terça-feira, 26 de julho de 2011

Temos carácter. Somos alentejanos!


COSTUMES ALENTEJANOS (1923). Jaime Martins Barata (1899-1970).
Aguarela sobre papel. Museu Grão Vasco (Viseu).      
                                              

À Catarina, minha filha:

Muitos de nós, andamos cansados, pelos mais diversos e respeitáveis motivos. Todavia, a eminência de expulsão dos bofes não é compatível com o verbalismo retórico.
A ameaça de ingresso na zona meã da temperatura a que ferve o ângulo recto, ceifa-nos, quer por baixo, quer por cima. Mas isso, não importa. Somos neo-realistas obstinados, anarco-libertários do rebimba-ó-malho, à prova de combustão, seja ela qual for.
Somos homens e mulheres de sequeiro, que bebemos das raízes que mergulham no barro e no xisto e, quando é necessário, na dureza fria do mármore.
Não abdicamos, nem nos vendemos, nem tão pouco nos rendemos. O nosso lugar, é aqui.
Temos carácter. Somos alentejanos.
Recomendamo-nos!

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Adivinhário português da água

Um poço em Estremoz (Início do séc. XX). Alberto de Souza (1880-1961). Desenho a tinta da China aguarelada, utilizado como ilustração de bilhete-postal ilustrado da 3ª série de “A EDITORA”.

A presente colectânea de adivinhas sobre a água, é fruto da nossa investigação em oito fontes bibliográficas distintas, cujos autores, cada um na sua época, as recolheu da tradição oral. Sistematizámo-las em quatro grupos distintos, ainda que não divergentes:

1 – Água
2 - Poço
3 – Nora
4 – Diversos
 
Passemos, de seguida, em revista, estes grupos:

1 – ÁGUA

“Qual é a cousa, qual é ela,
Que chega à serra e se abica?” [5]
(SOLUÇÃO – A água)

“Uma coisa que tanto anda, e nunca chega onde quer.” [3]
(SOLUÇÃO – Água corrente.)

“Sem voz, encanto quem me ouve; tenho leito e não durmo; e, como o tempo, corro sempre.” [5]
(SOLUÇÃO – A água de um ribeiro.)

“Qual é a coisa, qual é ela,
Que Deus criou para andar
Sem nunca para trás voltar?” [2]
(SOLUÇÃO – A água do rio.)

“São três cousas:
Uma diz que vamos,
Outra que fiquemos,
Outra que dancemos?” [4]
(SOLUÇÃO – Água, areia, espuma.)

“Quanto mais alta,
Melhor se alcança.” [7]
(SOLUÇÃO – A água do poço.)

2 – POÇO

“Alto como um pinheiro,
Redondo como um pandeiro.” [1]
(SOLUÇÃO – Um poço.)

“Que é, que é,
Redondo como um cesto,
Comprido como uma corda?” [4]
(SOLUÇÃO – Um poço.)

“Que é, que é,
Que quanto mais se lhe tira
Maior é?” [5]
(SOLUÇÃO – Um poço.)

3 - NORA

“Qual é a coisa que anda e anda bem, e nunca sai do sítio e faz sair os que andam com ela?” [8]
(SOLUÇÃO – A nora.)

“Eu sou mãe de muitos filhos
e todos comigo tenho
e para lhes matar a fome
dou mil voltas e venho.” [8]
(SOLUÇÃO – A nora.)

“Sou mãe de muitos filhos,
E todos comigo tenho;
Para os ver fartos e cheios,
Dou uma volta, vou: e venho;
Mas, como no tempo presente
Tudo custa a sustentar,
Quando os vejo fartos e cheios,
Ponho-me então a cantar.” [6]
(SOLUÇÃO – A nora.)

4 – DIVERSOS

“Já que tens entendimento
E és amigo de saber:
Uma pedra em cima da água,
Dize lá se pode ser?” [5]
(SOLUÇÃO – O gelo)

“Que diferença há entre a água e o médico?“ [7]
(SOLUÇÃO – A água mata secura; o médico se cura, não mata.)

Adivinhas como estas, povoavam o imaginário popular, na época em que gerações, afastadas no tempo, seroavam em convívio e partilha, já que a transmissão de saberes, de uma forma natural, se processava através da oralidade. Foram práticas que se perderam…

BIBLIOGRAFIA
[1] – BRAGA, Teófilo. “As Adivinhas Portuguesas”, in Era Nova. Lisboa, 1881
[2] – GONÇALVES DAS NEVES, Serafim, PIRES DE LIMA, Augusto Castro & DACIANO, B.: “Tradições de Azurara, III — Adivinhas”, in Boletim Douro-Litoral, 4ª série, VII-VIII. Porto, 1951.
[3] – LEITE DE VASCONCELLOS, José. Ensaios Etnográficos, vol. IV. Lisboa, 1910.
[4] – LEITE DE VASCONCELLOS, José. Tradições Populares de Portugal. Livraria Portuense de Clavel e C.ª – Editores. Porto, 1882.
[5] – PIRES DE LIMA, Augusto Castro. O Livro das Adivinhas. Editorial Domingos Barreira. Porto, 1943.
[6] – PIRES DE LIMA, Fernando de Castro. Qual é a coisa qual é ela? Portugália Editora. Lisboa, 1957.
[7] – VIEGAS GUERREIRO, M. Adivinhas Portuguesas. Fundação Nacional Para A Alegria No Trabalho. Lisboa, 1957.
[8] - VIEIRA BRAGA, Alberto. “Folclore”, in Revista de Guimarães, vol. XXXIV (1934).

domingo, 17 de julho de 2011

Mitologia popular da água


Camponesa de Estremoz com cântaro de água. (c. 1940).
Ilustração de Cesar Abbott em bilhete-postal ilustrado.
Edição do Centro de Novidades, Porto.

São inúmeras as superstições relativas à água e ao seu consumo. Delas destacamos algumas:
- No princípio do mundo, a água foi condenada a correr sempre e nessa época também tinha fala. (3)
- Está ainda muito arreigada a crença nos vedores, pessoas que detectam a presença de veios de água no subsolo. (4)
- Tanto a água corrente como a de bica, descansa uma hora em cada noite, que foi a hora que Deus lhe estabeleceu para descansar. (4)
- A água dorme todas as noites e à meia-noite do dia de S. João, está benta. (3)
- Não se deve beber água depois da meia-noite, sem mexer o copo que a contém, porque a água está a dormir e de contrário, fará mal a quem a bebe. (1)
- Existe a crença de que a água, à meia-noite ou na manhã de São João, tem muitas virtudes, por isso as pessoas se lavam nela e levam os gados às pontes e rios. (3)
- Para a água se manter fresca, ata-se uma junta ao gargalo do cântaro, em que se transporta água da fonte (Alandroal). (2)
- Não se deve beber água com uma luz na mão, porque entram espíritos. (1)
- Não se deve beber água com uma luz na mão, porque provoca gota ou porque se bebe o juízo. (3)
- É mau beber água com uma luz na mão, pois que se dão acidentes. (4)
- Para não se morrer de dores de barriga, não se deve beber água em correntes, sem primeiro rezar um padre-nosso e uma ave-maria. (1)
- Quando a água que se bebe está fria, é porque não choverá. (4)
- Quem bebe água em jejum, cura o catarral. (4)
- É mau beber água antes do Sol-posto, de acordo com o adágio:
“Quem bebe água antes do almoço
Chora antes do Sol-posto.” (3)
- Beber nove [1] golos de água é remédio certo para afastar os soluços. (1)
- Aos recém-nascidos deve-se dar a beber a água em que foram lavados, para os tornar mansos. (1)

BIBLIOGRAFIA
(1) - CONSIGLIERI PEDROSO, “Supertições Populares”, O Positivismo: revista de Filosofia, Vol. III. Porto, 1881.
(2) - LEITE DE VASCONCELLOS, José. Etnografia Portuguesa. Vol. V. Imprensa Nacional – Casa da Moeda. Lisboa, 1982.
(3) - LEITE DE VASCONCELLOS, José. Tradições Populares de Portugal. Livraria Portuense de Clavel e C.ª – Editores. Porto, 1882
(4) - THOMAZ PIRES, A. Tradições Populares Transtaganas. Tipographia Moderna. Elvas, 1927.
Publicado inicialmente a 17 de Julho de 2011

[1] - O número nove representa o triplo do triplo (9=3x3) e para os hebreus é o símbolo da verdade com a característica de que multiplicado por si próprio, se reproduz a si mesmo, segundo a adição mística (9x9=81). Daí que o nove, seja por excelência, o número dos ritos medicinais, uma vez que representa a tripla síntese (corporal, intelectual e espiritual).

sábado, 16 de julho de 2011

A tradição da água das sete fontes

Estremoz - Fonte do Espírito Santo (1891). Fotografia de C.J. Walowski.



                                                                           À minha filha Catarina:

No Alentejo, como aliás noutras regiões do país, era tradição recolher água de sete fontes na manhã de S. João (24 de Junho), porque a água assim obtida, era uma água repleta de virtudes. Porquê sete fontes e não outro número qualquer? A resposta a esta questão, leva-nos a abordar, ainda que de relance, o simbolismo associado aos números.
O número um tem a ver com o poder supremo e absoluto, com a responsabilidade exclusiva e a lógica univalente. Para os pitagóricos, o número um, origem de todos os números, representa a razão, por ser imutável.
O número dois tem a ver com a partilha e a complementaridade de funções, com a lógica binária do sim ou não. Para os pitagóricos, o número dois representa a opinião ou o conflito, a oposição e a imobilidade momentânea, quando as forças são iguais.
Por sua vez, o número três representa a síntese espiritual, a resolução do conflito colocado pelo dualismo. Quanto ao número quatro representa a justiça, por ser um quadrado perfeito, o produto de dois factores iguais.
Já o número cinco representa o casamento, por ser a soma do primeiro número par (o número dois, considerado feminino) com o primeiro número ímpar (o número três, considerado masculino).
No que respeita ao número seis, este é considerado um número perfeito, por ser igual à soma dos seus divisores (um, dois e três).
Finalmente, porque a nossa análise ficará por aqui, para os pitagóricos, o número sete é um número sagrado, considerado mágico como todos os números ímpares. Resulta da união (soma) do ternário (três) com o quaternário (quatro). Simboliza a ordem completa, o período, o ciclo.
O número sete como união do número três com o número quatro, regista forte presença na Filosofia e Literatura sagrada desde a Antiguidade. O número três, representado geometricamente por um triângulo (A Santíssima Trindade) e o número quatro, representado por um quadrado (A matéria, isto é, os elementos do mundo físico: terra, água, ar e fogo). Daí que o número sete represente o espírito encarnado ou seja o espírito sustentado pela matéria.
Constatado o carácter mágico e sagrado do número sete, que representa a ordem completa, compreende-se a crença popular de que a água de sete fontes, estivesse dotada de virtudes.
À luz dos conhecimentos científicos actuais, sabe-se que a composição química de uma água, varia de fonte para fonte, podendo faltar numa, os sais minerais indispensáveis a um bom funcionamento do organismo, os quais, em contrapartida, podem existir noutra. Daí que a mistura da água de sete fontes, confira virtudes à água.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

O vasilhame de água no Alentejo

Cântaro de barro de Estremoz (altura: 40 cm; diâmetro máximo: 68 cm)
com cerca de 5 litros de capacidade. Fabrico da Olaria Alfacinha
(Anos 40 do séc. X). Decoração com folhas, bolotas e ramos de sobreiro
moldados em barro e colados à superfície, conjugados com algum
polimento daquela. A própria asa é uma pernada de sobreiro. No lado
oposto, o brasão de armas de Estremoz. Colecção do autor.



O Alentejo teve importantes centros oleiros, dos quais se destacam: Flor da Rosa, Nisa, São Pedro do Corval, Viana do Alentejo, Redondo e Estremoz. Aqui se produziu ou ainda se produz, todo o tipo de vasilhame destinado a uso doméstico, nomeadamente o destinado a conter água.
Dantes, todas as casas tinham na cozinha, um poial dos cântaros, onde os tamanhos mais correntes eram “a terceira” (15 litros) e a quarta (10 litros). Aí se ia buscar à fonte ou ao poço, a água destinada ao consumo doméstico. Nos poiais, lá estavam gravados muitas vezes, a cruz e o signo-saimão, símbolos mágicos de protecção contra o mau-olhado e o quebranto. Estes símbolos podiam aparecer igualmente gravados nos cântaros ou nas suas tampas de cortiça.
Para além dos cântaros, existiam ainda recipientes para água de menores dimensões, como as bilhas, os moringues, as garrafas de água e os barris.
As bilhas (de 1 a 2 litros) e os moringues (1 a 3 litros) permitiam levar água à mesa da refeição. Já as garrafas de água (1 a 2 litros) eram mais destinadas a ter na mesinha de cabeceira, para uso nocturno. Quantos aos barris (1 a 2 litros), destinavam-se a ser usados em viagem ou levados para o local de trabalho, usando um cordel que os permitia transportar ao ombro ou a tiracolo. Eram também usados nos carros de tracção animal, protegidos por um invólucro tecido com esparto, num receptáculo existente no exterior do carro.
Em Nisa, o vasilhame sempre foi decorado com minúsculos seixos de quartzo, embutidos no barro, formando arabescos que lhe conferem o ar de fino bordado. Já em Estremoz, sempre houve três tipos de decoração do vasilhame para água:
- o riscado, de aspecto mais rústico, tendo colado meniscos convexos de argila, decorados com minúsculos seixos de quartzo;
- o polido, com uma decoração mais fina e requintada, que joga com o contraste entre a superfície baça e os motivos que foram polidos;
- folhas, bolotas e ramos de sobreiro, moldados em barro e colados à superfície, conjugados com algum polimento daquela.
Antes da vulgarização dos frigoríficos, o vasilhame de barro era a garantia de se ter em casa, água fresca que nos permitisse dessedentar nos dias de Verão. O barro é poroso, pelo que a água contida no interior do recipiente, chega à superfície por capilaridade. Daqui se evapora por acção do calor, o que consumindo energia, faz baixar a temperatura no interior do recipiente. Este abaixamento de temperatura é directamente proporcional à massa de água evaporada e inversamente proporcional à massa de água contida na vasilha. Os cálculos revelam que ao evaporar-se 1 decilitro de água de um recipiente, que passe então a ficar com 1 litro dela, a temperatura desta baixa 5,4 º C. É a magia da natureza. E como é saborosa a água contida em recipientes de barro, sobretudo de barro novo, que se desfaz em fino pó.
A vulgarização dos frigoríficos deu uma facada de morte nos oleiros, que já tinham levado outra com a implementação dos recipientes de alumínio, a substituir a loiça vidrada. Por isso, os oleiros que resistem, vivem hoje, em parte, da louça decorativa que, por vezes, lá vão vendendo.

quarta-feira, 13 de julho de 2011

Matar a sede no Alentejo


A ceifa. Dordio Gomes (1890-1976). Óleo sobre tela (154 x 194 cm).


                                                                                   À minha filha Catarina

INTRODUÇÃO
O corpo humano de um adulto é composto por 60% de água, a qual está presente em todos os tecidos e desempenha múltiplos papéis: dissolve todos os nutrientes e transporta-os a todas as células, assim como às toxinas que o organismo necessita de eliminar. A água regula ainda a temperatura corporal através da produção de suor.
Através da transpiração, respiração, urina e fezes, perdemos diariamente cerca de 2,5 litros de água ou mesmo mais, se a temperatura for muito elevada e/ou o esforço físico for intenso. Esta perda deve ser reposta.
As necessidades de água do ser humano dependem das perdas e o bom funcionamento do nosso organismo passa pela água que consumimos. Através dos alimentos obtemos cerca de metade da água necessária, o resto deve ser ingerido, bebendo pelo menos, 1,5 litros de água por dia.

SEDES DE OUTRORA
Noutros tempos, nos campos do Alentejo, bebia-se água de algumas ribeiras, assim como de nascentes e poços. Quem andava nas fainas agro-pastoris, bebia normalmente água por um coxo, feito de cortiça.
Fainas violentas como as ceifas, exigiam que houvesse distribuição regular de água, o que era feito, geralmente por uma aguadeira da ceifa, transportando um cântaro de barro e um coxo, por onde se bebia à vez.
Os pastores na sua vida de nómadas conheciam bem a localização das nascentes e poços, onde matar a sede.
Dos poços a água era tirada com caldeiros de zinco, embora em sua substituição se vissem muitas vezes, à beira dos poços, grandes chocalhos com a mesma função. Lá diz o cancioneiro:

“O' lá Cabeço de Vide,
Toda coberta de neve,
Terra do neto da bruxa,
Quem não traz chocalho não bebe.” [1]

Nas aldeias e vilas, as mulheres iam às fontes, encher os cântaros de barro, que transportavam depois à cabeça, equilibrados miraculosamente pela sogra, que a maioria das vezes não passaria duma rodilha enrolada em forma de anel.
Nas cidades, existiam aguadeiros, proprietários de carro com grade para transporte de cântaros, puxados por muar ou burro. Igualmente os havia com recursos mais elementares. Havia quem transportasse os cântaros em cangalhas de madeira assentes no lombo das bestas. Havia também aqueles que nem besta tinham e efectuavam o transporte dos cântaros em carros de mão, que eles próprios empurravam. Os cântaros usados, eram geralmente em zinco, com tampa, não só para não partirem, como para não entornarem. Cada aguadeiro tinha, de resto, a sua própria rede de clientes certos, que eram abastecidos a partir da fonte que frequentava.

SEDES DE HOJE
Hoje é impensável e desaconselhável beber água de ribeiros e de poços, já que os aquíferos estão contaminados por adubos químicos e pesticidas, quando não por águas residuais, domésticas ou industriais. O mesmo relativamente à água das fontes das nossas vilas e aldeias.
Hoje temos que beber água da rede, muitas vezes com sabor a cloro ou então, água engarrafada. Esse o preço do progresso. Um preço que poderia ter sido evitado, praticando uma agricultura biológica, em equilíbrio com os agroecossistemas, assim como um tratamento e convenientemente encaminhamento das águas residuais, que em muitos casos ainda não é feito. Até quando?

BIBLIOGRAFIA
[1] - THOMAZ PIRES, A. Tradições Populares Transtaganas. Tipographia Moderna. Elvas, 1927.

Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 13 de Julho de de 2011

domingo, 10 de julho de 2011

Cancioneiro popular do pão


Mário Costa (n. 1902?), ilustração para a capa do relatório
comemorativo do XX Aniversário da Campanha do Trigo,
1929-1949, da Federação Nacional dos Produtores de
Trigo (F.N.P.T.). 1949.

Nós alentejanos somos pãezeiros, já que gostamos de comer tudo com pão. Daí que seja natural que no cancioneiro popular alentejano, existam múltiplas alusões ao pão. Seleccionámos, sistematizámos e estudámos algumas dessas referências.
Antes da integração na Comunidade Económica Europeia em 1986, o Alentejo estava coberto de extensas searas de trigo, as quais, quando amadurecidas, lembravam mares de ouro:

“Não há coisa mais bonita
que o torrão alentejano,
onde a seara bendita
dá pão para todo o ano.“ [5]

O Alentejo era admirado por ser produtor de trigo:

“Ai Alentejo, que amuo
o meu por não ser capaz
de ser rico como tu:
para dar o pão que tu dás.“ [5]

O Alentejo foi considerado o celeiro de Portugal e havia quem defendesse que o pão devia ser repartido com equidade:

“Pão nosso de cada dia,
repartido por igual.
Bendito o meu Alentejo,
celeiro de Portugal.“ [5]

Outros advogavam que o pão devia ser repartido pelos pobres:

“Pão nosso de cada dia
pelos pobres repartido…
Bendito o meu Alentejo
que é celeiro bem provido!“ [5]

O reconhecimento de que a terra dava pão, aconselhava a não semear em terra alheia:

“A terra é nossa mãe
pois a terra nos dá pão,
não semeies terra alheia
em busca de produção.“ [5]

Persiste ainda a ideia generalizada de que não há pão, como o pão alentejano:

“Não há coisa mais bonita
que do Alentejo o torrão,
nem há graça infinita
que se iguale à do seu pão.“ [5]

Por ali se colher o trigo, o Alentejo era considerado terra abençoada:

“Alentejo, mouro de antanho,
que um português fez cristão,
és a terra abençoada
de onde o País colhe o pão.“ [5]

Numa perspectiva religiosa, relativa ao pão, o Alentejo era o altar de uma igreja, que era Portugal:

“Ó pão que o corpo deseja,
e a alma quando a rezar,
tens a pátria por igreja
e o Alentejo por altar.“ [5]

Ainda numa óptica religiosa, as espigas das searas eram equiparadas a mãos em atitude de prece:

“Alentejo, terra rasa,
toda coberta de pão;
as tuas espigas douradas
lembram mãos em oração.“ [5]

Igualmente sob um ponto de vista religioso, o pão era abençoado por Jesus:

“Esse pequenino grão
em espiga transformado,
depois de sofrer é pão
por Jesus abençoado.“ [5]

Reconhecia-se ainda que o pão era utilizado no sacramento da Eucaristia:

“Tens Alentejo a missão
de frutos de oiro gerar,
- Corpo de Deus – feito pão
e Hóstia Santa no Altar.“ [5]

No cancioneiro popular alentejano existem referências específicas ao consumo do pão:

“Com um pão de munição
Que el-rei de Hespanha me dá,
Aqui ‘stou eu toda a noite:
Sentinela alerta está!“ [4]

“Os almocreves d’Abrantes,
Quando andam no caminho:
Bôa carne, bom pão alvo,
Melhor borracha de vinho.“ [4]

“Dae-me pinguinhas de vinho
Com bocadinhos de pão,
Dae-me mais alguma coisa
Para fazear caldeação.
Tu ateimas, eu ateimo,
Verás se assim é ou não.“ [4]

“Já comêmu pão de trigu
Cê mihtura dê cêbáda
Já não há rêclamaçõi
Ehtá toda a gênti calada.“ (Barrancos) [1]

Como é corrente noutros temas, existe algum cancioneiro de natureza humorística, relativo ao pão:

“Minha mãe é padeirinha,
Quando coze faz um bolo,
Quando se zanga comigo,
Bate-me com a pá do forno.“ (Alcáçovas) [2]

“Minha avó era padeira,
Vendia o pão a vintém,
Agora vende uma asneira,
Nem pão, nem dinheiro tem.“ [4]

“Ó meu amor, vae e vem,
Não te delates na praça,
Quem conversa com padeiras
Mollete come de graça.“ [4]

“Minha mãe casou-me em Maio
Minha sogra não tem pão,
Doe-me a barriga com fome,
“Oh! que dor do coração! [4]

O meu amor pequenino,
pequenino, resoluto,
é como o pão do padeiro
que se come sem conduto.“ [5]

“Não há pão como o pão alvo,
Nem carne com o toucinho,
Nem rapaz que valha um frasco
Cheio d’aguardente ou vinho.“ [4]

O ganha-pão de alguns pode até ser divertido:

“A cantar e a bailar
É que o meu bem ganha pão,
De viola a tiracolle
E panderêta na mão.“ [4]

O forno de cozer pão, pode metaforicamente ser usado para lá meter cantigas:

“As cantigas que cantaste,
Meto-as no forno frio;
Tu já não sabes cantar,
Oh! comigo ao desafio.“

“As cantigas que cantaste,
Meto-as no forno quente,
Tu já não sabes cantar,
Diante de tanta gente.” (Tolosa) [3]

Persiste a tradição de na Quinta-Feira de Ascensão (Dia da Espiga), se cumprir o ritual cíclico de recolha de um ramo com valor simbólico, o qual se guarda até ao ano seguinte:

“Tudo vai colher ao campo
Quinta-feira d'Ascensão,
trigo, papoila, oliveira.
p'ra que Deus dê paz e pão.“ [5]

BIBLIOGRAFIA
[1] – DELGADO, Manuel Joaquim Delgado. Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo. Vol. I. Instituto Nacional de Investigação Científica. Lisboa, 1980.
[2] - LEITE DE VASCONCELLOS, J. Cancioneiro Popular Português, vol. I, Acta Universitatis Conimbrigensis, Coimbra, 1975.
[3] – LEITE DE VASCONCELLOS, J. Etnografia Portuguesa, Vol. VI. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Lisboa, 1975.
[4] - PIRES, A. Tomaz. Cantos Populares Portuguezes. Vol. IV. Typographia e Stereotipía Progresso. Elvas, 1912.
[5] - SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano. Livraria Portugal. Lisboa, 1959.

Publicado inicialmente em 10 de Julho de 2011