quinta-feira, 21 de maio de 2026

ARTES DO VAGAR: Ora agora falo eu!



CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS: Luís Mendeiros (CME) 

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Palavras proferidas no acto inaugural da exposição
ARTES DO VAGAR / COLECÇÃO HERNÂNI MATOS
que no dia 16 de Maio de 2026 teve lugar na
Sala de Exposições Temporárias do
Museu Municipal de Estremoz Professor Joaquim Vermelho


Exº Senhor Presidente da Câmara Municipal de Estremoz e demais entidades presentes,
Minhas senhoras e meus Senhores:

Permitam-me que vos dê as boas vindas e agradeça a vossa presença nesta exposição, facto que muito me congratula.

Porque um homem sozinho não é ninguém e porque a ingratidão não é um timbre do meu traço de carácter, impõem-se aqui múltiplos agradecimentos:

- Em 1º lugar ao Senhor Presidente José Daniel Sadio, que me desafiou a realizar a presente exposição no âmbito da celebração dos 100 anos de elevação de Estremoz a cidade, desafio que aceitei sem hesitações e com um misto de prazer e espírito de missão. Em 1º lugar e ainda ao Senhor Presidente José Daniel Sadio que com as suas palavras de abertura no catálogo da exposição, muito me honra e dignifica o catálogo.

- Em 2º lugar à Professora Francisca de Matos, minha amiga de longa data, companheira de estradas culturais e grande senhora das palavras, pelo traçado do meu perfil biográfico como recolector, o qual igualmente muito me honra e dignifica o catálogo da presente exposição.

- Em 3º lugar à Directora do Museu Municipal de Estremoz, Isabel Água, que me deu todo o apoio possível e foi incansável na coordenação dos múltiplos aspectos e na “colagem das pontas soltas” que o edificar duma exposição deste quilate impõe, visando o seu sucesso.

- Em 4º lugar à Equipa Técnica do Museu Municipal de Estremoz, que com profissionalismo e dedicação, deu um vigoroso contributo para estarmos a inaugurar hoje e aqui, esta exposição.

- Em 5º lugar aos membros do Gabinete de Comunicação do Município que deram um inestimável contributo para o catálogo editado, o qual perdurará para a posteridade como visual e memória futura da exposição. São eles: Luís Dias (fotografia), Rui Louro (Grafismo) e Jorge Mourinha (Impressão e acabamento).

Terminado que é este período de cumprimentos e de agradecimentos, estarão decerto, algumas de Vªs Exªs a perguntar:

- ARTES DO VAGAR, PORQUÊ? Eu passo a explicar.

O vagar é uma marca de água da identidade cultural alentejana, já que os alentejanos são ancestralmente avessos a pressas e nutrem um desprezo olímpico pelo frenesim contemporâneo. Desde sempre adoptaram um modo de vida caracterizado por um ritmo de vida pausado, calmo e consciente. Trata-se de uma forma de estar que valoriza o tempo, a reflexão, a partilha e a ligação ao meio circundante.

Daí que a ARTE PASTORIL e A ARTE CONVENTUAL, as quais são objecto da presente exposição, sejam merecedoras de receber conjuntamente o epíteto de ARTES DO VAGAR.

Deixem-me falar agora da exposição em si

Sou conhecido e reconhecido como recolector e investigador da Cultura Popular Alentejana, muito em especial de Bonecos e Olaria de Estremoz, Arte Pastoril, Arte Conventual e Cerâmica Vidrada de Redondo.

A minha amiga Francisca de Matos que me conhece há muito, diz que não tem dúvidas de que eu nasci para ser RECOLECTOR e o meu amigo António Júlio Rebelo condecorou-me há 2 anos atrás com o epíteto de GUARDADOR DE MEMÓRIAS.

Pois bem, o que está presente nesta exposição é uma selecção de 123 trabalhos pertencentes ao acervo pessoal de artesanato de Estremoz, pertencente ao recolector e guardador de memórias que sou eu.

Os trabalhos expostos distribuem-se por duas grandes áreas: - ARTE PASTORIL (Trabalhos em madeira, cabaça e em chifre, de Manuel António Capelins, Teresa Serol Gomes, Miguel Serol Gomes, Joaquim Carriço Rolo, José Carrilho Troncho, Roberto Carreiras; - ARTE CONVENTUAL [Papel recortado (Joana Simões e Joaquina Simões), Pintura judaica (Natália Simões) e Registos e maquinetas (Guilhermina Maldonado)]

Trata-se de artesãos naturais do concelho de Estremoz ou que aqui se fixaram e que aqui produziram, os quais na sua esmagadora maioria participaram em várias edições da saudosa Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, iniciada em 1983 no Rossio Marquês de Pombal.

Tratou-se de uma Feira que decorreu sob os auspícios da Câmara Municipal de Estremoz, a qual também integrava a Comissão Organizadora da Feira, liderada pelo Professor Joaquim Vermelho, Director da Biblioteca e Museu Municipal e animador do Núcleo de Dinamização Cultural, integrado entre outros pelos professores Francisco Rodrigues, Vítor Trindade, Maria Luzia Margalho e Manuel Ferreira Patrício. O Núcleo de Dinamização Cultural de Estremoz vinha efectuando no concelho, há já algum tempo, um levantamento etnográfico nas diferentes freguesias, com especial incidência nas freguesias da Glória e de Santa Vitória do Ameixial, focado sobretudo nas tradições orais e nos ofícios e artes tradicionais.

A realização da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz corresponde à revelação dos aspectos mais belos, verdadeiros, identitários e valiosos da nossa cultura popular concelhia.

No catálogo da Feira, logo a abrir, diz o então Presidente da Câmara, José Emílio Guerreiro. “Esta I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz é o resultado do trabalho colectivo de um grupo de pessoas que ainda acreditam na importância da cultura popular, como forma de desenvolvimento de toda uma sociedade.”

Com a realização da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, ocorre uma mudança de paradigma.

Artesãos e artes tradicionais mais ou menos esquecidas ou ignoradas por muitos, “vêem a luz da ribalta” e adquirem como que uma “carta de cidadania”, perdoem-me a linguagem metafórica.

 A I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz propagar-se-ia no tempo e no espaço, com novas localizações e novos figurinos, de que não cabe falar hoje aqui. Todavia é legítimo concluir que em termos de cultura popular estremocense, o ano de 1983 foi um ano admirável, excelente, formidável, maravilhoso, o que me levou a adjectivá-lo com a locução latina habitual nestes casos: "annus mirabilis".

Assisti em 1983 ao nascimento da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz. Já então era recolector de Bonecos de Estremoz, mas o fascínio que a Feira exerceu sobre mim, levou-me a estender os meus interesses a outros domínios.  E foi assim que descobri artesãos que corresponderam à minha sensibilidade, ao meu gosto pessoal e que me aqueceram a alma, levando-me a adquirir trabalhos seus ao longo dos anos. Para além disso, tive o privilégio de conhecer e interactuar com os artesãos cujos trabalhos integram a presente exposição e pelos quais nutri e nutro uma incomensurável estima e admiração pelo seu saber-fazer. Daí não ser de estranhar que me tenha sentido motivado a reunir um conjunto de trabalhos desses artesãos a partir do “annus mirabilis” de 1983, o qual indubitavelmente constituiu “o alfa e o ómega” da divulgação do saber-fazer dos nossos artesãos.

Os trabalhos expostos são registos de memória providos das marcas identitárias dos seus criadores. Para além disso são também memórias guardadas por mim como respigador que agora as partilho com a comunidade e o público em geral.

Esta exposição tem por objectivos: - Comemorar o Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade; - Realçar as artes do vagar como reflexos identitários, pilares fundamentais na construção da memória colectiva; - Homenagear o saber-fazer de mestres artesãos locais do passado nos domínios da Arte Pastoril e da Arte Conventual; - Divulgar trabalhos de excelência de artesãos locais naqueles domínios.

Creio que esta exposição atingirá completamente os objectivos visados e outra coisa não seria de esperar, quando se está em presença da “nata” do artesanato de Estremoz ou seja do “filé mignon” como dizem os franceses ou simplesmente do “bife de lombo”, como diz o senhor Jerónimo de Sousa.

E disse.

Estou agora à vossa disposição para vos conduzir numa visita guiada à exposição.

(E esta aconteceu).

Hernâni Matos



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