terça-feira, 12 de julho de 2016

Euro 2016 - Humor

A vitória de Portugal no Euro 2016 deu origem à criação de múltiplos cartoons. Apresentamos aqui e sem comentários, uma selecção de alguns desses cartoons recolhidos na internet. 














































Hernâni Matos

quarta-feira, 6 de julho de 2016

53 – O Aguadeiro - 4


Aguadeiro.
Jorge da Conceição (1963-  ).
Colecção particular.

Literatura Alentejana
Como é sabido o(a) aguadeiro(a) era o homem ou mulher que acarretava água, que vendia nos domicílios ou na rua. Para além disso, no Alentejo também era designado por aguadeiro(a), o homem ou mulher que no decurso das ceifas, distribuía água para o pessoal se dessedentar. Iremos apontar aqui algumas referências literárias a nível de prosa.
No século XIX surgem-nos: - José da Silva Picão - ATRAVÉS DOS CAMPOS (1883): “Lá aliviam a miúde, para dizerem coisas ou para emborcarem golos de água fresca que a aguadeira lhes oferece,…”. - Fialho de Almeida - O AGUADEIRO ALENTEJANO in ÁLBUM DE COSTUMES PORTUGUESES (1888): “- E desta reclusão proposital da mulherinha que se fez dama, e acha que ir à fonte é ocupação imprópria de uma sécia nasceu o aguadeiro da vilota alentejana, o mariola válido e bistrado … e que em vez de cavar nas vinhas, ou de revolver a ferro de arado o esboroento salão dos sobreirais, anda de cachimbinho na boca, o grande relaxado, a apregoar – quem merca a água! – pelas ruelas sonolentas do povo, onde os porcos fossam nas estrumeiras, cigarras chiam, e um velho sino bate as horas, com uma plangência sinistra de tam-tam.”. - Conto O MENINO JESUS DO PARAÍSO in O PAÍS DAS UVAS (1893): “Com o camelo e o árabe, seria uma paisagem tangerina. Substituindo porém o dromedário por um cónego, e o árabe por um aguadeiro vestido de Saragoça, gritando “quem merca água!” adiante dum burro com cântaros de cobre, numas cangalhas de azinho, inesperadamente a feição muda, e não há Alentejo mais típico, nem gravura eborense mais “avant la lettre”. Entretanto o Paraíso de Évora é principalmente notável por três coisas: pelo seu aspecto exterior, pelo seu refeitório e pelos doces.”.
No século XX surgem-nos sucessivamente:
- Fialho de Almeida - Conto AVES MIGRADORAS in AVES MIGRADORAS (1914): “Lembra a rainha Dobrada, esposa de S. M. Termo tinto, dando beija-mão aos aguadeiros.”. - Júlio Dantas - ESPADAS E ROSAS  (1919): “Mas, para Alberto Sousa, como para o inglês Watts, “le paysage seul ne prouve rien”; é precisa a figura humana, o animal, o pormenor etnográfico a comunicar-lhe vida, intenção, movimento, —e assim, nas suas interpretações da écloga alentejana há sempre, ou uma mancha negra e confusa de gado, bezoando, cabritando, tilintando os chocalhos de cobre das Alcáçovas sob a guarda dos alfeireiros e dos rabadões, como no admirável trecho da Feira de S. Lourenço; ou o burro de um aguadeiro, como no Poço de Aljustrel;”. - J.A. Capela e Silva - GANHARIAS (1939): “Começa o martírio da sêde. E os homens pedem em grita a água que chega mórna, e que é ingerida em quantidades inverosimeis, continuamente distribuida pelo aguadeiro.”. - Manuel da Fonseca - CERROMAIOR (1943): - ”A maior parte dos camponeses já havia feito as compras e enchera as vendas do largo. De quando em quando, atraídos pelas gargalhadas dos que estavam de fora, chegavam às portas. O motivo do riso era a loucura mansa do aguadeiro, já bêbado, de fralda de camisa fora das calças, ajoelhado diante do burro. O meu burro é um santo!”. - Virgílio Ferreira - APARIÇÃO (1959): "A feira abriu com grande excitação. Todo o Rossio se iluminou de festa com … solitários vendedores de água com uma bilha e um copo ao lado,…”. - Mário Cláudio - AS BATALHAS DO CAIA (1995): “E impingiam-lhes os talhantes as carnes velhas e nervosas, abasteciam-nos as fruteiras das mais amargas laranjas, forneciam-lhes os aguadeiros a vaza das nascentes dos cemitérios, se não aquela em que haviam malevolamente mijado.”.
Hernâni Matos

sábado, 2 de julho de 2016

Auto do Convento de São Francisco


Convento de São Francisco em Estremoz, nos primórdios do séc. XX e anteriormente
a 1919, conforme datação de obliteração dos Correios. patente no verso.Na época
ainda não tinham sido construídos edifícios encostados ao lado direito do Convento
e não existia ainda o Quiosque Maniés, fundado em 1927. Bilhete-postal ilustrado de
editor não identificado com o nº 2248.

As personagens do auto, em número de quatro, podem ser assim descritas:
- MARIA DAS DORES: Octogenária, pálida e seca de carnes. Viúva dum oficial de Cavalaria, falecido há quarenta anos e cuja memória preserva, trajando luto carregado. Frequentadora assídua da Igreja, onde a prática do culto lhe mitiga as dores que lhe dilaceram a alma e o corpo.
- MARIA DA FÉ: Quarentona, solteira e de têmpera rija, é afilhada de Maria das Dores, a quem presta assistência familiar.
- CRUZ: Devoto e douto historiador de assuntos da Igreja, da qual foi ministro, dignidade de que abdicou por amor a uma mulher.
- MARTIM: Causídico de forte compleição e de sólidas convicções religiosas. Transporta sempre consigo um rosário de marfim, o qual guarda religiosamente num estojo de prata, finamente lavrado.
O enredo desenrola-se há duzentos anos atrás na nossa notável vila. Ao fim da tarde de um dia soalheiro de Primavera, Maria das Dores e Maria da Fé deslocam-se a caminho da Igreja do Convento de são Francisco, onde vão assistir à Santa Missa. Na praça Luís de Gamões e frente à Casa das Leis, atormentada pelo reumático, Maria das Dores é forçada a parar, no que é secundada pela afilhada. A elas se juntam Cruz e Martim, provenientes de direcções diferentes. Qualquer deles cumprimenta as piedosas senhoras, curvando o torso para a frente, ao mesmo tempo que tiram o chapéu da cabeça, em sinal de casta reverência. Decorridos os cumprimentos, Martim pergunta:
- A caminho da Igreja, não é verdade, minhas senhoras? Eu também e julgo que o mesmo se passará com o doutor Cruz.
Este último confirma a suposição de Martim, enquanto Maria das Dores responde:
- É verdade senhor doutor Martim. Aonde é que havia de ir, senão à nossa bela Igreja? Só ali encontro conforto para as minhas mágoas.
Cruz é então levado a dizer:
- Se me permite, Dona Maria das Dores, a nossa Igreja para além de bela e da sua importância em termos de culto, tem uma enorme importância histórica, arquitectónica, escultórica e azulejar. Nela estão sepultadas algumas figuras ilustres da nossa História e apesar da sua frontaria ser setecentista, os primórdios da Igreja remontam a data imprecisa do séc. XIII, já que começou por ser um convento franciscano.
E acrescenta:
- No seu todo, a Igreja reúne em si, a arquitectura religiosa gótica, renascentista e barroca. É de salientar o túmulo trecentista de Esteves Gatuz, a Capela renascentista de D. Fradique de Portugal, o altar-mor de talha barroca e o retábulo com árvore de Jessé em talha policroma. Para além de toda a imaginária religiosa, há ainda a destacar os painéis de azulejos figurativos do séc. XVIII, da autoria do pintor e azulejista alentejano, Policarpo de Oliveira Bernardes.
Maria das Dores contrapõe, dizendo:
- O que é pena é a nossa bela Igreja estar ladeada de casas desabitadas e degradadas, que nunca ali deviam ter sido construídas.
A afilhada alvitra:
- Madrinha, isso é um mal que pode ser reparado. Se as casas estão degradadas, é deixá-las ir abaixo e depois remover os escombros.
Resposta da madrinha:
- Isso é coisa que ainda leva o seu tempo.
A afilhada replica:
- Talvez o Regedor arranje maneira de as casas poderem ser derrubadas. Se o conseguisse, ficaríamos aqui com um belo espaço cívico e cristão, que até podia ser ajardinado e onde as crianças podiam brincar.
Perante tal sugestão, Martim intervém, dizendo:
- Minhas senhoras, eu posso tentar falar com o Regedor, mas para além do meu apoio, diplomacia e empenho, nada vos posso prometer. Têm que reconhecer que é um assunto muito delicado, que tem de ser tratado com punhos de renda. Todavia, creio que em nome da salvaguarda do património arquitectónico com interesse histórico, o Regedor possa arranjar maneira de impedir a feitura de obras nas casas degradadas. Porém, para as demolir, é necessário ressarcir os proprietários do respectivo valor patrimonial. E aí a coisa complica-se, pois a Regedoria não tem nenhuma fábrica de fazer dinheiro e estamos em período de vacas magras. Apesar disto tudo, creio piamente que a ideia de Dona Maria da Fé é uma ideia muito justa e legítima. Daí que possam contar comigo para sensibilizar o Regedor para este assunto.
Em resposta, Maria da Fé diz:
- O Regedor é uma pessoa boa e já tem um lugar assegurado no Céu. Se nos ajudar neste nosso intento, decerto que o Senhor lhe reservará um lugar ainda mais aprazível a seu lado.
Maria das Dores intervém para dar a sua anuência:
- Concordo consigo afilhada e parece que estamos todos de acordo.
O tempo já vai adiantado, pelo que Cruz chama a atenção geral:
- São horas de nos dirigirmos para a Santa Missa, orar e dar graças ao Senhor. Não podemos chegar atrasados.
Martim concorda imediatamente:
- Tem toda a razão doutor Cruz, a Igreja espera por nós.
Dito isto, dali saíram todos em direcção ao Templo vizinho. Martim com a missão de posteriormente interessar o Regedor pela causa que os sensibiliza e anima. Cruz com a incumbência de informar Fernão, a fim de que ele como cronista possa dar eco destes brados, no jornal onde cronista é.

Hernâni Matos

quarta-feira, 29 de junho de 2016

Ainda a Casa do Alcaide-Mor / Onde a porca torce o rabo


Casa do Alcaide-Mor em Estremoz, situada na Rua do Arco de Santarém, junto
da porta medieval denominada Arco ou Porta de Santarém - Fotografia de
Rogério de Carvalho (1915-1988) de finais dos anos 30 do séc. XX.

Ainda a Casa do Alcaide-Mor
Onde a porca torce o rabo

A antiga Casa do Alcaide-Mor do Castelo de Estremoz foi vendida em hasta pública no passado dia 14 de Maio. Soube-se agora que o pagamento foi efectuado pelo arrematante, utilizando um cheque “careca”. A venda ficou assim sem efeito e a Câmara Municipal de Estremoz na qualidade de vendedora, continua na posse do imóvel.
Na sequência de tão inverosímil acontecimento, foi posta a circular na Internet uma petição cujos subscritores requerem à Câmara Municipal de Estremoz “A anulação imediata da venda do imóvel em causa.“, assim como “A elaboração e implementação de um projecto de recuperação e reutilização do mesmo de forma a contribuir para a preservação da memória histórica da vila medieval de Estremoz, elevada em 1926 à condição de cidade.“ Até aqui tudo bem e por isto eu seria capaz de subscrever a petição. Contudo, acabei por não o fazer, dado que a mesma no seu preâmbulo se refere à “…incúria da autarquia ao longo das últimas décadas em relação aos imóveis históricos que tem à sua guarda e devidamente classificados como bens patrimoniais, e não soube aproveitar, por inépcia, como outros municípios por este país fora souberam fazer, as oportunidades que estiveram acessíveis.”. 
Acontece que usufruo do salutar hábito de pensar, prática que me tem causado alguns dissabores, uma vez que alguns que se consideram bem pensantes, não apreciam muito, já que para nosso mal, consideram gozar do direito exclusivo de ser eles, os bem pensantes. Daí que tenha formulado a inescapável questão: “- Quem é que nos tem governado nas últimas décadas?”. A resposta brotou clara e célere, como água da fonte: “ - 1975-1985 (CDU), 1986-1990 (PS-PSD), 1990-1994 (PS), 1994-2005 (CDU), 2005-2009 (PS), 2009-2016 (MIETZ).” Por outras palavras: todas as forças do arco da governação autárquica local, são responsáveis pelo estado de coisas a que se chegou relativamente ao assunto em epígrafe, já que não tomaram as medidas adequadas que as circunstâncias exigiam.
Curiosamente entre os primeiros subscritores da petição dirigida à Câmara Municipal de Estremoz, figuram nomes de individualidades pertencentes às forças do arco da governação autárquica local. Com tal atitude criticam o passado da força política pela qual terçam argumentos nos pleitos eleitorais. Sou então levado a pensar: “- Têm memória fraca ou em política vale tudo?”. Pessoalmente, integrei durante vários mandatos a Assembleia Municipal em representação da CDU e tanto quanto a minha memória de elefante me permite, não me lembro de em sede própria, as forças do arco da governação autárquica local, se terem debruçado sobre a questão. Como tal e como pessoa de bem, não vou sacudir a água do capote, dizendo que eu próprio não tenho culpa do estado de degradação a que chegou o imóvel. Tenho, como têm todos do arco da governação autárquica local: CDU, PS-PSD, PS e MIETZ. Como a culpa é de todos, não posso desculpabilizar-me da minha quota-parte de culpa, virar a cara para o lado e pôr-me a assobiar como se não fosse nada comigo. Foi o que fizeram alguns dos primeiros subscritores da petição dirigida à Câmara Municipal de Estremoz. Eu não a subscrevi, por não ser pessoa de ter uma perna em Cacilhas e outra no Cais das Colunas, por que me dá jeito assear-me no mar da palha. Todavia, subscrevo algumas das linhas de força do documento que passam pela determinação de manter o imóvel no domínio público, assim como promover a sua recuperação e a sua adaptação a centro interpretativo da vila medieval de Estremoz ou a outra finalidade que tenha a ver com a nossa memória colectiva. Todavia, a vontade cívica não chega. É preciso dinheiro e muito, para isto tudo. Estamos em período de vacas magras e eu pessoalmente não sei, se neste momento é possível extrair leite das tetas da vaca europeia. É aqui que reside o cerne da questão. É aqui que a porca torce o rabo.

Hernâni Matos
 22 de Junho de 2016 
(Publicado no jornal E,
de 30 de Junho de 2016)

sábado, 25 de junho de 2016

O rei vai nu!



Há por aí ditadores inchados, servidos por um séquito de serventuários de conveniência, instalados estrategicamente onde lhes dá jeito ter o cu. Uns e outros, julgam-se erradamente os donos disto tudo.
São tiranetes de pacotilha, nesta ópera bufa em que envergando o traje de mandarins, pensam que aos demais apenas compete a genuflexão, a vénia e o amem. Daí que erroneamente entendam usufruir do privilégio da arrogância, a qual é desprovida de qualquer sentido, no momento em que o barco começa a ir ao fundo.
Trata-se de uma atitude de desespero que alguns teimam em continuar a não querer ver, quando se torna impossível esconder que o rei via nu.


Hernâni Matos

quarta-feira, 22 de junho de 2016

52 - O aguadeiro – 3


Aguadeiro.
José Moreira (1926-1991).
Colecção particular.

Literatura portuguesa
A nível de prosa, a referência literária mais antiga que conheço relativa a aguadeiros, surge em Balthezar Telles na CHRONICA DA COMPANHIA DE IESU, NA PROVINCIA DE PORTUGAL (1645):“… era necessário hir com carro bufcar água, para o gafto do Collegio, & pera o meneyo das obras; era muito para ver quantos, por fe defprezar, ferviam de carreiros, & aguadeiros;…”. Segue-se outra em António José da Silva (O Judeu), na ópera joco-séria GUERRAS DO ALECRIM E MANGERONA (1737): “- SEMICÚPIO: Venha o pulso: está intermitente, lânguido, e convulsivo; oh menina, tomou as águas? - SEVADILHA: Ainda não veio o aguadeiro.”.
Um dos escritores que porventura utilizou mais vezes aguadeiros como personagens dos seus livros, foi Camilo Castelo Branco. A primeira referência surge em SCENAS DA FOZ (1857): “Lançou-se com impeto ao ar da janella, e viu na rua o aguadeiro que esperava a resposta.“. A mesma figura surge amiúde na obra camiliana em títulos como: AMOR DE PERDIÇÃO (1862), CORAÇÃO, CABEÇA E ESTÔMAGO (1862), A QUEDA D'UM ANJO (1866), OS BRILHANTES DO BRASILEIRO (1869), NOVELAS DO MINHO (1875-1877), O CEGO DE LANDIM in NOVELAS DO MINHO (1876), A BRAZILEIRA DE PRAZINS (1882).
Igualmente Camillo Marianno Froes, recorre à figura do aguadeiro em CARICATURAS Á PENNA (1862):“Nem faltaram as diligencias da criada e do aguadeiro.”.
Em Eça de Queiroz, a utilização de aguadeiros na composição dos enredos, remonta a O MISTÉRIO DA ESTRADA DE SINTRA (1870): “Figurava-se-me que tudo se ria de mim, os candeeiros, os cães noctivagos, as pedras da rua, os numeros das portas, os letreiros das esquinas, os aguadeiros que passavam uivando com os seus barris, e os caixeiros que pesavam arroz sobre o balcão ao fundo das tendas.”. Seguem-se outras em UMA CAMPANHA ALEGRE - Volume I, Capítulo XXIV – Três dias de insultos no parlamento (1871) e UMA CAMPANHA ALEGRE - Volume II, Capítulo XIII: As variadas reformas da Carta (1891).  
Ainda no séc. XIX há outros autores que incluem aguadeiros entre os seus personagens. Ramalho Hortigão - O NATAL MINHOTO in AS FARPAS – vol. I (1871): “Pela manhã entrava-lhe no quarto um aguadeiro, e despejava-lhe um barril de água pela cabeça abaixo: Era a sua toilette.”. Silva Porto - NA HORA FINAL (1875): “…sem um curso, nesta terra onde o meu aguadeiro tem um, completo;”.
No séc. XX, os aguadeiros continuam a povoar as obras dos nossos romancistas e contistas. Aquilino Ribeiro, primeiro em QUANDO AO GAVIÃO CAI A PENA (1935): “ – Tu não és Ibraim, o aguadeiro, pois não...? – Sou eu mesmo, pois quem havia de ser? Olha, olha, quebraram-lhe a infusa; onde deito agora a água?” e depois em LÁPIDES PARTIDAS (1945). Seguem-se escritores como Alves Redol - GAIBÉUS (1939): “Para o ceifeiro rebelde os brados dos aguadeiros assemelham-se a gritos de socorro no meio do incêndio. Sente-se mais abatido do que os outros, porque compreende as causas da angústia do rancho e sabe que os outros sofrem mais. Ele tem um norte. E os camaradas ainda não encontraram bússola. ‘Se todos a tivessem...’”. De salientar ainda a contista Luísa Ducla Soares - OS NOVE MANDRIÕES in O MEIO GALO E OUTRAS HISTÓRIAS (1976): “Avançavam tão alegre e despreocupadamente que quase iam embatendo num aguadeiro que puxava um carrinho com duas enormes barricas. Raras eram as casas que tinham água e ele, de porta em porta, ia abastecendo a povoação: Quem quer água bem fresquinha / para beber e refrescar?! / Os outros matam a sede, / eu mato-me a carregar. / - Os carregos são para os burros! Por que não vens divertir-te?  - Vou mesmo! Quem tiver a boca seca que vá encher bilhas à fonte.”.
No âmbito da poesia não posso deixar de referir Correia Garção - EPISTOLA I in OBRAS POETICAS (1778): “…Temo de sahir fora: Desta banda / Me empurra o aguadeiro, e de estoutra / Me atropela a Saloia c’o seu macho; / Hum vem á rédea solta no rabão, / Outro corre no coche á desfilada; /…”. Saliento igualmente João de Deus - MAL DOS PÉS in CAMPOS DE FLORES (1893): “…“E diga-me: em lavando os pés refina, / Ou sente algum alívio?” / – “Isso não sei, / Sei que tenho exaurido a medicina; / mas lavar é que nunca experimentei.” / Às vezes dá-se ao médico o dinheiro / Que se devia dar ao aguadeiro.”.

Hernâni Matos