segunda-feira, 15 de março de 2010

Duro que nem um corno

Fig. 1 – Lavrando à charrua, no início do século XX, na região de Évora. Postal de editor não identificado.
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"Duro que nem corno” é uma frase que integra o vocabulário popular alentejano. O corno é aí utilizado como termo de comparação de dureza. Estamos a referir-nos ao corno de boi. Na primeira metade do séc. XX era vulgar no Alentejo, a utilização de bois na lavra (Fig.1), como regista o cancioneiro popular alentejano:

“Eu sou um ganhão da ribêra,
Da ribêra sou ganhão.
Lavro com dois bois vermelhos
Que fazem tremer o chão.” [1]

E ainda:

“É bonito vêr no prado
Pachorrentos bois lavrando,
Mais atraz o lavrador
Alegremente cantando.” [2]

Na faina agrícola, os bois eram ainda utilizados no transporte de cargas (Fig. 2): “Dias depois de começarem as ceifas, dá-se princípio aos acarretos – à remoção da seara para a eira, a fim de se debulhar e recolher.
Os acarretos fazem-se por meio de carros puxados a bois ou a muares, senão por uns e por outros, simultaneamente e em separado. Ou se acarreta a pouco e pouco, para o despacho da debulha diária, aproveitando-se de preferência as madrugadas e manhãs, ou vai de fio a pavio, durante semanas, até finalizar de vez.” [3]

Fig. 2 – Carros de bois, transportando trigo para a eira, no início do século XX. Postal edição de Faustino António Martins (Lisboa).

Além dos bois de trabalho utilizados na lavra e no acarreto, havia ainda os bois bravos, criados para abate e para toureio.
Os bois são amplamente referidos no nosso rifonário popular. Citamos alguns desses rifões, a título meramente exemplificativo:
- “Ao boi pequeno os cornos lhe crescem.”
- “Boi mau, no corno cresce.”
- “O boi protestou tirar a camisa a quem lhe tirasse os cornos.”
- “O boi disse que tanto chovera que até os cornos lhe amolecera.”
- “O ruim boi, folgado se descorna.”
- “Ao boi pelo corno, ao homem pela palavra.”
Os cornos (chifres, chavelhos ou hastes) foram utilizados pelos pastores no fabrico de múltiplos utensílos, como é o caso das cornas. Estas são recipientes que foram fabricados a partir dos chifres dos bois abatidos para consumo nas herdades ou que haviam sido conduzidos para abate aos matadouros das localidades. Para o efeito o chifre era mergulhado em água a ferver, a fim de que se pudesse separar do cone ósseo interior, o que acontecia depois de ter amolecido.
Para ser trabalhado, o chifre tinha que ser mergulhado novamente em água a ferver, a fim der ser mais fácil de trabalhar com a navalha. Depois de cortado ao tamanho pretendido e de esboçado no chifre o desenho a executar com o auxílio dum lápis ou dum ponteiro de ferro, o chifre era escavado ou gravado com a navalha, mas sempre em quente.
Depois de arrefecer naturalmente, o chifre recuperava a dureza primitiva.
Depois de escavado e/ou gravado, o chifre era coberto exteriormente com terra, limpando-se depois as partes não escavadas e/ou gravadas com um pano e polindo-o. A decoração sobressai assim por contraste entre a superfície e o escavado/gravado.
As cornas podiam ter as mais diversas funções:
A corna azeitoneira (Fig. 3) destinada a transportar azeitonas ou outro conduto, era manufacturada a partir da parte central do chifre, por ser a mais larga. O fundo era de cortiça aplicada sob pressão ou de madeira fixada por preguetas de latão. A tampa também podia ser de cortiça ou de madeira, por vezes decorada.

Fig. 3 - Corna azeitoneira primorosamente lavrada com uma cena de caça, tema da máxima universalidade e abrangência. Fundo de cortiça. Abertura vedada por uma tampa, igualmente de cortiça, tendo gravada uma bela rosácea hexalobada. Trabalho difícil, que leva muito tempo, pelo que actualmente os artesãos que procuram, continuar a arte pastoril, têm que pedir preços, algo elevados, que as pessoas injustamente acham caro. E muitos fogem a isso. Procuram safar-se, confeccionando artefactos que sejam mais baratos e que possam ter mais saída.
 
A corna azeiteira (Fig. 4) destinava-se ao transporte do azeite ou do vinagre que fazia parte dos avios (Fig. 5) dos pastores (Fig. 6) e dos ganhões e era confeccionada a partir dos chifres dos bois de trabalho, que apresentavam hastes de maiores dimensões.
“A corna das azeitonas também era coberta de lavores, e uma das chaves do azeite, a maior, tapada com uma rolha de cortiça, era um chavelho tão lindo, com baixos relevos tão bem executados, que ficaria bem um par assim na cabeça d’um príncipe.” [4]
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Fig. 4 – Cornas azeiteiras ricamente lavradas. A da esquerda, com motivos de caça e motivos geométricos, tem a abertura vedada por uma tampa de chifre e madeira. Visando facilitar o transporte, uma correia liga as duas extremidades da corna. A da direita, com motivos florais e campestres, tem a abertura vedada por uma tampa, integralmente de chifre. Com vista ao transporte, tem uma correia presa a uma argola de chifre, a qual está presa a outra argola também de chifre, ligada á tampa. Nesta última argola se prende uma correia que sustenta a extremidade da tampa.
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Fig. 5 – Mantieiro transportando as comedorias. À frente, suspensas das cangalhas, duas cornas azeiteiras.
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Fig. 6 – Porqueiro alentejano com uma corna azeiteira suspensa do braço direito. Aguarela de Emílio Freixo.

A corna da pedra de afiar, era usada presa à cintura, como uma espécie de coldre, onde os gadanheiros transportavam a pedra de afiar usada para dar fio à gadanha.
A corna do sebo era usada no transporte de sebo com que se ensebavam os eixos dos carros de tracção animal, afim de evitar a infernal chiadeira que atazanava os ouvidos. As carroças carregavam normalmente esta corna na parte traseira, pendurada para o lado de fora dos varais ou então por debaixo do estrado. Lá diz o rifonário:
- “Pelo andar dos bois se conhece o peso da carroça”
- “Carro apertado é que canta”
- “O boi é que sofre, o carro é que geme”
- “Carro que chia quer untura”
- “Quem seu carro unta, seus bois ajuda”
- “Carro que canta, a seu dono avança”
- “Carro que não canta, não avisa chegada”
- “Carro parado não guincha”0
 [1] - Olivença - Recolha de VASCONCELLOS, J. Leite de. Cancioneiro Popular Português. Acta Universitatis Conimbrigensis. Coimbra,1975.
[2] - Milfontes e Odemira - Recolha de SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano Português. Grémio Alentejano. Lisboa, 1938.
[3] – PICÃO, José da Silva. Através dos Campos (2ªed.). Neogravura, Limitada. Lisboa, 1941.
[4] - CAMACHO, Manuel de Brito. Gente Rústica. Guimarães & Cª. Lisboa, 1921.