segunda-feira, 28 de setembro de 2015

33 – As fiandeiras

Mulher dos perus.
José Moreira (1926-2001).
Colecção particular.
  
O núcleo base do figurado de Estremoz inclui três figuras femininas de camponesas, trajando à moda do séc. XIX, as quais conduzem animais a caminho da feira ou do mercado e carregam um cesto na cabeça. Todas elas ostentam uma roca apoiada no lado esquerdo da cintura e empunham um fuso, geralmente na mão direita. Essas imagens são: - MULHER DOS PERUS – Conduz um casal de perus e leva no cesto, ovos destas aves; - MULHER DAS GALINHAS – Leva um galo e duas galinhas, cujos ovos transporta no cesto; - MULHER DOS CARNEIROS – Acompanha dois ovinos e carrega uma cesta com queijos. Qualquer das peças representa uma fiandeira ou seja uma mulher que fia.
A fiação é uma actividade humana de carácter universal, documentada a partir do Mesolítico e que consiste em reduzir a fio, matérias têxteis, como o linho, a lã e o algodão. Com a descoberta do fuso há cerca de 5000 anos, a técnica de fiação aperfeiçoou-se. O fuso é um instrumento de madeira para fiar à roca, que tem simetria cilíndrica, mais encorpado no meio e que se estreita até às duas pontas, terminando em bico. Serve para enrolar o fio que vem a constituir uma “maçaroca”. Quando o fuso está cheio, passa-se o fio para o “sarilho”, a fim de o transformar em “meada”.
Além do fuso, a fiação recorre também à roca. Esta é uma vara de madeira ou cana, encimada por um parte chamada “copo”, que termina numa peça denominada “torre”. A roca fixa-se à cintura, do lado esquerdo, entre o cós da saia e o corpo, inclinada para a frente, com o copo sensivelmente à altura da cara de quem fia. Para carregar a roca, no caso do linho, este é assente ao comprido sobre os joelhos e o copo molhado com saliva é encostado ao linho, rodando-se com a mão direita, ao passo que com a esquerda se agarra o linho, de modo que as fibras não fiquem emaranhadas. Seguidamente, ata-se o linho enleado no copo com uma correia presa na sua extremidade superior, enfia-se o cabo da roca na cintura, molham-se com saliva as pontas dos dedos indicador e polegar da mão esquerda, destacam-se algumas fibras, torcendo-as até formar uma pequena ponta de fio e aproxima-se desta o fuso, imprimindo-lhe de seguida movimento giratório com a mão direita, o qual é gerado com o polegar, indicador e médio. O fuso fica a rodar, suspenso pelo fio que a sua rotação vai torcendo e seguro simultaneamente pelo fio e pelos dedos. De vez em quando, o fio é passado pela boca, a fim de o humedecer. Quando o tamanho do fio afeiçoado obriga a afastar demasiado o braço direito, interrompe-se a fiação e enrola-se essa porção de fio no fuso.
A fiação era um trabalho executado essencialmente por mulheres, em casa ou no trabalho, a caminho dos campos, a apascentar gado ou a caminho de feiras, mercados, etc., aproveitando todo o tempo em que as mãos não estavam ocupadas. Todavia, as transformações sócio–culturais operadas no séc. XX, aliadas às facilidades de comunicação, acabaram com o isolamento dos campos e das aldeias, que foram invadidas por produtos têxteis industriais, conduzindo ao abandono da fiação caseira.
A fiação está presente na nossa literatura de tradição oral. A nível de adagiário destacamos: “A fiandeira laboriosa, nunca faltou pano para camisas.”, “A fiar e a tecer, ganha a mulher de comer.”, “Cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso.”, “De linho arestoso, faz camisas a teu esposo.”, “Linho apurado, dá lenço dobrado.”, “Maria fia, fia, fia três maçarocas por dia.” Do vasto cancioneiro popular, destacamos apenas uma quadra maliciosa do cancioneiro de Melgaço: “Quem me dera ser o linho/ Que vós na roca fiais!/ Quem me dera a mim os beijos/ Que vós ao linho le dais!”