domingo, 17 de julho de 2011

Mitologia popular da água


Camponesa de Estremoz com cântaro de água. (c. 1940).
Ilustração de Cesar Abbott em bilhete-postal ilustrado.
Edição do Centro de Novidades, Porto.

São inúmeras as superstições relativas à água e ao seu consumo. Delas destacamos algumas:
- No princípio do mundo, a água foi condenada a correr sempre e nessa época também tinha fala. (3)
- Está ainda muito arreigada a crença nos vedores, pessoas que detectam a presença de veios de água no subsolo. (4)
- Tanto a água corrente como a de bica, descansa uma hora em cada noite, que foi a hora que Deus lhe estabeleceu para descansar. (4)
- A água dorme todas as noites e à meia-noite do dia de S. João, está benta. (3)
- Não se deve beber água depois da meia-noite, sem mexer o copo que a contém, porque a água está a dormir e de contrário, fará mal a quem a bebe. (1)
- Existe a crença de que a água, à meia-noite ou na manhã de São João, tem muitas virtudes, por isso as pessoas se lavam nela e levam os gados às pontes e rios. (3)
- Para a água se manter fresca, ata-se uma junta ao gargalo do cântaro, em que se transporta água da fonte (Alandroal). (2)
- Não se deve beber água com uma luz na mão, porque entram espíritos. (1)
- Não se deve beber água com uma luz na mão, porque provoca gota ou porque se bebe o juízo. (3)
- É mau beber água com uma luz na mão, pois que se dão acidentes. (4)
- Para não se morrer de dores de barriga, não se deve beber água em correntes, sem primeiro rezar um padre-nosso e uma ave-maria. (1)
- Quando a água que se bebe está fria, é porque não choverá. (4)
- Quem bebe água em jejum, cura o catarral. (4)
- É mau beber água antes do Sol-posto, de acordo com o adágio:
“Quem bebe água antes do almoço
Chora antes do Sol-posto.” (3)
- Beber nove [1] golos de água é remédio certo para afastar os soluços. (1)
- Aos recém-nascidos deve-se dar a beber a água em que foram lavados, para os tornar mansos. (1)

BIBLIOGRAFIA
(1) - CONSIGLIERI PEDROSO, “Supertições Populares”, O Positivismo: revista de Filosofia, Vol. III. Porto, 1881.
(2) - LEITE DE VASCONCELLOS, José. Etnografia Portuguesa. Vol. V. Imprensa Nacional – Casa da Moeda. Lisboa, 1982.
(3) - LEITE DE VASCONCELLOS, José. Tradições Populares de Portugal. Livraria Portuense de Clavel e C.ª – Editores. Porto, 1882
(4) - THOMAZ PIRES, A. Tradições Populares Transtaganas. Tipographia Moderna. Elvas, 1927.

[1] - O número nove representa o triplo do triplo (9=3x3) e para os hebreus é o símbolo da verdade com a característica de que multiplicado por si próprio, se reproduz a si mesmo, segundo a adição mística (9x9=81). Daí que o nove, seja por excelência, o número dos ritos medicinais, uma vez que representa a tripla síntese (corporal, intelectual e espiritual).