sábado, 2 de julho de 2016

Auto do Convento de São Francisco


Convento de São Francisco em Estremoz, nos primórdios do séc. XX e anteriormente
a 1919, conforme datação de obliteração dos Correios. Na época ainda não tinham
sido construídos edifícios encostados ao lado direito do Convento e não existia ainda
o Quiosque Maniés, fundado em 1927. Bilhete-postal ilustrado de editor não
identificado com o nº 2248.

As personagens do auto, em número de quatro, podem ser assim descritas:
- MARIA DAS DORES: Octogenária, pálida e seca de carnes. Viúva dum oficial de Cavalaria, falecido há quarenta anos e cuja memória preserva, trajando luto carregado. Frequentadora assídua da Igreja, onde a prática do culto lhe mitiga as dores que lhe dilaceram a alma e o corpo.
- MARIA DA FÉ: Quarentona, solteira e de têmpera rija, é afilhada de Maria das Dores, a quem presta assistência familiar.
- CRUZ: Devoto e douto historiador de assuntos da Igreja, da qual foi ministro, dignidade de que abdicou por amor a uma mulher.
- MARTIM: Causídico de forte compleição e de sólidas convicções religiosas. Transporta sempre consigo um rosário de marfim, o qual guarda religiosamente num estojo de prata, finamente lavrado.
O enredo desenrola-se há duzentos anos atrás na nossa notável vila. Ao fim da tarde de um dia soalheiro de Primavera, Maria das Dores e Maria da Fé deslocam-se a caminho da Igreja do Convento de são Francisco, onde vão assistir à Santa Missa. Na praça Luís de Gamões e frente à Casa das Leis, atormentada pelo reumático, Maria das Dores é forçada a parar, no que é secundada pela afilhada. A elas se juntam Cruz e Martim, provenientes de direcções diferentes. Qualquer deles cumprimenta as piedosas senhoras, curvando o torso para a frente, ao mesmo tempo que tiram o chapéu da cabeça, em sinal de casta reverência. Decorridos os cumprimentos, Martim pergunta:
- A caminho da Igreja, não é verdade, minhas senhoras? Eu também e julgo que o mesmo se passará com o doutor Cruz.
Este último confirma a suposição de Martim, enquanto Maria das Dores responde:
- É verdade senhor doutor Martim. Aonde é que havia de ir, senão à nossa bela Igreja? Só ali encontro conforto para as minhas mágoas.
Cruz é então levado a dizer:
- Se me permite, Dona Maria das Dores, a nossa Igreja para além de bela e da sua importância em termos de culto, tem uma enorme importância histórica, arquitectónica, escultórica e azulejar. Nela estão sepultadas algumas figuras ilustres da nossa História e apesar da sua frontaria ser setecentista, os primórdios da Igreja remontam a data imprecisa do séc. XIII, já que começou por ser um convento franciscano.
E acrescenta:
- No seu todo, a Igreja reúne em si, a arquitectura religiosa gótica, renascentista e barroca. É de salientar o túmulo trecentista de Esteves Gatuz, a Capela renascentista de D. Fradique de Portugal, o altar-mor de talha barroca e o retábulo com árvore de Jessé em talha policroma. Para além de toda a imaginária religiosa, há ainda a destacar os painéis de azulejos figurativos do séc. XVIII, da autoria do pintor e azulejista alentejano, Policarpo de Oliveira Bernardes.
Maria das Dores contrapõe, dizendo:
- O que é pena é a nossa bela Igreja estar ladeada de casas desabitadas e degradadas, que nunca ali deviam ter sido construídas.
A afilhada alvitra:
- Madrinha, isso é um mal que pode ser reparado. Se as casas estão degradadas, é deixá-las ir abaixo e depois remover os escombros.
Resposta da madrinha:
- Isso é coisa que ainda leva o seu tempo.
A afilhada replica:
- Talvez o Regedor arranje maneira de as casas poderem ser derrubadas. Se o conseguisse, ficaríamos aqui com um belo espaço cívico e cristão, que até podia ser ajardinado e onde as crianças podiam brincar.
Perante tal sugestão, Martim intervém, dizendo:
- Minhas senhoras, eu posso tentar falar com o Regedor, mas para além do meu apoio, diplomacia e empenho, nada vos posso prometer. Têm que reconhecer que é um assunto muito delicado, que tem de ser tratado com punhos de renda. Todavia, creio que em nome da salvaguarda do património arquitectónico com interesse histórico, o Regedor possa arranjar maneira de impedir a feitura de obras nas casas degradadas. Porém, para as demolir, é necessário ressarcir os proprietários do respectivo valor patrimonial. E aí a coisa complica-se, pois a Regedoria não tem nenhuma fábrica de fazer dinheiro e estamos em período de vacas magras. Apesar disto tudo, creio piamente que a ideia de Dona Maria da Fé é uma ideia muito justa e legítima. Daí que possam contar comigo para sensibilizar o Regedor para este assunto.
Em resposta, Maria da Fé diz:
- O Regedor é uma pessoa boa e já tem um lugar assegurado no Céu. Se nos ajudar neste nosso intento, decerto que o Senhor lhe reservará um lugar ainda mais aprazível a seu lado.
Maria das Dores intervém para dar a sua anuência:
- Concordo consigo afilhada e parece que estamos todos de acordo.
O tempo já vai adiantado, pelo que Cruz chama a atenção geral:
- São horas de nos dirigirmos para a Santa Missa, orar e dar graças ao Senhor. Não podemos chegar atrasados.
Martim concorda imediatamente:
- Tem toda a razão doutor Cruz, a Igreja espera por nós.
Dito isto, dali saíram todos em direcção ao Templo vizinho. Martim com a missão de posteriormente interessar o Regedor pela causa que os sensibiliza e anima. Cruz com a incumbência de informar Fernão, a fim de que ele como cronista possa dar eco destes brados, no jornal onde cronista é.

Hernâni Matos