quinta-feira, 3 de fevereiro de 2022

Nova tipologia de olaria enfeitada

 

Fig. 1 - Prato relevado enfeitado. Olaria Alfacinha. Anos 30 do séc. XX
ou mesmo anterior. Colecção Hernâni Matos.


Adquiri há já algum tempo um prato (Fig. 1 e Fig. 2), cujo estudo revelou ser da maior importância para a barrística de Estremoz.Trata-se de um prato de barro vermelho, circular, de grandes dimensões (38,5 cm x 29, 5 cm x 4 cm), com covo pouco acentuado, de aba levantada e relevada com motivo decorativo em forma de U com a abertura dirigida para o centro do prato, o qual se repete ao longo de toda a extensão da aba. Filete relevado junto ao bordo e à caldeira. Fundo de cor castanha. Decoração do fundo com motivos frutícolas, configurando um ramo de pessegueiro [1] , ao longo do qual se distribuem nove folhas verdes e do qual pendem quatro pêssegos com coloração amarelo esverdeado e avermelhada. Cromaticamente estamos em presença de uma quadricromia castanho – verde – amarelo esverdeado – avermelhado. No tardoz encontra-se gravada a marca de fabrico Tipo 2 - Legenda “OLARIA ALFACINHA / ESTREMOZ“, inscrita numa coroa circular de 2,5 cm e 1,7 cm de diâmetro, com a palavra “PORTUGAL”, ao centro.[2] Esta marca foi já por mim inventariada no texto ”Medalhas de barro de Estremoz”, datado de 12 de Novembro de 2012.[3] É conhecida em medalha com o brasão de armas de Estremoz, datada de 1933. Esta é a data de aposição mais antiga desta marca que conheço, o que me leva a admitir que o prato foi produzido, pelo menos, nos anos 30 do séc. XX. No tardoz observam-se ainda dois orifícios para permitirem a passagem de um fio ou um arame, que permita a suspensão mural do prato.A observação atenta do prato na parte respeitante à aba, permite concluir que a perfeição do relevado é reveladora de que o prato não foi modelado na roda, mas produzido através de molde. A observação cuidada da decoração frutícola do fundo, permite inferir que os seus componentes, frutos e folhas, após serem moldados terão sido fixados com barbutina. O exemplar analisado é uma peça de olaria obtida por moldagem, tal como o candelabro, o castiçal e a palmatória e enfeitada com elementos obtidos por moldagem (frutos e folhas), tal como a cantarinha, o pucarinho, o candelabro e a terrina são enfeitados com elementos obtidos por moldagem (flores e bugalhos).A perfeição da moldagem, tanto na aba do prato como nos componentes frutícolas, leva-me a concluir estar em presença de uma peça erudita com decoração de cunho naturalista. Creio ser legítimo concluir que estamos em presença de mais uma tipologia de olaria enfeitada, apesar de no seu cromatismo não predominarem as habituais cores, zarcão, azul, verde e vermelho, predominantes nas outras tipologias de olaria enfeitada, todas elas de cunho popular. Tal facto não é de estranhar, dada a natureza erudita e naturalista da manufactura.
Termino com estes versos em redondilha maior:

Nota: a olaria enfeitada,
Merece definição,
Já que é bem variada
A sua composição.

[1] Conheço ainda um outro exemplar da mesma tipologia, pertencente a colecção particular, com fundo e aba de cores diferentes daquele que aqui apresentei e em que a decoração frutícola é um ramo de limoeiro.
[2] Existe ainda a marca de fabrico Tipo 1 - Legenda “OLARIA ALFACINHA / ESTREMOZ“, inscrita numa coroa circular de 2,3 cm e 1,4 cm de diâmetro, com a palavra “PORTUGAL”, ao centro.
[3] MATOS, Hernâni. Medalhas de barro de Estremoz. Estremoz, 2012. [Em linha]. Disponível em https://dotempodaoutrasenhora.blogspot.com/2012/11/medalhas-de-barro-de-estremoz.html [Consultado em 03 de Fevereiro de 2022].

Hernâni Matos
Publicado em 3 de Fevereiro de 1922

Fig. 2 - Marca de fabrico Tipo 2 - Legenda “OLARIA ALFACINHA / ESTREMOZ“,
inscrita numa coroa circular de 2,5 cm e 1,7 cm de diâmetro, com a palavra
“PORTUGAL”, ao centro.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2022

Louça vidrada de barro vermelho, da Olaria Alfacinha


Prato vidrado de barro vermelho. Olaria Alfacinha (1987-1995).



É sabido que a Olaria Alfacinha foi fundada por Caetano Augusto da Conceição, no último quartel do séc. XIX, na Rua do Arco, transferindo-se sucessivamente para a Casa das Fardas e para a Rua de Santo Antonico, todas em Estremoz.
No 1º quartel do séc. XX, a Olaria Alfacinha dirigida por Narciso Augusto da Conceição, filho de Caetano, além da louça de barro vermelho, corrente, produziu louça vidrada, então com muita procura. A produção deste tipo de louça terá cessado em data por mim desconhecida.
A Olaria esteve na posse da família até 1987, data em que foi vendida a Rui Pires de Zêzere Barradas, professor, que conjuntamente com sua mulher Cristina, dela foi co-proprietário até 1995, ano em que a Olaria cessou, até hoje, a sua actividade.
Rui Barradas é barrista, azulejista e pintor. Como barrista, no período 1985-1990, produziu Bonecos que comercializou na Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz.
Durante o período em que foi proprietário da Olaria Alfacinha, Rui Barradas produziu também louça vidrada de barro vermelho, que conjuntamente com os seus Bonecos, era comercializada numa loja de artesanato que com sua mulher Cristina, foi co-proprietário na Praça Luís de Camões, nº 11, em Estremoz. Remonta a esse período, o prato raso (14,5 cm de diâmetro) que ilustra o presente texto, o qual documenta a 2ª fase de produção de louça vidrada de barro vermelho pela Olaria Alfacinha.
O prato foi modelado pelo oleiro sr. Rita, de Redondo, o qual na época trabalhava aos sábados na Olaria Alfacinha. A decoração do prato é de autor desconhecido.

Hernâni Matos

Tardoz do prato com a marca de produção, manuscrita:
OLARIA / ALFACINHA / ESTREMOZ / PORTUGAL

domingo, 30 de janeiro de 2022

Redondo, terra de oleiros e de vinho

 

Prato covo, de médias dimensões, com superfície interna de cor creme, de aba
ligeiramente inclinada para o lado de dentro. Decoração esgrafitada e pintada com
base em tricromia verde-amarelo-castanho. Fundo ilustrado com um cacho de uvas
acastanhadas, acompanhadas de duas parras e duas gavinhas em verde. Aba decorada
com sucessivos arcos pintados de verde e cuja concavidade virada para o bordo do
prato, se encontra preenchida a amarelo. Acima da zona em que os arcos verdes se
encontram, situam-se bolas acastanhadas. Mestre Álvaro Chalana (1916-1983).
Colecção particular.

Redondo, terra de vinhos
Tanto quanto sei, são em número de nove, as adegas produtoras de vinho de Redondo: Adega Cooperativa de Redondo, Agrovinaz, Casa Agrícola Santana Ramalho, Casa Relvas, Herdade da Maroteira – Adega, Herdade do Freixo, Sociedade Agrícola Mouchão da Póvoa, Ségur Estates Redondo Winery e Herdade da Candeeira.
Os vinhos da região têm sido distinguidos com alguns dos maiores galardões nacionais e internacionais, fruto da produção vitivinícola utilizar castas de uvas diversificadas, mas com grande capacidade de adaptação aos solos e ao clima da região, o que tem reflexos altamente positivos na produção dos vinhos criados pelos enólogas das diferentes adegas.

Redondo, terra de oleiros
De acordo com o historiador redondense José Calado [4] “A profissão de oleiro é demasiada antiga e existirá naquilo que hoje consideramos concelho de Redondo desde pelo menos 3.000 A.C. Diremos convictamente que desde 1250, altura em quer D. Afonso III lhe terá concedido formação administrativa, que a vila de Redondo tem oleiros a laborar ininterruptamente.”.
A vila de Redondo é famosa pela sua loiça de barro vermelho vidrado, muitas vezes decorada com motivos, que entre muitos outros, são o vinho, a vinha e as uvas, como é o caso do prato da figura.
As uvas, que constituem o motivo central da decoração do prato redondense, integram a nossa literatura de tradição oral como passo a exemplificar.

Adagiário
A língua portuguesa incorpora adágios referentes às uvas, nos quais são salientados alguns aspectos que passo a referir:
- EXCELÊNCIA DAS UVAS DO SUL: Uva do sul, figo do norte.
- SITUAÇÃO A EVITAR NA VINHA: Muita parra e pouca uva.
- RIQUEZA ALIMENTAR: Uvas, figo e melão, é sustento de nutrição.
- SABOR: Uvas, pão e queijo, sabem a beijo.
- AS UVAS SÃO PARA SE COMER: Olhar para a uva não mata a sede.
- CONSELHO: Em passando o São Miguel apanhas uvas e figos por onde houver, mas acautela as costas se o dono lá estiver.
- AVISO - NEM TODAS AS UVAS SÃO BOAS: Uvas verdes, nem os cães as comem.

Gíria popular
A palavra “uva” faz parte de algumas frases idiomáticas que integram a gíria popular. Eis algumas delas:
- Uva passa = A que foi seca ao sol, em forno ou em evaporador.
- Uva passa = Pessoa magra e seca
- Uvas de enforcado - As que pendem das árvores
- Ser uma uva = Ser um amor
- Pôr as uvas em pisa a alguém = Dar-lhe grande sova
- Chão que já deus uvas = Pessoa ou coisa que já perdeu o valor

Epílogo
A cerâmica redondense é património imaterial da vila de Redondo, como são, de resto, a viticultura local e as “falas” que andam na boca do povo. É uma trindade grata às gentes de Redondo.

BIBLIOGRAFIA
[1] - CALADO, José. Redondo Terra de Oleiros. Santa Casa da Misericórdia de Redondo. Redondo, 2013.
[2] - MARQUES DA COSTA, José Ricardo. O livro dos provérbios portugueses (1.ª ed). Editorial Presença. Lisboa, 1999.
[3] - NEVES, Orlando. Dicionário de Expressões Correntes. Editorial Notícias. Lisboa, 1998.
[4] - REDONDO, Município de. Adegas. [Em linha]. Disponível em https://www.cm-redondo.pt/visitante/saborear/adegas/ [Consultado em 29 de Janeiro de 2002].
[5] - SANTOS, António Nogueira. Novos dicionários de expressões idiomáticas. Edições João Sá da Costa. Lisboa, 1990.

Hernâni Matos

domingo, 23 de janeiro de 2022

Produção olárica de Estremoz comercializada como recordação de Évora


Bilha com decoração mista, polida e relevada. A decoração polida é de natureza
geométrica. A decoração relevada tem duas componentes: o templo romano de
 Évora e decoração fitomórfica, com ramos, folhas e frutos de sobreiro. 3º quartel
do séc. XX.

As feiras constituíram sempre um importante meio de escoamento da produção olárica de Estremoz. Não é, pois, de admirar que na decoração do vasilhame de barro vermelho de Estremoz, tenham sido utilizados componentes decorativos identificadores do local onde se realizava a feira. É que tais componentes potenciavam a venda de tal vasilhame como recordação desse local e da ida à feira.
Uma das feiras mais frequentadas desde sempre pelos oleiros de Estremoz, foi a Feira de São João, realizada há mais de 500 anos no Rossio de S. Brás em Évora, durante um período que inclui o dia 24 de Junho, dia de nascimento do taumaturgo e profeta que previu o advento e o nascimento de Jesus. Tal como Santo António e São Pedro, São João é um santo popular muito festejado em Portugal e particularmente em Évora.
O componente decorativo usado pelos oleiros de Estremoz no “marketing” da sua produção foi o templo romano de Évora, símbolo emblemático e ex-líbris desta última cidade.
Além do componente decorativo atrás referido, o vasilhame era embelezado, recorrendo a 5 tipos de decoração, muitas vezes combinados: empedrado, riscado, picado, polido e relevado com uma composição fitomórfica que incluía ramos, folhas e frutos de sobreiro.
De salientar que a bibliografia existente não refere o tipo de decoração conhecido por “picado” e que era utilizada na Olaria Regional de Mário Lagartinho. Um tal tipo de decoração consistia em percutir o vasilhame ainda fresco, com o topo de uma cápsula de bala, de um cartucho de caça vazio ou com a extremidade de um tubo com perfil considerado interessante pelo oleiro e aplicado por quem procedia à decoração, geralmente mulheres (polideiras).

Hernâni Matos
Publicado inicialmente  em 23 de janeiro de 2022


Moringue com decoração mista, empedrada, riscada e relevada com templo
romano de Évora. 3º quartel do séc. XX.

Moringue com decoração mista, polida e relevada. A decoração polida é de
natureza geométrica. A decoração relevada é constituída pelo templo romano
de Évora. 3º quartel do séc. XX.

Cântaro com decoração mista, empedrada, riscada. picada e relevada com
templo romano se Évora. 3º quartel do séc. XX.
 

quarta-feira, 19 de janeiro de 2022

O galo na cerâmica de Redondo

 

Galo. Álvaro Chalana

OS GALLOS

Sam o relogio do pobre
os gallos madrugadôres,
que ainda a noite nos cobre
já andam eles de amôres.
……………………………………….
Por isso os homens, rendidos
á vigilância dos gallos,
nos campanários erguidos
costumam sempre arvora-los-

António de Monforte in
Tronco reverdecido

Prólogo
O galo é um tema decorativo recorrente na cerâmica de Redondo, tal como o é na Barrística de Estremoz, na cerâmica de Barcelos ou das Caldas da Rainha, bem como na faiança portuguesa antiga. Creio que o peso que aquela ave tem na cultura popular, ajuda a perceber aquela recorrência.

Gastronomia
São conhecidos pratos como: Arroz de galo. Estufado de grão com galo caseiro. Galo à bordalesa. Galo ao vinho. Galo assado à moda da chanfana. Galo assado à moda de Barcelos. Galo assado no forno. Galo capão recheado no forno. Galo caseiro à minhota. Galo de cabidela. Galo estufado. Galo guisado. Galo no forno com laranja.

Adagiário
Dentre o adagiário alectório, respiguei os seguintes espécimenes: Aos afortunados até os galos lhe põem ovos. Galo branco não dá manhã certa. Galo capão é que sai cantando de galinha. Galo loiro dá agoiro. Galo pedrês, não o vendas nem o dês. Galo, quer-se novo. Gavião pega pinto, mas respeita galo. Moço e galo, um só ano. O bom galo não engorda. O galo canta só onde tem morada. O galo, no seu poleiro, é rei. Onde estão galos de fama, não têm pintos que fazer. Onde o galo canta, aí janta. Para doze galinhas basta um galo. Sem galos novos não nascem pintos. Tarde piaste para galo. Todo o galo tem o seu poleiro.

Gíria popular
Destaco as seguintes frases idiomáticas de cunho popular: - Cantar de galo = Assumir atitudes arrogantes por ocupar posição privilegiada; - Ficar para galo de S. Roque = Referência a mulher que não se casa; - Galo = Elevação na testa ou na cabeça produzida por pancada; - Galo = Gomo de laranja (Beira); - Galo = Indivíduo que não dá gorjeta ao barbeiro e ao engraxador; - Galo = Termo que exprime indiferentemente azar ou sorte; - Galo = Variedade de ameixa alentejana; - Galo de rinha = Galo de combate = Pessoa conflituosa = Pessoa brigona; - Galo doido = Homem volúvel = Tresloucado = Cabeça no ar; - Memória de galo = Fraca memória; - Missa do galo = Primeira missa do Natal, celebrada à meia-noite de 24 de Dezembro; - Outro galo cantaria = Expressão usada para sublinhar que, tendo-se verificado determinado facto, os resultados teriam sido muito diferentes; - Salgar o galo = Matar o bicho = Tomar bebida alcoólica pela primeira vez no dia;

Alcunhas alentejanas
No Alentejo, com base em particularidades dos indivíduos, são conhecidos epítetos como: - GALO - Alcunha outorgada a: - indivíduo muito vaidoso (Avis e Borba); - sujeito que anda metido com muitas mulheres (Odemira); - homem que se zangava com facilidade e gostava de se armar em galo (Évora); - alguém considerado muito aéreo (Aljustrel); - indivíduo que se levantava bastante cedo e sempre a cantar (Moura); - alguém que a herdou do avô (Moura); - sujeito que quando estava bêbado, tinha o hábito de gritar: "Olha o galo!" (Redondo); - sujeito que gosta muito de cantar (Estremoz); - indivíduo que está sempre a olhar para as mulheres (Grândola). - GALO BÊBADO - Epíteto atribuído a um indivíduo muito bêbado (Beja); - GALO BRANCO - Denominação aplicada a um sujeito que tem o cabelo branco (Cuba); - GALO CEGO - O visado vê mal (Moura); - GALO MALHADO - O pai do visado, quando este era pequeno, na sequência de um problema de saúde, ficou com manchas, passando a ser designado por "galo malhado", alcunha assumida pelo filho (Mértola). - GALO MARICAS - Alcunha atribuída a um indivíduo efeminado (Moura). - GALO PRETO - O visado, aparvalhado, um dia pôs um galo preto em cima da cabeça (Redondo).

Mitologia popular
Fazem parte do conjunto das crenças e superstições populares a seguintes: - O galo quando canta diz: “Jesus é Cristo.”; - Ao fim de sete anos de estar numa casa, o galo põe um ovo donde sai uma serpente. Se esta olha, primeiro o dono da casa, este morre. Se acontecer o contrário, é a serpente que morre; - Em chegando a velhos, os galos põem um ovo, do qual nasce um sardão, que mata o dono da casa; - Galo que canta como galinha, é mau agouro; - Se os galos e as galinhas cantam muito, é sinal de chuva; - Se um galo canta ao sol-posto, é sinal de morte; - Se os galos cantarem de noite, todas as coisas más se espalham; - É mau agouro um galo cantar antes da meia-noite. Lá diz o provérbio: “Galo que fora de horas canta / Cutelo na garganta.”; - Se os galos cantarem antes da meia-noite, é anúncio de mudança de tempo; - Se um galo canta antes da meia-noite, é sinal de navio à barra, ou que alguma filha foge de casa; - Se um galo canta quatro vezes antes da meia-noite, é sinal de morte; - O canto do galo à meia-noite faz dispersar a assembleia do Diabo e das Bruxas; - Uma pessoa que coma atrás duma porta, cristas de galo assadas, perde o medo; - O galo preto espanta as coisas ruins; - À meia-noite da noite de Natal, na igreja diz-se a missa do galo; - Nos telhados e mas torres das igrejas é hábito pôr um galo de ferro a fazer de catavento;

Epílogo
Creio que a recorrência do galo nos mais diversos domínios da cultura popular, ajuda a perceber o facto der ser igualmente um tema decorativo recorrente na cerâmica de Redondo.

BIBLIOGRAFIA
BESSA, Alberto. A Gíria Portugueza. Gomes de Carvalho-Editor. Lisboa, 1901.
BÍVAR, Artur. Dicionário Geral e Analógico da Língua Portuguesa. 1948.
BLUTEAU, Raphael. Vocabulario Portuguez & Latino (10 vol.). Coimbra, 1712-1728.
CONSIGLIERI PEDROSO, “Supertições Populares”, O Positivismo: revista de Filosofia, Vol. III. Porto, 1881.
DELGADO, Manuel Joaquim Delgado. Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo. Vol. I. Instituto Nacional de Investigação Científica. Lisboa, 1980.
DELICADO, António. Adagios portuguezes reduzidos a lugares communs / pello lecenciado Antonio Delicado, Prior da Parrochial Igreja de Nossa Senhora da charidade, termo da cidade de Euora. Officina de Domingos Lopes Rosa. Lisboa, 1651.
FIGUEIREDO, Cândido de. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. 1913.
FIGUEIREDO, Cândido de. Novo Dicionário de Língua Portuguesa. (2 vol.). Editora Portugal-Brasil Limitada, 1922.
LAPA. Albino. Dicionário de Calão. Edição do Autor. Lisboa, 1959.
LEITE DE VASCONCELLOS, José. Tradições Populares de Portugal. Livraria Portuense de Clavel e C.ª – Editores. Porto, 1882.
MARQUES DA COSTA, José Ricardo. O Livro dos Provérbios Portugueses. Editorial Presença. Lisboa, 1999.
MONFORTE, António de. Tronco reverdecido. Livraria Clássica Editora. Lisboa, 1910.
NEVES, Orlando. Dicionário de Expressões Correntes. Editorial Notícias, Lisboa, 1998.
NOBRE, Eduardo. Dicionário de Calão. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1986.
PIRES, A. Tomaz. Cantos Populares Portuguezes. Vol. II. Typographia Progresso. Elvas, 1905.
PRAÇA, Afonso. Novo Dicionário de Calão. Editorial Notícias. Lisboa, 2001.
SANTOS, António Nogueira. Novos dicionários de expressões idiomáticas. Edições João Sá da Costa. Lisboa, 1990.
SIMÕES, Guilherme Augusto. Dicionário de Expressões Populares Portuguesas. Publicações Dom Quixote. Lisboa, 1993.
SOUSA. Luís de. Dizeres da Ilha da Madeira. Palavras e Locuções. Edição do autor. Funchal, 1950.
TAVARES DA SILVA, D. A. Esboço Dum Vocabulário Agrícola Regional. Separata dos Anais do Instituto Superior de Agronomia, Vol. XI. Lisboa, 1942.
THOMAZ PIRES, A. Tradições Populares Transtaganas. Tipographia Moderna. Elvas, 1927.
THOMAZ PIRES, A. Vocabulário alemtejano. Editor – António José Torres de Carvalho. Elvas, 1913.

Galo. Ti Rita.

Galo. Olaria Cabeça.

Escola de Olaria de Redondo.

Galo. Xico Tarefa.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2022

O Benfica na cerâmica de Redondo

 

Prato covo, falante, de médias dimensões (40 cm x 28,5 cm x 6,5 cm), em barro
vermelho, vidrado, de Redondo. Decoração com pintura que exalta o contributo de
dois bem conhecidos jogadores nas vitórias do SLB. Produzido entre 1985 e 1987.

Eu, benfiquista me confesso
Nasci numa família benfiquista e nunca tive razões para não o ser. Mesmo que o clube saia derrotado e não ganhe a taça em disputa, eu continuo benfiquista. Sou benfiquista de alma e coração. Vermelho por dentro e vermelho por fora. “Benfica até debaixo de água”, como proclama a “Marcha dos campeões”.
Respigador nato de tudo aquilo que me aquece a alma, encontrei à venda o prato que é objecto do presente texto. Foi tiro e queda. Quando o vi, disse para comigo:
- Este prato vai ser meu!
E foi. É desse prato que passo a falar.

Estudo do prato
Trata-se de um prato covo de médias dimensões (40 cm x 28,5 cm x 6,5 cm), em barro vermelho, vidrado, de Redondo. Não ostenta qualquer marca de oleiro no tardoz e a sua atribuição a Redondo, resultou da observação cuidada do barro, que me levou a concluir ter composição com as características bem conhecidas do barro da Vila de Redondo. Põe-se seguidamente a questão da datação do mesmo, a qual deixarei para mais tarde.
Trata-se de um prato falante, já que ostenta na parte superior da aba, a palavra “BENFICA” e na parte inferior da aba, as palavras “CARLOS / MANUEL” e “RAUL / AGUAS”, nomes de dois antigos jogadores do Benfica, representados no fundo do prato como duo de ataque, estando Raul Águas na posse da bola. A metade inferior do prato é verde, a cor do relvado. A metade superior é azul claro, a cor do céu. Num plano atrás dos jogadores, vêem-se desfraldadas ao vento, bandeiras supostamente de clubes que o Benfica derrotou na época em que foi produzido o prato, cujo bordo apresenta a cor natural do barro.

Datação do prato
Irei procurar datar o prato, recorrendo a dados futebolísticos.
Carlos Manuel (1958 - ) jogou como médio pelo SLB no período 1979-1987 e Rui Águas (1960 - ) jogou como avançado na mesma equipa, no período 1985-1988. Deste modo, os dois jogadores foram colegas de equipa nos anos de 1985, 1986 e 1987. Nesse período, O SLB venceu a “Primeira Liga” em 1986/1987, a “Taça de Portugal” em 1985/1986 e em 1986/1987 e, a “Supertaça Cândido dos Reis” em 1985. Sou levado a concluir que o prato que exalta o contributo daqueles dois jogadores nas vitórias do SLB, terá sido produzido em 1985, 1986 ou 1987.

domingo, 16 de janeiro de 2022

Cafeteira falante de Estremoz


Cafeteira falante com decoração polida, fitomórfica, com ramos e folhas de uma
planta não identificada. Ostenta no bojo, a inscrição em maiúsculas “CENTENÁRIO /
/ PINHAL – NOVO / 1874-1974”, riscada no barro. Comemorativa do 1º centenário
de conclusão das obras da Capela de São José naquela localidade. Fabrico de
olaria de Estremoz, não identificada.


Prólogo
O exemplar olárico que é objecto do presente texto, pompeia no bojo uma inscrição com duas datas, cuja presença importa descodificar.

Decifração da inscrição
1874 foi o ano da conclusão das obras da Capela de São José em terreno doado à população de Pinhal Novo para a construção de uma capela e para a realização de festejos. A doação foi efectuada em 18 de Julho de 1872 por José Maria dos Santos, lavrador, proprietário, deputado e Par do Reino, Vice-Presidente da Assistência Nacional aos Tuberculosos, membro da Direcção da Associação Central da Agricultura Portuguesa, o qual revolucionou a agricultura em Portugal e foi o responsável pela introdução de adubos químicos no país.
A data de 18 de Julho de 1872 corresponde ao primeiro acto público verdadeiramente importante para a vida da localidade. A história da formação da freguesia remonta ao ano de 1833, data em que já existiria o Círio da Carregueira, presumivelmente a mais antiga manifestação de organização em Pinhal Novo.
A Freguesia de Pinhal Novo foi criada em 7 de Fevereiro de 1928, pelo decreto nº 15004, tendo ascendido à categoria de Vila em 1988 pela Lei Nº45/88, de 19 de Abril de 1988.
A Paróquia foi criada em 22 de Novembro de 1964, por decreto do Cardeal Patriarca de Lisboa.
A freguesia de Pinhal Novo pertence ao concelho de Palmela, distrito de Setúbal. Ocupa uma área de 55,84 km² e de acordo com o censo de 2021 tem 27.010 habitantes, o que corresponde a uma densidade populacional de 483,7 hab./km2.

Epílogo
A cafeteira em barro de Estremoz, da qual venho falando, pertence a um conjunto encomendado não se sabe se pela Paróquia se pela Junta de Freguesia de Pinhal Novo, a uma das olarias de Estremoz existentes na época: a Alfacinha ou a Regional, não sendo possível apurar qual terá sido.
Trata-se de um exemplar de olaria falante cuja marca refere um topónimo (PINHAL NOVO), que não coincide com o local de fabrico (ESTREMOZ). Não é caso único. Pessoalmente conheço exemplares onde figuram os topónimos CASTELO DE BODE, ELVAS e ÉVORA e decerto haverá outros mais. Fui informado que tais inscrições ou eram de locais onde as olarias de Estremoz iam vender ou de onde recebiam encomendas que vinham a ser carregadas em Estremoz.

BIBLIOGRAFIA
PINHAL NOVO, Junta de Freguesia de. História de Pinhal Novo. [Em linha]. Disponível em
https://www.juntapinhalnovo.pt/territorio/historia . [Consultado em 16 de Janeiro de 2002].