segunda-feira, 7 de abril de 2025

Estremoz - Recolha e preparação do barro para a cerâmica


Nos dias 11 e 12 de Abril, o Museu Municipal Prof. Joaquim Vermelho, em Estremoz, receberá o workshop de Recolha e Preparação do Barro para a Cerâmica, iniciativa integrada no projeto 2LEGACY, financiado pelo laboratório associado IN2PAST.

O projecto 2LEGACY, liderado pelo laboratório HERCULES da Universidade de Évora, conta com a parceria do Lab2PT da Universidade do Minho, do CRIA da FCSH da Universidade NOVA de Lisboa e do VICARTE da Universidade NOVA de Lisboa, bem como com o envolvimento indispensável do Município de Estremoz e da ADOE. O projeto investiga a importância da argila local na cerâmica tradicional, analisando o seu papel no passado e a sua aplicação em práticas contemporâneas em Estremoz e Barcelos, contribuindo para a ligação entre investigação, património e inovação.

Com o apoio do Centro Ciência Viva de Estremoz (CCVE), este workshop oferece uma oportunidade única para aprofundar e documentar os processos de recolha e preparação da argila, essenciais para a preservação do saber-fazer tradicional e a valorização dos recursos locais. Ao destacar a riqueza da argila endógena e das técnicas cerâmica tradicionais, a iniciativa contribui para a dinamização do património cultural de Estremoz.

Dia 11 de abril, o público inscrito, deve reunir-se no CCVE, pelas 11:00 horas, para transporte para o local da cava do barro e, no dia seguinte, os trabalhos decorrerão no Museu Municipal a partir das 9:30 horas.

Inscrições, até dia 9 de abril em: https://forms.gle/x1QJY5bjE55KgSvL7

Hernâni Matos


terça-feira, 1 de abril de 2025

Rua de Santo André em Estremoz vai ter cara lavada

 


Estremoz, 1 de Abril de 2025

Foi tornado público que o Município de Estremoz deliberou recentemente regularizar a intransitável calçada da Rua de Santo André, bem como combater o estacionamento selvagem ali patente.

Trata-se de um gesto de elevada compreensão pelas dificuldades sentidas pelo trânsito pedonal naquela artéria citadina.

Trata-se igualmente de um gesto magnânimo relativamente aos peões que por ali se vêem forçados a transitar, não só moradores como também clientes dos estabelecimentos comerciais instalados naquela via urbana.

Pessoalmente, congratulo-me com o alcance social das providências tomadas pelo Município.

Bem hajam!

Hernâni Matos

(Morador há 52 anos na Rua de Santo André,
onde até ao presente era frequente ouvi-lo vociferar:
- ONDE É QUE JÁ SE VIU UMA RUA ASSIM!)

domingo, 16 de março de 2025

Espiga Pinto, presente!


Espiga Pinto (1940-2014), no início dos anos 60 do séc. XX.


Espiga Pinto, presente!
(No 85º aniversário do seu nascimento)

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A Obra de Espiga Pinto na sua fase dos anos 60 do século 20, interpreta duma forma magistral as mais variadas cenas da vida agro-pastoril do Alentejo de antanho. Por isso, os seus trabalhos são um reflexo da identidade cultural alentejana. Daí a emoção estética e regionalista que a sua obra desperta.

Os sobrenomes “Espiga” e “Pinto”, atribuídos na pia baptismal, terão sido, porventura, o prenúncio de que a sua obra de artista plástico, iria abordar o “agro” (Espiga) e o “pastoril” (Pinto).

Espiga Pinto (1940-2014), natural de Vila Viçosa, pintor da 3ª Geração Modernista e da fase tardia do Neo-realismo, foi professor na Escola Industrial e Comercial de Estremoz (1960-1965), era eu adolescente e já admirava a sua Obra. Muitos anos mais tarde e já neste século, tive o privilégio de falar com ele algumas vezes em Estremoz. Uma das suas preocupações na época era a dificuldade que estava a sentir com a Câmara Municipal de Vila Viçosa, no sentido de esta lhe assegurar um edifício que pudesse funcionar como espaço exposicional, o qual permitisse alojar o seu legado, de modo que o público pudesse usufruir do conhecimento da sua Vida e da sua Obra.

Neste momento, parece que o actual executivo municipal de Vila Viçosa está interessado em concretizar a intenção do artista. Vejamos o que o futuro nos reserva.

A importância da obra de Espiga Pinto é consensual entre “quem percebe da poda” e justifica plenamente o empenhamento da comunidade no sentido de que o desejo do artista se torne realidade.

A exposição “Espiga Pinto – Memórias do Alentejo”, promovida pela Galeria Howard’s Folly e o Legado de Espiga Pinto, no espaço daquela Galeria, por ocasião da celebração do 85º aniversário do nascimento do artista, decerto que irá aumentar e reforçar as hostes dos admiradores da sua Vida e da sua Obra, o que constituirá um justificado motivo de júbilo para o universo dos seus admiradores, entre os quais humildemente me posiciono.

Estremoz, 16 de Março de 2025

sábado, 15 de março de 2025

Tocador de ronca

 

Tocador de ronca. Modelação de Carlos Alves. 
Pintura de Cristina Malaquias.

No Alentejo de outrora, grupos de homens agasalhados do frio, percorriam as ruas dos povoados em compasso lento e solene, entoando cantares de Natal ou das Janeiras. Paravam aqui e ali, para dedicar os seus cantos aos moradores de determinadas casas. Os cantares eram acompanhados pelo som, grave e fundo, das roncas percutidas por tocadores. A ronca é um instrumento musical tradicional do Alentejo, pertencente à classe dos membranofones de fricção. Ainda pode ser encontrado na zona raiana (região de Portalegre, Elvas, Terrugem e Campo Maior).

Hernâni Matos

sexta-feira, 14 de março de 2025

Exposição "Memórias do Alentejo" de José Manuel Espiga Pinto na Galeria Howard's Folly

 



Transcrito com a devida vénia de
do jornal E, nº 352,
de 14 de Março de 2025

A Galeria Howard’s Folly, em Estremoz, e o Legado de Espiga Pinto vão apresentar, no espaço daquela galeria, a exposição “Memórias do Alentejo”, por ocasião da celebração do 85º aniversário do artista plástico José Manuel Espiga Pinto (1940-2014).

A mostra, que inclui pintura, desenho e escultura, vai estar patente ao público entre 16 de março e 27 de abril e conta com o apoio institucional da BIALE, Bienal Internacional do Alentejo 2025.

As peças expostas, criadas na década de 60, aquando do regresso de Espiga ao Alentejo, refletem a excelência do seu período neorrealista e a infância do artista em Vila Viçosa.

A mostra integra peças em diversos suportes, desde a pintura, trabalhos sobre papel, desenho em tinta-da-china sobre cortiça escultura em bronze. A imagem representa a vida típica do Alentejo histórico, com composições que incluem o cavalo, o touro, a roda, a carroça, a apanha da azeitona, os agricultores, a camponesa e as festas locais.

“Roda”, de 1965, é a obra que sobressai pelo seu valor icónico, com tons laranja evocando a luz do amanhecer sobre a carroça no labor matinal nos campos e representando o símbolo de continuidade da vida. As peças escolhidas, nos vários suportes, continuam a complementar e a ecoar a roda ao longo da exposição.

A roda é um dos principais elementos recorrentes da iconografia de Espiga Pinto, presente em todas as suas fases subsequentes. A exposição centra-se nestes primeiros trabalhos da década de 1960, a “Série do Alentejo”, proporcionando uma narrativa de caráter histórico inspirada no profundo afeto do artista pela sua cultura.

Nascido em Vila Viçosa, em 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, Espiga Pinto estudou escultura na Escola Superior de Belas Artes de Lisboa, tendo sido distinguido com importantes prémios e distinções ao longo da vida pela sua contribuição multidisciplinar para as artes.

Foi membro da Academia Nacional de Belas Artes. As memórias e a ligação à vida rural no Alentejo influenciariam toda a sua obra. Espiga afirmou que foi na sua chegada a Estremoz, tinha então cerca de 20 anos, que assumiu como “sentido cósmico” para a sua vida “cantar o Alentejo”, explorando as principais formas figurativas e temas recorrentes, que mais tarde se tornariam a base para o simbolismo cósmico, patentes ao longo de uma extensa carreira de mais de 60 anos.

A arte de Espiga está amplamente estabelecida dentro e fora de Portugal, contando mais de 80 exposições individuais, com uma multiplicidade de obras em locais públicos e trabalhos presentes em prestigiadas coleções. Obras de Espiga foram recentemente incluídas em importantes exposições coletivas: Jaime Isidoro e Vila Nova de Gaia; 50 anos após os 1ºs Encontros Internacionais de Arte (2024), NEO-REALISMO – Memórias Guardadas do Acervo de Hernâni Matos (2024), Uma Terna (e Política) Contemplação do que Vive, obras da coleção Norlinda e José Lima (2023), 60º Aniversário da Cooperativa Árvore (2023) e Contra a Abstração, Obras da Coleção da Caixa Geral de Depósitos (2019).

Em 2020, Penelope Curtis, então Diretora na Fundação Calouste Gulbenkian, selecionou mais de 50 importantes obras, ampliando o já significativo conjunto de obras de Espiga na coleção do CAM – Centro De Arte Moderna Gulbenkian, incluindo peças associadas à temática da presente exposição.

O legado de Espiga Pinto preserva a obra e o acervo biográfico deste extraordinário artista, estando em curso uma extensa investigação com vista à elaboração de um catálogo raisonné. Esta exposição tem a curadoria de Amie Conway e Alex Cousens, profissionais independentes com um longo trajeto nas artes, baseados em Londres, Reino Unido, trabalhando diretamente com os dois herdeiros, Aurora e Leonardo Espiga Pinto, filha e filho, respetivamente. As obras são provenientes da coleção que o próprio artista cuidadosamente construiu, com agradecimentos pelo empréstimo de outras obras por parte de importantes coleções particulares.

Além do apoio institucional da BIALE 2025, esta exposição tem ainda o apoio da The Sovereign Art Foundation, do Grupo de Hotéis Marmóris, da Galeria Alvarez, da Galeria Aqui d’El Arte – CECHAP, da T.ARTe Collage.pt.

“A galeria do The Folly recebe normalmente artistas contemporâneos locais, mas estamos muito satisfeitos por, desta vez, recebermos um verdadeiro ícone da cena artística local que, infelizmente, já não está entre nós. Ter um artista desta estatura a expor na nossa galeria durante a BIALE do Alentejo é, na nossa opinião, muito propício” refere Howard Bilton, proprietário da Howard’s Folly e presidente da The Sovereign Art Foundation.

Aurora e  Leonardo Espiga Pinto, filhos do artista asseguram que “o regresso de Espiga Pinto ao seu Alentejo, e a Estremoz, tem um enorme significado. Esta é a primeira exposição de desenho, pintura e escultura de Espiga Pinto desde o seu falecimento. Além disso, a sua célebre “Série do Alentejo” (década de 1960) não era mostrada ao público há 15 anos. E, finalmente, a exposição tem lugar em Estremoz, lugar onde o nosso pai viveu e criou estas mesmas peças, na sua casa-atelier”.

quinta-feira, 13 de março de 2025

Tocadora de adufe

 

Tocadora de adufe do rancho do acabamento da azeitona.
Modelação de Carlos Alves. Pintura de Cristina Malaquias.

No Alentejo de antanho, no termo de Estremoz, terminada a safra da azeitona, o rancho da apanha dirigia-se ao monte do lavrador a agradecer a concessão do trabalho sazonal então terminado.
Com um avental confeccionava-se um pendão que era transportado até ao monte e traduzia simbolicamente a intenção festiva do grupo. Uma vez chegado ao monte, o rancho era mimoseado pelo lavrador com comes e bebes. Retribuíam cantando modas acompanhadas da percussão de adufes, membrafones característicos não só da Beira Baixa, como do Alentejo e de Trás-os-Montes, os quais eram percutidos por mulheres.

segunda-feira, 3 de março de 2025

17 – As Primaveras


Primavera com Arco. Oficinas de Estremoz (séc. XIX).
Colecção Júlio Reis Pereira. Museu Municipal de Estremoz.


A Primavera é a estação do ano que sucede ao Inverno e antecede o Verão. Marca a renovação da natureza, sendo especialmente associada ao reflorescimento da flora e da fauna terrestres.
Na pintura, a Primavera é o tema central de obras de grandes mestres. A natureza é representada verdejante e florida. Por vezes são retratados trabalhos agrícolas ou de jardinagem, característicos do início da estação. As cenas são em geral iluminadas, reflectindo a claridade própria da época. Por vezes, a estação é tratada alegoricamente com recurso a uma ou mais figuras femininas enquadradas por flores, em ramos ou grinaldas.
Na vidraria francesa são conhecidas duas figuras do séc. XVIII, fabrico de Nevers, conhecidas por “Alegorias da Primavera”. São figuras masculinas, trajando à antiga e empunhando arcos com flores.
No figurado de Estremoz existem peças cuja origem remonta ao séc. XIX e das quais a designação consagrada pelo uso é a de “Primaveras”. Trata-se de uma designação genérica que abrange as chamadas “Primaveras de Arco”, as “Primaveras de Plumas” e as “Bailadeiras”. É ponto assente que tais especímenes são alegorias à estação do ano do mesmo nome. Todavia são mais do que isso, como procurarei justificar.
Desde tempos remotos que existem rituais vegetalistas de celebração e exaltação do desabrochar da natureza. Tais ritos vieram a ser assimilados pela Igreja Católica que começou a comemorar o Entrudo ou Carnaval como preparação para a Quaresma.
Referindo-se ao Entrudo de antigamente diz Xavier da Cunha na revista OCCIDENTE, de 15 de Fevereiro de 1879: “Hoje de todos esses brinquedos, que passaram, restam apenas as decantadas danças de cavallões e marmanjos vestidos de pastorinhas a bailarem entre os costumados arquinhos de flores ao som do classico apito – elemento essencial da ordem no programma de toda aquella brincadeira”.
Também na capa da revista “PARODIA – COMEDIA PORTUGUEZA”, nº 6, de 18 de Fevereiro de 1903, Raphael Bordalo Pinheiro retrata vários mascarados num salão particular. À esquerda duas figuras supostamente de homens mascarados de figuras femininas, empunham um arco com flores.
Face ao exposto, julgo não ser despropositado concluir que no figurado de Estremoz, as “Primaveras”, para além de constituírem uma alegoria à estação do mesmo nome, são também figuras de Entrudo e registos dos primitivos rituais vegetalistas de celebração e exaltação do desabrochar da natureza.

Hernâni Matos
Publicado pela 1º vez em 19 de Janeiro de 2015