quinta-feira, 26 de novembro de 2015

O TEATRO NUMA ALDEIA DA BEIRA / Cernache do Bonjardim / Do Theatro de Sernache ao Theatro Taborda


A capa do livro.

"O Teatro numa aldeia da Beira - Cernache do Bonjardim" é o título da mais recente obra de Pedro Marçal Vaz Pereira, a lançar pelas dezasseis horas e trinta minutos do próximo sábado, dia 28 de Novembro, no Clube Bonjardim, em Cernache do Bonjardim.
O evento abrirá com intervenções dos Presidentes da Câmara Municipal da Sertã e da Direcção do Clube Bonjardim. Segue-se a apresentação da obra pelo Professor Doutor Duarte Ivo Cruz, na sequência da qual falará o autor. Ocorrerá depois uma sessão de autógrafos e a cerimónia terminará com um cocktail.
A obra
A obra abre com Mensagens dos Presidentes da Câmara Municipal da Sertã, da União de Freguesias de Cernache do Bonjardim, Nesperal e Palhais e da Direcção do Clube Bonjardim. O Prefácio é do prestigiado teatrólogo Duarte Ivo Cruz quer nos diz: “Trata-se de um levantamento detalhado e sólido da tradição teatral em Cernache…” e mais adiante: “Tudo isto é historiado com detalhe e rigor no estudo de Pedro Marçal Vaz Pereira.”.
No Preâmbulo, o autor diz-nos que: “Quando me propus fazer este trabalho, tive como objectivo deixar a todos os beirões um espólio memorial importante, que de outro modo se poderia perder na memória do tempo.” E acrescenta: “Igualmente foi minha intenção deixar aos portugueses, a história de um teatro de província, que será, estou certo, a história de muitos outros, que por esse Portugal se foram formando e desenvolvendo no final do século XIX, princípios do século XX.”.

O Teatro Taborda no início do séc. XX .

A obra distribui-se por 5 capítulos: A origem do Teatro em Cernache do Bonjardim, O Club Bonjardim, Teatro Sernachense, Teatro Bonjardim, Teatro Taborda. Teve por base uma extensa bibliografia citada no final e contou com fontes documentais originárias do seu arquivo pessoal, do arquivo do Dr. Abílio Marçal, arquivo do Clube Bonjardim e de arquivos particulares de Cernache do Bonjardim, bem como do Arquivo Histórico da Câmara Municipal da Sertã e da Biblioteca Nacional.
O livro, profusamente ilustrado a cores e com design de Ana Paula Silva, tem capa dura, 21,6 cm x 30,6 cm, 334 páginas e 1750 g de peso. A edição é do Clube Bonjardim, com uma tiragem de 500 exemplares. O preço de lançamento é 15 euros, sendo posteriormente comercializado a 20 euros pelo Clube Bonjardim, pela Câmara Municipal da Sertã e pela Livraria Barata, na Avenida de Roma, em Lisboa.
O autor
O autor, filatelista eminente, escritor e jornalista filatélico, subscreve vasta colaboração em revistas e catálogos de exposições filatélicas, tanto em Portugal como no estrangeiro. Em 2005 publicou a obra em 2 volumes “Os Correios Portugueses entre 1853-1900. Carimbos Nominativos e Dados Postais e Etimológicos”, editado pela Fundação Albertino Figueiredo, de Madrid. Esta obra veio a ser complementada com um “Suplemento I”, editado em 2013. Neste mesmo ano, o autor publicou “As Missões Laicas em África na 1ª República em Portugal”, que foi distinguida com o Prémio Fundação Calouste Gulbenkian, História Moderna e Contemporânea de Portugal, atribuído pela Academia Portuguesa da História.

Pedro Marçal Vaz Pereira, o autor. 

É Presidente da Federação Portuguesa de Filatelia (FPF) desde 1987 e foi Presidente da Federação Europeia de Sociedades Filatélicas (FEPA) entre 2001 e 2009, assim como director das respectivas revistas “Filatelia Lusitana” e “FEPA News”.
Homenagem ao Dr. Abílio Marçal
A sessão de lançamento do livro será antecedida de uma Homenagem ao Dr. Abílio Marçal, bisavô do autor, a qual terá início pelas 16 horas. A cerimónia consistirá na recolocação de uma placa de homenagem ao Dr. Abílio Marçal, perto da casa onde viveu, junto à rotunda de D. Nuno Álvares Pereira, em Cernache do Bonjardim Esta placa foi oferecida em 1928 por amigos e admiradores do homenageado e esteve colocada durante várias décadas na casa onde viveu e viria a falecer.
O Dr. Abílio Corrêa da Silva Marçal (1867-1925), ilustre cernachense, foi Director do Instituto de Missões Coloniais e do respectivo Boletim das Missões Civilizadoras. Licenciado em Direito, exerceu a advocacia e militou no Partido Dissidente Progressista. Após a implantação da República aderiu ao Partido Democrático, ao lado de Afonso Costa de quem foi muito próximo. Em 1917 foi nomeado Secretário do Governo e exerceu o cargo de Presidente da Câmara dos Deputados, tendo recusado em várias ocasiões, o lugar de Ministro para o qual fora indigitado.





Poesia Portuguesa - 061


Fado Português
José Régio (1901-1969)

O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.

Ai, que lindeza tamanha,
meu chão , meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.

Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.

Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.

Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava
.

José Régio (1901-1969)

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 060


Nascemos para amar
Bocage (1765-1805)

Nascemos para amar; a Humanidade
Vai, tarde ou cedo, aos laços da ternura.
Tu és doce atractivo, ó Formosura,
Que encanta, que seduz, que persuade.

Enleia-se por gosto a liberdade;
E depois que a paixão na alma se apura,
Alguns então lhe chamam desventura,
Chamam-lhe alguns então felicidade.

Qual se abisma nas lôbregas tristezas,
Qual em suaves júbilos discorre,
Com esperanças mil na ideia acesas.

Amor ou desfalece, ou pára, ou corre:
E, segundo as diversas naturezas,
Um porfia, este esquece, aquele morre. 

Bocage (1765-1805)

terça-feira, 24 de novembro de 2015

Poesia portuguesa - 059


Natal cada Natal

António Manuel Couto Viana (1923-2010)

 

Quando na mais sublime dor, 
A mulher dá à luz, 
Há sempre um Anjo Anunciador 
A murmurar-lhe ao coração — Jesus! 

Cada criança é o Céu que vem 
Pra nos remir do pecado 
E as palhas d’oiro de Belém 
Espalham-se no berço, como um Sol espelhado 

Por sobre o lar presepial , o brilho 
Da estrela abre o convite dos portais: 
— Vinde adorar a floração do filho 
No alvoroço da raiz dos pais. 

António Manuel Couto Viana (1923-2010)

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 058


Há palavras que nos beijam

Alexandre O'NeilI (1924-1986)

 

Há palavras que nos beijam 
Como se tivessem boca. 
Palavras de amor, de esperança, 
De imenso amor, de esperança louca. 

Palavras nuas que beijas 
Quando a noite perde o rosto; 
Palavras que se recusam 
Aos muros do teu desgosto. 

De repente coloridas 
Entre palavras sem cor, 
Esperadas inesperadas 
Como a poesia ou o amor. 

(O nome de quem se ama 
Letra a letra revelado 
No mármore distraído 
No papel abandonado) 

Palavras que nos transportam 
Aonde a noite é mais forte, 
Ao silêncio dos amantes 
Abraçados contra a morte. 

Alexandre O'NeilI (1924-1986)

domingo, 22 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 057


RETRATO DE FERNANDO PESSOA (1954).
Almada Negreiros (1893-1970).
Óleo sobre tela (201 x 201 cm).
Museu da Cidade, Lisboa.
Os emigrados
Álvaro de Campos (1890-1935)

Sós nas grandes cidades desamigas,
Sem falar a língua que se fala nem a que se pensa
Mutilados da relação com os outros
Que depois contado na pátria os triunfos da sua estada.
Coitados dos que conquistam Londres e Paris!
Voltam ao lar sem melhores maneiras nem melhores caras
Apenas sonharam de perto o que viram —
Permanentemente estrangeiros.
Mas não rio deles. Tenho eu feito outra coisa com o ideal?
E o propósito que uma vez formei num hotel planeando a legenda?
É um dos pontos negros da biografia que não tive.

Álvaro de Campos (1890-1935)

sábado, 21 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 056


Dia de Natal 
António Gedeão (1906-1997)

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprado.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

António Gedeão (1906-1997)