sexta-feira, 26 de março de 2010

Ciclo do pão na Literatura Oral ( 3 - A monda)

3 - A MONDA


A monda no Alentejo, no início do século XX. Postal edição Malva (Lisboa).

Depois da sementeira que fecundou a terra-mãe, a semente germinou e as searas vicejaram, mas com elas também a erva daninha que podia travar o crescimento e a pujança da seara, pondo em causa o investimento do lavrador.
Quando não tinham sido ainda descobertos os herbicidas, era a época de trabalho das mondadeiras, assalariadas sazonalmente para a faina da monda e que rítmica e sonoramente arrancavam a erva daninha com o auxílio dum sacho.
Para o leigo, para quem nunca tenha ido à monda ou sequer falado com mondadeiras, pode parecer que a faina fosse fácil. Nada mais enganador. Era suposto começar-se o trabalho ao nascer do Sol, pelo que a concentração do rancho de mondadeiras tinha início muito antes. Depois era a caminhada para o local. E quando se começava, muitas vezes parecia que o Sol se tinha esquecido de nascer. Nas manhãs de Outono, as mãos estavam engadanhadas logo à partida. O corpo curvado sobre a terra mole, dilacerava os rins. O peso nas pernas, encarregava-se do resto. Era um trabalho penoso que levava a mulher a desabafar:                          

“Eu ando aqui a mondar
Sòzinha , não tenho medo:
Bem pudera o meu amor
Tirar-me deste degredo!“ [1]                     

O desabafo podia ser extremo, assumindo a forma de uma recusa, ainda que mascarada no pretexto:

Eu não quero ir á monda,
Que não sei cortar a eito;
Mandem-me falar d'amor,
Que p'ra isso tenho eu geito.“ [2]                     

As ervas daninhas eram muitas: ervilhacas, palanco, cizirão, cardos, malvas, saramagos, pampilro, alabaças, leitugas, almeirões, etc. E essas mesmas ervas de que expurgavam as searas eram referidas pelas mondadeiras nas suas canções de trabalho, nas quais faziam também o balanço do seu amor por alguém:                    

“Hei-de fazer uma maia
De ervilhacas e palanco
P’ra mandar ao meu amor
Que eu ando a mondar no campo.... “[3]

“Cizirão é uma erva
Que se enleia pelo trigo.
Ai! Quem fosse cizirão!
Que enleasse o teu “sentido”!“ [4]

“O cardo é que pica,
Que me picou numa mão;
Também a maldade pica
Os homens no coração. “ [5]

O facto de a monda ser um trabalho penoso, levava a que algumas mulheres o quisessem abandonar, quando dele já não tivessem necessidade:

"Já não quero ir á monda,
Já não quero ir a mondar,
Foi na monda que eu ganhei
Dinheiro p’ra me casar.“ [2]

Por vezes, alguém dizia isso mesmo à mulher, levando a mesma a replicar que era na monda que tinha ganho dinheiro:                           

“- Não quero que vás á monda,
Na monda não ganhas nada.
- Foi na monda que eu ganhei
Uma saia encarnada.“ [2]

Algumas mulheres continuavam a ir à monda, mesmo depois de casadas:                   

“Eu bem sei que ando na monda.
Eu bem sei que ando a mondar,
Na monda é que eu arranjei
Dinheiro p’ra me casar. “ [6]

Nem o rigor do clima que fazia com que a mulher estivesse praticamente coberta de roupa, era impeditivo que os homens exaltassem a sua beleza:                       

“Mondadeira de olhos verdes.
mais lindos que o verde trigo,
pôs-lhe deus tanta beleza
p'ra meu tormento e castigo.“ [7]              

“Não escondas, mondadeira,
com esse lenço de chita
a boca que heí-de beijar,
nem essa cara bonita.“ [7]                  

Alguns homens desejavam mesmo enlear-se à mulher, tal como a erva daninha se enleia no trigo:                           

“Malva verde que se enleia,
que se enleia pelo trigo;
quem me dera ser enleio
que me enleara contigo.“ [7]

Talvez a monda fosse propícia a posturas mais libertinas. Daí que outras mulheres, decerto conhecedoras desse facto, proclamassem em relação àquelas das quais ansiavam ser madrinhas de casamento:                       

“Não quero que vás á monda,
Não quer’e que vás sósinha,
Quando tu te casares
Quero ser tua madrinha.“ [2]                      

E aquela disposição podia ser mesmo extensiva em relação a outro trabalho sazonal: a ceifa.                             

“Não quero que vás á monda,
Não quer’e que vás a mondar,
Se amanhã vier a ceifa,
Não quer’que vás a ceifar.“ [2]                     

No limite, a proclamação podia ir ao extremo de deixar de querer ser madrinha, mas continuar a querer que a afilhada não fosse à monda:                    

“Não vou ser tua madrinha
Não te vou acompanhar, 
Não quero que vás à monda,
Não quero que vás mondar.“ [8]                 

E tal como a monda, também o ribeiro devia esconder perigos imaginados:                  

“Não quero que vás à monda,
Nem ao ribeiro lavar,
Não quero que vás à monda,
Que vás à monda, que vás mondar.“ [9]

O rifonário da monda é escasso relativamente aos outros rifonários do ciclo do pão:          

- “O que não vai à monda, vai à ceifa.”
- “O que ganhaste à monda, perdeste à sacha.”
- “Mondar e chover, dinheiro a perder.”

Terminada esta incursão sobre a literatura oral relativa à monda, vem depois a ceifa. Citando António Delicado [10]:

- “Um trabalho é véspera de outro.”

Hernâni Matos

[1] - Amieira (concelho de Nisa) - Recolha de J. Leite de Vasconcellos in Cancioneiro Popular Português.
[2] - PIRES, A. Thomaz. Cantos Populares Portugueses, vol. IV. Typographia e Stereotypia Progresso. Elvas, 1910.
[3] - Tolosa (concelho de Nisa) - Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.
[4] - Salvada - Recolha de Manuel Joaquim Delgado in Subsídio para o Cancioneiro Popular do Baixo Alentejo.
[5] - Estremoz. Recolha de Luís Chaves in Páginas Folclóricas - A Canção do Trabalho, Imprensa Portuguesa, Porto, 1927.
[6] - Amieira (concelho de Nisa) - Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.
[7] - SANTOS, Victor. Cancioneiro Alentejano – Poesia Popular. Livraria Portugal, Lisboa, 1959.
[8] - Tolosa (concelho de Nisa) - Recolha de J. Leite de Vasconcellos in ob. cit.
[9] - Elvas – Recolhida po Rodney Gallop in Cantares do Povo Português, Instituto de Alta Cultura, Lisboa, 1937.
[10] - DELICADO, António. Adagios portuguezes reduzidos a lugares communs / pello lecenciado Antonio Delicado, Prior da Parrochial Igreja de Nossa Senhora da charidade, termo da cidade de Euora. Officina de Domingos Lopes Rosa. Lisboa, 1651.