quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Poesia Portuguesa - 082



Abril
José Fanha (1951-  )

Havia uma lua de prata e sangue
em cada mão.

Era Abril.

Havia um vento 
que empurrava o nosso olhar
e um momento de água clara a escorrer 
pelo rosto das mães cansadas.

Era Abril
que descia aos tropeções
pelas ladeiras da cidade.

Abril
tingindo de perfume os hospitais
e colando um verso branco em cada farda.

Era Abril
o mês imprescindível que trazia
um sonho de bagos de romã
e o ar
a saber a framboesas.

Abril
um mês de flores concretas
colocadas na espoleta do desejo
flores pesadas de seiva e cânticos azuis
um mês de flores
um mês.

Havia barcos a voltar
de parte nenhuma
em Abril
e homens que escavavam a terra
em busca da vertical.

Ardiam as palavras
Nesse mês
e foram vistos
dicionários a voar
e mulheres que se despiam abraçando
a pele das oliveiras.

Era Abril que veio e que partiu.

Abril
a deixar sementes prateadas
germinando longamente
no olhar dos meninos por haver. 

José Fanha (1951-  )


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Mensagem de Natal



Há cerca de 2.000 anos que de acordo com relatos bíblicos, nasceu na Galileia, Jesus Cristo, o Messias, cuja vinda foi anunciada pelo Arcanjo Gabriel. A sua capacidade de liderar multidões levou a que fosse julgado e condenado à morte por Herodes Antipas, tetrarca da Galileia e da Pereia. Daí que tenha sido flagelado e crucificado.
Também Spartacus, gladiador trácio que liderou a mais célebre revolta de escravos contra o jugo romano, viria a conhecer semelhante sorte.
Desde então para cá têm ocorrido muitas lutas, muitas batalhas, muitas guerras, nas quais explorados e oprimidos, ávidos de pão, paz, terra, justiça e liberdade, têm lutado contra os opressores que lhe negam esses elementares direitos.
Um marco importante dessas lutas foi a Revolução Francesa, promotora dos ideais republicanos da Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Todavia, como nos disse o Padre António Vieira: “É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do san­gue, das vidas, e quanto mais co­me e consome, tanto menos se farta”. Daí que tenha continuado a alastrar pelo mundo, fruto dos interesses de dominação mais diversos.
A nível interno, tivemos a fundação da nacionalidade por Dom Afonso Henriques, a 5 de Outubro de 1143. Nos séculos seguintes, guerreámos castelhanos, mouros, povos indígenas, espanhóis, franceses e povos africanos, tanto por necessidades expansionistas como para defesa da independência nacional. Nos finais do séc. XIX e princípios do séc. XX, verificou-se o descrédito do regime monárquico. Daí que graças à acção doutrinária e política do Partido Republicano Português, tenha ocorrido o derrube da Monarquia a 5 de Outubro de 1910. Ocorreu aqui uma mudança de paradigma que vigorou até ao pronunciamento militar de cariz nacionalista e anti-parlamentar de 28 de Maio de 1926, o qual estaria na origem do Estado Novo, regime ditatorial que vigorou até à Revolução de 25 de Abril de 1974.
A restituição da liberdade aos portugueses teve como reflexos positivos imediatos, o renascer do parlamentarismo e dos partidos, pilares da democracia. Com ambos, a democracia tem conhecido altos e baixos, por vezes com reflexos negativos na vida das pessoas.
Com as eleições legislativas de 4 de Outubro de 2015, ocorreu uma nova mudança de paradigma, que foi o entendimento político entre as esquerdas. Este incomodou todos aqueles que crêem ter o rei na barriga e se julgam donos disto tudo.
Fruto daquele entendimento e em cumprimento dos preceitos constitucionais, o Presidente da República indigitou a 24 de Novembro, António Costa como Primeiro-Ministro do XXI Governo Constitucional. Este tomou posse a 26 de Novembro e viu o seu Programa aprovado no Parlamento a 3 de Dezembro.
O poder mudou de mãos e é tempo de Natal, daí que para a maioria do povo português, este Natal seja um natal de esperança.
Vem aí “Ano Novo, vida nova”. A 24 de Janeiro têm lugar as eleições para a Presidência da República, data em que a maioria do povo português pretende que ocorra outra mudança de paradigma. A meu ver, para que tal seja possível, torna-se necessário um entendimento político entre as esquerdas, que se traduza na apresentação de um único candidato às urnas. Julgo que as esquerdas aprenderam com as eleições legislativas e vão alcançar esse entendimento. Trata-se de um imperativo ético da maior relevância.

Poesia Portuguesa - 081



Abril de Abril
Manuel Alegre (1936-  )
  
Era um Abril de amigo Abril de trigo
Abril de trevo e trégua e vinho e húmus
Abril de novos ritmos novos rumos.

Era um Abril comigo Abril contigo
ainda só ardor e sem ardil
Abril sem adjectivo Abril de Abril.

Era um Abril na praça Abril de massas
era um Abril na rua Abril a rodos
Abril de sol que nasce para todos.

Abril de vinho e sonho em nossas taças
era um Abril de clava Abril em acto
em mil novecentos e setenta e quatro.

Era um Abril viril Abril tão bravo
Abril de boca a abrir-se Abril palavra
esse Abril em que Abril se libertava.

Era um Abril de clava Abril de cravo
Abril de mão na mão e sem fantasmas
esse Abril em que Abril floriu nas armas. 

Manuel Alegre (1936-  )

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

Poesia Portuguesa - 080




A Salgueiro Maia
Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)


Aquele que na hora da vitória
Respeitou o vencido

Aquele que deu tudo e não pediu a paga

Aquele que na hora da ganância
Perdeu o apetite

Aquele que amou os outros e por isso
Não colaborou com a sua ignorância ou vício

Aquele que foi “Fiel à palavra dada á ideia tida”
Como antes dele mas também por ele
Pessoa disse.

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Poesia Portuguesa - 079


Ser Poeta
FLORBELA ESPANCA (1894-1930)
  
Ser Poeta é ser mais alto, é ser maior 
Do que os homens! Morder como quem beija! 
É ser mendigo e dar como quem seja 
Rei do Reino de Aquém e de Além Dor! 

É ter de mil desejos o esplendor 
E não saber sequer que se deseja! 
É ter cá dentro um astro que flameja, 
É ter garras e asas de condor! 

É ter fome, é ter sede de Infinito! 
Por elmo, as manhãs de oiro e de cetim... 
É condensar o mundo num só grito! 

E é amar-te, assim, perdidamente... 
É seres alma e sangue e vida em mim 
E dizê-lo cantando a toda gente! 

FLORBELA ESPANCA (1894-1930)

38 - Pastor das Migas - 2

Pastor das migas.
José Moreira (1926-1991).
Colecção particular.

Vejamos qual o conceito de migas para os diferentes dicionaristas: - RAPHAEL BLUTEAU (1718): Bocadinhos de pão, migados em caldo; - ANTONIO DE MORAES SILVA (1789): Sopas de pão migado em caldo; - LUIZ MARIA DA SILVA PINTO (1832): Sopas de pão migado; - FREI DOMINGOS VIEIRA (1871): Sopas de pão migado. Migas de alho – Espécie de açorda; - CALDAS AULETE (1881): Sopas de pão e especialmente quando só temperadas com azeite; - ANTONIO DE MORAES SILVA (1891): Sopas de pão migado sem caldo, e talvez temperado. Migas de alho – espécie de açorda; - CÂNDIDO DE FIGUEIREDO (1899): Sopas de pão, açorda; - ANTÓNIO JOSÉ DE CARVALHO e JOÃO DE DEUS (1907): Pedaço de pão migado, sopa; - SILVA BASTOS (1928): Sopas de pão. Açorda; - JOSÉ PEDRO MACHADO (1991): Espécie de açorda com pão migado, geralmente temperadas com azeite; - DICIONÁRIO DA ACADEMIA (2001): Prato semelhante à açorda, que se faz com bocados de pão embebidos em água e temperados com alho, coentros, azeite… Qualquer prato elaborado com ingredientes migados; - ANTÓNIO HOUAISS (2003): Pedaços de pão ensopados num caldo ou sopa. Papa consistente feita com pedaços de pão refogado em carne de porco, banha, toucinho, alho, etc.
Há inúmeros tipos de migas: de bacalhau, de batata, de beldroega, de coentros, de conquilhas, de couve-flor, de espargos, de feijão branco, de feijão-frade, de grão, de grelos, de milho, de nabos, de pão (migas à alentejana), de peixe, de tomate, doces, etc. 
As migas à alentejana são migas de pão, já que no Alentejo, tradicionalmente “terra de pão”, se regista a omnipresença deste alimento na gastronomia regional. Daí que em termos de gíria popular se diga que “O alentejano é pãozeiro”.
Não há referências às migas nos primeiros livros de culinária portugueses: “Livro de Cozinha da Infanta D. Maria de Portugal” (Séc. XV), “Arte de cozinha” de Domingos Rodrigues (1680), “Cozinheiro moderno ou nova arte de cozinhar, onde se ensina pelo methodo mais facil...” de Lucas Rigaud (1780) e “Arte de cozinha”, de João da Mata (1876). Só no “Tratado Completo de Cozinha e Copa” de Carlos Bento da Maia (1904) é que figura uma receita de migas, ainda que doces, mas confeccionadas com pão. É na ”Culinária Portuguesa” de António Maria de Oliveira Bello (1936), considerada por José Quitério a “A autêntica bíblia da nossa cozinha regional”, que aparecem as migas de Carne de Porco à Alentejana. Para a Grande enciclopédia da cozinha” de Maria de Lourdes Modesto (1965), conhecida como "A Diva da Gastronomia Portuguesa”, as migas são um “Prato típico português feito de pão amolecido, cozinhado depois numa gordura, geralmente de porco” e continua a receita, dizendo que em geral se junta a carne e o toucinho que originaram aquela gordura. Mais modernamente, a inclusão de trinta e três receitas de migas na “Cozinha Regional Portuguesa” de Maria Odete Cortes Valente (1987), é bem reveladora da importância das migas na gastronomia popular portuguesa. Por outras palavras: o povo português gosta de migas que enchem, uma vez que “Barriga vazia não conhece alegria".

domingo, 13 de dezembro de 2015

Poesia Portuguesa - 078


POEMA AO PAI
Firmino Mendes

Pai, ainda sei dos caminhos longos
e das manhãs frias, quando me faltaste
As voltas que dei à casa, os gritos
o não saber ainda que a morte era possível

Eu estava ali, mesmo ao lado
e senti o teu coração cair
como um meteoro que incendiasse a
Terra para sempre

Eras demasiado jovem para deixar de ser visto
mas eu já tinha a memória preenchida
com algumas linhas de água que ficaram:
campos de liberdade, caminhos abertos
sobre o medo e os dias de chumbo

Tu sorrias e tocavas a mão aquecida
para lá do pequeno mundo das paisagens
verdes e das casas de granito
com as fábricas ao longe, como cercas
de ferro e arame, onde a servidão se servia fria

Pai, hoje há novos caminhos e alguns dos trilhos
desapareceram para sempre mas eu continuo
a saber onde caminhavas e a colocar os pés
sobre as marcas indeléveis que deixaste

Às vezes, parece que danço, por querer tanto
caminhar sobre os vestígios impressos na lama
e sinto o coração resistente das tartarugas
que continua a bater depois de mortas e esquartejadas

Sei que este não é o tempo que querias: os vampiros
sobrevoam os campos e permanece o ruído das fábricas
Se estivesses aqui, saberias como sofrem os da tua idade:
espoliados, feridos, assaltados, esquecidos, maltratados
Sei que chorarias e assim te vejo em cada um dos que sofrem

Mas o mundo está melhor, pai. Apesar do agudo silêncio
que perturba os que perderam a voz, hoje poderias gritar
ao lado dos filhos que não tiveste tempo de ver crescer
e não terias morrido tão cedo porque os tempos mudaram
ao sabor de Abril

Firmino Mendes