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sexta-feira, 18 de novembro de 2022
quarta-feira, 16 de novembro de 2022
Irmãs Flores recebem louvor da Câmara Municipal de Estremoz
Fotografia de Bruno Oliveira e Maria Manuela Restivo, recolhida com a devida vénia
no blogue ARTE POPULAR PORTUGUESA (http://www.artepopularportuguesa.org/ )
Em reunião ordinária da Câmara Municipal de Estremoz, realizada a 16 de novembro de 2022, foi aprovada por unanimidade, após a sua apresentação pela Vice-presidente do Município de Estremoz, Sónia Caldeira, a seguinte:
Proposta de atribuição de Louvor ás Irmãs Flores
"As barristas denominadas por "Irmãs Flores”, Maria Inácia Fonseca, nascida em São Bento do Ameixial no ano de 1957 e Perpetua Fonseca, nascida na mesma freguesia um ano depois, celebraram 50 anos de carreira no passado dia 15 de novembro.
Maria Inácia Fonseca teve o primeiro contacto com os Bonecos de Estremoz a 15 de novembro de 1972, através da artesã Sabina Santos, em cuja oficina, sita na
Brito Capelo, entrou também como colaboradora a sua irmã Perpétua, três anos depois, com o objetivo de pintar peças realizadas pela Mestra.
Na oficina de Sabina Santos ganharam o gosto pela arte bonequeira e aprenderam os fundamentos basilares de modelação, cozedura e pintura, os quais ainda hoje seguem com particular gosto.
Montaram oficina própria em 1987/88, tendo-se mudado da sua antiga oficina sita na Rua das Meiras em 1999, para o Largo da República, dispondo aí de um espaço comercial e oficina.
Desde muito cedo decidiram enveredar pelo caminho da salvaguarda da tradição na modelação e estética do figurado. As portas da sua oficina estão sempre abertas a pedidos de entrevistas, programas de televisão, grupos de estudantes, turistas e a todos aqueles que querem conhecer esta arte que está hoje inscrita na Lista Representativa do Património Cultural Imaterial da Humanidade.
As Irmãs Flores têm o seu trabalho exposto em diversos museus nacionais e internacionais, figurando ainda nas principais coleções nacionais, deixando descendência no seu sobrinho Ricardo Fonseca.
O Município de Estremoz, pelo trabalho desenvolvido pelas Irmãs Flores em prol desta arte identitária local, que é hoje pertença de toda a Humanidade, quer com esta proposta de atribuição de Louvor, expressar-lhes reconhecimento e gratidão pelos seus 50 anos de dedicação efetiva ao Boneco de Estremoz, pelo apuro técnico e estético do seu trabalho e pela disponibilidade que sempre demonstraram na salvaguarda e valorização desta arte multisecular.”
Como coleccionador e investigador dos Bonecos de Estremoz, considero que se tratou de um oportuno louvor de reconhecimento do mérito da actividade das Irmãs Flores, o qual aplaudo e subscrevo, porque justo e merecido.
Irmãs Flores completam 50 anos de carreira
Transcrito com a devida vénia de
newsletter do Município de Estremoz,
de 15 de Novembro de 2022
O Município de Estremoz felicita no dia de hoje as Barristas Irmãs Flores pelos seus 50 anos de carreira.
As duas irmãs, Maria Inácia Fonseca e Perpétua Fonseca nasceram em São Bento do Ameixial em 1957 e 1958, respetivamente. No dia 15 de novembro de 1972 começaram a trabalhar na oficina da Mestre Sabina Santos como tarefeiras para pintar as peças modeladas por esta. Aqui tomaram gosto pela arte bonequeira e aprenderam as técnicas básicas de modelação, cozedura e pintura, as quais ainda hoje seguem.
Montaram oficina própria entre 1987/88 e desde então têm participado em inúmeras exposições e feiras de artesanato de norte a sul do país, levando mais longe o nome do Boneco de Estremoz. Têm tido, desta forma, um papel muito importante na divulgação e valorização desta arte.
É de realçar a sua participação e disponibilidade para a colaboração em projetos, sejam eles de caráter educativo, de investigação ou de promoção do Boneco.
Entendendo a importância da candidatura da Produção do Figurado em Barro de Estremoz a Património Cultural Imaterial da Humanidade, disponibilizaram-se desde o início a apoiar e colaborar na iniciativa. Também conscientes do grande problema que é a salvaguarda desta arte têm-se preocupado com a sua transmissão, tendo já passado o seu saber-fazer e formado Ricardo Fonseca como seu seguidor assegurando desta forma que a sua oficina deixa sementes para o futuro. Tal como a Mestra Sabina Santos um dia fez com elas.
O Município de Estremoz apresenta o seu reconhecimento e gratidão para com estas barristas que dedicaram os últimos 50 anos da sua vida a produzir esta arte secular, com apuro técnico e respeito pela técnica e estética tradicionais do Figurado de Estremoz
quinta-feira, 10 de novembro de 2022
Largo do Outeiro revela segredos ocultos
Extrapolação da decoração apotropaica residual da fachada da casa com os
números 24 e 25 do Largo do Outeiro, em Estremoz.
Decoração
apotropaica residual da fachada da casa com os números 24 e 25
do Largo do
Outeiro, em Estremoz.
Fachada da casa
com os números 24 e 25 do Largo do Outeiro, em Estremoz,
patenteando decoração
apotropaica residual.
Fotografia e design gráfico
de Miguel Belfo
Da pintura à arqueologia
No princípio do mês de Outubro, o meu amigo Nuno Ramalho mandou pintar a fachada da casa dos seus pais, localizada nos números 24 e 25 do Largo do Outeiro, em Estremoz. Os pintores começaram por limpar a parede com jacto de água. Qual não foi o espanto, quanto aquele jacto revela a existência daquilo que configurava ser uma pintura anterior à existência da janela do 1º andar esquerdo e que terá sido sacrificada para rasgar aquela janela. Significa isto que primitivamente a casa só teria a janela do 1º andar direito, a qual seria mais pequena que actualmente, uma vez que as ombreiras foram acrescentadas na parte superior, para a janela ficar com a mesma altura da janela que então foi aberta no lado esquerdo da fachada.
Qualquer das janelas ostenta sobre as ombreiras, padieiras em alvenaria, características do séc. XVIII, ornamentadas com florões em estuque.
Comparando a tipologia da fachada com a das casas limítrofes, constata-se que falta ali uma chaminé, a qual terá sido sacrificada em benefício da abertura de uma janela, tendo a chaminé sido edificada noutra zona da casa. Trata-se de uma conclusão importante na medida em que a decoração da fachada posta agora a descoberto, era uma decoração da chaminé abatida.
O esmiuçar da “pintura”
A análise minuciosa da decoração conseguida com fotografias de pormenor de elevada resolução, revelou que a técnica usada na decoração da fachada foi uma técnica mista, a qual combinou o esgrafito com a pintura do mesmo com almagre, o qual também foi utilizado na pintura de zonas delimitadas por esgrafito. A maioria das zonas pintadas perdeu a coloração conferida pelo almagre e ostenta apenas a coloração devida à cor da argamassa usada no revestimento da chaminé. Apenas dois símbolos conhecidos por “9 pontos rodeados” que se encontram na parte inferior da decoração, exibem a cor do almagre.
O facto de a decoração ter sido efectuada numa chaminé, permite concluir estar-se em presença de uma decoração apotropaica, efectuada com símbolos apotropaicos, isto é, símbolos em relação aos quais existia a crença de possuírem poder para afastar espíritos perversos ou danosos, tais como as bruxas ou o mau olhado. É que existia a crença de que embora as portas e as janelas estivessem bem fechadas, os espíritos malignos poderiam entrar pela chaminé.
O facto de a parte inferior da decoração ser simétrica em relação ao eixo central e vertical, leva a admitir que a composição da decoração seria toda ela simétrica em relação a esse mesmo eixo. A grande incógnita parece ser a parte central da decoração. Todavia são visíveis 2 sectores semicirculares a castanho avermelhado e um outro incompleto, situado num plano superior aos outros dois. Este conjunto parece procurar representar um amontado de pedras, o qual poderá corresponder a uma representação do Calvário, ou seja, da colina onde Jesus foi crucificado. A parte desaparecida da representação incluiria assim na sua parte central, uma cruz latina disposta segundo a vertical. A cruz latina é o símbolo principal do cristianismo. Para os cristãos representa não só a crucificação, como evoca a ressurreição e a esperança de vida eterna.
Incluindo a parte desaparecida da decoração apotropaica, o conjunto incluiria 4 símbolos conhecidos por “nove pontos rodeados”, um no centro duma roda e oito distribuídos à volta da mesma. Cada símbolo “9 pontos rodeados” está inscrito noutra roda, a qual reforça o poder do símbolo. A roda é um símbolo de libertação do lugar e do estado espiritual que lhe está associado.
Vejamos qual o simbolismo dos “9 pontos rodeados”. Desses 9 pontos, 1 está no centro da roda central e os outros 8 distribuem-se regularmente ao longo dessa roda. Numa perspectiva cristã, o ponto central corresponde a 1 e representa Deus, o Único, o Princípio de tudo. Os outros 8 pontos correspondem ao oitavo dia, que sucede aos 6 da criação e ao sabat (dia sagrado e de descanso no judaísmo) e é o símbolo da ressurreição, da transfiguração, anúncio da vida eterna. Sintetizando: os “9 pontos rodeados” simbolizam a criação do mundo por Deus, tal como é referida no Genesis e como tal a crença no poder de Deus sobre todas as coisas. A existência de 4 conjuntos de “9 pontos rodeados”, dispostos na decoração apotropaica em quadrangulação em simetria, resulta de o número quatro se comportar na Bíblia Sagrada como aquele que apresenta a criação de Deus e a totalidade das coisas.
A decoração apotropaica incluiria ainda, aquilo que me parecem ser dois vasos com flores, dispostos de cada um dos lados da cruz latina. Como o simbolismo da decoração apotropaica agora descoberta é de natureza cristã, sou levado a admitir que o vaso com flores possa ser um vaso com açucenas brancas. O vaso é símbolo do princípio feminino e as açucenas simbolizam a pureza, a castidade, a feminilidade e a virgindade da Virgem Maria. Resumindo: o vaso com açucenas é uma representação simbólica da Virgem Maria e um atributo presente em representações da anunciação. A existência de dois vasos com açucenas, um de cada lado da cruz latina, é justificado porque a Virgem Maria como Mãe de Jesus, tem associado a ela o princípio feminino, ao qual era na antiguidade atribuído o número dois. Por outro lado, os dois corações em cada vaso simbolizam a devoção ao Sagrado Coração de Jesus e ao Sagrado Coração de Maria, inseparáveis um do outro. A primeira destas devoções é dedicada a Jesus humano, misericordioso e sempre pronto a perdoar. A segunda destas devoções, atende ao sofrimento da Virgem Maria aos pés da cruz de Jesus e ao facto de ela guardar todas as palavras de Jesus no seu Coração.
Na decoração apotropaica objecto do presente estudo, aparecem representados simbolicamente: DEUS (“9 pontos rodeados”), JESUS (Calvário com cruz latina) e a VIRGEM MARIA (Vaso com açucenas). Significa isto que no seu conjunto, a decoração apotropaica visava invocar a protecção do Poder Divino de Deus para afastar espíritos perversos ou danosos e proteger aquela casa de todos os males. De salientar que para os cristãos, Jesus e Deus é um só, além que que é ilimitado o poder de intercessão da Virgem Maria junto de Jesus.
A decoração apotropaica está datada com um número que me parece ser 1668, número inscrito numa figura delimitada por quatro chavetas dispostas entre 4 pontos, como se formassem um losango. A figura aqui referida está ainda delimitada por dois óvulos a cheio, dispostos segundo a vertical, aos quais se juntam dois círculos a cheio, inscritos em duas circunferências dispostas segundo a horizontal. Tudo aponta para que esta seja a mais antiga decoração apotropaica do Alentejo.
Extrapolação da decoração apotropaica residual
A decoração apotropaica agora posta a descoberto é uma jóia preciosa do nosso património cultural imaterial local do séc. XVII. Na verdade, ela testemunha a existência naquela época de uma crença popular no poder protector dos símbolos apotropaicos, que no seu conjunto atestam a fé no Poder Divino de Deus.
A importância da descoberta e a interpretação da mesma por mim efectuada, exigiam que a mesma fosse divulgada junto do público em geral. Para tal, havia que criar uma imagem gráfica que desse conta de como seria a decoração apotropaica inicial, antes de ter sido mutilada. Tal foi feito com recurso a uma extrapolação da decoração apotropaica residual, tendo em conta a minha interpretação. Essa extrapolação foi executada magistralmente pelo designer gráfico Miguel Belfo, meu companheiro de estrada nesta loucura mansa de “dar à luz” o jornal E, de 15 em 15 dias. Nessa extrapolação tiveram-se em conta os seguintes procedimentos:
1 - A parte residual da representação apotropaica primitiva está representada a castanho e a parte extrapolada está representada a azul;
2 - A partir das porções existentes da moldura rectangular na qual se insere a decoração, foram extrapoladas as partes em falta;
3 - A parte superior do Calvário foi extrapolada a partir da parte inferior, tendo em conta as representações habituais do mesmo;
4 - A cruz latina foi extrapolada a partir da visualização do símbolo do Calvário;
5 - Teve-se em conta que o Calvário com cruz latina definia um eixo de simetria na composição decorativa;
6 - Os “9 pontos rodeados” do canto superior esquerdo foram extrapolados a partir dos correspondentes do canto superior direito e do canto inferior esquerdo;
7 - O contorno lateral direito do vaso do lado esquerdo foi extrapolado a partir do contorno lateral esquerdo;
8 - A decoração (coração) do lado direito do vaso do lado direito, foi extrapolada a partir da decoração do lado esquerdo do mesmo vaso;
9 - No vaso do lado direito, a parte omissa das flores no lado esquerdo do vaso foi extrapolada a partir das flores no lado direito do mesmo vaso;
10 - O vaso de flores à esquerda da cruz latina foi extrapolado a partir do vaso situado à direita da mesma cruz;
11 - A data de 1668 foi extrapolada a partir da observação da data 16?8 patente na decoração, a partir de fotografia de elevada resolução obtida por Miguel Belfo;
12 - Foram eliminadas da imagem final extrapolada, todos os pormenores existentes e visíveis na decoração primitiva residual, tais como defeitos no reboco do fundo que se soltaram, bem como porções mais brancas do fundo, devidas a intervenções posteriores que por ali ocorreram. Ali chegaram a estar cravados um suporte em ferro de fios condutores da EDP, bem como um candeeiro de iluminação pública cravado na parede. Estes, após remoção, deram origem a rebocos que acabaram por ficar pintados numa coloração branca superficial mais nítida.
13 - Onde houve mais dificuldade na extrapolação foi nas flores do vaso direito, já que para além do traçado visível, há reboco em falta distribuído desorganizadamente. Optou-se então por fazer uma extrapolação conjunta do traçado e do reboco em falta.
Agradecimentos
A interpretação e divulgação do significado profundo da decoração apotropaica da casa do Largo do Outeiro, só foi possível graças a uma sequência de boas vontades:
1º) A descoberta da decoração pelos pintores que a comunicaram ao senhor Nuno Ramalho;
2º) A decisão deste último no sentido da pintura da fachada não cobrir a decoração então descoberta, seguida da decisão de me contactar, visando interpretar tudo aquilo;
3º) A disponibilidade mostrada pelo designer gráfico Miguel Belfo que tirou no local, fotografias de elevada qualidade e resolução e que posteriormente, seguindo indicações minhas, extrapolou a parte residual da decoração apotropaica primitiva, de modo a reconstitui-la com o aspecto que ela teria primitivamente;
4º) A benevolência revelada pela directora do jornal E, Ivone Carapeto, face a texto meus, por vezes mais compridos que a légua da Póvoa.
Tem a palavra o Município de Estremoz
A decoração apotropaica agora descoberta, é seguramente a mais antiga do Alentejo, pelo que pode constituir um pólo de atracção turística, desde que devidamente divulgada. É um papel que cabe ao Turismo Municipal.
Ficamos à espera.
Texto publicado no jornal E nº 299, de 10 de Novembro de 2022
quinta-feira, 3 de novembro de 2022
Um púcaro de Estremoz de se lhe tirar o chapéu
Púcaro de Estremoz. Datação desconhecida. Colecção Victor Tavares Santos.
LER AINDA
Tu és a minha companha,
eu tenho-te á cabeceira
ó pucarinho de barro,
enfeite da cantareira.
ANTÓNIO SARDINHA (1887-1925)
Chapelada inicial
Victor Tavares Santos é um grande coleccionador de olaria e figurado português, os quais como actor de Teatro foi recolhendo no decurso das suas itinerâncias desde os anos 70 do século passado. Recentemente, divulgou no Facebook a imagem dum púcaro de barro vermelho de Estremoz. A visualização do mesmo despertou em mim, de imediato, um amor à primeira vista, corolário natural da beleza da sua morfologia arcaica e da simplicidade da sua decoração simbólica. O fascínio deste objecto olárico conduziu inescapavelmente à sua dissecação, patente no presente escrito.
Morfologia e decoração
Púcaro em barro vermelho, de base cilindriforme, pé cilindriforme de contornos côncavos, corpo esférico, colo tronco-cónico alto e bordo plano. Abaixo do bordo o púcaro exibe uma cercadura relevada, da qual partem duas asas verticais, de secção rectangular, arqueadas e simétricas, as quais terminam na parte média do corpo. Exemplar olárico de grande beleza morfológica. Superfície integralmente polida na qual foi efectuada decoração riscada (ramos de palmeira no corpo) e picada (marca de punção com extremidade em forma de circunferência circunscrita a uma estrela de 5 pontas, gravada em baixo relevo) no colo.
A estrela de cinco pontas
O simbolismo da estrela de 5 pontas está associado ao simbolismo do número 5. Este, é a soma do primeiro número par (2) e do primeiro número ímpar (3). Por outro lado, o número 5 está no meio dos nove primeiros números. Segundo os pitagóricos é o número do centro, da harmonia e do equilíbrio [2]. É, assim, um símbolo da ordem e da perfeição e como tal, símbolo da vontade divina, a qual não pode desejar senão a ordem e a perfeição [1]. A estrela de 5 pontas, pode assim ser encarada como um símbolo apotropaico, que neste caso protege o utilizador do púcaro, de espíritos malignos ou nocivos, tais como as bruxas ou o mau olhado.
A palma
Remonta à antiguidade clássica o hábito de receber heróis com palmas (ramos de palmeira). Daí que Jesus tenha sido recebido triunfalmente em Jerusalém com palmas e estas sejam encaradas como um símbolo cristão da vitória. Por outro lado, como as palmeiras se mantêm sempre verdes, a palma tem associado a ela o simbolismo da eternidade. A palma, é de resto, utilizada como atributo na representação de mártires, isto é, é utilizada como símbolo de martírio.
Admito que as palmas tenham sido utilizadas na decoração do púcaro, como modo de expressar ao seu utilizador, votos de vitória e de vida eterna.
Chapelada final
A grande beleza morfológica do arcaico púcaro, aliada ao forte simbolismo da sua decoração, poderão ter estado na base da dificuldade sentida pele proprietário em o adquirir ao antiquário Venceslau Lobo (1928-1986), do Museu dos Cristos, em Borba. A datação do exemplar olárico permanece uma incógnita, cuja decifração não esteve ao meu alcance.
terça-feira, 1 de novembro de 2022
Adagiário do Dia de Todos-os-Santos
OS PRECURSORES DE CRISTO COM SANTOS E MÁRTIRES (c.1423-24). Fra Angélico
(c. 1395 - 1455). Têmpera sobre madeira (31,9 x 63,5 cm). National Gallery, London.
A 1 de Novembro, a Igreja Católica celebra o Dia de Todos-os-Santos, como uma festa em honra de todos os Santos e Mártires, conhecidos e desconhecidos. Relativamente a esta efeméride, a literatura de tradição oral regista a presença dos seguintes adágios:
- De Santos a Santo André, um mês é; de Santo André ao Natal, três semanas.
- De Santos ao Natal, ou bom chover ou bem nevar.
- De Todos os Santos ao Advento, nem muita chuva nem muito vento.
- De Todos os Santos ao Natal, bom é chover e melhor nevar.
- De Todos os Santos ao Natal, perde a padeira o capital.
- De Todos os Santos ao Natal, perde a padeira o natural.
- De Todos os Santos até ao Natal, perde a padeira o cabedal.
- Depois dos Santos, neve nos campos.
- Dos Santos ao Advento, nem muita chuva nem muito vento.
- Dos Santos ao Natal, bico de pardal.
- Dos Santos ao Natal é bom chover e melhor nevar.
- Dos Santos ao Natal é Inverno natural.
- Dos Santos ao Natal perde a padeira o cabedal.
- Dos Santos ao Natal vai um salto de pardal.
- Dos Santos ao Natal, Inverno geral.
- Dos Santos ao Natal, perde o marinheiro o cabedal.
- O Verão de São Martinho, a vareja de São Simão e a cheia de Santos são três coisas que nunca faltaram nem faltarão.
- Pelos Santos, favas por todos os cantos.
- Pelos Santos, neve nos campos.
- Por Santos semeia trigo e colhe cardos.
- Por Todos os Santos, neve nos campos; por dia de São Nicolau, neve no chão.
- Por Todos os Santos, semeia trigo e colhe cardos.
- Por Todos os Santos, semeia trigo, colhe castanhas.
Publicado inicialmente a 1 de Novembro de 2022
domingo, 30 de outubro de 2022
DESCOBERTA ARQUEOLÓGICA NO LARGO DO OUTEIRO / Decoração apotropaica numa parede
Fachada da casa com os números 24 e 25 do Largo do Outeiro, em Estremoz.
Caiar é preciso
No Alentejo existe a tradição ancestral de caiar as casas de branco, o que ocorre durante o Verão. Trata-se de uma tarefa outrora desempenhada essencialmente por mulheres, a quem competia a missão de fazer cumprir o rifão: “Dá-me brancura, dar-te-ei formusura”. O cancioneiro popular alentejano regista que “Nas terras do Alentejo / É tudo tão asseado... / As casas e o coração, / Sempre tudo anda lavado...”. A caiação duma casa podia merecer reparos, desde que não fosse integral: “000
A alvura das paredes é tradicionalmente considerada uma marca identitária do Alentejo, já que o branco maximiza a reflexão da luz solar, conferindo protecção contra a torrina do Sol no Verão.
Da pintura à arqueologia
Pelos mais diferentes motivos, a tradição já não é o que era. A caiação das paredes com recurso a cal branca tem sido substituída pela pintura com tintas de água. É quase regra nas cidades, onde a pintura de paredes exteriores é muitas vezes entregue a pintores profissionais.
Foi o que fez recentemente o meu prezado amigo Nuno Ramalho, face à necessidade de pintura da fachada da casa dos seus pais, sita nos números 24 e 25 do Largo do Outeiro, em Estremoz. A fachada encontrava-se com mau aspecto e em determinada zona, a cobertura da mesma encontrava-se mesmo empolada, pelo que antes da aplicação da tinta, os pintores tiverem necessidade de usar jacto de água, para remover as ampolas. De contrário, a pintura não ficaria uniforme.
Qual não foi o espanto, quanto o jacto de água, revela a existência daquilo que configurava ser uma pintura anterior à existência da janela do 1º andar esquerdo e que terá sido sacrificada para rasgar aquela janela. Significa isto que primitivamente a casa só teria a janela do 1º andar direito, a qual seria mais pequena que actualmente, uma vez que as ombreiras foram acrescentadas na parte superior, para a janela ficar com a mesma altura da janela que então foi rasgada no lado esquerdo da fachada.
Qualquer das janelas ostenta sobre as ombreiras, padieiras em alvenaria, características do séc. XVIII, ornamentadas com florões em estuque.
Comparando a tipologia da fachada com a das casas limítrofes, constata-se que falta ali uma chaminé, a qual terá sido sacrificada em benefício da abertura de uma janela, tendo a chaminé sido edificada noutra zona da casa. Trata-se de uma conclusão importante na medida em que a decoração da fachada posta agora a descoberto, era uma decoração da chaminé parcialmente desaparecida para dar lugar a uma nova janela.
O esmiuçar da “pintura”
A análise minuciosa daquilo que parecia ser uma pintura, mostrou que de facto não o era. Na verdade, a técnica usada na decoração da fachada revelou ter sido uma técnica mista, a qual combinou o baixo relevo com o preenchimento do mesmo com uma argamassa colorida com um aditivo castanho avermelhado que poderá ter sido pigmento de óxido de ferro ou tijolo em pó.
O facto de a decoração ter sido efectuada numa chaminé, permite concluir estar-se em presença de uma decoração apotropaica, efectuada com símbolos apotropaicos, isto é, símbolos em relação aos quais existia a crença de possuírem poder para afastar espíritos perversos ou danosos, tais como as bruxas ou o mau olhado. É que existia a crença de que embora as portas e as janelas estivessem bem fechadas, os espíritos malignos poderiam entrar pelas chaminés.
O facto de a parte inferior da decoração ser simétrica em relação ao eixo central e vertical, leva a admitir a forte probabilidade de a composição da decoração ser toda ela simétrica em relação a esse mesmo eixo. A grande incógnita parece ser a parte central da decoração. Todavia são visíveis 3 sectores semicirculares a castanho avermelhado, com um situado num plano superior aos outros dois. Este conjunto parece procurar representar um amontado de pedras, o qual poderá corresponder a uma representação do Calvário, ou seja, da colina onde Jesus terá sido crucificado. A parte desaparecida da representação incluiria assim na sua parte central, uma cruz latina disposta segundo a vertical. A cruz latina é o símbolo principal do cristianismo. Para os cristãos representa não só a crucificação, como evoca a ressurreição e a esperança de vida eterna.
Incluindo a parte desaparecida da decoração apotropaica, o conjunto incluiria 4 símbolos conhecidos por “nove pontos rodeados”, um no centro duma roda e oito distribuídos à volta da mesma. Cada símbolo “9 pontos rodeados” está inscrito noutra roda, a qual reforça o poder do símbolo. A roda é um símbolo de libertação do lugar e do estado espiritual que lhe está associado.
Vejamos qual o simbolismo dos “9 pontos rodeados”. Desses 9 pontos, 1 está no centro da roda central e os outros 8 distribuem-se regularmente ao longo dessa roda. Numa perspectiva cristã, o ponto central corresponde a 1 e representa Deus, o Único, o Princípio de tudo. Os outros 8 pontos correspondem ao oitavo dia, que sucede aos 6 da criação e ao sabat (dia sagrado e de descanso no judaísmo) e é o símbolo da ressurreição, da transfiguração, anúncio da vida eterna. Sintetizando: os “9 pontos rodeados” simbolizam a criação do mundo por Deus, tal como é referida no Genesis e como tal a crença no poder de Deus sobre todas as coisas. A existência de 4 conjuntos de “9 pontos rodeados”, dispostos na decoração atropopaica em quadrangulação em simetria, resulta de o número quatro se comportar na Bíblia Sagrada como aquele que representa a criação de Deus e a totalidade das coisas.
A decoração apotropaica incluiria ainda, aquilo que me parecem ser dois vasos com flores, dispostos de cada um dos lados da cruz latina. Como o simbolismo da decoração apotropaica agora descoberta é de natureza cristã, sou levado a admitir que o vaso com flores possa ser um vaso com açucenas brancas. O vaso é símbolo do princípio feminino e as açucenas simbolizam a pureza, a castidade, a feminilidade e a virgindade da Virgem Maria. Resumindo: o vaso com açucenas é uma representação simbólica da Virgem Maria. A existência de dois vasos com açucenas, um de cada lado da cruz latina, é justificado porque a Virgem Maria como Mãe de Jesus, tem associado a ela o princípio feminino, ao qual era na antiguidade atribuído o número dois.
Na decoração apotropaica objecto do presente estudo, aparecem representados simbolicamente: DEUS (“9 pontos rodeados”), JESUS (Cálvário com cruz latina) e a VIRGEM MARIA (Vaso com açucenas). Significa
isto que no seu conjunto, a decoração apotropaica visa invocar a protecção do Poder
Divino para afastar espíritos perversos ou danosos e proteger aquela casa de
todos os males. De salientar que para os cristãos, Jesus e Deus é um só, além
que que é ilimitado o poder de intercessão da Virgem Maria junto de Jesus.
A decoração apotropaica está datada com um número que me parece ser 1668, número inscrito numa figura delimitada por quatro chavetas dispostas entre 4 pontos, como se formassem um losango. Tanto quanto me é dado conhecer dos trabalhos de Luís Lobato de Faria (2), esta será a mais antiga decoração apotropaica do Alentejo.
Outeiro, quem te viu
A oficina da velha barrista Gertrudes Rosa Marques (1840-1975) situada no Outeiro, foi visitada em 1913 pelo etnógrafo D. Sebastião Pessanha (1892-1975), que lhe encomendou Bonecos de Estremoz para o Museu Etnológico Português e publicou textos sobre o seu trabalho. O mesmo viria a acontecer em 1916 com o etnólogo Luís Chaves (1888-1975).
Dada a singularidade e beleza do seu casario, o Largo do Outeiro, por muitos considerado uma rua, inspirou artistas plásticos locais que o perpetuaram nos seus trabalhos: Mestre Joaquim Prudêncio (1887-1970) em aguarela de 1936 e Roberto Alcaide (1903-1979) em guache de 1944.
Da Rua do Outeiro, rua de oleiros e bonequeiras, nos fala a “Marcha do Outeiro”, vencedora do concurso de Marchas Populares de Estremoz, em 1948: “O outeiro iluminado / de rubras malvas bordado, / tanta graça Deus lhe pôs!) / que foi berço das primeiras / fantasias das oleiras / nos bonecos de Estremoz!”. A letra da marcha era da autoria de Luís Rui, pseudónimo literário de Joaquim Vermelho (1927-2002), que se tornaria um destacado estudioso da barrística popular estremocense.
No 3º quartel do séc. XX, o Largo do Outeiro revelava ainda enorme beleza, muita dela proveniente da garridice dos alegretes floridos que ladeavam as casas, aos quais as mulheres dedicavam especial atenção, parecendo que competiam umas com as outras. O Largo estava cheio de vida e as crianças tinham o privilégio de brincar à vontade, porque a escadaria só permitia trânsito pedonal.
Outeiro, quem te vê
Segundo Nuno Ramalho, o Largo do Outeiro é constituído por 21 casas, a que correspondem 29 números de polícia. 2 dessas casas têm os telhados abatidos, o que corresponde a 4 números de polícia desabitados. Para além destes, há mais 11 números de polícia desabitados. A percentagem de números de polícia desabitados é assim superior a 50%, o que é revelador da falta de condições de habitabilidade das casas.
A limpeza da calçada do pátio frontal das casas, outrora assegurado pelos moradores, já conheceu melhores dias. Os alegretes outrora repletos de flores estão quase todos vazios e alguns foram mesmo indevidamente cimentados. O aspecto geral do Largo é um aspecto de abandono, que faz lembrar um moribundo à espera que o possam salvar.
Quem acode ao Outeiro?
A decoração apotropaica agora descoberta, que tudo leva a crer seja a mais antiga conhecida no Alentejo, pode-se tornar num pólo de atracção turística, desde que devidamente divulgada.
Que poderá o actual Executivo Municipal fazer pela recuperação do Largo do Outeiro e ruas limítrofes? É que a história da barrística popular estremocense passa por ali e os executivos municipais precedentes, esqueceram-se disso.
Este texto foi publicado no jornal E nº 298, de 27 de Outubro de 2022, numa versão provisória,
existente á hora do fecho da edição, na noite do dia 25. A versão aqui presente é posterior e
ainda não é a versão definitiva.
BIBLIOGRAFIA
(1) - CHEVALIER; Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de Símbolos. 6ª ed. José Olímpio. Rio de Janeiro, 1992.
(2) - LOBATO DE FARIA, Luís. Estudos - Luis Lobato de Faria. [Em linha]. Disponível em: https://alentejoinportugal.blogspot.com/2020/06/alentejo-apotropaico-i-parte.html . [Consultado em 21 de Outubro de 2022].
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