quinta-feira, 16 de maio de 2019

Sai uma passadeira vermelha para o comendador!


José Berardo no decurso da audição na Comissão Parlamentar de Inquérito à Caixa
Geral de Depósitos no passado dia 10 de Maio. Fotografia da ARTV.

Estremoz vai ter não um, mas dois museus Berardo. Cumprindo-se a máxima de que não há duas sem três, há-de somar-se aos dois anunciados mais um museu Berardo, quiçá do anedotário nacional. Berardo é, como se sabe, um amigo do povo português e, logo, há-de incluir-se no seu ramalhete de afetos o povo cá do burgo, que espera que o dito personagem trágico--cómico nos remeta para um novo mundo, de primeiríssima categoria. Berardo é, pois, um amigo de Estremoz e como tal homenageado e, como tal, são-lhe lambidas as botas até brilharem luzidias de um lustro nunca visto. É assim que, orgulhosos, os estremocenses mais ilustres fazem gala em serem vistos ao lado do grande senhor, grande empresário, grande colecionador, grande amante da arte e, claro está, grande amigo do povo português em geral e dos estremocenses em particular, grande comendador em dose dupla.
Berardo não tem nada. Mas diz “minha” quando fala da coleção que, afinal, não é dele. Berardo faz Ah! Ah! na Assembleia da República e o advogado puxa-lhe o braço: o menino comporte-se! Que figurinha tão triste. Há uns anos alguém me diria “o homem não tem propósito nenhum!”, querendo dizer que não tem maneiras, que é, de facto e irremediavelmente, um homem sem maneiras, um boçal. Mas tem uma coleção de arte, que afinal não tem, mas que porque ele quer, preencherá as salas do Palácio Tocha, ou talvez não.
Berardo tem uma garagem. Pasme-se! Como é que ele não conseguiu não ter uma garagem? Como se deu tão inusitado descuido? Berardo não tem dívidas, ou, se as tem, não estão em seu nome, não senhora. Três bancos, entre os quais o nacional, uniram-se para cobrar a dívida que não é de Berardo porque não está no seu nome. O Palácio Tocha não é de Berardo, não está no seu nome. Só a desavisada garagem vai direitinha, para alegria dos três bancos cobradores, servir a grandiosa penhora que retirará à dívida que não é de Berardo um átomo talvez.
Berardo é assim um enorme e fenomenal logro. Um homem de esquemas. Um ilusionista. Em suma, o protagonista de uma grande vigarice que saiu cara aos portugueses.
Por cá, estendam mais umas passadeiras vermelhas para o comendador passar, tudo protocolado como manda o figurino. Ah! E não esquecer as inaugurações, as palmadinhas nas costas e as fotografias, que estas, para o bem e para o mal, sempre documentarão quem está com quem, onde e a fazer o quê.

Ivone Carapeto
(Jornal E nº 223 – 16-05-2019)

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