quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

Bonecos de Estremoz: Sabina da Conceição Santos


Sabina da Conceição Santos (1921-2005) nos anos 70 do séc. XX, tendo à sua
direita as discípulas Maria Inácia Fonseca (1957- ) e Perpétua Sousa (1958- ).
Fotografia de Xenia V. Bahder. Arquivo fotográfico do autor.

Sabina Augusta da Conceição nasceu às 22 horas de 1 de Julho de 1921 num prédio da calçada da Frandina, em Estremoz. Filha legítima de Narciso Augusto da Conceição, oleiro, de 50 anos de idade, natural da freguesia de Santo Antão, Évora e de Leonor das Neves, doméstica, de 45 anos, exposta, natural da freguesia de Santo André, Estremoz. Neta paterna de Caetano Augusto da Conceição, oleiro e de Sabina Augusta, doméstica. Neta materna de avós incógnitos (8). Com 12 anos de idade e com o pai já falecido (suicídio por enforcamento a 10 de Junho de 1933, com a idade de 61 anos), candidata-se em 23 de Agosto de 1933 ao exame de admissão à Escola Industrial António Augusto Gonçalves e, tendo sido aprovada, matricula-se no Curso de Tapeceira (3 anos), após o Dr. Lourenço Marques Crespo ter atestado que Sabina tem robustez física, não sofre de doença suspeita ou contagiosa e foi vacinada há menos de 5 anos (7).
Em 5 de Julho de 1942, com 21 anos de idade, casa-se na Igreja de Santa Maria em Estremoz, com Joaquim Luiz de Matos Santos, empregado de escritório, de 24 anos de idade. Adopta então o apelido Santos do marido (5). Em 1960, depois da morte do seu irmão Mariano da Conceição, dá continuidade à manufactura dos Bonecos de Estremoz na Olaria Alfacinha, conjuntamente com as suas cunhadas, Maria José Cartaxo da Conceição (1923-2013) e Teresa Cabaço Cid da Conceição (1922-1962)[1]. A oficina era então na Rua da Campainha, nº 18. Depois do falecimento de Teresa Cid em 1962 (9), Sabina continua a trabalhar com Maria José, até que motivos de natureza pessoal a levam a romper a sociedade e a trabalhar sozinha. Passa a fazê-lo no armazém da Olaria Alfacinha, situado na Rua Pedro Afonso, nº 1, donde transitou posteriormente na segunda metade dos anos 60 para a oficina da Rua Brito Capelo, nº 35. Esta era propriedade dum tio de Octávio Palmela, marido de Maria Luísa da Conceição e foi usado inicialmente como armazém da Sapataria Palmela, que ficava situada ao fundo da Rua Brito Capelo. Desactivado o armazém, o espaço foi arrendado a Sabina Santos. Ali trabalhou até se aposentar, em 1988, fixando-se então em Ribamar, Lourinhã.
A importância de Sabina na barrística popular estremocense é incomensurável. Por um lado, tomou a atitude corajosa de prosseguir com estilo muito próprio, a manufactura dos Bonecos de Estremoz, depois da morte de Mariano, fazendo assim com que a arte não se perdesse. Sabina nunca tinha confeccionado Bonecos, apenas vira o irmão fazê-los. Formou-se a ela própria, usando como modelos os Bonecos do seu irmão. Porém, os Bonecos de Sabina não se confundem com os de Mariano. As figuras não são tão corpulentas como as de Mariano, são mais magras e a representação dos olhos é completamente diferente. Em substituição duma pestana tangente à menina do olho, encimada por uma sobrancelha, Sabina, na representação do olhar, afasta da menina do olho, não só a sobrancelha como a pestana. Por outro lado, Sabina foi a barrista que mais discípulas formou: Isabel Carona, Fátima Estróia, Maria Inácia Fonseca e Perpétua Fonseca (Estas últimas com ela na fotografia). Algumas aparecem com ela no filme “Bonecos de Estremoz” (1), (2) que Lauro António realizou em 1976 e que se encontra disponível no YouTube.
Os Bonecos de Sabina eram comercializados, entre outros lugares, na Loja de Artigos Regionais da Olaria Alfacinha (Largo da República, 30) e no Stand da Olaria Alfacinha no Rossio Marquês de Pombal, em Estremoz.
A 13 de Setembro de 2004, morre o marido de Sabina Santos. Sabina vem a morrer a 19 de Abril de 2005, com a idade de 83 anos, tendo sido sepultada no cemitério de Ribamar (6),(3).
Sabina Santos está fortemente representada no acervo do Museu Municipal de Estremoz Professor Joaquim Vermelho, uma vez que o Município de Estremoz adquiriu à filha de Sabina, Professora Maria Leonor da Conceição Santos (1943-2014), uma colecção de mais de uma centena de figuras que a barrista executara ao longo da sua extensa carreira. Era a chamada colecção da mãe. Todavia, a Maria Leonor, que foi minha colega de Liceu, tinha outra colecção, que era a sua. Propôs-me a sua aquisição em 2012 e, embora não tenha adquirido tudo, adquiri um número bastante significativo de figuras, facto que me encheu e enche de orgulho, pois além, de gostar do trabalho de Sabina, conhecia-a pessoalmente, desde os meus tempos de juventude.

BIBLIOGRAFIA
1 - ANTÓNIO, Lauro. Entrevista a Sabina Santos. Estremoz, 1976. Arquivo de Lauro António.
2 - ANTÓNIO, Lauro. Filme Bonecos de Estremoz. Estremoz, 1976.
3 - GUERREIRO, Hugo. Morreu Sabina Santos in Brados do Alentejo nº 616, 29/04/2005. Estremoz, 2005 (pág. 16).
4 - MATOS, Hernâni. Entrevista a Maria Luísa da Conceição. Estremoz, 7 de Fevereiro de 2013. Arquivo de Hernâni Matos.
5 - Sabina Augusta da Conceição - Assento de Casamento nº 81 de 1942, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
6 - Sabina Augusta da Conceição - Assento de Óbito nº 51 de 2005, da Conservatória do Registo Civil da Lourinhã.
7 - Sabina Augusta da Conceição - Processo Individual de aluna nº 174.
8 - Sabina Augusta da Conceição - Registo de Nascimento nº 351 de 1921, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.
9 - Teresa Cabaço Cid – Assento de Óbito nº 73 de 1962, da Conservatória do Registo Civil de Estremoz.




[1] Amélia, mulher de Jerónimo da Conceição e cunhada de Sabina, já havia falecido. Liberdade da Conceição também foi convidada para integrar a sociedade, mas não aceitou porque era uma pessoa muito doente. Esteve 6 anos internada no Sanatório do Outão, devido a uma tuberculose óssea na espinha dorsal e que a deixou paralítica. No fim do tratamento teve que aprender a andar (4).
Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 24 de Julho de 2019

Berço do menino Jesus (dos putto). Sabina Santos.


Nossa Senhora da Conceição. Sabina Santos.


Nossa Senhora ajoelhada. Sabina Santos.


Pastor de tarro e manta. Sabina Santos.


Pastor das migas. Sabina Santos.


Pastor a comer. Sabina Santos.


Maioral e ajuda a comer. Sabina Santos.


Ceifeira. Sabina Santos.

Mulher da azeitona. Sabina Santos.

Mulher dos carneiros. Sabina Santos.


Mulher dos perus. Sabina Santos.


Mulher das galinhas. Sabina Santos.


Aguadeiro. Sabina Santos.


Leiteiro. Sabina Santos.


Mulher das castanhas. Sabina Santos.

Mulher a vender chouriços. Sabina Santos.


Homem do harmónio. Sabina Santos.


Lanceiro. Sabina Santos.


Lanceiro com bandeira. Sabina Santos.


Mulher a lavar a roupa. Sabina Santos.


Bailadeira pequena. Sabina Santos.


Amazona (assobio). Sabina Santos.


Peralta a cavalo (assobio). Sabina Santos.


Ceifeira. Sabina Santos.


Semeador. Sabina Santos.


Polícia do Exército. Sabina Santos.

terça-feira, 13 de janeiro de 2026

O tarro



Pastor alentejano – aguarela de Alberto de Souza
 (1880-1961), pintada em 1935.

A MANUFACTURA DO TARRO PELO PASTOR

Na procura incessante de pasto para o gado que pastoreava e lhe assegurava o ganha-pão, o pastor alentejano tinha que deambular por aqui e por ali, como cão pisteiro à procura de caça. A vida de nómada não era uma vida fácil e exigia que quem a praticasse se fizesse acompanhar de utensílios de uso diário. No caso do pastor alentejano, um desses utensílios era o tarro de cortiça que ele próprio manufacturava, visando guardar e transportar alimentos que se conservavam a uma temperatura próxima da atingida na sua confecção, decorridas algumas horas sobre terem saído do lume.Para esse efeito arranjava uma prancha de cortiça de dimensões adequadas e com a superfície o mais regular possível. Esta prancha, de espessura adequada, era cortada com o auxílio da faca ou da navalha, em formato rectangular e depois limpa de ambos os lados. A altura do rectângulo seria a altura do tarro e a base do rectângulo estava em relação directa com o diâmetro pretendido para a vasilha. A prancha de cortiça, era de seguida dobrada e fechada em arco, de modo a ficar com forma cilíndrica.
Para facilitar o fecho, as extremidades da prancha correspondentes à altura do rectângulo eram previamente desbastadas, de modo a ficarem mais estreitas e ao sobreporem-se, o cilindro ficar perfeito.
Na zona de junção das extremidades da prancha, estas eram ligadas por pregos de madeira, confeccionados pelo próprio pastor. Seguidamente, doutra prancha com espessura adequada, talhava um disco cilíndrico que ia servir de fundo ao tarro. Depois de limpar o disco em ambas as faces, encaixava-o sob pressão na extremidade do cilindro correspondente ao fundo. Este encaixe tinha de ser perfeito, não só para o tarro não vazar o conteúdo, como para serem absolutamente complanares na zona do fundo, a tampa e o cilindro que ela encerrava. O fundo, era seguidamente fixo ao cilindro com pregos, também de madeira.
Posteriormente, doutra prancha também com espessura adequada, talhava um disco ligeiramente tronco-cónico, que era limpo em ambas as faces e que ia servir de tampa móvel ao tarro. Este último disco, agora não era cilíndrico mas tronco-cónico, a fim de tornar mais fácil a compressão no acto de fecho do tarro, bem como facilitar a sua retirada no acto de abertura.
Quase a finalizar, o tarro levava uma asa constituída por uma verga de carvalho ou de castanho, de dimensões adequadas. Esta verga, dobrada em arco, era fixada nas extremidades em pontos opostos, situados junto ao topo da superfície lateral do tarro. A fixação era feita por meio de pregos de madeira de larga cabeça tronco-esférica, a fim de a asa não se soltar do tarro.
Muitas vezes o tarro era também decorado, sobretudo na tampa e na parte exterior da asa. Para isso e tal como fazia com as colheres, com o auxílio do ponteiro ou do lápis, esboçava o desenho a executar, gravado ou escavado. E mais uma vez os motivos decorativos tinham a ver com realidade que o cercavam e o imaginário e as superstições que lhe povoavam a mente. Aí estavam as ramagens, folhas, flores, animais, estrelas, cruzes, motivos geométricos, rosetas, arabescos, cordas, zig zags, signo saimão, etc.
O tarro era manufacturado com recursos fornecidos pelo meio ambiente que circundava o pastor. E à semelhança do talêgo era a vasilha reciclável inventada pelo sábio povo alentejano que sempre soube encontrar formas criativas de tirar o máximo proveito do meio. Durava uma vida inteira e quando por algum motivo já não pudesse ter préstimo e se deitasse fora, era degradado pela terra-mãe, a fim de renascer sob outra forma.
A escolha da cortiça para manufactura duma vasilha com a funcionalidade do tarro, tinha de resto a ver com o conhecimento empírico das invulgares propriedades da cortiça enquanto material: muito leve, elástico, compressível, impermeável a líquidos e a gases, com elevada resistência térmica, bom isolamento térmico, quimicamente inerte, resistente ao uso e com elevada longevidade.
O tarro manufacturado pelo pastor nada tem ver com o tarro industrial fabricado pela indústria corticeira. Sobre este assunto, advertiu Hipólito Raposo:
(…) No Chiado vendem-se tarros que jamais conheceram navalha de pastor de gado em herdade alentejana, porque saíram das fábricas de cortiça, polidos e reluzentes como as lâminas das máquinas com que os cortaram. Perde-se a arte do povo, vai a morrer tristemente com a industrialização mecânica.(…) [ 1]

APONTAMENTOS ETNOGRÁFICOS

Gil Vicente (1465?-1536?) no “Auto de Mofina Mendes” (1534) representado pela primeira vez, perante El-Rei Dom João III, põe na boca do pastor André a seguinte fala:

“Eu perdi, se s'acontece,
a asna ruça de meu pai.
O rasto por aqui vai,
mas a burra não parece,
nem sei em que vale cai.
Leva os tarros e apeiros,
e o surrão cos chocalhos,
os samarros dos vaqueiros,
dois sacos de páes inteiros,
porros, cebolas e alhos. “
(…)

Rodrigues Lobo (1579-1621), na “Primavera” (1601), refere-se à bagagem do pastor quando o faz dizer que a sua casa:

"He chea com um çurrão mal pendurado,
 com um tarro, com um cabaz, e com um pelico,
Huma frauta, huma funda, e um cajado."

Brito Camacho em “Gente Rústica (1921) refere-se à utilização do tarro:

“O leite das cabras, acabado de ordenhar, todo em espuma, sabia-me divinamente, e mesmo que dentro do tarro tivessem caído algumas caganitas, não era preciso coal-o nem fervel-o para o beber sem repugnância.” [2]

No adagiário popular é conhecida uma referência ao tarro:

“A mais ruim ovelha, do fato suja o tarro.”

Tal como a cortiça, também o tarro é exaltado no cancioneiro popular alentejano:

“Neste tarro de cortiça
oferta do meu amor,
até o pão com chouriça
às vezes sabe melhor.” [3]

O tarro transportava a comida do pastor, que trabalhava de sol a sol. A comida confeccionada logo de manhã (à hora do almoço), era guardada dentro do tarro para retemperar as forças à hora do jantar (ao meio dia). A vida do pastor era dura e a alimentação do pastor era parca, quase sempre à base de pão. A maior parte das vezes a refeição transportada era constituída por migas, cozinhadas com pão duro, pois é sabido que: “Pão mole depressa se engole” e “A pão duro, dente agudo”, bem como “Antes pão duro que figo maduro” e “É bom o pão duro, quando não há nenhum”. De resto: “Tudo com pão, faz o homem são”.

PASTOR DAS MIGAS – boneco de Estremoz,  da autoria das
barristas, irmãs Flores (2009).

Das migas disse João Falcato (1915-2005):

“Modestas, sem a fragrância da Açorda, sem o apreço agradecido do Caspacho, as Migas são o pilar da resistência duma raça aos convites estranhos para loucas transformações.” [4].

Actualmente as migas integram o rico património gastronómico alentejano, todo ele feito de sabores e de saberes determinados pelas condicionantes regionais e pelos contextos sociológicos de vida. Hoje comem-se migas em nossas casas, nos restaurantes e nos festivais gastronómicos, porque se gosta mesmo, por opção de paladar, ainda que se pudesse comer outra coisa. O que a esmagadora maioria das vezes não seria o caso do pastor, que as transportava no tarro. Porque os tempos de crise eram maiores que os de hoje e porque sendo o Alentejo o celeiro de Portugal, só era certo o quinhão de pão distribuído pelo lavrador.

[1] - RAPOSO, Hipólito. Do Folclore e sua Irmandade. 15 de Setembro de 1946. (In Hipólito Raposo, Modos de Ver. Ed. Gama. Lisboa, 1947).
[2] - CAMACHO, Manuel de Brito. Gente Rústica. Guimarães & Cª. Lisboa, 1921.
[3] – SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano – Poesia Popular, Livraria Portugal, Lisboa, 1959.
[4] – FALCATO, João. Elucidário do Alentejo. Coimbra Editora Lda. Lisboa, 1953.

Publicado inicialmente em 22 de Março de 2010

domingo, 11 de janeiro de 2026

Provérbios de Janeiro


Página do calendário de Janeiro, do Golf Book (Livro de Horas, Uso de Roma),
oficina de Simon Bening, Bruges, Holanda, c. 1540, MS Adicional 24098, f. 18v.

- A água de Janeiro traz azeite ao olival, vinho ao lagar e palha ao palheiro.
- A água de Janeiro vale dinheiro.
- Água de Janeiro, todo o ano tem concerto,
- Até Janeiro qualquer burro passa o regueiro, mas daí para a frente, tem que ser forte e valente.
- Bons dias em Janeiro pagam-se em Fevereiro.
- Bons dias em Janeiro, enganam o homem em Fevereiro.
- Canta o melro em Janeiro, temos neve até ao rolheiro.
- Cebola ramuda, com neves em Janeiro, anuncia dinheiro.
- Chuva de Janeiro, cada gota vale dinheiro.
- Chuva em Janeiro e não frio, riqueza no Estio.
- De flor de Janeiro ninguém enche o celeiro.
- Em Janeiro deixa a fonte e vai ao ribeiro.
- Em Janeiro deixa o rábano ao rabaneiro.
- Em Janeiro faz a cama em palheiro.
- Em Janeiro todo o burro é sendeiro.
- Em Janeiro meia o celeiro; se o vires meado, come regrado.
- Em Janeiro não metas obreiro.
- Em Janeiro neve e frio, é de esperar ardor no estio.
- Em Janeiro pasta a lebre no lameiro e o coelho à beira do regueiro.
- Em Janeiro põe-te no outeiro e se vires verdear, põe-te a chorar, e se vires terrear, põe-te a cantar.
- Em Janeiro seca a ovelha suas madeiras no fumeiro e em Março no prado e em Abril as vai urdir.
- Em Janeiro semeiam-se muitas abóboras.
- Em Janeiro sobe ao outeiro e se vires verdejar, põe-te a chorar e se vires torrear, põe-te a cantar.
- Em Janeiro sobe ao outeiro: se vires verdegar, põe-te a chorar; se vires terregar, põe-te a dançar.
- Em Janeiro sobe ao outeiro; se vires terrear, põe-te a cantar; se vires verdejar, põe-te a chorar.
- Em Janeiro todo o cavalo é sendeiro.
- Em Janeiro, busca parceiro.
- Em Janeiro, cada ovelha com seu cordeiro.
- Em Janeiro, mete obreiro, mês meante que não ante. Em Janeiro, nem galgo lebreiro, nem açor perdigueiro.
- Em Janeiro, o boi e o leitão engordarão.
- Em Janeiro, sete capelos e um sombreiro.
- Em Janeiro, sete casacos e um sombreiro.
- Em Janeiro, sobe ao outeiro; se vires verdejar, põe-te a chorar; se vires tarrejar, põe-te a cantar.
- Em Janeiro, um porco ao sol, outro ao fumeiro.
- Em Janeiro, um porco morto, outro no fumeiro.
- Em Janeiro, um salto de carneiro.
- Em mês de Janeiro Verão, nem palha nem pão.
- Em metade de Janeiro mete obreiro.
- Em minguante de Janeiro, corta o madeiro.
- Em São Vicente (22/1) de Janeiro sobe ao outeiro; se vires verdejar, põe-te a chorar; se vires terrear, põe-te a cantar; se vires luzir, põe-te a sorrir.
- Fermento de Janeiro, de quarteiro.
- Janeiro e Fevereiro, enchem ou vazam o celeiro.
- Janeiro frio e molhado não é bom para o gado.
- Janeiro frio e molhado, enche a tulha e farta o gado.
- Janeiro frio ou temperado, passa-o enroupado.
- Janeiro geadeiro afoga a mãe no ribeiro.
- Janeiro geadeiro, Fevereiro aguadeiro. Março chover cada dia seu pedaço. Abril águas mil coadas por um funil, Maio pardo celeiro grado, Junho foice em punho.
- Janeiro geadeiro, nem boa meda nem bom palheiro.
- Janeiro gear, Fevereiro chover. Março encanar, Abril espigar, Maio engrandecer, Junho ceifar, Julho debulhar. Agosto engavelar, Setembro vindimar. Outubro revolver. Novembro semear. Dezembro nascer.
- Janeiro gear, Fevereiro chover. Março encanar, Agosto recolher. Setembro vindimar.
- Janeiro gear. Fevereiro chover. Março encanar, Abril espigar, Maio engrandecer. Junho ceifar, Julho debulhar, Agosto engavelar. Setembro vindimar, Outubro revolver. Novembro semear, Dezembro nasceu Deus para nos salvar.
- Janeiro geoso, Fevereiro nevoso. Março frio e ventoso, Abril chuvoso e Maio pardo, fazem um ano abundoso.
- Janeiro geoso. Fevereiro nevoso, Março mulinhoso. Abril chuvoso. Maio ventoso, fazem o ano formoso.
- Janeiro greleiro, não enche o celeiro.
- Janeiro molhado, bom para o tempo e mau para o gado.
- Janeiro molhado, se não cria pão, cria gado.
- Janeiro molhado, se não é bom para o pão, não é mau para o arado.
- Janeiro molhado, se não é bom para o pão, não é mau para o gado.
- Janeiro não choveu, o temporão se perdeu.
- Janeiro quente, traz o diabo no ventre.
- Janeiro quer-se geadeiro.
- Janeiro, cada sulco seu regueiro.
- Janeiro, como entra assim sai.
- Janeiro, desapartadeiro.
- Janeiro, geadeiro.
- Janeiro, gear.
- Janeiro, porcos em sendeiro, um dia e não cada dia.
- Laranjas e Janeiro, dão que fazer ao coveiro.
- uar de Janeiro não tem parceiro, senão o de Agosto, que lhe dá de rosto.
- Mês de Janeiro e Fevereiro, ou enche ou vaga (vaza) o celeiro.
- Mês de Janeiro, bom cavaleiro, assim acaba como à entrada.
- Mês de Janeiro, procura a perdiz o companheiro. Fevereiro faz o rapeiro; Março põe três ou quatro; Abril enche o covil; Maio, pi-pi pelo mato.
- Minguante de Janeiro corta madeiro.
- No mês de Janeiro sobe ao outeiro para ver o nevoeiro.
- No primeiro de Janeiro sobe ao outeiro para ver o nevoeiro.
- O bom tempo de Janeiro faz o ano galhofeiro.
- O mês de Janeiro, como bom cavalheiro, assim acaba como na entrada.
- O que Janeiro deixa nado, Maio deixa espigado.
- Outubro, revolver; Novembro, semear; Dezembro, nasceu um Deus para nos salvar; Janeiro, gear; Fevereiro, chover; Março, encanar; Abril, espigar; Maio, engrandecer; Junho, ceifar; Julho, debulhar; Agosto, engravelar; Setembro, vindimar.
- Pelo São Sebastião (20/1), cada perdiz com o seu perdigão.
- Pelo São Vicente (22/1) pare a chuva e venha o vento.
- Pelo São Vicente (22/1) toda a gente é quente.
- Pelo São Vicente (22/1), toda a água é quente.
- Por São Fabião (20/1), laranjinha na mão.
- Por São Sebastião (20/1), laranjinha na mão.
- Por São Sebastião (20/1), laranjinha no chão.
- Por São Vicente (22/1), alça a mão da semente.
- Por São Vicente (22/1), toda a água é quente.
- Primeiro de Janeiro, primeiro dia de Verão.
- Quando o Janeiro vem quente, traz o diabo no ventre.
- Quem azeite colhe antes de Janeiro, azeite deixa no madeiro.
- São Sebastião (20/1), laranja na mão.
- São Vicente (22/1), alça a mão da semente.
- Se chover dia de Reis (6/1), lavradores não vos descuideis.
- Se gela no São Suplício, haverá ano propício.
- Sol de Janeiro sempre anda atrás do outeiro.
- Trovão em Janeiro, nem bom prado, nem bom palheiro.
- Trovões em Janeiro, searas de quarteiro.

Publicado inicialmente a 8 de Dezembro de 2012

sexta-feira, 9 de janeiro de 2026

O frio na gíria popular

 

Costumes alentejanos (1923). Jaime Martins Barata (1899-1970).
Aguarela sobre papel. Museu Grão Vasco, Viseu.

 

Para mim hoje é Janeiro, está um frio de rachar
Rui Veloso in "Não há estrelas no céu"


Em Janeiro, o frio “é fruta da época”, pelo que não é de estranhar ouvirem-se frases que em gíria popular traduzem o rigor da frialdade:- “Está cá um barbeiro”; - “Está cá um briol”; - “Está cá um griso”, - “Está frio como o diabo”, - “Está um frio de rachar”, - “Estou frio como um cão”. De resto, o frio que impera, faz-nos:  - “Bater o dente”; - “Tiritar de frio”; - “Tremer de frio”.

A abundância de expressões idiomáticas atinentes ao vocábulo “frio“, é reveladora da riqueza da nossa língua, sem a qual não há cultura portuguesa e identidade cultural nacional, uma vez que a construção desta se alicerça naquelas.

Há, pois, que lutar contra a agressiva operação de colonização linguística, veiculada maioritariamente pelos meios de comunicação social, os quais nos bombardeiam com estrangeirismos e muito em especial com anglicismos em nome da globalização, apregoada por alguns como uma fatalidade irreversível.

Publicado inicialmente em 10 de Janeiro de 2024

quinta-feira, 8 de janeiro de 2026

Adagiário do frio


Mulher da azeitona de Estremoz. Ilustração de Cesar Abbott.
Bilhete-postal ilustrado edição Centro de Novidades (Porto, 1942).

O QUE É O FRIO
O Inverno é caracterizado por baixas temperaturas, responsáveis por sentirmos frio. Este é uma sensação fisiológica contrária à sensação de calor e está associado às baixas temperaturas.
É sabido da Física que pelo “Princípio Fundamental da Calorimetria”, “Quando se põem em contacto dois corpos a temperaturas diferentes, o mais quente arrefece e o mais frio aquece, até ficarem ambos à mesma temperatura”. Por isso no Inverno, como o meio ambiente está a uma temperatura inferior à do nosso corpo, este tende a perder calor por irradiação a favor do meio ambiente, o que se traduz num abaixamento da temperatura do nosso corpo. Por isso sentimos frio. No Verão é exactamente o contrário, pois o meio ambiente está a uma temperatura superior à do nosso corpo, pelo que tende a perder calor por irradiação a favor do nosso corpo, pelo que a temperatura deste aumenta. Daí sentirmos calor.

TRAJE POPULAR ALENTEJANO
Para nos protegermos do frio usamos vestuário, que funciona como barreira à perda de calor corporal, por isolamento térmico. O traje popular alentejano assegurava sabiamente esse isolamento.
O camponês alentejano usava barrete na cabeça que lhe protegia as orelhas do frio, ao contrário do chapéu. Usava ainda pelico ou samarra de pele de borrego ou de ovelha e por baixo destes, sucessivamente colete, camisola e camisa. Uma cinta cingia a cintura. Nas pernas, safões de pele de ovelha ou de borrego. Por baixo, sucessivamente calças de saragoça forte e ceroulas de flanela. Podia ainda cobrir-se ou transportar ao ombro uma espessa, pesada e quente manta alentejana, fabricada em centros com tradições tecelãs (Reguengos de Monsaraz, Mértola, Castro Verde, Grândola, Almodôvar e Serpa.). Nos pés, sapatos grossos de atanado com polainas ou botas caneleiras ou joelheiras e por baixo destas, grossas meias de lã. Assim trajavam pastores e ganhões durante a jorna (lavrar, charruar, cavar, podar). Terminada esta e em certas circunstâncias podiam usar capote de saragoça ou de burel.

Maioral e ajuda, figuras da pastorícia alentejana, no início do séc. XX.
Bilhete-postal ilustrado edição Malva (Lisboa).

Pastor alentejano.
Aguarela de Alberto de Souza (1880-1961), pintada em 1935. 

Pastor (Início do séc. XX).
Bilhete-postal ilustrado edição de Faustino António Martins (Lisboa). 

Um campónio alemtejano em dia de festa.
Bilhete-postal ilustrado edição Costa (Lisboa).

As camponesas alentejanas que participavam na apanha da azeitona e na monda, usavam uma saia forte, atada em forma de calças, a fim de facilitar o trabalho. Nas pernas, grossas meias de lã e nos pés sapatos fortes de atanado. No tronco, para além da roupa interior, camisa, blusa de malha e xaile. Nos braços, mangueiras de um tecido barato, visando proteger as mangas da blusa durante o trabalho. A cabeça era protegida por um lenço, atado atrás. Por cima do lenço usavam um chapéu de feltro.

ADAGIÁRIO DO FRIO
É diversificado e vasto o adagiário português, onde é utilizada explicitamente a palavra frio. Até à presente data recolhemos 100 adágios sobre o frio, os quais foram sistematizados, conforme adiante se indica.
  
Existem indícios do frio:
- Quando a candeia chora, está o frio fora; quando ri está o feio para vir.
O frio tem determinadas consequências:
- A chuva e o frio metem a lebre a caminho. (1)
- A fome e o frio metem um homem em casa do inimigo. (2)
- A fome e o frio nunca criaram infante.
- A fome e o frio obrigou-o a fazer as pazes com o tio.
- Dá-lhes frio e sequidão que as terras te gearão
- Fome e frio fazem o gado galego. (3)
- Frio e fome não fazem bom cabelo.
- Frio, focinho e bico, não fazem ninguém rico.
- Manhã fria traz bom dia.
- Norte frio, água no rio.
- Um dia frio e outro quente, põem o homem doente. (4)
Nem tudo é consequência do frio:
- Frio não quebra osso e chuva não quebra costela.
O frio pode ser um mal menor:
- Antes frio e geada que chuva porfiada.
- Não temam o frio nem a geada, mas a chuva porfiada. (5)
O frio pode ser superado:
- Quem tem brio não tem frio.
- Frio a valer, trabalhar para aquecer.
- Quem não anda por frio e por sol não faz seu prol.
O frio pode ser uma livre opção:
- Pai com frio, filho com cobertor.
Existem relações do frio com o calor:
- O que tapa o frio tapa o calor.
- Calma em tempo frio traz molhado. (6)
-  Calor em tempo frio, chuva por castigo. (7)
O frio é medido fisiologicamente por órgãos anatómicos animais ou humanos:
- Frio como nariz de cão. (8)
O frio está indissociavelmente relacionado com o vestuário:
- A cada qual dá Deus o frio conforme o vestido. (9)
- Cada um sente o frio, conforme a coberta. (10)
- Dá Deus roupa segundo o frio.
A sanidade exige o equilíbrio entre o frio e o calor:
- A saúde é a justa medida entre o calor e o frio.
O frio pode gerar o ruído:
- O bácoro, a fome e o frio, fazem grande ruído.
- Porcos com frio e homens com vinho fazem grande ruído.
O frio está patente no adagiário dos meses:
- Bom tempo no Janeiro e mau no estio, bom ano de fome, mau ano de frio.
- Chuva em Janeiro e não frio, dá riqueza no estio. (11)
- Janeiro frio e molhado não é bom para o gado.
- Janeiro frio e molhado, enche a tulha e farta o gado.
- Janeiro frio ou temperado, passa-o enroupado. (12)
- Janeiro geoso, Fevereiro nevoso. Março frio e ventoso, Abril chuvoso e Maio pardo, fazem um ano abundoso.
- Em Fevereiro neve e frio, é de esperar calor no estio.
- Em Fevereiro, frio ou quente, chova sempre.
- Fevereiro, fêveras de frio e não de linho. (13)
- Abril frio e molhado, enche o celeiro e o gado. (14)
- Abril frio, pão e vinho. (15)
- Frio de Abril as pedras vai ferir. (16)
- Maio frio e Junho quente fazem o lavrador valente.
- Maio frio e Junho quente: bom pão, vinho valente. (17)
- Maio frio e ventoso, faz o ano formoso.
- Em Junho, frio como punho.
- Agosto, frio em rosto. (18)
- Em Agosto passa o frio pelo rosto.
- Ande o frio onde andar, no Natal cá vem parar. (19)
- Ande o Natal por onde andar, que ele o frio há-de ir buscar.
- Dezembro com Junho ao desafio, traz Janeiro frio.
- Dezembro frio, calor no estilo.
- Em Dezembro treme de frio cada membro. (20)
O frio pode constituir uma qualidade:
- A água é fria, mas mais é quem com ela convida.
- A faneca, com três efes: fresca, fria e frita.
Há actos que devem ser praticados a frio:
- A vingança é um prato que se come frio.
- O caldo quente e a injúria em frio.

.....................

(1) Variante:
- A fome e o frio faz vir a lebre ao caminho.
(2) Variantes:
- Fome e frio entregam o homem ao seu inimigo.
- A fome e o frio fazem o homem acolher-se à casa do inimigo.
- Fome e frio metem a pessoa com seu inimigo.
- Fome e frio te fará meter com teu inimigo.
(3) Variantes:
- A fome e o frio fazem o gado galego.
- Fome, frio e mau trato, fazem o gado galego.
- O frio e a fome fazem o gado galego.
(4) Variantes:
- Dia frio e dia quente, fazem andar o homem doente.
- Dia frio e outro quente, faz o homem doente.
(5) Variante:
- Não hei medo ao frio nem à geada, senão á chuva porfiada.
(6) Variante:
- Calma em tempo frio traz molhado; frio em tempo molhado, traz resfriado.
(7) Variante:
- Calor em tempo frio, trá-lo molhado.
(8) Variantes:
- Calcanhar de homem, cu de mulher e focinho de cão, nunca sentem o Verão.
- Calcanhar de homem, cu de mulher e nariz de cão, três coisas frias são.
- Cu de mulher e nariz de cão, nunca conheceram Verão.
- Há duas coisas que não conhecem Verão: rabo de mulher e focinho de cão.
- Nariz de cão, cu de mulher e mãos de barbeiro, frios como gelo.
- Nariz de cão e cu de gente, nunca está quente.
- Nariz de cão e cu de mulher estão sempre frios.
(9) Variantes:
- A cada um dá Deus o frio conforme a roupa, mas mais a quem tem pouca.
- A cada qual dá Deus o frio conforme a roupa.
- A cada qual dá Deus o frio conforme anda vestido.
- Dá Deus o frio conforme a roupa.
- Deus dá o frio conforme a roupa.
(10) Variante:
- Cada um sente o frio, como anda vestido.
(11) Variante:
- Chuva de Janeiro e não frio, vai dar riqueza ao estio.
(12) Variante:
- Janeiro frio ou temperado, não deixa de ir enroupado.
(13) Variante:
- Em Fevereiro, febras de frio e não de linho.
- Em Fevereiro, fibras de frio e não de linho.
(14) Variante:
- Abril frio e molhado, enche celeiro e farta o gado.
(15) Variantes:
- Abril frio, traz pão e vinho.
- Abril frio, ano de pão e vinho.
(16) Variante:
- Frio de Abril, nas pedras vá ferir.
(17) Variante:
- Maio frio, Junho quente, bom pão, vinho valente.
(18) Variante:
- Agosto, frio no rosto.
(19) Variantes:
- Ande o frio por onde andar que o Natal o irá buscar.
- Ande o frio por onde andar, ao Natal há-de vir parar.
- Ande o frio por onde andar, no Natal cá vem parar.
- Ande o frio por onde andar, o Natal o vai buscar.
- Ande o frio por onde andar, pelo Natal cá vem parar.
- Ande o frio por onde andar, pelo Natal há-de chegar.
(20) Variante:
- Em Dezembro treme o frio em cada membro.
(21) Variante:
- O caldo em quente, a injúria em frio.

Texto publicado inicialmente em 25 de Outubro de 2012

quarta-feira, 7 de janeiro de 2026

Alberto de Souza e Estremoz

 
Fig. 1 - Carro alentejano. 

"Grande Artista!
Alberto de Souza realizou toda a sua obra
de olhos voltados para Portugal
– sem os desviar um momento da terra que lhe foi berço."


JÚLIO DANTAS
(in Prefácio do livro de Alberto de Souza
“50 Anos de Vida Artística”)

Sou cartófilo desde que me reconheço como coleccionador, aí pelos dez anos de idade. E a Cartofilia servir-me-ia de trampolim para outros voos como a Etnografia, uma vez que a Cartofilia é um poderoso auxiliar daquela, visto os postais ilustrados registarem para a perpetuidade, elementos recolhidos num dado contexto geográfico, social e temporal, relativos às características de uma determinada comunidade, rural ou urbana: o seu traje, a sua faina, os seus usos e costumes, as suas festas e romarias.
O registo cartófilo, tanto pode ter por base o cliché dum fotógrafo com sensibilidade ou pendor para as questões da identidade cultural regional, como as pinceladas magistrais de pintores que sentiram estética, plástica e cromaticamente, o pulsar do Povo Português, o Povo que lava no rio, que apascenta o gado na charneca ou na montanha, que cavalga na lezíria, que charrua a terra-mãe ou que da rede lançada ao mar, recolhe o seu e o nosso pão nosso de cada dia.
Creio que o pintor mais representado na cartofilia portuguesa seja Alberto de Souza (1880-1961), notável aguarelista e ilustrador, que calcorreou o país de lés a lés na primeira metade do século XX, funcionando como consciência plástica da Nação, pela oportunidade e rigor do registo etnográfico, efectuado através das suas exemplares aguarelas.
Alberto de Souza esteve em Estremoz no início do século XX, tinha então vinte e poucos anos e aqui registou aspectos do traje e usos e costumes locais, perpetuados em desenhos que “A EDITORA”, divulgou em postais ilustrados da sua 3ª série, a qual incluía motivos de Estremoz, Évora e Beja. Os motivos de Estremoz são: CARRO ALENTEJANO (Fig. 1), UM POÇO (Fig. 2), QUINTAL (Fig. 3) e LAREIRA (Fig. 4). Estes postais deram a volta ao mundo. O mais antigo que integra a minha colecção, tem aposto sobre selo de 25 reis de D. Carlos I (tipo Mouchon), o carimbo de LISBOA CENTRAL / 3ª SECÇÃO de 21-10-1904, local de onde foi expedido para Londres, onde chegou a 24-10-1904, conforme revela a marca de chegada à estação de PADDINGTON, na capital inglesa. Como curiosidade refiro que tenho outro circulado em 1906, expedido pelo escritor Ramalho Ortigão (1836-1915) - uma das figuras principais da Geração de 70 - de Lisboa para Estocolmo, na Suécia, dirigido ao então Ministro Plenipotenciário do Reino, António Feijó (1859-1917), diplomata e poeta consagrado. O desenho de um homem culto e consciência plástica da Nação (Alberto de Souza), a servir de abraço fraternal e a ligar dois amigos afastados (Ramalho Ortigão e António Feijó.
Mas, a relação de Alberto de Souza com Estremoz, não ficou por aqui. Alberto de Souza seria posteriormente o autor de uma aguarela (Fig. 5), propriedade da Câmara Municipal de Estremoz e que esteve na base da confecção de um cartaz para a afamada Feira-Exposição de Maio de 1926, em Estremoz. Nesta aguarela, na parte superior, a parte antiga do burgo, confinada às muralhas do Castelo e, dominando tudo, altaneira e vigilante sobre a planície, a Torre de Menagem, ex-líbris de Estremoz. Em primeiro plano, o pastor de ovelhas, arrimado ao seu cajado, com o tarro com as comedorias do dia, envergando o seu traje regional constituído pelo pelico, pelos safões, pelo lenço em redor do pescoço e pelo chapéu de aba farta, que é tema de quadra brejeira no cancioneiro regional:

“Alentejo não tem sombra,
Senão a que vem do céu.
Assente-se aqui, menina,
À sombra do meu chapéu.”

Sobre o traje, diz-nos Luís Chaves, etnólogo que na época também por aqui andava: “O traje surge-nos como produto natural do meio, isto é, de quanto dentro e à volta do homem existe, e tudo o que influi no espírito e actua nele. Desde a escolha e adopção de tecidos, até à cor e forma, desde a ornamentação ao arranjo das partes componentes, tudo aí tem razão de ser como é, e tem de estar onde está.”.
Hoje, o pastor da região já não se veste assim e as encostas do monte onde se ergue o Castelo de Estremoz, são vinhas e não campos de semeadura de trigo. Daí a importância desta e de todas as outras aguarelas de Alberto de Souza no registo etnográfico. Sublinhe-se que a Etnografia (do grego έθνος, ethnos - nação, povo e γράφειν, graphein - escrever) é o método utilizado pela Antropologia na recolha de dados, através do contacto efectuado entre o antropólogo e o grupo humano, objecto do seu estudo. Sublinhe-se ainda que a Antropologia (do grego άνθρωπος, anthropos - homem e λόγος, logos - pensamento) é a ciência que estuda o Homem e a Humanidade, em geral. Por isso, Alberto de Souza foi um antropólogo e um antropólogo social porque se dedicou à observação das técnicas, usos, costumes, crenças, regras de conduta e de comportamento de grupos sociais. E que trabalho extraordinário ele produziu ao longo da sua vida! Uma ínfima parte desse trabalho é constituído por 39 aguarelas, propriedade da Fundação Portuguesa das Comunicações, retratando trajes populares portugueses e que serviram de base à edição pelos CTT, em 1941, de bilhetes-postais ditos oficiais.
Como filatelista e cartofilista, possuo estes postais na minha colecção. Esta circunstância, aliada ao facto de coleccionar bonecos de Estremoz, viria a dar os seus frutos. Vejamos como.
Fascinado pela magia emergente das suas mãos de barristas populares, frequento amiúde a oficina e a loja das Irmãs Flores, no Largo da República, em Estremoz. Gosto muito do trabalho destas senhoras, Maria Inácia e Perpétua, de seus nomes, discípulas de mestra Sabina Santos, que com ela aprenderam a nobre arte do barro e com ela aprenderam a respeitar o que de mais genuíno têm os bonecos de Estremoz, no que respeita a modelos e tipos característicos, formas, cores e tintas. Mas, também e simultaneamente, criaram novos modelos e apostaram em novos tamanhos, que têm vindo a enriquecer a vastíssima galeria de modelos de bonecos de Estremoz.
Pois bem, às Irmãs Flores, afamadas barristas da nossa terra, lancei oportunamente o desafio de criarem novos modelos de bonecos (Fig. 7), inspirados em aguarelas de Mestre Alberto de Souza (Fig. 6). Elas aceitaram o repto e o resultado traduziu-se na bela e magnífica Exposição “Bonecos das Irmãs Flores inspirados em Aguarelas de Alberto de Souza sobre Traje Popular Português”, que em Fevereiro-Março-Abril de 2007, esteve patente ao público na Sala de Exposições do Centro Cultural Dr. Marques Crespo, onde até agora, foi das exposições mais visitadas. Depois disso, a barrística popular estremocense ficou ainda mais rica.
Depois deste sucesso, pensei que a Memória de Alberto de Souza merecia ainda muito mais. Como agente cultural, a consciência da importância da sua Obra, levou-me a tomar a iniciativa de promover uma Exposição de Pintura em Sua Homenagem, o que acabaria por ser feito numa iniciativa conjunta da Associação Filatélica Alentejana, da Câmara e do Museu Municipal de Estremoz e, da Família de Alberto de Souza. Paralelamente a esta Exposição decorre o Salão Filatélico FILAMOZ 2008, comemorativo do 25º Aniversário da Associação Filatélica Alentejana, onde quatro expositores põem em evidência o trabalho desenvolvido pelo Artista na concepção de selos e postais dos Correios. São eles: António Cristóvão (Emissões Camilo Castelo Branco), João Soeiro (Emissões Independência de Portugal), Miranda da Mota (IV Centenário do Nascimento de Camões) e Hernâni Matos (Inteiros Postais reproduzindo Trajes Populares Portugueses baseados em Aguarelas de Alberto de Souza).
Para perpetuar no espaço e no tempo, esta homenagem a Alberto de Souza, a Associação Filatélica Alentejana encomendou aos Correios de Portugal, o fabrico de dois selos personalizados, novo tipo de selos, criados pela Portaria nº 1335/2007 de 10 de Outubro. Um dos selos reproduz o auto-retrato de Alberto de Souza em 1950 (Fig. 8) e o outro, a aguarela que serviu de base ao cartaz da Feira-Exposição de Maio de 1926, em Estremoz (Fig. 9).
No acto inaugural da Exposição funcionou no local um posto de correio, provido de carimbo comemorativo (Fig. 10), reproduzindo o auto-retrato de Alberto de Souza, carimbo este concedido para o evento pelo Serviço de Filatelia dos CTT, com o apoio da Federação Portuguesa de Filatelia, os quais também se associaram na Homenagem àquele que, através dos seus rigorosos e vigorosos traços e das suas pinceladas de Mestre, criou obras primas que, para nosso deleite ficaram perpetuadas nas fórmulas de franquia dos nossos Correios.

Publicado inicialmente a 23 de Setembro de 2010

Fig. 2 - Um poço.

Fig. 3 - Quintal. 

Fig. 4 - Lareira.

Fig. 5 – Aguarela que serviu de base para o cartaz da Feira-Exposição
de Maio de 1926.

Fig. 6 – Lavradeira de Viana do Castelo.I nteiro Postal nº 8,
da emissão de 1941.

Fig. 7 – Lavradeira de Viana do Castelo. Boneco de Estremoz,
das Irmãs Flores.

Fig. 8 - Selo de correio normal, reproduzindo o
auto-retrato de Alberto de Souza (1950).

Fig. 9 - Selo de correio normal, reproduzindo aguarela

 de 1926, de Alberto de Souza.

 

Fig. 10 - Carimbo Comemorativo de Homenagem a Alberto de Souza.