terça-feira, 29 de setembro de 2015

Poesia Portuguesa - 003




CANTO DO CEIFEIRO
Eduardo Valente da Fonseca (1928-2003)

Canta ceifeiro canta,
sob o sol de Agosto, canta,
a terra é tão farta e tanta,
que chega para a tua fome
e cresce para a tua manta,

Canta ceifeiro canta
a charneca e não sossobres.
Espanta o medo e o cansaço,
aguenta mais um pedaço
e canta ceifeiro canta
o heroísmo dos pobres.

Canta ceifeiro canta
o Alentejo todo teu,
canta a charneca em flor,
canta o trigo com suor,
canta a lonjura do céu.
Canta ceifeiro canta
em Serpa. Cuba ou Ermidas,
ia que os braços são pequenos
dêem-se as vozes ao menos
que as vozes serão ouvidas.

Canta ceifeiro canta
canta sempre sem espanto
tudo quanto tanto anseias,
que não vem longe o minuto
do teu suor ser enchuto
e tu seres a própria Paz.
Canta ceifeiro canta
e diz de quanto és capaz,

Canta esses sulcos vermelhos
como as tuas maiores veias,
canta a luta e a tua sede
os azinheiros e o trigo,
canta a carne e o desabrigo
por todo o frio do inverno,
canta a morte dos teus filhos
mais a dos teus companheiros,
canta sempre canta, canta
belas canções de ceifeiro,
que o Alentejo cresceu.
dos teus braços de sobreiro
erguidos ao sol de estio,
e de todo o teu suor
Já do tamanho dum rio.

Canta ceifeiro canta
o Alentejo todo teu,
que nele foi que nasceste
com raízes desde o fundo,
e nele os irmãos da terra
vem sendo há muito ofendidos
nos seus sempre sagrados
e humanos cinco sentidos.

Canta ceifeiro canta
canta com ânsia e bravura
e que o canto que se levante
dê mais força á tua altura.

Eduardo Valente da Fonseca (1928-2003)


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

33 – As fiandeiras


Mulher dos perus.
José Moreira (1926-2001).
Colecção particular.
  
O núcleo base do figurado de Estremoz inclui três figuras femininas de camponesas, trajando à moda do séc. XIX, as quais conduzem animais a caminho da feira ou do mercado e carregam um cesto na cabeça. Todas elas ostentam uma roca apoiada no lado esquerdo da cintura e empunham um fuso, geralmente na mão direita. Essas imagens são: - MULHER DOS PERUS – Conduz um casal de perus e leva no cesto, ovos destas aves; - MULHER DAS GALINHAS – Leva um galo e duas galinhas, cujos ovos transporta no cesto; - MULHER DOS CARNEIROS – Acompanha dois ovinos e carrega uma cesta com queijos. Qualquer das peças representa uma fiandeira ou seja uma mulher que fia.
A fiação é uma actividade humana de carácter universal, documentada a partir do Mesolítico e que consiste em reduzir a fio, matérias têxteis, como o linho, a lã e o algodão. Com a descoberta do fuso há cerca de 5000 anos, a técnica de fiação aperfeiçoou-se. O fuso é um instrumento de madeira para fiar à roca, que tem simetria cilíndrica, mais encorpado no meio e que se estreita até às duas pontas, terminando em bico. Serve para enrolar o fio que vem a constituir uma “maçaroca”. Quando o fuso está cheio, passa-se o fio para o “sarilho”, a fim de o transformar em “meada”.
Além do fuso, a fiação recorre também à roca. Esta é uma vara de madeira ou cana, encimada por um parte chamada “copo”, que termina numa peça denominada “torre”. A roca fixa-se à cintura, do lado esquerdo, entre o cós da saia e o corpo, inclinada para a frente, com o copo sensivelmente à altura da cara de quem fia. Para carregar a roca, no caso do linho, este é assente ao comprido sobre os joelhos e o copo molhado com saliva é encostado ao linho, rodando-se com a mão direita, ao passo que com a esquerda se agarra o linho, de modo que as fibras não fiquem emaranhadas. Seguidamente, ata-se o linho enleado no copo com uma correia presa na sua extremidade superior, enfia-se o cabo da roca na cintura, molham-se com saliva as pontas dos dedos indicador e polegar da mão esquerda, destacam-se algumas fibras, torcendo-as até formar uma pequena ponta de fio e aproxima-se desta o fuso, imprimindo-lhe de seguida movimento giratório com a mão direita, o qual é gerado com o polegar, indicador e médio. O fuso fica a rodar, suspenso pelo fio que a sua rotação vai torcendo e seguro simultaneamente pelo fio e pelos dedos. De vez em quando, o fio é passado pela boca, a fim de o humedecer. Quando o tamanho do fio afeiçoado obriga a afastar demasiado o braço direito, interrompe-se a fiação e enrola-se essa porção de fio no fuso.
A fiação era um trabalho executado essencialmente por mulheres, em casa ou no trabalho, a caminho dos campos, a apascentar gado ou a caminho de feiras, mercados, etc., aproveitando todo o tempo em que as mãos não estavam ocupadas. Todavia, as transformações sócio–culturais operadas no séc. XX, aliadas às facilidades de comunicação, acabaram com o isolamento dos campos e das aldeias, que foram invadidas por produtos têxteis industriais, conduzindo ao abandono da fiação caseira.
A fiação está presente na nossa literatura de tradição oral. A nível de adagiário destacamos: “A fiandeira laboriosa, nunca faltou pano para camisas.”, “A fiar e a tecer, ganha a mulher de comer.”, “Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso.”, “De linho arestoso, faz camisas a teu esposo.”, “Linho apurado, dá lenço dobrado.”, “Maria fia, fia, fia três maçarocas por dia.” Do vasto cancioneiro popular, destacamos apenas uma quadra maliciosa do cancioneiro de Melgaço: “Quem me dera ser o linho/ Que vós na roca fiais!/ Quem me dera a mim os beijos/ Que vós ao linho le dais!”

Mulher das galinhas.
José Moreira (1926-2001).
Colecção particular.

Mulher dos carneiros.
Sabina Santos (1921-2005).
Colecção particular.

Poesia Portuguesa - 002




ÁRVORES DO ALENTEJO
FLORBELA ESPANCA (1894-1930)
  
Horas mortas... Curvada aos pés do Monte
A planície é um brasido... e, torturadas,
As árvores sangrentas, revoltadas,
Gritam a Deus a bênção duma fonte!

E quando, manhã alta, o sol posponte
A oiro a giesta, a arder, pelas estradas,
Esfíngicas, recortam desgrenhadas
Os trágicos perfis no horizonte!

Árvores! Corações, almas que choram,
Almas iguais à minha, almas que imploram
Em vão remédio para tanta mágoa!

Árvores! Não chorais! Olhai e vêde;
- Também ando a gritar, morta de sede,
Pedindo a Deus a minha gota de água!


FLORBELA ESPANCA (1894-1930)


Publicado inicialmente em 28 de Setembro de 2015

domingo, 27 de setembro de 2015

Poesia Portuguesa - 001



CARTA DE AMOR
JOSÉ RÉGIO (1901-1969)

Ouve-me!, se é que ainda
Me podes tolerar.
Neste papel rasgado
Das arestas da minh'alma,
Ai!, as absurdas intrigas
Que te quisera contar!
Ai os enredos,
Os medos,
E as lutas em que medito,
Quer dê, quer não dê por isso, 
Sem descansar
Um momento...!
Quem sofre - pensa; e o tormento 
Não é sofrer, é pensar.
O pensamento
Faz engolir o vómito de fel... 
Ouve! se sou cruel
Neste papel queimado
Dos incêndios da minh'alma,
é de raiva de que embalde
Te procure dizer sem falsidade
Coisas que, ditas, já não são verdade...
E procuro eu dizê-las,
Ou procuro escondê-las?
E procuro eu dizer-tas,
Ou procuro a vaidade
De mas dizer, a mim, de modo que mas ouçam
Esses mesmos que desprezo,
E cujo louvor me é caro?
Não me acredites!
O que digo,
Antes ou depois, o peso;
E não!, não é a ti que me eu declaro!
Sei que me não entendes.
Sei que quanto melhor te revelar
O meu mundo profundo,
O fundo do meu mar,
Os limos do meu poço,
O antro que é só meu (sendo, apesar de tudo, nosso) 
Menos me entenderás,
Tu..., - a minha metade!
Por isso me não és senão vaidade,
Meu amor!, meu pretexto
Deste miserável texto...
Vês como sou?
Mas sou pior do que isto.
Sabe que, se me acuso,
é só por vício antigo
De me lamber as mãos e agatanhar o peito,
De me exibir a Cristo!
Sabe que a meu respeito
Vou além de quanto digo.
Sabe que os males que ora uso,
Como quem usa
Cabeleira ou dentadura,
São a pintura
Que esconde os mais verdadeiros,
De outro teor...
E sabe que sou pior!:
Sabe (se é que o não sabes)
Que ao teu amor por mim foi que ganhei amor.
Que a ti..., sei lá se te amo.
Sei que me deixam sozinho
Ante o girar dos mundos e dos séculos;
Sei que um deserto é o meu caminho;
Sei que o silêncio
Me há-de sepultar em vida;
Sei que o pavor, a noite, o frio,
Serão jardim da minha ermida;
Sei que tenho dó de mim...
Fica tu sabendo assim,
Querida!,
Porque te chamo.
Mas amar-te?!
Não!, minha vida.
Não! Reduziram-me a isto:
Só a mim amo.
Ama-me tu, se podes,
Sem procurar compreender-me:
Poderias julgar que me encontravas,
E seria eu perder-te e tu perder-me...
Ao menos tu..., desiste!
A sobre-humana prova que te peço,
A mais heróica!,
A mais inglória e a mais triste,
é essa..., - é este o meu preço.
Mais que o despeito, o ódio, a incompreensão 
Dos por quem passei sereno,
Estendendo a mão afável
Ao frio, pérfido, amável
Aperto da sua mão,
Me punge,
Me pesa no coração,
O fruste amor dos que me interpretaram.
Ai!, bem quiseram amar-me!
Bem o tentaram.
Mas nunca me perdoaram
O não serem dominados
Nem poderem dominar-me...
E assim o nosso amor foi uma luta
De cobardes abraçados.
Entre eu e tu,
Tão profundo é o contrato
Que não pode haver disputa.
Não é pacto
Dum pobre aperto de mão:
Entre nós, - ou sim ou não.
Despi-me..., vê se me queres!
Despi-me com impudor,
Que é irmão do desespero.
Vê se me queres,
Sabendo que te não quero,
Nem te mereço,
Nem mereço ser amado
Pela pior
Das mulheres...
Poderás amar-me assim,
(Como explicar-me?!)
Por Qualquer Cousa que eu for, 
Mas não por mim!, não a mim...!

Beijo-te os pés, meu amor.


JOSÉ RÉGIO (1901-1969)

sábado, 26 de setembro de 2015

A Voz do Povo


Mercado (1903).
Artur José de Sousa Loureiro (1853-1932).
Óleo sobre madeira (32 x 40,5 cm).
Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto.

Os provérbios populares constituirão porventura um dos géneros mais expressivos e divulgados da nossa literatura de tradição oral. Transmitidos verbalmente de geração em geração, ficaram registados no livro vivo da nossa memória colectiva. Alguns são intemporais, outros ficaram confinados a um espaço e a um tempo que os contextualiza. Todavia há aqueles que atravessaram fronteiras territoriais que não impediram a partilha de saberes entre os povos de cada lado. Muitos conheceram variantes regionais e outros sofreram corruptelas, que em vez de fragilizarem, pelo seu pluralismo enriqueceram a nossa literatura de tradição oral.
Os provérbios, muitas vezes conhecidos por adágios, aforismos, anexins, axiomas, ditados, máximas, rifões, refrães e sentenças, têm tido compiladores ao longo dos tempos. Das mais antigas compilações há que salientar as do Padre António Delicado (1651), do Padre Raphael Bluteau (1712-1728) e de Roland (1780).
Segundo Antero de Figueiredo (1866-1953), os provérbios “encerram em poucas palavras, verdades ou máximas morais, confirmadas no decurso das gerações”. Daí serem considerados a “ voz do povo”.
Alguns desses provérbios revelam a intenção notória do exercício de crítica a quem exerce discricionariamente o poder. Actualmente o exercício da crítica é um direito democrático que os cidadãos exercem individualmente nos órgãos de comunicação social e nas redes sociais, onde dão a cara. Todavia, nem sempre foi assim. Nas autocracias a critica não podia ser exercida individualmente, dando a cara. Se o fosse, conduzia à masmorra, ao pelourinho e mesmo ao cadafalso. Disso se encarregava o rei, o senhor feudal ou os senhores da terra e quejandos. Por isso a crítica era anónima. Era a “vox populi” – voz do povo ou sejam os provérbios. Passemos em revista, algumas dessas pérolas da nossa literatura de tradição oral:
I - A ignorância é atrevida. Quem não é por mim, é contra mim. Ter a faca e o queijo na mão. Levar a água ao seu moinho. Albarde-se o burro à vontade do dono. Quem não tem cabeça, é mais cabeçudo. Todos têm o seu pé de pavão. O pavão, quanto mais levanta a cauda, mais se lhe vê o rabo.
II - Em terra de cegos quem tem um olho é rei. Quando um cego leva a bandeira, ai de quem vai atrás. Como as aves se alimentam de muitos insectos, os velhacos subsistem de muitos tolos. Com doces e bolos se enganam os tolos. Quem diante de ti te elogia, por detrás te critica. As capacidades mesquinhas incham com a adulação. Cada povo tem o governo que merece.
III - O orgulho cega os homens. Pão a uns e pau a outros. Quem tem uma manha, nunca a perde. Cada um é filho das suas obras. Tem o rei na barriga. Em dia de festa, barriga atesta. Não há festa nem festança a que não vá Dona Constança.
IV - A necessidade não tem lei. Onde a força entra, a razão se ausenta. Onde não há honra, há desonra. Os fins não justificam os meios. Uma dignidade desonra aquele que não a honra. Nunca um perde sem outro ganhar. A injustiça feita a um, é uma ameaça para todos. Quem dá e torna a tirar ao inferno vai parar. As injustiças sempre se vêm a pagar. Quem faz mal, por mal espere. Cedo ou tarde, tudo se paga cá neste mundo. O mau, de si próprio é algoz. Quem brinca com o fogo acaba por se queimar. Quem cava um buraco para outro, cai nele. Quem cospe para o ar, na cabeça lhe cai. Sair o tiro pela culatra. Virar o feitiço contra o feiticeiro. Não há bem que sempre dure, nem mal que perdure. Uma onda se vai e outra vem. Não há matreiro que não caia. Um dia cai a casa.

segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Adágios para o Dia Internacional da Paz


 Paisagem com a Paz e a Justiça abraçando-se (1654).
Laurent de la Hire (1606-1656).
Óleo sobre tela (55 x 76 cm).Toledo Museum of Art, Ohio


“É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue,
 das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É a
guerra aquela tempestade terrestre, que leva os campos, as casas, as
vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um momento sorve os reinos
e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas
as  calamidades, em que não há mal algum que, ou se não padeça, ou se
não tema, nem bem que seja próprio e seguro. O pai não tem seguro o
filho, o rico não tem segura a fazenda, o pobre não tem seguro o seu suor,
o nobre não tem segura a honra, o eclesiástico não tem segura a imunidade,
religioso não tem segura a sua cela; e até Deus nos templos e nos sacrários
 não está seguro”.

Padre António Vieira (1608-1697)
(Sermão Histórico e Panegírico nos Anos
 da Rainha D. Maria Francisca de Sabóia”, II)
   
A 21 de Setembro celebra-se o Dia Internacional da Paz, proclamado pela Organização das Nações Unidas em 30 de Novembro de 1981, como um dia de cessar-fogo e de não-violência em todo o mundo.
A finalidade da comemoração não é apenas que as pessoas pensem na paz, tem como objectivo a consciencialização pública da importância de que se reveste a necessidade da paz no mundo, bem como a promoção de actos cujo resultado se traduza no fim dos conflitos entre povos e a consagração da paz mundial.
Resolvemos dar um contributo para essa consciencialização, recorrendo à tradição oral e mais particularmente ao adagiário português sobre a paz. Naturalmente que não subscrevemos alguns desses adágios, por porem em causa a igualdade de género, actualmente consagrada na lei.

- A boa guerra faz a boa paz.
- A felicidade consiste em trabalho, paz e saúde.
- A mediania é o refúgio da paz.
- A mulher e o rapaz são pouco amigos de paz.
- A paz é dom de Deus.
- A paz há-de se procurar sempre.
- Antes um ovo com paz que um boi com guerra.
- Boa guerra faz boa paz.
- Boa romaria faz quem em sua casa fica em paz.
- Cada um só goza a paz que o vizinho quer.
- Casa com a filha do rei, que as pazes eu as faço.
- Com os bons te ajuntarás, se quiseres viver em paz.
- Com paz é que se trabalha.
- Comida meada, faca embainhada.
- Da guerra a paz, da paz a abundância, da abundância o ócio, do ócio a malícia, da malícia a guerra.
- Em guerra e em paz, quem mal sai, mal jaz.
- Entre guerra e paz, quem mal sai, mal jaz.
- Família criada, paz arrasada.
- Feliz e boa festa faz, quem em sua casa fica em paz.
- Guerra bem guerreada traz boa paz
- Guerra de S. João paz de todo o ano.
- Hajamos paz, morreremos velhos.
- Livra-te de dever, se queres em paz viver.
- Livra-te de questões, se queres viver em paz.
- Mais vale guerra declarada que paz simulada.
- Mais vale paz que vitória.
- Mais vale vaca em paz do que pombo em guerra.
- Não há paz entre gente, nem entre as tripas da gente.
- Não há paz entre gente, nem entre as tripas do ventre.
- Não há paz onde canta a galinha e cala o galo.
- Não há paz onde canta a galinha e canta o galo.
- No forno se ganha a paz, no forno se perde.
- Nunca existiu uma guerra boa nem uma paz má.
- O fim da guerra é a paz; o do trabalho é o tempo livre.  
- O medo da guerra é a maior garantia da paz.
- O que é de paz cresce por si.
- O segredo da vida alegre e contente é estar em paz com Deus e com a Natureza.
- Onde a mulher reina e governa, raras vezes mora a paz.
- Paz de cajado guerra é.
- Paz e paciência, morte com penitência.
- Paz e saúde, dinheiro a quem o quiser.
- Paz em casa e guerra com todo o mundo.
- Pouco e em boa paz, muito se me faz.
- Pouco e em paz, muito se me faz.
- Prepara-te para a guerra, se queres a paz.
- Quanto sabes, não dirás; quantos vês, não julgarás, e viverás em paz.
- Quem a paz quer conservar, deve ver, ouvir e calar.
- Quem acorda cão dormido, vende paz e compra arruído.
- Quem em paz quiser estar, deve ver, ouvir e calar.
- Quem leva e trás não deixa paz.
- Quem nega e depois faz, quer paz.
- Quem vive em paz, dorme em sossego.
- Saúde e paz, dinheiro atrás.
- Se anelas a paz de tua alma, retém tua paixão em calma.
- Se queres a paz, prepara a guerra.
- Se queres paz, evita a guerra.
- Se queres viver em paz, tuas portas fecharás.
- Sem tempo nada se faz, mas aproveita-o em paz.
- Tenhamos paz e morreremos velhos.
- Tenhamos saúde e paz e teremos assaz.
- Teus ouvidos selarás se quiseres viver em paz.
- Todas as cousas têm cabo; seja paz ou seja guerra.
- Trégua não é paz.
- Vale mais uma sardinha com paz do que galinha com guerra.
- Veste-te em guerra, arma-te em paz.
- Vive bem e em paz quem em sua casa festa faz.

Publicado inicialmente em 21 de Setembro de 2015

quinta-feira, 17 de setembro de 2015

32 - São Pedro, Pescador, Apóstolo, Porteiro do Céu, 1º Bispo de Roma, 1º Papa e Mártir.



São Pedro. Liberdade da Conceição (1913-1990). 
Colecção particular.

São Pedro (ca.1 a.C - 67 d.C.) nasceu na povoação de Betsaida na Palestina e foi morar mais tarde para a cidade de Cafarnaum. Era filho de um homem chamado João e irmão do igualmente apóstolo André. Ambos eram armadores com frota de barcos própria, em sociedade com Tiago, João e o pai destes, Zebedeu.
São Pedro conheceu Jesus quando este lhe pediu para utilizar uma das suas barcas, para poder pregar à multidão que o queria escutar. Pedro anuiu e afastou a barca um pouco da margem. No final da pregação, Jesus aconselhou-o a pescar em águas mais profundas. Foi tão bem sucedido que as redes iam rebentando. Numa atitude de humildade e surpresa, Pedro ajoelhou perante Jesus, a quem disse para se afastar dele, já que era um pecador. Jesus incentivou-o, então, a segui-lo, dizendo que o tornaria "pescador de homens".
São Pedro foi um dos 12 apóstolos e por Jesus Cristo indigitado para os guiar. Discípulo de Jesus, resolve fugir na altura da prisão do Mestre. Ao regressar ao Pretório para saber notícias, é confrontado e renega, então, três vezes Jesus Cristo, que lhe havia vaticinado a sua traição.
Em Antioquia, onde fundou a primeira igreja, é preso entre 41 e  43 d.C. por ordem de Herodes Agripa I (c.10 a.C. - 44 d.C.), acabando por ser libertado por um anjo. Segue depois para Roma (ano 43 d.c.), cidade de que foi o primeiro Bispo e o primeiro Papa e onde foi crucificado no ano 64, de cabeça para baixo, a seu pedido, pois, conforme disse, “Não merecia ser tratado como o seu Divino Mestre”.
São Pedro é tido como autor de duas epístolas, dois dos 27 livros do Novo Testamento.
Iconograficamente São Pedro é representado como homem robusto, de meia-idade, de barba curta, vestido de apóstolo ou de papa. Múltiplos são os seus atributos: as chaves do Céu, em número de uma, duas ou três (que Cristo lhe terá confiado, dizendo: “Dar-te-ei a chave do Reino dos Céus: àqueles a que tu as abrires, as portas franquear-se-ão, e àqueles a quem as cerrares, ser-lhes-ão cerradas); a barca e o peixe (alusão ao seu mester de pescador); o galo sobre uma coluna (a lembrar a sua traição a Cristo: “Antes que o galo cante me negarás três vezes”); as cadeias (referência à sua prisão em Antioquia e Roma); a cruz de três ramos (atributo dos Papas), a cruz invertida (símbolo do seu martírio) e um livro (é um dos autores do Novo Testamento).
São Pedro é Padroeiro de Papas e pescadores. A sua festa litúrgica ocorre a 29 de Junho. Os festejos populares de São Pedro, ocorrem de 28 para 29 de Junho, são diversificados e atingem especial brilhantismo em Alverca do Ribatejo, Câmara de Lobos, Montijo, Nisa, Póvoa de Varzim, Ribeira Brava, Ribeira Grande, Ribeira Seca, São Pedro do Campo, Teixoso e Viana do Castelo.
São Pedro integra a nossa literatura de tradição oral. A nível de adagiário destacamos: “Até ao São Pedro, o vinho tem medo.”, “Até São Pedro, abre rego e fecha rego.”, “Bem está São Pedro em Roma.”, “Chuva de São Pedro, faz acordar cedo.”, “Dia de São Pedro tapa o rego.”, “Dia de São Pedro, vê teu olivedo e se vires um bago, espera por cento.”, “Pelo S. João, figo na mão, pelo S. Pedro, figo preto.” São abundantes as referências ao Santo no cancioneiro popular alentejano. Dele destacamos duas quadras. Uma brejeira: “Se S. Pedro não me casa/ N'este domingo de festa,/ Hei de me ir á sua egreja,/ Hei de lhe chamar careca.” Outra que reflecte as tradições agro-pastoris: “S. João e mais S. Pedro/ São dois santos mudadores,/ S. João muda os criados,/ S. Pedro muda os pastores.”

Texto publicado inicialmente a 17 de Setembro de 2015