sábado, 26 de setembro de 2015

A Voz do Povo


Mercado (1903).
Artur José de Sousa Loureiro (1853-1932).
Óleo sobre madeira (32 x 40,5 cm).
Museu Nacional de Soares dos Reis, Porto.

Os provérbios populares constituirão porventura um dos géneros mais expressivos e divulgados da nossa literatura de tradição oral. Transmitidos verbalmente de geração em geração, ficaram registados no livro vivo da nossa memória colectiva. Alguns são intemporais, outros ficaram confinados a um espaço e a um tempo que os contextualiza. Todavia há aqueles que atravessaram fronteiras territoriais que não impediram a partilha de saberes entre os povos de cada lado. Muitos conheceram variantes regionais e outros sofreram corruptelas, que em vez de fragilizarem, pelo seu pluralismo enriqueceram a nossa literatura de tradição oral.
Os provérbios, muitas vezes conhecidos por adágios, aforismos, anexins, axiomas, ditados, máximas, rifões, refrães e sentenças, têm tido compiladores ao longo dos tempos. Das mais antigas compilações há que salientar as do Padre António Delicado (1651), do Padre Raphael Bluteau (1712-1728) e de Roland (1780).
Segundo Antero de Figueiredo (1866-1953), os provérbios “encerram em poucas palavras, verdades ou máximas morais, confirmadas no decurso das gerações”. Daí serem considerados a “ voz do povo”.
Alguns desses provérbios revelam a intenção notória do exercício de crítica a quem exerce discricionariamente o poder. Actualmente o exercício da crítica é um direito democrático que os cidadãos exercem individualmente nos órgãos de comunicação social e nas redes sociais, onde dão a cara. Todavia, nem sempre foi assim. Nas autocracias a critica não podia ser exercida individualmente, dando a cara. Se o fosse, conduzia à masmorra, ao pelourinho e mesmo ao cadafalso. Disso se encarregava o rei, o senhor feudal ou os senhores da terra e quejandos. Por isso a crítica era anónima. Era a “vox populi” – voz do povo ou sejam os provérbios. Passemos em revista, algumas dessas pérolas da nossa literatura de tradição oral:
I - A ignorância é atrevida. Quem não é por mim, é contra mim. Ter a faca e o queijo na mão. Levar a água ao seu moinho. Albarde-se o burro à vontade do dono. Quem não tem cabeça, é mais cabeçudo. Todos têm o seu pé de pavão. O pavão, quanto mais levanta a cauda, mais se lhe vê o rabo.
II - Em terra de cegos quem tem um olho é rei. Quando um cego leva a bandeira, ai de quem vai atrás. Como as aves se alimentam de muitos insectos, os velhacos subsistem de muitos tolos. Com doces e bolos se enganam os tolos. Quem diante de ti te elogia, por detrás te critica. As capacidades mesquinhas incham com a adulação. Cada povo tem o governo que merece.
III - O orgulho cega os homens. Pão a uns e pau a outros. Quem tem uma manha, nunca a perde. Cada um é filho das suas obras. Tem o rei na barriga. Em dia de festa, barriga atesta. Não há festa nem festança a que não vá Dona Constança.
IV - A necessidade não tem lei. Onde a força entra, a razão se ausenta. Onde não há honra, há desonra. Os fins não justificam os meios. Uma dignidade desonra aquele que não a honra. Nunca um perde sem outro ganhar. A injustiça feita a um, é uma ameaça para todos. Quem dá e torna a tirar ao inferno vai parar. As injustiças sempre se vêm a pagar. Quem faz mal, por mal espere. Cedo ou tarde, tudo se paga cá neste mundo. O mau, de si próprio é algoz. Quem brinca com o fogo acaba por se queimar. Quem cava um buraco para outro, cai nele. Quem cospe para o ar, na cabeça lhe cai. Sair o tiro pela culatra. Virar o feitiço contra o feiticeiro. Não há bem que sempre dure, nem mal que perdure. Uma onda se vai e outra vem. Não há matreiro que não caia. Um dia cai a casa.