segunda-feira, 18 de julho de 2011

Adivinhário português da água

Um poço em Estremoz (Início do séc. XX). Alberto de Souza (1880-1961). Desenho a tinta da China aguarelada, utilizado como ilustração de bilhete-postal ilustrado da 3ª série de “A EDITORA”.

A presente colectânea de adivinhas sobre a água, é fruto da nossa investigação em oito fontes bibliográficas distintas, cujos autores, cada um na sua época, as recolheu da tradição oral. Sistematizámo-las em quatro grupos distintos, ainda que não divergentes:

1 – Água
2 - Poço
3 – Nora
4 – Diversos
 
Passemos, de seguida, em revista, estes grupos:

1 – ÁGUA

“Qual é a cousa, qual é ela,
Que chega à serra e se abica?” [5]
(SOLUÇÃO – A água)

“Uma coisa que tanto anda, e nunca chega onde quer.” [3]
(SOLUÇÃO – Água corrente.)

“Sem voz, encanto quem me ouve; tenho leito e não durmo; e, como o tempo, corro sempre.” [5]
(SOLUÇÃO – A água de um ribeiro.)

“Qual é a coisa, qual é ela,
Que Deus criou para andar
Sem nunca para trás voltar?” [2]
(SOLUÇÃO – A água do rio.)

“São três cousas:
Uma diz que vamos,
Outra que fiquemos,
Outra que dancemos?” [4]
(SOLUÇÃO – Água, areia, espuma.)

“Quanto mais alta,
Melhor se alcança.” [7]
(SOLUÇÃO – A água do poço.)

2 – POÇO

“Alto como um pinheiro,
Redondo como um pandeiro.” [1]
(SOLUÇÃO – Um poço.)

“Que é, que é,
Redondo como um cesto,
Comprido como uma corda?” [4]
(SOLUÇÃO – Um poço.)

“Que é, que é,
Que quanto mais se lhe tira
Maior é?” [5]
(SOLUÇÃO – Um poço.)

3 - NORA

“Qual é a coisa que anda e anda bem, e nunca sai do sítio e faz sair os que andam com ela?” [8]
(SOLUÇÃO – A nora.)

“Eu sou mãe de muitos filhos
e todos comigo tenho
e para lhes matar a fome
dou mil voltas e venho.” [8]
(SOLUÇÃO – A nora.)

“Sou mãe de muitos filhos,
E todos comigo tenho;
Para os ver fartos e cheios,
Dou uma volta, vou: e venho;
Mas, como no tempo presente
Tudo custa a sustentar,
Quando os vejo fartos e cheios,
Ponho-me então a cantar.” [6]
(SOLUÇÃO – A nora.)

4 – DIVERSOS

“Já que tens entendimento
E és amigo de saber:
Uma pedra em cima da água,
Dize lá se pode ser?” [5]
(SOLUÇÃO – O gelo)

“Que diferença há entre a água e o médico?“ [7]
(SOLUÇÃO – A água mata secura; o médico se cura, não mata.)

Adivinhas como estas, povoavam o imaginário popular, na época em que gerações, afastadas no tempo, seroavam em convívio e partilha, já que a transmissão de saberes, de uma forma natural, se processava através da oralidade. Foram práticas que se perderam…

BIBLIOGRAFIA
[1] – BRAGA, Teófilo. “As Adivinhas Portuguesas”, in Era Nova. Lisboa, 1881
[2] – GONÇALVES DAS NEVES, Serafim, PIRES DE LIMA, Augusto Castro & DACIANO, B.: “Tradições de Azurara, III — Adivinhas”, in Boletim Douro-Litoral, 4ª série, VII-VIII. Porto, 1951.
[3] – LEITE DE VASCONCELLOS, José. Ensaios Etnográficos, vol. IV. Lisboa, 1910.
[4] – LEITE DE VASCONCELLOS, José. Tradições Populares de Portugal. Livraria Portuense de Clavel e C.ª – Editores. Porto, 1882.
[5] – PIRES DE LIMA, Augusto Castro. O Livro das Adivinhas. Editorial Domingos Barreira. Porto, 1943.
[6] – PIRES DE LIMA, Fernando de Castro. Qual é a coisa qual é ela? Portugália Editora. Lisboa, 1957.
[7] – VIEGAS GUERREIRO, M. Adivinhas Portuguesas. Fundação Nacional Para A Alegria No Trabalho. Lisboa, 1957.
[8] - VIEIRA BRAGA, Alberto. “Folclore”, in Revista de Guimarães, vol. XXXIV (1934).