sexta-feira, 20 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 055



Caminhos

Francisco Bugalho (1905-1949)

  

Para quê, caminhos do mundo, 
Me atraís? — Se eu sei bem já 
Que voltarei donde parto, 
Por qualquer lado que vá. 

Pra quê? — Se a Terra é redonda; 
E, sempre, tem de cumprir-se 
A sina daquela onda 
Que parece vai sumir-se, 

Mas que volta, bem mais débil, 
Ao meio do lago, onde 
A mãe, gota d'água flébil, 
Há muito tempo se esconde. 

Pra quê? — Se a folha viçosa 
Na Primavera, feliz, 
Amanhã será, gostosa, 
Alimento da raiz. 

Pra quê, caminhos do mundo? 
Pra quê, andanças sem Fim? 
Se todo o sonho profundo 
Deste Mundo e do Outro-Mundo, 
Não 'stá neles, mas em mim. 

Francisco Bugalho (1905-1949)

NÃO PASSARAM!


Como era previsível, o XX Governo Constitucional liderado por Passos Coelho e empossado pelo Presidente da República, não passou no Parlamento. Com efeito, no plenário do passado dia 10 de Novembro, o Programa do XX Governo Constitucional foi rejeitado maioritariamente com os votos do PS, do BE, do PCP, do PEV e do PAN. Foi o Governo mais curto da democracia portuguesa, pois caiu ao fim de 12 dias.
Na Mesa da Assembleia tinham entrado moções de rejeição do PS, do BE, do PCP e do PEV, tendo sido votada apenas a primeira, que recebeu 123 votos favoráveis das bancadas de esquerda e 107 votos contra das bancadas de direita.   
Com o derrube do Governo ocorreu uma mudança de paradigma. Foi deitado por terra um conceito ardiloso da direita, que consistia em postular que há partidos do arco da governação e partidos que não o são. Face a tal mirabolante conceito, o PS só se poderia aliar à direita parlamentar, mas nunca ao BE, ao PCP e ao PEV, o que veio a acontecer.
Qualquer das moções apresentadas e cada uma delas à sua maneira assentava em dois pressupostos: - O XX Governo Constitucional não tem legitimidade política, visto que das eleições legislativas convocadas para eleger deputados, resultou uma nova correlação de forças em que a direita é minoritária e a esquerda dispõe de uma maioria absoluta, em termos percentuais e de mandatos, o que comprova que a maioria do eleitorado rejeitou as políticas de austeridade e de empobrecimento, executadas na legislatura anterior, demonstrando duma forma inequívoca uma opção maioritária pela mudança; - O XX Governo Constitucional não tem legitimidade constitucional. Na verdade, embora a Constituição disponha que o Presidente da República nomeie o Primeiro-Ministro, ouvidos os partidos representados na Assembleia e tendo em conta os resultados eleitorais, não existe qualquer disposição constitucional que determine que o Primeiro-Ministro deva ser o líder do partido mais votado.
A moção do PS refere que a convergência conseguida com os outros partidos de esquerda, visa: “ a) Defender o Estado Social e os serviços públicos, com destaque para a segurança social, a educação e a saúde, promovendo um combate determinado à pobreza e às desigualdades sociais e económicas; b) Conduzir uma estratégia de consolidação das contas públicas assente no crescimento e no emprego, no aumento do rendimento das famílias e na criação de condições para o investimento público e privado; c) Promover um novo modelo de progresso e desenvolvimento para Portugal, que aposte na valorização dos salários e na luta contra a precariedade; relance o investimento na educação, na cultura e na ciência; e devolva à sociedade portuguesa a confiança e a esperança no futuro. d) Valorizar a participação dos cidadãos, a descentralização politica e as autonomias insulares.”
Para chegarem a um entendimento que permitiu afastar a direita do poder, os partidos de esquerda tiveram de deixar de trocar os habituais galhardetes e meter alguns objectivos na gaveta. Lá diz o adagiário: “Os homens entendem-se pelas palavras, e os burros, aos coices”, assim como “A falar é que a gente se entende” e “A união é força, como a divisão é fraqueza”.

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 054



Lamento para a língua portuguesa
Vasco Graça Moura (1942-2014) 

não és mais do que as outras, mas és nossa,
e crescemos em ti. nem se imagina
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, mera aspirina,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vida nova e repentina.
mas é o teu país que te destroça,
o teu próprio país quer-te esquecer
e a sua condição te contamina
e no seu dia a dia te assassina.
mostras por ti o que lhe vais fazer:
vai-se por cá mingando e desistindo,
e desde ti nos deitas a perder
e fazes com que fuja o teu poder
enquanto o mundo vai de nós fugindo:
ruiu a casa que és do nosso ser
e este anda por isso desavindo
connosco, no sentir e no entender,
mas sem que a desavença nos importe
nós já falamos nem sequer fingindo
que só ruínas vamos repetindo.
talvez seja o processo ou o desnorte
que mostra como é realidade
a relação da língua com a morte,
o nó que faz com ela e que entrecorte
a corrente da vida na cidade.
mais valia que fossem de outra sorte
em cada um a força da vontade
e tão filosofais melancolias
nessa escusada busca da verdade
e que a ti nos prendesse melhor grade.
bem que ao longo do tempo ensurdecias,
nublando-se entre nós os teus cristais,
e entre gentes remotas descobrias
o que não eram notas tropicais
mas coisas tuas que não tinhas mais,
perdidas no enredar das nossas vias
por desvairados, lúgubres sinais,
mísera sorte, estranha condição,
em que, por nos perdermos, te perdias.
neste turvo presente tu te esvais,
por ser combate de armas desiguais.
matam-te a casa, a escola, a profissão,
a técnica, a ciência, a propaganda,
o discurso político, a paixão
de estranhas novidades, a ciranda
da violência alvar que não abranda
entre rádios, jornais, televisão.
e toda a gente o diz, mesmo essa que anda
por tempos de ignomínia mais feliz
e o repete por luxo e não comanda,
com o bafo de hienas dos covis,
mais que uma vela vã nos ventos panda
cheia do podre cheiro a que tresanda.
foste memória, música e matriz
de um áspero combate: apreender
e dominar o mundo e as mais subtis
equações em que é igual a xis
qualquer das dimensões do conhecer,
dizer de amor e morte, e a quem quis
e soube utilizar-te, do viver,
do mais simples viver quotidiano,
de ilusões e silêncios, desengano,
sombras e luz, risadas e prazer
e dor e sofrimento, e de ano a ano,
passarem aves, ceifas, estações,
o trabalho, o sossego, o tempo insano
do sobressalto a vir a todo o pano,
e bonanças também e tais razões
que no mundo costumam suceder
e deslumbram na só variedade
de seu modo, lugar e qualidade,
e coisas certas, inexactidões,
venturas, infortúnios, cativeiros,
e paisagens e luas e monções,
e os caminhos da terra a percorrer,
e arados, atrelagens e veleiros,
pedacinhos de conchas, verde jade,
doces luminescências e luzeiros,
que podias dizer e desdizer
no teu corpo de tempo e liberdade.
agora que és refugo e cicatriz
esperança nenhuma hás-de manter:
o teu próprio domínio foi proscrito,
laje de lousa gasta em que algum giz
se esborratou informe em borrões vis.
de assim acontecer, ficou-te o mito
de seres de vastos, vários e distantes
mundos que serves mal nos degradantes
modos de nós contigo. nem o grito
da vida e do poema são bastantes,
por ser devido a um outro e duro atrito
que tu partiste até as próprias jantes
nos estradões da história: estava escrito
que iam desconjuntar-te os teus falantes
na terra em que nasceste. eu acredito
que te fizeram avaria grossa.
não rodarás nas rotas como dantes,
quer murmures, escrevas, fales, cantes,
mas apesar de tudo ainda és nossa,
e crescemos em ti. nem imaginas
que alguma vez uma outra língua possa
pôr-te incolor, ou inodora, insossa,
ser remédio brutal, vãs aspirinas,
ou tirar-nos de vez de alguma fossa,
ou dar-nos vidas novas repentinas.
enredada em vilezas, ódios, troça,
no teu próprio país te contaminas
e é dele essa miséria que te roça.
mas com o que te resta me iluminas.

Vasco Graça Moura (1942-2014)


quarta-feira, 18 de novembro de 2015

Poesia portuguesa - 053


Esta gente
Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

Esta gente cujo rosto
Às vezes luminoso
E outras vezes tosco

Ora me lembra escravos
Ora me lembra reis

Faz renascer meu gosto
De luta e de combate
Contra o abutre e a cobra
O porco e o milhafre

Pois a gente que tem
O rosto desenhado
Por paciência e fome
É a gente em quem
Um país ocupado
Escreve o seu nome

E em frente desta gente
Ignorada e pisada
Como a pedra do chão
E mais do que a pedra
Humilhada e calcada

Meu canto se renova
E recomeço a busca
De um país liberto
De uma vida limpa

E de um tempo justo 

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)


terça-feira, 17 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 052


Poeta castrado não!
Ary dos Santos (1937-1984)

Serei tudo o que disserem
por inveja ou negação:
cabeçudo dromedário
fogueira de exibição
teorema corolário
poema de mão em mão
lãzudo publicitário
malabarista cabrão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Os que entendem como eu
as linhas com que me escrevo
reconhecem o que é meu
em tudo quanto lhes devo:
ternura como já disse
sempre que faço um poema;
saudade que se partisse
me alagaria de pena;
e também uma alegria
uma coragem serena
em renegar a poesia
quando ela nos envenena.

Os que entendem como eu
a força que tem um verso
reconhecem o que é seu
quando lhes mostro o reverso:

Da fome já não se fala
- é tão vulgar que nos cansa -
mas que dizer de uma bala
num esqueleto de criança?

Do frio não reza a história
- a morte é branda e letal -
mas que dizer da memória
de uma bomba de napalm?

E o resto que pode ser
o poema dia a dia?
- Um bisturi a crescer
nas coxas de uma judia;
um filho que vai nascer
parido por asfixia?!
- Ah não me venham dizer
que é fonética a poesia!

Serei tudo o que disserem
por temor ou negação:
Demagogo mau profeta
falso médico ladrão
prostituta proxeneta
espoleta televisão.
Serei tudo o que disserem:
Poeta castrado não!

Ary dos Santos (1937-1984)

segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 051


Não creio nesse Deus
António Aleixo (1899-1949)

I

Não sei se és parvo se és inteligente
— Ao disfrutares vida de nababo
Louvando um Deus, do qual te dizes crente,
Que te livre das garras do diabo
E te faça feliz eternamente.

II

Não vês que o teu bem-estar faz d'outra gente
A dor, o sofrimento, a fome e a guerra?
E tu não queres p'ra ti o céu e a terra..
— Não te achas egoísta ou exigente?

III

Não creio nesse Deus que, na igreja,
Escuta, dos beatos, confissões;
Não posso crer num Deus que se maneja,
Em troca de promessas e orações,
P'ra o homem conseguir o que deseja.

IV

Se Deus quer que vivamos irmãmente,
Quem cumpre esse dever por que receia
As iras do divino padre eterno?...
P'ra esses é o céu; porque o inferno
É p'ra quem vive a vida à custa alheia!

António Aleixo (1899-1949)

36 – Homem dos foguetes


 
Homem dos foguetes.
Irmãs Flores.
Colecção particular.

Não há festas sem foguetes, o que equivale a dizer que não há festas ou romarias que dispensem os espectáculos pirotécnicos e em particular o lançamento de foguetes. Estes além de serem lançados na abertura e fecho das festividades, assinalam também o início e o fim de cada evento integrado nas mesmas.
Nas festas, os foguetes são lançados pelo “homem dos foguetes”, o qual trabalha com um ajudante, que lhe vai passando os foguetes a um e um, por uma questão de segurança.
Cada foguete é constituído por uma cana que numa das extremidades tem atado um canudo contendo pólvora, com um rastilho na extremidade. Este ao ser inflamado provoca uma reacção química na pólvora que origina a expulsão de considerável quantidade de gases, que fazem subir o foguete. É que os gases expelidos desenvolvem uma força propulsora que ao interactuar com a atmosfera é responsável pela variação da velocidade do foguete, o qual ascende na atmosfera. Trata-se de um fenómeno físico regido pela chamada “Lei da variação da quantidade de movimento”, estritamente associada à ”Lei da igualdade da acção e reacção”, de acordo com a qual: “À acção de um corpo sobre outro, corresponde uma reacção de igual intensidade e de sentido oposto à acção”.
No lançamento de foguetes, o tempo de subida, a altura máxima atingida e o alcance horizontal aumentam com a velocidade e o ângulo de lançamento, verificando-se que o alcance é máximo quando a cana faz um ângulo de 45º com a horizontal.
O homem dos foguetes está representado na barrística popular estremocense. Por sua vez, os foguetes estão presentes na nossa literatura de tradição oral. A nível de ADAGIÁRIO temos: “Deitar foguetes antes da festa”, “Deitar os foguetes e apanhar as canas”, “Fazes a festa e deitas os foguetes”, “Não deitar foguetes antes da festa”, “Não se deitam foguetes antes da festa”, “O foguete é na maré de festa”, “São mais os foguetes que a festa”. No que respeita a GÍRIA POPULAR são conhecidas as expressões: Como um foguete (Muito rapidamente), Correr atrás de foguetes (Entusiasmar-se facilmente), Dar uma foguetada (Repreender), Deitar foguetes (Entregar-se a manifestações exuberantes de alegria), Levar uma foguetada (Ser repreendido), Meter-se a fogueteiro (Arriscar-se a fazer coisa que não se conhece bem e fracassar), Pegar em rabo-de-foguete (Assumir compromisso difícil de cumprir). Quanto a ADIVINHAS são conhecidas algumas cuja solução é foguete. Eis uma: "Que é, que é, / que quando sobe / é porque há festa?". E outra: "Fumo, ruído, / produz a subir; / cortando a aragem/ onde faz mais barulho/ é no fim da viagem.". No âmbito das ALCUNHAS ALENTEJANAS registam-se duas: FOGUETE - Alcunha outorgada a quem reúne uma das condições: anda muito depressa (Estremoz), conduz muito rápido (Almodôvar), é muito célere a fazer as coisas (Mora) ou tem temperamento explosivo (Castelo de Vide); FOGUETEIRO - Denominação atribuída a alguém que fabrica foguetes (Estremoz). Em termos de TOPONÍMIA temos: FOGUETEIRO - Lugar da freguesia de Amora, concelho de Seixal. Quanto ao CANCIONEIRO POPULAR ALENTEJANO, este regista a ocorrência da quadra: “Estala a bomba e o foguete vai no ar, / Arrebenta e fica todo queimado. / Não há ninguém que baile mais bem / Que as meninas da ribeira do Sado.”