sexta-feira, 19 de junho de 2020

Ana Catarina Grilo, uma barrista que veio para ficar


Fig. 1 - Ana Catarina Grilo (1974-   ), pintando no seu atelier.

À laia de introdução
O gosto pelos Bonecos de Estremoz está-me na massa do sangue. Daí que para além de coleccionador e investigador da História dos mesmos, seja um contador de estórias que procura modelar com palavras o que lhe vai na alma. Tal é fruto de observar e reflectir sobre criações, às quais a magia das mãos dos barristas, conferiram forma, cor, movimento e significado. E porque não vida? Vida que para mim passa também a ter mais sentido, já que os Bonecos me refrescam e revitalizam o ser.
Ana Catarina Grilo (1974-  ) (Fig. 1 e Fig. 5) é uma barrista que frequentou o Curso de Formação sobre Técnicas de Produção de Bonecos de Estremoz, que no ano transacto teve lugar em Estremoz, no Palácio dos Marqueses de Praia e Monforte.
“Senhora de pezinhos” (Fig. 2), São João Baptista menino (Fig. 3) e “Primavera de arco” (Fig. 4) são três figuras tradicionais da barrística popular estremocense, que a nova barrista recriou e a meu ver muito bem. Vou falar de cada uma delas em particular.

Fig. 2 - Senhora de pezinhos (2020). Ana Catarina Grilo.

Senhora de pézinhos
Se eu fosse repórter da moda diria:
Vestido comprido sem mangas, de aspecto sóbrio, em padrão xadrês, branco e negro. Decote generoso, ornamentado por folhos negros, tal como o cinto que apresenta atrás uma atadura em forma de laço.
A ausência de mangas e a generosidade do decote reforçam a sensualidade patente no rosto da figura. Os folhos encobrem os ombros, criando um clima de mistério associado à feminilidade que a figura transmite. O cinto sublinha a cintura fina e reforça a elegância que ressalta do modelo.
As mãos dispostas frontalmente nas pernas e abaixo da anca, conferem um aspecto descontraído e emancipado à figura. O leque em posição de descanso, diz-nos que não está calor, mas que já esteve ou pode vir a estar.
O lindo cabelo castanho, só está parcialmente coberto por um discreto chapéu negro, condizente com os folhos e o cinto do vestido. O chapéu, de aba pequena, apresenta uma chanfradura posterior que deixa o cabelo a descoberto. Está ornamentado com um laçarote azul petróleo do lado direito, o qual transmite à figura, tranquilidade, serenidade e harmonia.
Do lado esquerdo ostenta um feixe de quatro plumas matizadas de verde e amarelo. No seu conjunto, os ornamentos conferem vivacidade ao chapéu e este reforça a elegância de toda a figura.
O rosto, suave e delicado, tem forma oval, apresentando simetria entre a parte superior e inferior da face. Daí que todo o tipo de brincos lhe assente bem. Todavia, os brincos usados, de duplo pendente, aumentam a volumetria do maxilar. O serem de ouro, reforça a perfeição e a nobreza associadas à figura.
Os sapatos negros, de bico, rematam inferiormente toda a elegância do modelo.
PARABÉNS À ESTILISTA!

Fig. 3 - São João Baptista em menino (2020). Ana Catarina Grilo.
São João Baptista menino
Inspira muita ternura e revela as fortes marcas identitárias da barrista. Apesar de muito belo, é uma imagem sóbria, o que estará a meu ver em consonância com aquilo que creio ser a maneira de estar, ser e comunicar da barrista. O facto de se tratar de uma representação que prescindiu do uso da peanha, reforça ainda mais a sobriedade da modelação, retirando austeridade e distanciamento ao Santo, que fica assim mais terra a terra com o observador que o mira e remira para deleite de espírito. É uma figura tão inspiradora de ternura que lhe apetece dar um beijinho.
Parabéns Ana Catarina Grilo, por sabiamente ter sabido comunicar ternura na meninice daquele que tendo sido profeta e mártir, é simultaneamente uma figura inescapável no adagiário e no cancioneiro popular, já que entrou no coração do povo, que o comemora por altura da sua festa litúrgica, em 24 de Junho.

Fig. 4 - Primavera de arco (2020). Ana Catarina Grilo.

Primavera de arco
Dos ombros do vestido amarelo brota um arco no qual se vê pintada uma dupla hélice verde-amarela, configurando os pés verdes das papoilas entrelaçadas num arame pintado de amarelo, como se fossem caules de papoilas emaranhados numa cana arqueada.
O amarelo do vestido evoca uma seara de trigo donde brotam as papoilas que anunciam a Primavera e que são emolduradas superiormente pelo azul do céu, evocado pelo chapéu dessa cor.
As papoilas contribuem para contextualizar no Alentejo, a figura universal da Primavera. Papoilas que integram o molho de espigas que se vão colher aos campos na Quinta-Feira da Ascensão. Lá diz o cancioneiro popular alentejano:

Tudo vai colher ao campo
Quinta-feira d'Ascensão,
trigo, papoila, oliveira.
p'ra que Deus dê paz e pão.(2)

O ramo tem um valor simbólico, pois ainda perdura a crença popular de que funciona como um poderoso amuleto que traz diversos benefícios ao lar de quem o colheu e manteve pendurado durante um ano numa das paredes de casa. Nesse ramo, a papoila simboliza a vida e o amor. Amor que é tema do soneto “Mocidade” do livro “Charneca em Flor” de Florbela Espanca, onde esta confessa num terceto:

No meu sangue rubis correm dispersos:
- Chamas subindo ao alto nos meus versos,
Papoilas nos meus lábios a florir! (1)

A figura emblemática da Primavera é potenciada pela Ana Catarina Grilo, através das cores sabiamente escolhidas e que reforçam o simbolismo da alegoria.
PARABÉNS, ANA CATARINA GRILO!
Epílogo
O trabalho de Ana Catarina Grilo já não me surpreende (Ah! Ah! Ah! – grandessíssima mentira). Como barrista creio que veio para ficar, para deleite de espírito de todos nós.


BIBLIOGRAFIA
(1) - ESPANCA, Florbela. Charneca em flor. Livraria Gonçalves. Coimbra, 1931.
(2) - SANTOS, Vítor. Cancioneiro Alentejano - Poesia Popular. Livraria Portugal. Lisboa, 1959.


 
Fig. 5 - Ana Catarina Grilo (1974-   ), a modelar no seu atelier.

terça-feira, 16 de junho de 2020

Ganchos de meia e sua recuperação


Ganchos de meia. Liberdade da Conceição (1913-1990). 

LER AINDA

Qualquer artefacto de Arte Popular suscita uma problemática própria, que lhe é intrínseca. É o que se passa com os Bonecos de Estremoz e muito em particular com essas figurinhas de cerca de 5 cm de altura, conhecidas por “ganchos de meia”, aos quais já me referi, bem como ao respectivo modo de utilização.
Trata-se de objectos funcionais, cuja utilização visa “orientar” e facilitar a utilização de fio no decurso da execução de determinados lavores com aquele material.
Os que apresento na figura, foram modelados pela barrista Liberdade da Conceição (1913-1990). Da esquerda para a direita e de cima para baixo, são sucessivamente: Nossa Senhora, Freira de Malta, Senhora de pezinhos, Peralta e Sargento.
Como exemplares de Arte Popular é possível reconhecer neles um denominador comum: a simplicidade da sua execução. Há dois tipos de figuras: masculinas e femininas. As masculinas, distinguem-se pela pintura, mas em termo de modelação, apenas por aquilo que usam na cabeça. As femininas, em termos de ponto de partida, são modeladas como “Senhora de pezinhos”. Além da pintura, a “Freira de Malta” e a “Senhora de pezinhos”, só se distinguem por aquilo com que protegem a cabeça. Já “Nossa Senhora” distingue-se da “Freira de Malta” pela pintura e porque tem as mãos postas em atitude de oração. Em qualquer das figurinhas, botões, golas e punhos de roupa são pintados e não modelados.
A execução de ganchos de meia é um desafio com que se deparam os barristas que pretendam recuperar artefactos caídos em desuso. Creio que na modelação de qualquer destas figuras ou de outras que venham a criar, deverão resistir a várias tentações: - Não executar ganchos de meia, de maiores dimensões, pois a partir de certo tamanho, se a modelação é facilitada, as dimensões do artefacto carecem de sentido; - Não fazer exemplares com saliências pronunciadas, que retirarão a funcionalidade que deve ser atributo dos ganchos de meia, pelo que passarão a ser meros objectos decorativos.
A Arte Popular tem os seus cânones próprios. No caso dos ganchos de meia, destacam-se dois: simplicidade e funcionalidade. Modelar exemplares muito vistosos, muito rebuscados, com muitos pormenores e desprovidos de funcionalidade, será outra coisa, mas Arte Popular não é concerteza.