sexta-feira, 26 de março de 2010

Ciclo do pão na Literatura Oral ( 3 - A monda)

3 - A MONDA


A monda no Alentejo, no início do século XX. Postal edição Malva (Lisboa).

Depois da sementeira que fecundou a terra-mãe, a semente germinou e as searas vicejaram, mas com elas também a erva daninha que podia travar o crescimento e a pujança da seara, pondo em causa o investimento do lavrador.
Quando não tinham sido ainda descobertos os herbicidas, era a época de trabalho das mondadeiras, assalariadas sazonalmente para a faina da monda e que rítmica e sonoramente arrancavam a erva daninha com o auxílio dum sacho.
Para o leigo, para quem nunca tenha ido à monda ou sequer falado com mondadeiras, pode parecer que a faina fosse fácil. Nada mais enganador. Era suposto começar-se o trabalho ao nascer do Sol, pelo que a concentração do rancho de mondadeiras tinha início muito antes. Depois era a caminhada para o local. E quando se começava, muitas vezes parecia que o Sol se tinha esquecido de nascer. Nas manhãs de Outono, as mãos estavam engadanhadas logo à partida. O corpo curvado sobre a terra mole, dilacerava os rins. O peso nas pernas, encarregava-se do resto. Era um trabalho penoso que levava a mulher a desabafar:                          

“Eu ando aqui a mondar
Sòzinha , não tenho medo:
Bem pudera o meu amor
Tirar-me deste degredo!“ [1]                     

O desabafo podia ser extremo, assumindo a forma de uma recusa, ainda que mascarada no pretexto:

Eu não quero ir á monda,
Que não sei cortar a eito;
Mandem-me falar d'amor,
Que p'ra isso tenho eu geito.“ [2]                     

As ervas daninhas eram muitas: ervilhacas, palanco, cizirão, cardos, malvas, saramagos, pampilro, alabaças, leitugas, almeirões, etc. E essas mesmas ervas de que expurgavam as searas eram referidas pelas mondadeiras nas suas canções de trabalho, nas quais faziam também o balanço do seu amor por alguém:                    

“Hei-de fazer uma maia
De ervilhacas e palanco
P’ra mandar ao meu amor
Que eu ando a mondar no campo.... “[3]

“Cizirão é uma erva
Que se enleia pelo trigo.
Ai! Quem fosse cizirão!
Que enleasse o teu “sentido”!“ [4]

“O cardo é que pica,
Que me picou numa mão;
Também a maldade pica
Os homens no coração. “ [5]

O facto de a monda ser um trabalho penoso, levava a que algumas mulheres o quisessem abandonar, quando dele já não tivessem necessidade:

"Já não quero ir á monda,
Já não quero ir a mondar,
Foi na monda que eu ganhei
Dinheiro p’ra me casar.“ [2]

Por vezes, alguém dizia isso mesmo à mulher, levando a mesma a replicar que era na monda que tinha ganho dinheiro:                           

“- Não quero que vás á monda,
Na monda não ganhas nada.
- Foi na monda que eu ganhei
Uma saia encarnada.“ [2]

Algumas mulheres continuavam a ir à monda, mesmo depois de casadas:                   

“Eu bem sei que ando na monda.
Eu bem sei que ando a mondar,
Na monda é que eu arranjei
Dinheiro p’ra me casar. “ [6]

Nem o rigor do clima que fazia com que a mulher estivesse praticamente coberta de roupa, era impeditivo que os homens exaltassem a sua beleza:                       

“Mondadeira de olhos verdes.
mais lindos que o verde trigo,
pôs-lhe deus tanta beleza
p'ra meu tormento e castigo.“ [7]              

“Não escondas, mondadeira,
com esse lenço de chita
a boca que heí-de beijar,
nem essa cara bonita.“ [7]                  

Alguns homens desejavam mesmo enlear-se à mulher, tal como a erva daninha se enleia no trigo:                           

“Malva verde que se enleia,
que se enleia pelo trigo;
quem me dera ser enleio
que me enleara contigo.“ [7]

Talvez a monda fosse propícia a posturas mais libertinas. Daí que outras mulheres, decerto conhecedoras desse facto, proclamassem em relação àquelas das quais ansiavam ser madrinhas de casamento:                       

“Não quero que vás á monda,
Não quer’e que vás sósinha,
Quando tu te casares
Quero ser tua madrinha.“ [2]                      

E aquela disposição podia ser mesmo extensiva em relação a outro trabalho sazonal: a ceifa.                             

“Não quero que vás á monda,
Não quer’e que vás a mondar,
Se amanhã vier a ceifa,
Não quer’que vás a ceifar.“ [2]                     

No limite, a proclamação podia ir ao extremo de deixar de querer ser madrinha, mas continuar a querer que a afilhada não fosse à monda:                    

“Não vou ser tua madrinha
Não te vou acompanhar, 
Não quero que vás à monda,
Não quero que vás mondar.“ [8]                 

E tal como a monda, também o ribeiro devia esconder perigos imaginados:                  

“Não quero que vás à monda,
Nem ao ribeiro lavar,
Não quero que vás à monda,
Que vás à monda, que vás mondar.“ [9]

O rifonário da monda é escasso relativamente aos outros rifonários do ciclo do pão:          

- “O que não vai à monda, vai à ceifa.”
- “O que ganhaste à monda, perdeste à sacha.”
- “Mondar e chover, dinheiro a perder.”

Terminada esta incursão sobre a literatura oral relativa à monda, vem depois a ceifa. Citando António Delicado [10]:

- “Um trabalho é véspera de outro.”

Hernâni Matos

[1] - Amieira (concelho de Nisa) - Recolha de J. Leite de Vasconcellos in Cancioneiro Popular Português.
[2] - PIRES, A. Thomaz. Cantos Populares Portugueses, vol. IV. Typographia e Stereotypia Progresso. Elvas, 1910.
[3] - Tolosa (concelho de Nisa) - Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.
[4] - Salvada - Recolha de Manuel Joaquim Delgado in Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo.
[5] - Estremoz. Recolha de Luís Chaves in Páginas Folclóricas - A Canção do Trabalho, Imprensa Portuguesa, Porto, 1927.
[6] - Amieira (concelho de Nisa) - Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.
[7] - SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano – Poesia Popular. Livraria Portugal, Lisboa, 1959.
[8] - Tolosa (concelho de Nisa) - Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.
[9] - Elvas – Recolhida po Rodney Gallop in Cantares do Povo Português, Instituto de Alta Cultura, Lisboa, 1937.
[10] - DELICADO, António. Adagios portuguezes reduzidos a lugares communs / pello lecenciado Antonio Delicado, Prior da Parrochial Igreja de Nossa Senhora da charidade, termo da cidade de Euora. Officina de Domingos Lopes Rosa. Lisboa, 1651.

quarta-feira, 24 de março de 2010

Ciclo do pão na Literatura Oral ( 2 - A sementeira)

2 - A SEMENTEIRA

A sementeira no Alentejo, no início do século XX. Postal edição Malva (Lisboa).

Na sementeira que se seguia à lavra, toda a acção se centrava no semeador, que do sementeiro pendurado ao ombro, apartava uma mão cheia de semente, a qual num gesto augusto, ciclicamente repetido, lançava à terra - mãe para a fecundar.
Apesar da dureza da sua vida, alguém o aconselhava:

“Não maldigas o destino;
E cumpre a tua missão;
Sem o trigo pequenino
Ninguém pode fazer pão.“ [1]

O trigo era considerado mágico:

“Num pequeno grão de trigo
grande magia se encerra;
para o gerar, sol amigo
e água beijando a terra.“ [1]
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Exaltava-se o valor do grão:
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“Não há pepita de oiro
que tenha o valor dum grão.
Ninguém transforma um tesoiro
em bocadinhos de pão…“ [1]
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A colheita tinha o seu custo:
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“Eu conheci quem queria
ter trigo sem semear.
Quem não semeia não colhe,
como é fácil calcular.“ [1]
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Havia quem aconselhasse a semear só a própria terra:
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“A terra é nossa mãe,
pois a terra nos dá pão,
Não semeies terra alheia,
em busca de produção.“ [1]
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Também havia quem procurasse trabalho:
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“Já não há por hi quem queira
Accomodar um ganhão
Por alqueive e sementeira
E a temporada do v’rão?“ [2]
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Para outros era mais forte o desejo de lavrar e semear em corpo de mulher:
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“Quem me dera ser feitor,
lavrador nesse teu peito,
antes que não semeasse,
ficava o alqueve feito.“ [1]
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É claro que o namoradeiro não gostava de atrasos:
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“Semear e não colher
É que atraza o lavrador:
Também eu ando atrazado,
Em não falar ao amor.“ [2]
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O pior de tudo era a desilusão:
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“No principio do meu mundo
Fui lavrador alguns annos.
Semeei leaes carinhos
Recolhi falsos enganos.“ [2]
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O rifonário da semeadura não fica atrás dos restantes rifonários do ciclo do pão:
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- “A lavrador descuidado os ratos comem o semeado.“
- “Ara com os bois, semeia com as vacas.“
- “Cada um colhe conforme semeia.“
- “Coisa que não se vende, ninguém a semeia. “
- “Coisa que se não colhe, ninguém a viu semear.”
- “Como semeares, assim colherás.“
- “Em Outubro sê prudente: guarda pão, guarda semente.“
- “Maldito dente que come a semente.“
- “Nem sempre a boa semente cai em terreno fértil.“
- “O que à terra deres já, ela depois to dará.“
- “Poda tardio, semeia temporão, terás vinho e pão.“
- “Quando a Lua minguar, nada hás-de semear.“
- “Quando a mão semeia, é mão que abençoa.“
- “Quem não semeia, não colhe.“
- “Quem semeia basto, gasta mais e colhe menos.“
- “Quem semeia, colhe.“
- “Quem semeia, espera.“
- “Quem semeia, recolhe.“ [3]
- “Se ouvires trovejar em Março / semeia no alto e no baixo.“
- “Se queres bom cabaço, semeia-o em Março. “
- “Semeia e cria/terás alegria.“
- “A quem não tem pão semeado, de Agosto se faz Maio.“[3]
- “A terra, lavrada em Agosto, à estercada dá de rosto.“ [3]
- “Cada um colhe segundo semeia.“ [3]
- “Com água e com sol, Deus é o creador.“ [3]
- “De grão te sei contar, que em Abril não ha-de estar nascido, nem por semear.“ [3]
- “Dia de S. Matheus [4], vindimam os sisudos, semeiam os sandeus.“ [3]
- “Em tal lugar, nem quero colher nem semear.“ [3]
- “Por S. Clemente [5], alça a mão da semente.“ [3]
- “Por S. Francisco [6], semeia teu trigo, e a velha que o dizia, semeado o tinha.“ [3]
- “Por Santa Ereia [7], toma os bois e semeia.“ [3]
- “Por todos os santos, semeia trigo, colhe cardos.“ [3]
- “Quem em terra boa semeia, cada dia tem boa estreia.“ [3]
- “Quem não tem bois, ou semeia antes ou depois.“ [3]
- “Quem ralo semeia, rala leva a paveia.“ [3]
- “Quem semeia em arneiros, semeia moios, colhe quarteiros.“ [3]
- “Quem semeia em caminho, cansa os bois e perde o trigo.“ [3]
- “Quem semeia em restôlho, chora com um olho; e eu, que não semeei, com dois olhos chorarei.“ [3]
- “Semeia cedo, colhe tardio, colherás pão e vinho.“ [3]
- “Semeia e cria, terás alegria.“ [3]
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Terminamos, citando ainda António Delicado:
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- “A quem vella, tudo se lhe revela.” [3]
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Hernâni Matos

[1] - SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano – Poesia Popular. Livraria Portugal, Lisboa, 1959.
[2] - PIRES, A. Thomaz. Cantos Populares Portugueses, vol. IV. Typographia e Stereotypia Progresso. Elvas, 1910.
[3] – DELICADO, António. Adagios portuguezes reduzidos a lugares communs / pello lecenciado Antonio Delicado, Prior da Parrochial Igreja de Nossa Senhora da charidade, termo da cidade de Euora. Officina de Domingos Lopes Rosa. Lisboa, 1651.
[4] - 21 de Setembro.
[5] - 15 de Março.
[6] - 4 de Outubro.
[7] - 20 0utubro.

terça-feira, 23 de março de 2010

Ciclo do pão na Literatura Oral ( 1 - A lavra)

1 - A LAVRA

A lavra no Alentejo, no início do século XX. Postal edição de Faustino António Martins (Lisboa).

A lavra era a operação com que se preparava o ventre da terra-mãe, antes de este ser fecundado. Era a primeira das fainas agrícolas do ciclo do pão, era determinante e exigia muito dos seus protagonistas. Daí que houvesse quem pensasse que:

“Bem pudera Deus dar pão
Na terra sem ser lavrada
Assim como Deus dá filhos
Na mulher sem ser casada.“ [1]

A esperança numa boa colheita era reconfortante:

“É bonito vêr no prado
pachorrentos bois lavrando,
Mais atraz o lavrador
Alegremente cantando.“ [2]

Havia o hábito das canções de trabalho:

“No alto daquela serra
Canta alegre o lavrador;
Que fará quem não arrasta
Os duros guilhões de amor “ [3]

Um dos protagonistas da lavra era o ganhão que assumia a grandeza da gesta com a pujança dos bois que conduzia:

“Eu sou um ganhão da ribêra,
Da ribêra sou ganhão.
Lavro com dois bois vermelhos
Que fazem tremer o chão.“ [4]

As condições para uma boa lavra, estavam perfeitamente identificadas:

“Bom arado e bom tomão
Faz’uma bela intanchadura;
Boa junta e bom ganhão
Deitam um rego à d’reitura.“ [5]

“Bom arado, bom temão
Uma boa enteixadura...
Embelga, bom abegão,
Faz lavrar a terra dura.“ [6]

“Desde que vim ao mundo
Sempre lavrei com três bois.
Metia o do meio ao rêgo
E, atrás, ficavam dois.“ [7]

O não saber lavrar ou o lavrar mal, era motivo de crítica:

“Já morreu o boi Capote
Qu’era parceiro do Pombinho,
Quem não sabe dar um rego
Não lavra’ao pé do caminho.“ [8], [9]

“Ó rapaz do boi Cadete,
Mais obras, menos razões...
Pareces um ramalhete
No mêo dos outros ganhões.“ [10]

A quadra podia ser brejeira, visto o seu autor ter vontade de lavrar em corpo de mulher:

“Quem me dera ser feitor,
Lavrador nesse teu peito
Antes que não semeasse
Ficava o alqueve feito. “ [11]

“Quem me dera ser feitor,
Lavrador na tua herdade,
Para dar um rêgo direito
E meter a mão à vontade.“ [12]

A mulher podia pensar que não era digna do filho do lavrador:

“Quando eu vou para a cidade
Passo à quinta do vedor.
Não te quero, não me és dado,
Que és filho de um lavrador.“ [13]

Todavia a mulher, podia assumir o amor por um lavrador, assim como optar pela vida no campo:

“Meu amor é lavrador,
Lavra terras na feiteira, [14]
O arado com que lavra
É de pau de laranjeira.“ [15]

"Meu amor é lavrador,
Tem um monte e uma herdade...
Nem eu quero, nem ele quer
ir viver para a cidade.“ [16]

O rifonário sobre a lavra é rico e vasto. Dele destacamos:

- “Em Abril lavra as altas mesmo com água pelo machil.“
- “Quando Maio chegar, quem não arou tem de arar.“
- “Se queres ter pão lavra pelo S. João.“
- “A terra lavrada em Agosto à estercada dá de rosto.“
- “Terra lavrada em Agosto, já estercada dá de rosto.“
- “Lavra temporão / se queres haver pão.“
- “Quem não tem carro nem bois, ou lavra antes, ou depois.“
- “Quem mal lavra, pouco ceifa.“
- “Lavra a terra enquanto o preguiçoso dorme e terás trigo para vender e guardar.“
- “Não há boa terra sem bom lavrador.”
- “O que lavra crie e o que guarda não fie.“
- “Ara com os bois, semeia com as vacas.“
- “Deixa o boi mijar e farta-o de lavrar.“
- “Lá se foi o melhor boi do meu arado.“

Quanto a adivinhas, apenas conhecemos esta:

“Reluz como prata
E prata não é;
Fossa como porco
Mas tem só um pé.” [17]

Decerto não será muito. Mas lá diz o rifão:

“Quem dá o que tem, a mais não é obrigado.”

Hernâni Matos

[1] - Alentejo - recolha de Azinhal Abelho in Roteiro Lírico do Alentejo, Mensário das Casas do Povo, nº 92 - 1954.
[2] - Milfontes e Odemira - recolha de Victor Santos in Cancioneiro Alentejano Português, edição do Grémio Alentejano, Lisboa, 1938.
[3] - Tolosa (concelho de Nisa) - Recolha de J. Leite de Vasconcellos in Cancioneiro Popular Português.
[4]  - Olivença - Recolha de J. Leite de Vasconcellos in Cancioneiro Popular Português.
[5] - Tolosa (concelho de Nisa) - Recolha de J. Leite de Vasconcellos in Cancioneiro Popular Português.
[6] - Alentejo - recolha de Azinhal Abelho in Roteiro Lírico do Alentejo, Mensário das Casas do Povo, nº 92 - 1954.
[7] -Milfontes e Odemira - recolha de Victor Santos in Cancioneiro Alentejano, Grémio Alentejano, Lisboa, 1938.
[8] - Quem não sabe lavrar bem, não lavra ao pé de gente, parece mal.
[9] - Amieira (concelho de Nisa) - Recolha de J. Leite de Vasconcellos in Cancioneiro Popular Português.
[10] - Alentejo - Recolha de J. Leite de Vasconcellos in Cancioneiro Popular Português.
[11] - Milfontes e Odemira - recolha de Victor Santos in Cancioneiro Alentejano, Grémio Alentejano, Lisboa, 1938.
[12] - Milfontes e Odemira - recolha de Victor Santos in Cancioneiro Alentejano, Grémio Alentejano, Lisboa, 1938.
[13] - Tolosa (concelho de Nisa) - Recolha de J. Leite de Vasconcellos in Cancioneiro Popular Português.
[14] - Onde há fetos.
[15] - Amieira (concelho de Nisa) - Recolha de J. Leite de Vasconcellos in Cancioneiro Popular Português.
[16] - Alentejo - recolha de Azinhal Abelho in Roteiro Lírico do Alentejo, Mensário das Casas do Povo, nº 92 - 1954.
[17] - É o arado. Recolha de Teófilo Braga in As Adivinhas Portuguesas in Era Nova, Lisboa, 1881.

segunda-feira, 22 de março de 2010

O tarro



Pastor alentejano – aguarela de Alberto de Souza
 (1880-1961), pintada em 1935.

A MANUFACTURA DO TARRO PELO PASTOR

Na procura incessante de pasto para o gado que pastoreava e lhe assegurava o ganha-pão, o pastor alentejano tinha que deambular por aqui e por ali, como cão pisteiro à procura de caça. A vida de nómada não era uma vida fácil e exigia que quem a praticasse se fizesse acompanhar de utensílios de uso diário. No caso do pastor alentejano, um desses utensílios era o tarro de cortiça que ele próprio manufacturava, visando guardar e transportar alimentos que se conservavam a uma temperatura próxima da atingida na sua confecção, decorridas algumas horas sobre terem saído do lume.Para esse efeito arranjava uma prancha de cortiça de dimensões adequadas e com a superfície o mais regular possível. Esta prancha, de espessura adequada, era cortada com o auxílio da faca ou da navalha, em formato rectangular e depois limpa de ambos os lados. A altura do rectângulo seria a altura do tarro e a base do rectângulo estava em relação directa com o diâmetro pretendido para a vasilha. A prancha de cortiça, era de seguida dobrada e fechada em arco, de modo a ficar com forma cilíndrica.
Para facilitar o fecho, as extremidades da prancha correspondentes à altura do rectângulo eram previamente desbastadas, de modo a ficarem mais estreitas e ao sobreporem-se, o cilindro ficar perfeito.
Na zona de junção das extremidades da prancha, estas eram ligadas por pregos de madeira, confeccionados pelo próprio pastor. Seguidamente, doutra prancha com espessura adequada, talhava um disco cilíndrico que ia servir de fundo ao tarro. Depois de limpar o disco em ambas as faces, encaixava-o sob pressão na extremidade do cilindro correspondente ao fundo. Este encaixe tinha de ser perfeito, não só para o tarro não vazar o conteúdo, como para serem absolutamente complanares na zona do fundo, a tampa e o cilindro que ela encerrava. O fundo, era seguidamente fixo ao cilindro com pregos, também de madeira.
Posteriormente, doutra prancha também com espessura adequada, talhava um disco ligeiramente tronco-cónico, que era limpo em ambas as faces e que ia servir de tampa móvel ao tarro. Este último disco, agora não era cilíndrico mas tronco-cónico, a fim de tornar mais fácil a compressão no acto de fecho do tarro, bem como facilitar a sua retirada no acto de abertura.
Quase a finalizar, o tarro levava uma asa constituída por uma verga de carvalho ou de castanho, de dimensões adequadas. Esta verga, dobrada em arco, era fixada nas extremidades em pontos opostos, situados junto ao topo da superfície lateral do tarro. A fixação era feita por meio de pregos de madeira de larga cabeça tronco-esférica, a fim de a asa não se soltar do tarro.
Muitas vezes o tarro era também decorado, sobretudo na tampa e na parte exterior da asa. Para isso e tal como fazia com as colheres, com o auxílio do ponteiro ou do lápis, esboçava o desenho a executar, gravado ou escavado. E mais uma vez os motivos decorativos tinham a ver com realidade que o cercavam e o imaginário e as superstições que lhe povoavam a mente. Aí estavam as ramagens, folhas, flores, animais, estrelas, cruzes, motivos geométricos, rosetas, arabescos, cordas, zig zags, signo saimão, etc.
O tarro era manufacturado com recursos fornecidos pelo meio ambiente que circundava o pastor. E à semelhança do talêgo era a vasilha reciclável inventada pelo sábio povo alentejano que sempre soube encontrar formas criativas de tirar o máximo proveito do meio. Durava uma vida inteira e quando por algum motivo já não pudesse ter préstimo e se deitasse fora, era degradado pela terra-mãe, a fim de renascer sob outra forma.
A escolha da cortiça para manufactura duma vasilha com a funcionalidade do tarro, tinha de resto a ver com o conhecimento empírico das invulgares propriedades da cortiça enquanto material: muito leve, elástico, compressível, impermeável a líquidos e a gases, com elevada resistência térmica, bom isolamento térmico, quimicamente inerte, resistente ao uso e com elevada longevidade.
O tarro manufacturado pelo pastor nada tem ver com o tarro industrial fabricado pela indústria corticeira. Sobre este assunto, advertiu Hipólito Raposo:
(…) No Chiado vendem-se tarros que jamais conheceram navalha de pastor de gado em herdade alentejana, porque saíram das fábricas de cortiça, polidos e reluzentes como as lâminas das máquinas com que os cortaram. Perde-se a arte do povo, vai a morrer tristemente com a industrialização mecânica.(…) [ 1]

APONTAMENTOS ETNOGRÁFICOS

Gil Vicente (1465?-1536?) no “Auto de Mofina Mendes” (1534) representado pela primeira vez, perante El-Rei Dom João III, põe na boca do pastor André a seguinte fala:

“Eu perdi, se s'acontece,
a asna ruça de meu pai.
O rasto por aqui vai,
mas a burra não parece,
nem sei em que vale cai.
Leva os tarros e apeiros,
e o surrão cos chocalhos,
os samarros dos vaqueiros,
dois sacos de páes inteiros,
porros, cebolas e alhos. “
(…)

Rodrigues Lobo (1579-1621), na “Primavera” (1601), refere-se à bagagem do pastor quando o faz dizer que a sua casa:

"He chea com um çurrão mal pendurado,
 com um tarro, com um cabaz, e com um pelico,
Huma frauta, huma funda, e um cajado."

Brito Camacho em “Gente Rústica (1921) refere-se à utilização do tarro:

“O leite das cabras, acabado de ordenhar, todo em espuma, sabia-me divinamente, e mesmo que dentro do tarro tivessem caído algumas caganitas, não era preciso coal-o nem fervel-o para o beber sem repugnância.” [2]

No adagiário popular é conhecida uma referência ao tarro:

“A mais ruim ovelha, do fato suja o tarro.”

Tal como a cortiça, também o tarro é exaltado no cancioneiro popular alentejano:

“Neste tarro de cortiça
oferta do meu amor,
até o pão com chouriça
às vezes sabe melhor.” [3]

O tarro transportava a comida do pastor, que trabalhava de sol a sol. A comida confeccionada logo de manhã (à hora do almoço), era guardada dentro do tarro para retemperar as forças à hora do jantar (ao meio dia). A vida do pastor era dura e a alimentação do pastor era parca, quase sempre à base de pão. A maior parte das vezes a refeição transportada era constituída por migas, cozinhadas com pão duro, pois é sabido que: “Pão mole depressa se engole” e “A pão duro, dente agudo”, bem como “Antes pão duro que figo maduro” e “É bom o pão duro, quando não há nenhum”. De resto: “Tudo com pão, faz o homem são”.

PASTOR DAS MIGAS – boneco de Estremoz,  da autoria das
barristas, irmãs Flores (2009).

Das migas disse João Falcato (1915-2005):

“Modestas, sem a fragrância da Açorda, sem o apreço agradecido do Caspacho, as Migas são o pilar da resistência duma raça aos convites estranhos para loucas transformações.” [4].

Actualmente as migas integram o rico património gastronómico alentejano, todo ele feito de sabores e de saberes determinados pelas condicionantes regionais e pelos contextos sociológicos de vida. Hoje comem-se migas em nossas casas, nos restaurantes e nos festivais gastronómicos, porque se gosta mesmo, por opção de paladar, ainda que se pudesse comer outra coisa. O que a esmagadora maioria das vezes não seria o caso do pastor, que as transportava no tarro. Porque os tempos de crise eram maiores que os de hoje e porque sendo o Alentejo o celeiro de Portugal, só era certo o quinhão de pão distribuído pelo lavrador.

[1] - RAPOSO, Hipólito. Do Folclore e sua Irmandade. 15 de Setembro de 1946. (In Hipólito Raposo, Modos de Ver. Ed. Gama. Lisboa, 1947).
[2] - CAMACHO, Manuel de Brito. Gente Rústica. Guimarães & Cª. Lisboa, 1921.
[3] – SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano – Poesia Popular, Livraria Portugal, Lisboa, 1959.
[4] – FALCATO, João. Elucidário do Alentejo. Coimbra Editora Lda. Lisboa, 1953.

Publicado inicialmente em 22 de Março de 2010

sábado, 20 de março de 2010

Um mês de vida



Contrariamente ao que o seu nome possa levar a supor, DO TEMPO DA OUTRA SENHORA, não é um blog com barbas. Na verdade e pelo contrário, é um neófito entre os blogs, uma vez que completou agora um mês de vida, para gáudio de todos aqueles que nele se revêem.
Os dados relativos à edição e leitura de posts, estão sintetizados no quadro seguinte:


Os posts editados distribuem-se por cinco temas, pelo que tendo em conta que os posts podem abordar mais do que um tema, a distribuição dos posts por temas, está sistematizada no seguinte quadro:


Neste momento está a decorrer uma sondagem entre os leitores do blog, que visa saber quais os posts e os temas preferidos.
Como franco-atirador da escrita, o autor deste blog já deixou inúmeras marcas por aí, uma vez que já dispara na imprensa regionalista desde os anos 60 do século passado, na imprensa especializada desde os anos 80, na web desde Julho de 2002 e na blogosfera desde Junho de 2009.
Os temas abordados neste blog correspondem aos seus principais interesses, os quais são todavia mais vastos. São porém aqueles que, a seu ver, reúnem estrategicamente mais potencial para estabelecer pontes de união entre as pessoas, umas de esquerda, outras de direita, outras do centro, outras nem tanto. Umas republicanas, outras monárquicas, para não falar já dos republicanos com simpatias monárquicas e de monárquicos com simpatias republicanas. Uns mais altos e outros mais baixos. Uns mais gordos e outros mais magros. Porém, na sua esmagadora maioria, cidadãos de corpo inteiro, cuja Pátria é a Língua Portuguesa, os quais de uma forma ou de outra, se revêem na revisitação de memórias dos tempos idos, nos traços da identidade cultural alentejana e no espírito positivo com que se tem de enfrentar a adversidade e a crise, o que só pode ser feito com determinação e tenacidade, mas sobretudo com muito, mas muito humor, humor às carradas, com base em factos da vida real, que são “do tempo da outra Senhora”.
È para aqueles que se revêem na Alma Alentejana que o autor deste blog escreve com prazer e paixão, temperados pelo sentido da responsabilidade. Esta passa pela consciência de que a Alma Alentejana foi cromaticamente fixada na tela por um Silva Porto, um D. Carlos de Bragança ou um Dordio Gomes. Perpetuada na prosa por um Fialho de Almeida, um Manuel Ribeiro ou um Antunes da Silva, bem como registada poeticamente por um Conde de Monsaraz, uma Florbela Espanca ou um Manuel da Fonseca. São exemplos de alto gabarito, que nos obrigam a curvar e a tirar o chapéu, como sempre fez o camponês alentejano, em sinal de respeito. Daí que seja grande a responsabilidade do autor deste blog. Todavia ele espera não desiludir os seus leitores, pois decerto é isso que eles esperam de si. Para eles um abraço do tamanho da heróica planície alentejana.


sexta-feira, 19 de março de 2010

O Tempo da Outra Senhora - Significados

Foi com o santo nome de "O TEMPO DA OUTRA SENHORA", que no acto de baptismo, o padre de serviço abençoou o presente blog. Mas ao contrário de designações como João ou Maria que não são susceptíveis de várias interpretações, o nome deste blog é passível de interpretações diversas. Passemo-las em revista, para ser possível concluir qual é aquela que este blog assume.

A MORTE DA DONA DE CASA

Capa da revista "Ilustração Portuguesa" - II Série - Nº 581,
de 10 de Junho de 1922.

Há um ditado que remonta a tempos imemoriais e que proclama que “Lá em casa manda ela e nela mando eu.” Pese embora o conteúdo, hoje considerado machista, deste provérbio, dele é possível concluir que quem mandava em casa era a dona de casa ou seja a Senhora. Era ela que punha e dispunha. Era ela que era responsável pela gestão de toda a economia doméstica, desde as arrumações e limpezas, até à determinação das ementas e à própria confecção das refeições.
A Senhora tinha muito poder e era ela quem dizia como se havia de cortar. Esse poder, condicionado naturalmente ao poder patriarcal do Senhor, só terminava quando à Senhora lhe dava o badagaio e esta esticava o pernil, antes do Senhor seu esposo.
Durante o período de nojo que se seguia à morte da Senhora, havia um curtíssimo interregno de poder, findo o qual se tinha de cumprir a tradição. A gestão da economia doméstica passava a ser efectuada por outra Senhora: filha ou nora do viúvo ou até nova esposa, se este entretanto tivesse casado. Era então natural que a nova Senhora quisesse proceder a alterações, que podiam começar por mudanças na arrumação e decoração da casa, passando pela modificação das atribuições dos serviçais, acabando nos mais infímos pormenores a ter em conta na gestão da economia doméstica. Sim, ”Porque eu é que sei”, tem sido sempre o lema e o estandarte sob o qual se têm abrigado todas as donas de casa. As alterações ocorridas eram então sempre referenciadas relativamente às “do tempo da outra Senhora.” Esta a origem da frase “do tempo da outra Senhora", consignada há muito no vocabulário popular. Todavia, a frase pode ter outro significado muito diferente do anterior. Vejamos qual.

O ESTADO NOVO

António de Oliveira Salazar (1889-1970),
representado num cromo duma caderneta de cromos,
 do período do Estado Novo.

Muitas vezes quando dizermos “do tempo da outra senhora” queremos significar o lapso de tempo que mediou entre 1926 e 1974 ou seja no chamado período do Estado Novo. E que foi isso do Estado Novo? É importante explicar isso aos mais novos. E com rigor histórico, naturalmente. Aqui o humor é dispensável.
Devido a instabilidade política e a problemas económicos que a I República não conseguiu resolver, a 9 de Julho de 1926 deu-se em Portugal, um golpe de estado militar, encabeçado pelo general Sinel de Cordes e que levaria Salazar ao poder, dando origem a uma das mais duradouras e odiadas ditaduras do século XX.
Em 1929, dirigindo-se ao País, Salazar proclama: “Tudo pela Nação, nada contra a Nação”, um dos slogans que acabou por se converter na imagem de marca de Salazar, por resumir emblematicamente a política do Estado Novo. Adaptando o slogan de Mussolini [1], Salazar utiliza o “Tudo pela Nação, nada contra a Nação”, como máxima oficial do Estado Novo, com que terminavam os próprios ofícios da burocracia do regime.
“Tudo pela Nação, nada contra a Nação” sintetiza a decisão de Salazar em estruturar um estado forte, que garantisse a ordem, por oposição à desordem que considerava (1910-1926). O Estado forte assentava no reforço do poder executivo, de que Salazar seria chefe, na substituição do pluralismo partidário por um partido único (União Nacional) e na supressão dos sindicatos.
Salazar defendia também a preservação dos valores tradicionais - Deus, Pátria, Família - de modo a formar uma sociedade doutrinada de acordo com a moral cristã (Deus), nacionalista (Pátria) e corporativa (Família). O Estado forte caracterizava-se, ainda, pelo imperialismo colonial e pelo nacionalismo económico.
A consolidação da ideia de nação em Portugal ficaria a cargo de uma organismo governamental, o Secretariado de Propaganda Nacional (SPN), criado em 1933 e dirigido pelo jornalista António Ferro, a quem cabia a espinhosa missão de, nas palavras de Salazar [2], “Elevar o espírito da gente portuguesa no conhecimento do que é e realmente vale, como grupo étnico, como meio cultural, como força de produção, como capacidade civilizadora, como unidade independente no concerto das nações”.
Como coadjuvantes da política do “Tudo pela Nação, nada contra a Nação”, existiam:
- Um partido único oficial – a União Nacional.
- Uma censura férrea aos meios de comunicação social.
- Uma polícia política que perseguia os opositores a regime.
- Prisões políticas.
- Uma política colonialista, que proclamava Portugal como "Estado pluricontinental e multirracial”.
- Uma milícia – a Legião Portuguesa - para defesa do regime e combate ao comunismo.
- Uma milícia juvenil – a Mocidade Portuguesa - destinada a inculcar nos jovens os valores do regime.
- Uma vida económica e social do país organizadas em corporações.
- Sindicatos corporativos e inexistiam os sindicatos livres.
Eram estas as características mais marcantes do auto-denominado “Estado Novo”, que para gáudio da maioria, morreu de velho em 25 de Abril de 1974.

ANTIGAMENTE

Locomotiva a vapor número 1, Dom Luiz, de duas rodas motoras e de sete pés de diâmetro. Fotografia sem data. Produzida durante a actividade do Estúdio Mário Novais: 1933-1983. [CFT003 075602.ic] - Galeria de Biblioteca de Arte-Fundação Calouste Gulbenkian.

As mulheres usavam combinação, saiote e soutien, mesmo que pouco tivessem para meter lá dentro. Iam à missa de véu e bem cobertas de roupa.
Os homens usavam ceroulas, botas de elástico e polainitos, bem como alfinete na gravata e relógio de bolso.
Antigamente, os tempos eram outros e é precisamente nessa acepção que a frase popular “do tempo da outra Senhora” é usada neste blog.
Tempos em que se ia a Lisboa de comboio a vapor, se passeava de churrião e as pessoas civilizadas defecavam no penico.
São tempos que despertam memórias nas quais nem todos se revêem da mesma maneira.
São tempos "do tempo da outra Senhora"…

[1] - “Nada fora do Estado, acima do Estado, contra o Estado. Tudo no Estado, dentro do Estado”. – Mussolini (1883-1945).
[2] - SALAZAR, António de Oliveira. Discursos. Coimbra Editora Limitada, Coimbra, 5ª edição, 1961, vol. 1.

Hernâni Matos