quarta-feira, 24 de março de 2010

Ciclo do pão na Literatura Oral ( 2 - A sementeira)

2 - A SEMENTEIRA

A sementeira no Alentejo, no início do século XX. Postal edição Malva (Lisboa).

Na sementeira que se seguia à lavra, toda a acção se centrava no semeador, que do sementeiro pendurado ao ombro, apartava uma mão cheia de semente, a qual num gesto augusto, ciclicamente repetido, lançava à terra - mãe para a fecundar.
Apesar da dureza da sua vida, alguém o aconselhava:

“Não maldigas o destino;
E cumpre a tua missão;
Sem o trigo pequenino
Ninguém pode fazer pão.“ [1]

O trigo era considerado mágico:

“Num pequeno grão de trigo
grande magia se encerra;
para o gerar, sol amigo
e água beijando a terra.“ [1]
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Exaltava-se o valor do grão:
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“Não há pepita de oiro
que tenha o valor dum grão.
Ninguém transforma um tesoiro
em bocadinhos de pão…“ [1]
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A colheita tinha o seu custo:
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“Eu conheci quem queria
ter trigo sem semear.
Quem não semeia não colhe,
como é fácil calcular.“ [1]
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Havia quem aconselhasse a semear só a própria terra:
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“A terra é nossa mãe,
pois a terra nos dá pão,
Não semeies terra alheia,
em busca de produção.“ [1]
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Também havia quem procurasse trabalho:
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“Já não há por hi quem queira
Accomodar um ganhão
Por alqueive e sementeira
E a temporada do v’rão?“ [2]
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Para outros era mais forte o desejo de lavrar e semear em corpo de mulher:
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“Quem me dera ser feitor,
lavrador nesse teu peito,
antes que não semeasse,
ficava o alqueve feito.“ [1]
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É claro que o namoradeiro não gostava de atrasos:
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“Semear e não colher
É que atraza o lavrador:
Também eu ando atrazado,
Em não falar ao amor.“ [2]
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O pior de tudo era a desilusão:
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“No principio do meu mundo
Fui lavrador alguns annos.
Semeei leaes carinhos
Recolhi falsos enganos.“ [2]
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O rifonário da semeadura não fica atrás dos restantes rifonários do ciclo do pão:
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- “A lavrador descuidado os ratos comem o semeado.“
- “Ara com os bois, semeia com as vacas.“
- “Cada um colhe conforme semeia.“
- “Coisa que não se vende, ninguém a semeia. “
- “Coisa que se não colhe, ninguém a viu semear.”
- “Como semeares, assim colherás.“
- “Em Outubro sê prudente: guarda pão, guarda semente.“
- “Maldito dente que come a semente.“
- “Nem sempre a boa semente cai em terreno fértil.“
- “O que à terra deres já, ela depois to dará.“
- “Poda tardio, semeia temporão, terás vinho e pão.“
- “Quando a Lua minguar, nada hás-de semear.“
- “Quando a mão semeia, é mão que abençoa.“
- “Quem não semeia, não colhe.“
- “Quem semeia basto, gasta mais e colhe menos.“
- “Quem semeia, colhe.“
- “Quem semeia, espera.“
- “Quem semeia, recolhe.“ [3]
- “Se ouvires trovejar em Março / semeia no alto e no baixo.“
- “Se queres bom cabaço, semeia-o em Março. “
- “Semeia e cria/terás alegria.“
- “A quem não tem pão semeado, de Agosto se faz Maio.“[3]
- “A terra, lavrada em Agosto, à estercada dá de rosto.“ [3]
- “Cada um colhe segundo semeia.“ [3]
- “Com água e com sol, Deus é o creador.“ [3]
- “De grão te sei contar, que em Abril não ha-de estar nascido, nem por semear.“ [3]
- “Dia de S. Matheus [4], vindimam os sisudos, semeiam os sandeus.“ [3]
- “Em tal lugar, nem quero colher nem semear.“ [3]
- “Por S. Clemente [5], alça a mão da semente.“ [3]
- “Por S. Francisco [6], semeia teu trigo, e a velha que o dizia, semeado o tinha.“ [3]
- “Por Santa Ereia [7], toma os bois e semeia.“ [3]
- “Por todos os santos, semeia trigo, colhe cardos.“ [3]
- “Quem em terra boa semeia, cada dia tem boa estreia.“ [3]
- “Quem não tem bois, ou semeia antes ou depois.“ [3]
- “Quem ralo semeia, rala leva a paveia.“ [3]
- “Quem semeia em arneiros, semeia moios, colhe quarteiros.“ [3]
- “Quem semeia em caminho, cansa os bois e perde o trigo.“ [3]
- “Quem semeia em restôlho, chora com um olho; e eu, que não semeei, com dois olhos chorarei.“ [3]
- “Semeia cedo, colhe tardio, colherás pão e vinho.“ [3]
- “Semeia e cria, terás alegria.“ [3]
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Terminamos, citando ainda António Delicado:
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- “A quem vella, tudo se lhe revela.” [3]
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Hernâni Matos

[1] - SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano – Poesia Popular. Livraria Portugal, Lisboa, 1959.
[2] - PIRES, A. Thomaz. Cantos Populares Portugueses, vol. IV. Typographia e Stereotypia Progresso. Elvas, 1910.
[3] – DELICADO, António. Adagios portuguezes reduzidos a lugares communs / pello lecenciado Antonio Delicado, Prior da Parrochial Igreja de Nossa Senhora da charidade, termo da cidade de Euora. Officina de Domingos Lopes Rosa. Lisboa, 1651.
[4] - 21 de Setembro.
[5] - 15 de Março.
[6] - 4 de Outubro.
[7] - 20 0utubro.

6 comentários:

  1. Alentejo? Com barrete? Fiquei na dúvida...
    AM

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  2. Caro Amigo:

    O barrete usou-se em todo o país.Do Norte para o Sul e do Litoral para o Interior. Habitualmente associa-se mais às zonas piscatórias e ao Ribatejo, o que é reforçado pelas imagens dos ranchos folclóricos. Mas que se usou, usou. Eu tenho mais imagens antigas do Alentejo com camponeses de barrete ou gorra como lhe queira chamar. Numa delas, do princípio do século XX,os azeitoneiros usam barrete verde.
    A centenária barrística popular estremocense, também põe o camponês de barrete.
    Termino com uma quadra do cancioneiro popular alentejano do elvense TOMAZ PIRES(1910):

    Ó fêra de S. Matheus,
    Onde se vendem pinhões,
    Anda agora muito em moda
    Gorros verdes à Camões.

    Como é sabido esta tradicional feira realiza-se em Elvas.

    Um abraço.

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  3. É um prazer ler os seus "posts", sempre generosos de sabedoria. Lê-lo faz bem! Bem haja.

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  4. Magnífico, parabéns!

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  5. Esplendido!!! Sabia alguns. Não sabia era que existiam tantos.
    Obrigado pela partilha

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  6. Obrigado pela partilha,muito bom, no meu humilde parecer.

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