Exº Senhor Presidente da Câmara Municipal de Estremoz e demais entidades presentes,
Minhas senhoras e meus Senhores:
Permitam-me que vos dê as boas vindas e agradeça a vossa presença nesta
exposição, facto que muito me congratula.
Porque um homem sozinho não é ninguém e porque a ingratidão não é um
timbre do meu traço de carácter, impõem-se aqui múltiplos agradecimentos:
- Em 1º lugar ao Senhor Presidente José Daniel Sadio, que me desafiou a
realizar a presente exposição no âmbito da celebração dos 100 anos de elevação
de Estremoz a cidade, desafio que aceitei sem hesitações e com um misto de
prazer e espírito de missão. Em 1º lugar e ainda ao Senhor Presidente José
Daniel Sadio que com as suas palavras de abertura no catálogo da exposição,
muito me honra e dignifica o catálogo.
- Em 2º lugar à Professora Francisca de Matos, minha amiga de longa
data, companheira de estradas culturais e grande senhora das palavras, pelo
traçado do meu perfil biográfico como recolector, o qual igualmente muito me
honra e dignifica o catálogo da presente exposição.
- Em 3º lugar à Directora do Museu Municipal de Estremoz, Isabel Água,
que me deu todo o apoio possível e foi incansável na coordenação dos múltiplos
aspectos e na “colagem das pontas soltas” que o edificar duma exposição deste
quilate impõe, visando o seu sucesso.
- Em 4º lugar à Equipa Técnica do Museu Municipal de Estremoz, que com
profissionalismo e dedicação, deu um vigoroso contributo para estarmos a
inaugurar hoje e aqui, esta exposição.
- Em 5º lugar aos membros do Gabinete de Comunicação do Município que
deram um inestimável contributo para o catálogo editado, o qual perdurará para
a posteridade como visual e memória futura da exposição. São eles: Luís Dias
(fotografia), Rui Louro (Grafismo) e Jorge Mourinha (Impressão e acabamento).
Terminado que é este período de cumprimentos e de agradecimentos,
estarão decerto, algumas de Vªs Exªs a perguntar:
- ARTES DO VAGAR, PORQUÊ? Eu passo a explicar.
O vagar é uma marca de água da identidade cultural alentejana, já que
os alentejanos são ancestralmente avessos a pressas e nutrem um desprezo
olímpico pelo frenesim contemporâneo. Desde sempre adoptaram um modo de vida
caracterizado por um ritmo de vida pausado, calmo e consciente. Trata-se de uma
forma de estar que valoriza o tempo, a reflexão, a partilha e a ligação ao meio
circundante.
Daí que a ARTE PASTORIL e A ARTE CONVENTUAL, as quais são objecto da
presente exposição, sejam merecedoras de receber conjuntamente o epíteto de
ARTES DO VAGAR.
Deixem-me falar agora da exposição em si
Sou conhecido e reconhecido como recolector e investigador da Cultura
Popular Alentejana, muito em especial de Bonecos e Olaria de Estremoz, Arte
Pastoril, Arte Conventual e Cerâmica Vidrada de Redondo.
A minha amiga Francisca de Matos que me conhece há muito, diz que não
tem dúvidas de que eu nasci para ser RECOLECTOR e o meu amigo António Júlio
Rebelo condecorou-me há 2 anos atrás com o epíteto de GUARDADOR DE MEMÓRIAS.
Pois bem, o que está presente nesta exposição é uma selecção de 123
trabalhos pertencentes ao acervo pessoal de artesanato de Estremoz, pertencente
ao recolector e guardador de memórias que sou eu.
Os trabalhos expostos distribuem-se por duas grandes áreas: - ARTE
PASTORIL (Trabalhos em madeira, cabaça e em chifre, de Manuel António Capelins,
Teresa Serol Gomes, Miguel Serol Gomes, Joaquim Carriço Rolo, José Carrilho
Troncho, Roberto Carreiras; - ARTE CONVENTUAL [Papel recortado (Joana Simões e
Joaquina Simões), Pintura judaica (Natália Simões) e Registos e maquinetas
(Guilhermina Maldonado)]
Trata-se de artesãos naturais do concelho de Estremoz ou que aqui se
fixaram e que aqui produziram, os quais na sua esmagadora maioria participaram
em várias edições da saudosa Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de
Estremoz, iniciada em 1983 no Rossio Marquês de Pombal.
Tratou-se de uma Feira que decorreu sob os auspícios da Câmara
Municipal de Estremoz, a qual também integrava a Comissão Organizadora da
Feira, liderada pelo Professor Joaquim Vermelho, Director da Biblioteca e Museu
Municipal e animador do Núcleo de Dinamização Cultural, integrado entre outros
pelos professores Francisco Rodrigues, Vítor Trindade, Maria Luzia Margalho e
Manuel Ferreira Patrício. O Núcleo de Dinamização Cultural de Estremoz vinha
efectuando no concelho, há já algum tempo, um levantamento etnográfico nas
diferentes freguesias, com especial incidência nas freguesias da Glória e de
Santa Vitória do Ameixial, focado sobretudo nas tradições orais e nos ofícios e
artes tradicionais.
A realização da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de
Estremoz corresponde à revelação dos aspectos mais belos, verdadeiros,
identitários e valiosos da nossa cultura popular concelhia.
No catálogo da Feira, logo a abrir, diz o então Presidente da Câmara,
José Emílio Guerreiro. “Esta I Feira de Arte Popular e Artesanato do
Concelho de Estremoz é o resultado do trabalho colectivo de um grupo de pessoas
que ainda acreditam na importância da cultura popular, como forma de
desenvolvimento de toda uma sociedade.”
Com a realização da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de
Estremoz, ocorre uma mudança de paradigma.
Artesãos e artes tradicionais mais ou menos esquecidas ou ignoradas por
muitos, “vêem a luz da ribalta” e adquirem como que uma “carta de
cidadania”, perdoem-me a linguagem metafórica.
A I Feira de Arte Popular e
Artesanato do Concelho de Estremoz propagar-se-ia no tempo e no espaço, com
novas localizações e novos figurinos, de que não cabe falar hoje aqui. Todavia
é legítimo concluir que em termos de cultura popular estremocense, o ano de
1983 foi um ano admirável, excelente, formidável, maravilhoso, o que me levou a
adjectivá-lo com a locução latina habitual nestes casos: "annus
mirabilis".
Assisti em 1983 ao nascimento da I Feira de Arte Popular e Artesanato
do Concelho de Estremoz. Já então era recolector de Bonecos de Estremoz, mas o
fascínio que a Feira exerceu sobre mim, levou-me a estender os meus interesses
a outros domínios. E foi assim que
descobri artesãos que corresponderam à minha sensibilidade, ao meu gosto
pessoal e que me aqueceram a alma, levando-me a adquirir trabalhos seus ao
longo dos anos. Para além disso, tive o privilégio de conhecer e interactuar
com os artesãos cujos trabalhos integram a presente exposição e pelos quais
nutri e nutro uma incomensurável estima e admiração pelo seu saber-fazer. Daí
não ser de estranhar que me tenha sentido motivado a reunir um conjunto de
trabalhos desses artesãos a partir do “annus mirabilis” de 1983, o qual
indubitavelmente constituiu “o alfa e o ómega” da divulgação do
saber-fazer dos nossos artesãos.
Os trabalhos expostos são registos de memória providos das marcas
identitárias dos seus criadores. Para além disso são também memórias guardadas
por mim como respigador que agora as partilho com a comunidade e o público em
geral.
Esta exposição tem por objectivos: - Comemorar o Centenário da
Elevação de Estremoz a Cidade; - Realçar as artes do vagar como reflexos
identitários, pilares fundamentais na construção da memória colectiva; -
Homenagear o saber-fazer de mestres artesãos locais do passado nos domínios da
Arte Pastoril e da Arte Conventual; - Divulgar trabalhos de excelência de
artesãos locais naqueles domínios.
Creio que esta exposição atingirá completamente os objectivos visados e
outra coisa não seria de esperar, quando se está em presença da “nata”
do artesanato de Estremoz ou seja do “filé mignon” como dizem os
franceses ou simplesmente do “bife de lombo”, como diz o senhor Jerónimo
de Sousa.
E disse.
Estou agora à vossa disposição para vos conduzir numa visita guiada à exposição.
(E esta aconteceu).




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