a partir dos chifres dos bois de trabalho, que apresentavam hastes de maiores dimensões.
“A corna das azeitonas também era coberta de lavores, e uma das chaves do azeite, a maior, tapada com uma rolha de cortiça, era um chavelho tão lindo, com baixos relevos tão bem executados, que ficaria bem um par assim na cabeça d’um príncipe.” [4]

Fig. 4 – Cornas azeiteiras ricamente lavradas. A da esquerda, com motivos de caça
e motivos geométricos, tem a abertura vedada por uma tampa de chifre e madeira. 
Visando facilitar o transporte, uma correia liga as duas extremidades da corna. A da
direita, com motivos florais e campestres, tem a abertura vedada por uma tampa,
integralmente de chifre. Com vista ao transporte, tem uma correia presa a uma
argola de chifre, a qual está presa a outra argola também de chifre, ligada á tampa. 
Nesta última argola se prende uma correia que sustenta a extremidade da tampa. 

Fig. 5 – Mantieiro transportando as comedorias. À frente, suspensas das cangalhas,
duas cornas azeiteiras.

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Fig. 6 – Porqueiro alentejano com uma corna azeiteira suspensa do braço
direito. Aguarela de Emílio Freixo.

A corna da pedra de afiar, era usada presa à cintura, como uma espécie de coldre, onde os gadanheiros transportavam a pedra de afiar usada para dar fio à gadanha.
A corna do sebo era usada no transporte de sebo com que se ensebavam os eixos dos carros de tracção animal, afim de evitar a infernal chiadeira que atazanava os ouvidos. As carroças carregavam normalmente esta corna na parte traseira, pendurada para o lado de fora dos varais ou então por debaixo do estrado. Lá diz o rifonário:
- “Pelo andar dos bois se conhece o peso da carroça.”
- “Carro apertado é que canta.”
- “O boi é que sofre, o carro é que geme.”
- “Carro que chia quer untura.”
- “Quem seu carro unta, seus bois ajuda.”
- “Carro que canta, a seu dono avança.”
- “Carro que não canta, não avisa chegada.”
- “Carro parado não guincha.”.

BIBLIOGRAFIA
[1] - Olivença - Recolha de VASCONCELLOS, J. Leite de. Cancioneiro Popular Português. Acta Universitatis Conimbrigensis. Coimbra,1975.
[2] - Milfontes e Odemira - Recolha de SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano Português. Grémio Alentejano. Lisboa, 1938.
[3] – PICÃO, José da Silva. Através dos Campos (2ªed.). Neogravura, Limitada. Lisboa, 1941.
[4] - CAMACHO, Manuel de Brito. Gente Rústica. Guimarães & Cª. Lisboa, 1921.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Os bailes das Sociedades



Em Estremoz, nos anos 60 do século passado, uma forma de encostar a calça à saia, era meter pé de dança nos bailes das Sociedades.
Os ricos iam aos bailes do Círculo. A classe média ia aos Artistas. E todos iam às Sociedades mais populares como a Lusitana, a União, a Porta Nova, os Bombeiros e o Orfeão. Havia bailes no aniversário de cada Sociedade, pelo Carnaval, pela Pinhata, pelo Natal, pela Passagem do Ano e pelo Ano Novo. Os salões eram os de cada colectividade e ainda o chamado Jardim de Inverno, no Teatro Bernardim Ribeiro, onde o Orfeão organizava os seus bailes.
Os homens iam aos bailes de fato e gravata ou de papilon e as senhoras com o seu melhor vestido. O mesmo se passava com os respectivos rebentos, fossem rapazes ou raparigas.
Para se entrar nos bailes tinha que se ser sócio e ter as quotas em dia. Podia-se também ser apresentado por um sócio, desde que não se fosse natural da cidade.
Os ritmos eram outros. Dançava-se: bolero, tango, passodoble, valsa, mambo, cha-cha-cha, merengue e uns cheirinhos de bossa nova, de samba e de rock and roll.
Os bailes decorriam com o máximo respeito e quem se portasse mal era chamado ao Gabinete da Direcção. Após uma primeira advertência, era posto no olho da rua, sem apelo nem agravo.
Nos salões de baile, havia quase sempre duas filas. Na da frente ficavam as meninas casadoiras, com idade de dançar, com namorado ou com ganas de o ter. Na da retaguarda ficavam as matronas, senhoras suas mães, guardiãs da virgindade das filhas.
Para dançar era preciso agradar à filha e à mãe, pois as mães, é que sabiam. Os pais não eram para aqui chamados. Ficavam no bufete, a relembrar uns com os outros, glórias de tempos idos, enquanto emborcavam copos e mastigavam moelas. A honra deles era entrar na função e meter um pé de dança com a respectiva matrona, já depois do intervalo, depois de estarem bem tratados, a fim de demonstrarem que ainda estavam como devia ser. Porém, nem sempre a defesa da honra corria bem, pois alguns devido ao avançado estado de alcoolemia, apanhavam uma “tampa” da respectiva matrona, ao passo que outros se estatelavam no soalho, quando porventura executavam alguma reviravolta menos comedida. Era a altura em que os mirones cantavam o “Já estás com os copos! Já estás com os copos!”.
Os bailes eram abrilhantados por conjuntos como o afamado MARILYNG, fundado a 21 de Janeiro de 1955 e que com composição variável perdurou até 1975-76. Do grupo fundador, faziam parte, da esquerda para a direita da fotografia: ANTÓNIO CONDINHO (saxofone alto), FRANCISCO XARCAS (saxofone alto e clarinete), GENARO MANTEIGAS (rabecão), MÁRIO RATO (bateria e vocalista), JOÃO MANAÇAS (piano e acordeão) e ADELINO CANHOTO (trompete). Do grupo fundador falta na fotografia, JOAQUIM CARMO PEQUITO (vocalista), antigo barítono do Teatro de Ópera de S. Carlos e proprietário da Agência de Publicidade APAL, “A Palavra Mágica da Propaganda”, conforme slogan da sua própria autoria. Apesar de pertencer ao grupo fundador, o Pequito não esteve muito tempo no Marilyng e a ele pertencia a aparelhagem sonora utilizada pelo conjunto.
O Marilyng era um conjunto integrado por músicos da Real Sociedade Filarmónica Luzitana e da Sociedade Filarmónica Artística Estremocense, todos eles com histórias de vida para além da Música. Esta não lhes dava para sustento, pelo que tinham que fazer pela vida, fora da Música. O Condinho, o Charcas e o Canhoto eram canteiros. O Genaro era merceeeiro, o Rato era alfaiate e o Manaças era empregado de escritório do prestigiado advogado oposicionista Rodrigues Pereira.
De todos, aquele que conheci melhor, era o do rabecão, o Genaro Manteigas, que tinha uma mercearia, onde ainda recentemente era o PÉ DE LÃ, mesmo ao lado da TIPOGRAFIA BRADOS DO ALENTEJO, quando se vai às burras assadas e ao briol, à taberna que antes de ser do falecido Isaías, era do seu pai Zé da Glória, onde eu ia buscar aguardente para as filhoses da minha tia e ia provando pelo caminho. Se os grandes gostavam daquilo, onde é que está o mal? Pois o Genaro tinha uma mercearia à maneira, que rivalizava com a mercearia do Adriano Pimenta, depois LOJA DO POVO e mesmo em frente dos Brados do Parelho, que antes de pregar um tiro no toutiço, escreveu a sua auto-biografia para publicar no jornal. Eu era cliente habitual do Genaro onde ia comprar rebuçados com cromos da bola. Nasci nas bordas daquela zona em 1946 e por ali morei numa casa que foi derrubada para se travestir doutra coisa. De futebol não gosto desde que o meu pai me pregou com um guarda-chuva na cornamenta por causa do malfadado pseudo-desporto em que andam 22 tarados a perseguir um coiro. Dos rebuçados é que já não gosto muito, prefiro pasteizinhos de bacalhau, mesmo que não sejam VQPRD. Agora o que continuo a gostar é de colecções e comecei a ser coleccionador a ir e vir à loja do Genaro, assim como a encher o meu talêgo no jogo do botão, já que além de razoável pontaria fui dotado pela natureza de um bom palmo, os quais consegui transmitir à minha filha que chegava a casa todos os dias com uma saquilada de berlindes ganhos aos outros na escola do ciclo da Maria Gonçalves. Talvez o ditado adequado seja: “Filha de botaneiro, sabe belindrar!”.
As histórias do Marilyng passam quase todas pelo Genaro. Vou contar algumas.
O Genaro tinha o hábito de, por vezes, talvez para se concentrar na música, tocar rabecão com os olhos fechados, dando a impressão de estar a dormir, se é que não dormia mesmo. Quem não lhe perdoava era o Mário Rato, que lhe dava cada safanão que era um consolo.
Pelo Carnaval, o Marilyng actuava durante cinco dias seguidos em bailes que acabavam já de manhã. Começavam no sábado e acabavam na quarta-feira. A rapaziada chegava ao fim, já rebentada pelas noitadas. Certa vez, deu-lhes para ir a uma farmácia comprar algodão iodado por causa das dores do peito. O pior foi que já no baile e com o calor que tinham, após uma paragem tiveram que se ver livre das pastas de algodão iodado que debaixo da roupa, lhes protegiam a tampa do peito. Onde é que hão de pôr o algodão, onde é que não hão de, o melhor sítio que arranjaram e alguém alvitrou, foi o rabecão do Genaro. Este, ao retomar a actuação, constatou que o rabecão não tinha ressonância e teve esta saída: “ - Não sei o que é que tem o rabecão, que parece que está surdo.”. Foi uma risada geral, descobriu-se a marosca e tudo acabou em bem.
Certa vez, durante umas Festas de Setembro realizadas no Rossio, no dancing dos pobres actuou o conjunto Bass do Alandroal, ao passo que no dancig dos ricos, actuou um conjunto espanhol, que tinha um vocalista alto e corpulento como o Carmo Pequito com quase 2 metros de altura e muito mais que 100 quilos de peso. Este vocalista tinha a particularidade de procurar comunicar bastante com o público, para o que se agachava, mesmo à boca do palco, ao mesmo tempo que, empunhando o microfone, se aproximava dos pares dançantes. Esta actuação teve muito êxito e foi muito bem recebida pelo público. Passado algum tempo, houve um baile na Porta Nova e o Carmo Pequito que integrava ainda o Marilyng, proclamou aos seus companheiros: “ - Hoje vou cantar como o espanhol das Festas de Setembro!” O que ele se esqueceu foi que o palco da Porta Nova não tinha a profundidade do palco do dancing dos ricos nas Festas de Setembro. Tudo correu bem até ao momento em que com ele agachado, num gesto mais arrebatado, o Genaro lhe enfia com as varas do trombone ao fundo das costas. O colossal Pequito desequilibra-se e lá vai palco abaixo, caindo em cima dumas velhas que nessa noite tiveram o azar de sair de casa. Só não foi chamado o INEM, porque nessa altura ainda não existia.
O Genaro e o Pequito eram impagáveis e viam-se envolvidos em situações que eles próprios não tinham criado. Certa vez, num baile da Lusitana, aconteceu uma que é famosa. O João Manaças, o pianista, namorava aquela que viria a ser a sua mulher. Esta, por uma questão de afecto tinha-se sentado junto ao palco mesmo à frente dele. A certa altura, talvez devido a excesso de carga, apaga-se a luz e o João Manaças, farto de estar sentado, levanta-se. O Pequito, farto de estar de pé, senta-se. A namorada do Manaças, aproveita a escuridão e resolve fazer umas festas nas canelas do Manaças. Porém, de repente acende-se a luz e o que vêem os bailarinos? A namorada do Manaças a fazer festas numa canela do Pequito. Foi uma risada geral.

Eram outros os tempos…

(Publicado inicialmente em 12 de Março de 2010)
Texto inserido no meu livro "Memórias do Tempo da Outra Senhora".

quinta-feira, 11 de março de 2010

Forca de fazer cordão




5,2 x 0,5 x 15,8 cm. Em madeira. Fina e profusamente decorada com motivos florais em ambas as faces. Bordado simétrico em relação ao eixo vertical da forca.
Numa das faces, de cada um dos lados do eixo vertical, imediatamente acima do orifício central, são visíveis dois trevos de 4 folhas.
De acordo com lendas celtas, os druidas praticavam rituais de colheita de plantas e animais que traziam boa ou má sorte. Acreditavam assim, por exemplo, que quem possuísse um trevo de quatro folhas poderia incorporar os poderes da floresta e a sorte dos deuses, adquirindo então o dom da prosperidade. Daí que tradicionalmente o trevo de quatro folhas seja considerado como um poderoso amuleto e usado em iconografia diversa.
Oferecer a alguém um objecto (como esta forca de fazer cordão), a qual incorpora na sua decoração um trevo de quatro folhas, é formular-lhe votos de prosperidade, saúde e fortuna. Há quem considere ainda que cada folha do trevo tem um significado próprio: Esperança, Fé, Amor, Sorte, bem como o número de folhas (4) - representa um ciclo completo, como as 4 Estações, as 4 fases da Lua ou os 4 elementos da Natureza: Ar, Fogo, Terra e Água, conforme a “Teoria dos 4 Elementos” de Aristóteles (384-322 a.C.).
Para além do que já foi dito, a abundante decoração floral desta forca de fazer cordão, merece uma reflexão mais pormenorizada acerca do simbolismo das flores.
No século XVIII, um viajante inglês de visita á Turquia teve conhecimento do “código” ali utilizado para exprimir sentimentos através das flores. O original costume teria logo chegado à França, onde se inventou uma linguagem composta integralmente por símbolos florais. Os primeiros livros sobre linguagem das flores foram, assim, publicados em França:
- Abcedaire Flore ou Langage de Fleurs - B. Delachenaye (1810) .
- Le Langage de Fleurs - Charlotte de Latour (1819).
Por influência francesa apareceram depois livros ingleses e americanos, entre os quais:
- Floral Emblems - Henry Phillips (1820) .
- The Language of Flowers; With Illustrative Poetry - Frederic Shoberl (1834) .
- The Language of Flowers - Kate Greenaway (1884) .
A existência de múltiplos livros sobre o assunto em Inglaterra na época victoriana, originava, por vezes, a atribuição de diferentes significados simbólicos à mesma flor, por parte dos diferentes livros, levando a confusão na mensagem a ser transmitida. A comunicação através das flores exigia assim que os amantes da época victoriana utilizassem o mesmo dicionário floral. Na era vitoriana, a linguagem das flores foi algo de complexo, pois diferentes flores traduziam diferentes sentimentos, assim como a maneira como eram oferecidas e aceites tinha determinado significado
Estamos em crer que as flores bordadas na presente forca de fazer cordão, encerram um significado simbólico que esteve na mente do “bordador”, o qual eventualmente seria conhecido da mulher a quem este artefacto foi oferecido. Por outras palavras: mais que mera e ocasional decoração, a forca transmitiria uma mensagem simbólica conhecida por quem ofertou e por quem recebeu. Apesar duma forte convicção nesse sentido, mas dada a estilização dos elementos florais empregues, não nos atrevemos a procurar decifrar qualquer mensagem simbólica que a forca encerre.

Publicado inicialmente em 11 de Março de 2010

quarta-feira, 10 de março de 2010

A ronca



A ronca é um instrumento musical tradicional do Alentejo, bastante rudimentar, pertencente à classe dos membranofones de fricção. É composto essencialmente por um reservatório, geralmente um cântaro de barro [1], que serve de caixa de ressonância e cuja boca é cerrada com uma pele esticada, a qual vibra quando se fricciona uma pequena e fina cana presa por uma das extremidades no seu centro. O som resultante, grave e fundo, é transformado pela caixa de ressonância no ronco característico do instrumento.
A espessura e a qualidade da pele, é importante por causa do som. Por isso, usa-se pele de ovelha, borrego, carneiro, cabra, cabrito ou chibo, bem como bexiga de porco ou de carneiro.
É um instrumento usado no acompanhamento de canções de Natal ou das Janeiras, podendo ainda pode ser encontrado na zona raiana (região de Portalegre, Elvas, Terrugem e Campo Maior), onde grupos de homens agasalhados nos seus capotes para arrostar o frio, percorrem as ruas em compasso lento e solene, entoando cantares, parando aqui e ali, para dedicar os seus cantos aos moradores de determinadas casas.
Durante a sua utilização, a ronca é levada debaixo de um dos braços, enquanto o outro fricciona a cana longitudinalmente, com força. A eficácia do funcionamento da ronca exige que, de vez em quando, os tocadores cuspam para a mão que empunha a cana, a fim de lubrificar a pele da ronca. Os cânticos entoados podem ser dos mais diversos. Por exemplo:

“Qualquer filho de homem pobre
Nasce num céu de cortinas.
Só tu, Menino Jesus,
Nasceste numas palhinhas.” [2]

“Ó mê Menino Jasus
Da Lapa do coração,
Dai-me da vossa merenda,
Que a minha mãe não tem pão.” [3]

Sobre a ronca, diz-nos António Thomaz Pires [4] "Das nove horas até à meia-noite de Natal percorrem as ruas da cidade diferentes grupos de homens do povo, cantando em altas vozes, em coro, e núm rhytmo e entoação especial, trovas ao Menino Jesus, acompanhadas pelo som àspero da ronca: alcatruz de nora, ou panella de barro, a cujo bocal se adapta uma membrana, ou pelle de bexiga, atravessada por um pau encerado, pelo qual se corre a mão com força para produzir um som rouco. Somente pelo Natal é este instrumento ouvido."

[1] - Mas pode ser também uma panela de barro ou um cântaro de lata ou outro recipiente qualquer.
[2] – Recolhida em Elvas: PESTANA, M. Inácio. Etnologia do Natal Alentejano, Edição da Assembleia Distrital, Portalegre, 1978.
[3] – Recolhida no Alandroal: VASCONCELLOS, J. Leite de. Cancioneiro Popular Português, vol. III, Acta Universitatis Conimbrigensis, Coimbra, 1983.
[4] - PIRES, António Thomaz . "A noite de Natal, o Ano Bom e os Santos Reis” in Estudos e notas elvenses. António Torres de Carvalho. Elvas, 1923 ( 2ª ed.).

Publicado inicialmente a 10 de Março de 2010