domingo, 10 de julho de 2011

Cancioneiro popular do pão


Mário Costa (n. 1902?), ilustração para a capa do relatório
comemorativo do XX Aniversário da Campanha do Trigo,
1929-1949, da Federação Nacional dos Produtores de
Trigo (F.N.P.T.). 1949.

Nós alentejanos somos pãezeiros, já que gostamos de comer tudo com pão. Daí que seja natural que no cancioneiro popular alentejano, existam múltiplas alusões ao pão. Seleccionámos, sistematizámos e estudámos algumas dessas referências.
Antes da integração na Comunidade Económica Europeia em 1986, o Alentejo estava coberto de extensas searas de trigo, as quais, quando amadurecidas, lembravam mares de ouro:

“Não há coisa mais bonita
que o torrão alentejano,
onde a seara bendita
dá pão para todo o ano.“ [5]

O Alentejo era admirado por ser produtor de trigo:

“Ai Alentejo, que amuo
o meu por não ser capaz
de ser rico como tu:
para dar o pão que tu dás.“ [5]

O Alentejo foi considerado o celeiro de Portugal e havia quem defendesse que o pão devia ser repartido com equidade:

“Pão nosso de cada dia,
repartido por igual.
Bendito o meu Alentejo,
celeiro de Portugal.“ [5]

Outros advogavam que o pão devia ser repartido pelos pobres:

“Pão nosso de cada dia
pelos pobres repartido…
Bendito o meu Alentejo
que é celeiro bem provido!“ [5]

O reconhecimento de que a terra dava pão, aconselhava a não semear em terra alheia:

“A terra é nossa mãe
pois a terra nos dá pão,
não semeies terra alheia
em busca de produção.“ [5]

Persiste ainda a ideia generalizada de que não há pão, como o pão alentejano:

“Não há coisa mais bonita
que do Alentejo o torrão,
nem há graça infinita
que se iguale à do seu pão.“ [5]

Por ali se colher o trigo, o Alentejo era considerado terra abençoada:

“Alentejo, mouro de antanho,
que um português fez cristão,
és a terra abençoada
de onde o País colhe o pão.“ [5]

Numa perspectiva religiosa, relativa ao pão, o Alentejo era o altar de uma igreja, que era Portugal:

“Ó pão que o corpo deseja,
e a alma quando a rezar,
tens a pátria por igreja
e o Alentejo por altar.“ [5]

Ainda numa óptica religiosa, as espigas das searas eram equiparadas a mãos em atitude de prece:

“Alentejo, terra rasa,
toda coberta de pão;
as tuas espigas douradas
lembram mãos em oração.“ [5]

Igualmente sob um ponto de vista religioso, o pão era abençoado por Jesus:

“Esse pequenino grão
em espiga transformado,
depois de sofrer é pão
por Jesus abençoado.“ [5]

Reconhecia-se ainda que o pão era utilizado no sacramento da Eucaristia:

“Tens Alentejo a missão
de frutos de oiro gerar,
- Corpo de Deus – feito pão
e Hóstia Santa no Altar.“ [5]

No cancioneiro popular alentejano existem referências específicas ao consumo do pão:

“Com um pão de munição
Que el-rei de Hespanha me dá,
Aqui ‘stou eu toda a noite:
Sentinela alerta está!“ [4]

“Os almocreves d’Abrantes,
Quando andam no caminho:
Bôa carne, bom pão alvo,
Melhor borracha de vinho.“ [4]

“Dae-me pinguinhas de vinho
Com bocadinhos de pão,
Dae-me mais alguma coisa
Para fazear caldeação.
Tu ateimas, eu ateimo,
Verás se assim é ou não.“ [4]

“Já comêmu pão de trigu
Cê mihtura dê cêbáda
Já não há rêclamaçõi
Ehtá toda a gênti calada.“ (Barrancos) [1]

Como é corrente noutros temas, existe algum cancioneiro de natureza humorística, relativo ao pão:

“Minha mãe é padeirinha,
Quando coze faz um bolo,
Quando se zanga comigo,
Bate-me com a pá do forno.“ (Alcáçovas) [2]

“Minha avó era padeira,
Vendia o pão a vintém,
Agora vende uma asneira,
Nem pão, nem dinheiro tem.“ [4]

“Ó meu amor, vae e vem,
Não te delates na praça,
Quem conversa com padeiras
Mollete come de graça.“ [4]

“Minha mãe casou-me em Maio
Minha sogra não tem pão,
Doe-me a barriga com fome,
“Oh! que dor do coração! [4]

O meu amor pequenino,
pequenino, resoluto,
é como o pão do padeiro
que se come sem conduto.“ [5]

“Não há pão como o pão alvo,
Nem carne com o toucinho,
Nem rapaz que valha um frasco
Cheio d’aguardente ou vinho.“ [4]

O ganha-pão de alguns pode até ser divertido:

“A cantar e a bailar
É que o meu bem ganha pão,
De viola a tiracolle
E panderêta na mão.“ [4]

O forno de cozer pão, pode metaforicamente ser usado para lá meter cantigas:

“As cantigas que cantaste,
Meto-as no forno frio;
Tu já não sabes cantar,
Oh! comigo ao desafio.“

“As cantigas que cantaste,
Meto-as no forno quente,
Tu já não sabes cantar,
Diante de tanta gente.” (Tolosa) [3]

Persiste a tradição de na Quinta-Feira de Ascensão (Dia da Espiga), se cumprir o ritual cíclico de recolha de um ramo com valor simbólico, o qual se guarda até ao ano seguinte:

“Tudo vai colher ao campo
Quinta-feira d'Ascensão,
trigo, papoila, oliveira.
p'ra que Deus dê paz e pão.“ [5]

BIBLIOGRAFIA
[1] – DELGADO, Manuel Joaquim Delgado. Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo. Vol. I. Instituto Nacional de Investigação Científica. Lisboa, 1980.
[2] - LEITE DE VASCONCELLOS, J. Cancioneiro Popular Português, vol. I, Acta Universitatis Conimbrigensis, Coimbra, 1975.
[3] – LEITE DE VASCONCELLOS, J. Etnografia Portuguesa, Vol. VI. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Lisboa, 1975.
[4] - PIRES, A. Tomaz. Cantos Populares Portuguezes. Vol. IV. Typographia e Stereotipía Progresso. Elvas, 1912.
[5] - SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano. Livraria Portugal. Lisboa, 1959.