Entre
15 e 17 de Julho de 1983 teve lugar em Estremoz, no Rossio Marquês de Pombal,
frente aos cafés, a I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de
Estremoz.
Tratou-se
de uma Feira que decorreu sob os auspícios da Câmara Municipal de Estremoz, a
qual também integrava a Comissão Organizadora da Feira, liderada pelo Professor
Joaquim Vermelho, Director da Biblioteca e Museu Municipal e animador do Núcleo
de Dinamização Cultural, integrado entre outros pelos professores Francisco
Rodrigues, Vítor Trindade, Maria Luzia Margalho e Manuel Ferreira Patrício.
O
Núcleo de Dinamização Cultural de Estremoz vinha efectuando no concelho, há já
algum tempo, um levantamento etnográfico nas diferentes freguesias, com
especial incidência nas freguesias da Glória e de Santa Vitória do Ameixial,
focado sobretudo nas tradições orais e nos ofícios e artes tradicionais.
A
realização da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz
correspondeu na época à revelação dos aspectos mais belos, verdadeiros,
identitários e valiosos da nossa cultura popular concelhia.
No
catálogo da Feira, logo a abrir, diz o então Presidente da Câmara, José Emílio
Guerreiro. “Esta I Feira de Arte Popular e
Artesanato do Concelho de Estremoz é o resultado do trabalho colectivo de um
grupo de pessoas que ainda acreditam na importância da cultura popular, como
forma de desenvolvimento de toda uma sociedade.”
Com
a realização da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz,
ocorre uma mudança de paradigma.
Artesãos
e artes tradicionais mais ou menos esquecidas ou ignoradas por muitos, “vêem a luz da ribalta” e adquirem como que uma “carta
de cidadania”, perdoem-me a
linguagem metafórica.
A I Feira de Arte Popular e Artesanato do
Concelho de Estremoz propagar-se-ia no tempo e no espaço, com novas
localizações e novos figurinos, de que não cabe falar hoje aqui. Todavia é
legítimo concluir que em termos de cultura popular estremocense, o ano de 1983
foi um ano admirável, excelente, formidável, maravilhoso, o que me levou a
adjectivá-lo com a locução latina habitual nestes casos: "annus mirabilis".
Assisti em 1983 ao nascimento da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz. Já então era recolector de Bonecos de Estremoz, mas o fascínio que a Feira exerceu sobre mim, levou-me a estender os meus interesses a outros domínios. E foi assim que descobri artesãos que corresponderam à minha sensibilidade, ao meu gosto pessoal e que me aqueceram a alma, levando-me a adquirir trabalhos seus ao longo dos anos, a partir do “annus mirabilis” de 1983, consensualmente considerado o “o alfa e o ómega” da divulgação do saber-fazer dos nossos artesãos.
100 anos de elevação de Estremoz a cidade
A convite do Senhor Presidente da Câmara Municipal de Estremoz, José Daniel Pena Sadio e, na condição de “maior e mais consciente colecionador de Estremoz atualmente” (palavras suas), concebi uma exposição com base na minha colecção, visando dar uma retrospectiva possível dos últimos 100 anos de artesanato no concelho. Naturalmente que tive de fazer opções relativamente à tipologia de artesanato, o que me levou a excluir sem desprimor algum, o Figurado, a Olaria, a Cerâmica Vidrada e a Azulejaria de Estremoz. Cingi-me então à Arte Pastoril e à Arte Conventual (Papel Recortado, Pintura Judaica e Registos e Maquinetas), as quais decidi expor sob a epígrafe “ARTES DO VAGAR – Colecção Hernâni Matos”.
Foi
esta exposição que no passado sábado, dia 16 Maio, foi inaugurada na Sala de
Exposições Temporárias do Museu Municipal de Estremoz Prof. Joaquim Vermelho. À
“vernissage” compareceram cerca de 6
dezenas de convidados, cuja presença foi para mim gratificante. Presidiu ao
evento, o Senhor Presidente da Câmara Municipal de Estremoz, José Daniel Pena
Sadio, que usou da palavra a seguir à Directora do Museu, Isabel Água. Ainda
que formalmente distintas, ambas as intervenções convergiram num ponto:
reconhecimento da singularidade e qualidade do material exposto, a que aliaram
a dedicação da minha actividade como recolector, afirmações que vindo de quem
vêem, muito me congratulam e estimulam.
A
exposição integra uma selecção de 123 trabalhos pertencentes ao meu acervo
pessoal de artesanato de Estremoz, assim distribuídos pelos artesãos: - MANUEL
ANTÓNIO CAPELINS (1924-1974) – Arte Pastoril (2 trabalhos); - TERESA SEROL GOMES (1952-1988) –
Arte
Pastoril (17 trabalhos); - MIGUEL
SEROL GOMES (1957 - ) – Arte
Pastoril (3 trabalhos); - JOAQUIM CARRIÇO ROLO (1935-2023) – Arte Pastoril (38
trabalhos); - JOSÉ CARRILHO TRONCHO (1910-2003) – Arte
Pastoril (7 trabalhos); - ROBERTO
CARREIRAS (1930-2017) – Arte Pastoril
(4 trabalhos); - JOANA SIMÕES (1912 - 2011) E JOAQUINA SIMÕES (1914 - 2005) – Arte Conventual - Papel Recortado (12 trabalhos);
- NATÁLIA SIMÕES (1924 - 2012) – Arte Conventual
- Pintura Judaica – (12
trabalhos); - GUILHERMINA MALDONADO (1937-2019) – Arte
Conventual – Registos e Maquinetas (28
trabalhos).
Como nos diz no catálogo da exposição o Senhor Presidente da Câmara, “Fazer memória destes homens e mulheres, é um ato de justiça, pois foram estes que nos legaram um Saber-Fazer que herdaram de seus Mestres e, quando tal lhes foi possibilitado, transmitiram a quem quis aprender.” e acrescenta: “Infelizmente algumas artes perderam-se durante estes últimos 100 anos. Ficaram contudo os testemunhos materiais das mesmas, os quais Hernâni Matos, a quem agradeço a forma entusiástica como recebeu e aceitou o nosso convite, coleciona com devoção e critério científico.” A terminar diz: “São estes testemunhos materiais que vos apresentamos nesta mostra. Verdadeiras “cápsulas do tempo”, de um passado que não volta, mas que sentimos presente na nossa vida enquanto memória coletiva.”
A
exposição tem por objectivos: - Comemorar o
Centenário da Elevação de Estremoz a Cidade; - Realçar as artes do vagar como
reflexos identitários, pilares fundamentais na construção da memória colectiva;
- Homenagear o saber-fazer de mestres artesãos locais do passado nos domínios
da Arte Pastoril e da Arte Conventual; - Divulgar trabalhos de excelência de
artesãos locais naqueles domínios.
Creio
que a exposição atingirá completamente os objectivos visados e outra coisa não
seria de esperar, quando se está em presença da “nata” do artesanato de Estremoz ou seja do “filé mignon” como dizem os franceses ou
simplesmente do “bife de lombo”, como diz o senhor Jerónimo de Sousa.
Hernâni Matos
Publicado em 22 de Maio de 2026






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