segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

“Bonecos de Estremoz”, de Hernâni Matos: uma cosmogénese


Francisca de Matos

Texto lido por Francisca de Matos na sessão
“Bons filhos à casa tornam” que a 5 de Janeiro de 2019,
 teve lugar na Escola Secundária da Rainha Santa Isabel em Estremoz,
para apresentação pública do  livro “Bonecos de Estremoz”, de Hernâni Matos.
Fotografia de Luís Mariano Guimarães.

Chamo-lhe assim, cosmogénese, porque neste livro se relata, com base em documentos e em depoimentos, toda a história da criação dos Bonecos de Estremoz e também a genealogia dos artesãos que foram os seus criadores e continuadores. Cada um deles, em determinado momento da sua vida e pelas mais diversas razões, pegou no barro vermelho de Estremoz e afeiçoou-o com as suas próprias mãos, dando-lhe forma humana, recriando e perpetuando no tempo os usos e costumes de uma sociedade da qual, hoje, já poucos se recordam. Neste ato criativo, que inclui naturalmente a alegria muito especial que o artesão/criador sente perante a obra criada, vejo quase uma parábola do Génesis bíblico. Isto, sem esquecer que a galeria dos Bonecos de Estremoz é, no seu todo, uma espécie de presépio agigantado que, à semelhança dos presépios barrocos que foram a sua inspiração, provoca, tal como eles, o arrebatamento dos sentidos, devido à graça, ingenuidade e colorido das suas figuras e à diversidade das cenas representadas e recriadas, ou seja, os Bonecos de Estremoz são um verdadeiro microcosmo à escala, representativo da região de Estremoz e do próprio Alentejo.

Neste sentido estamos também, aqui, hoje, para dar a conhecer ao público uma bíblia, não no sentido religioso do termo (Deus nos livre de tal...) mas no sentido de “Obra que contém os fundamentos de uma área, de uma disciplina ou de um assunto”[1] e que, tenho a certeza, virá a ser também “muito lida ou muito consultada” por todos aqueles que querem saber um pouco mais sobre estes graciosos Bonecos que, sendo de Estremoz, são também já Património da Humanidade.

Este livro - “Bonecos de Estremoz” - pode também descrever-se, de forma metafórica, como um autêntico puzzle, cujas peças se foram encaixando num jogo de paciência que não conhece limites, ou não estivéssemos nós a falar do Hernâni Matos. A exaustiva pesquisa bibliográfica e documental, organizada de forma diacrónica, surge acompanhada e ilustrada por aquilo que o próprio autor designa como as “jóias da coroa”, as suas, bem entendido, porque é sobretudo a sua própria coleção pessoal, consolidada com tanto amor e devoção ao longo dos anos, que dá um brilho muito especial a esta obra, materializando página a página toda a plasticidade e colorido que tornam os Bonecos tão fascinantes.

Esta viagem no tempo começa,pois, nas mais antigas referências conhecidas aos barros de Estremoz, em meados do séc. XIII, e prolonga-se até à década de 30 do séc. XX, quando, no seu nº 210 de 3/2/1935, o próprio Brados do Alentejo reconhece que os Bonecos que tanta fama tinham alcançado estavam extintos. O próprio José Maria de Sá Lemos, escultor que, 3 anos antes, havia tomado posse como professor e diretor da então Escola António Augusto Gonçalves, escrevia também no Brados do Alentejo, em novembro desse mesmo ano, que “as derradeiras feitureiras (...) haviam levado consigo o segredo para o túmulo (...) sem terem deixado escola” (p. 32). Mas esta sentença de morte não haveria de ser definitiva porque, dessas antigas bonequeiras, ainda restava uma, a Ti Ana das Peles, embora ela já mal se lembrasse dos bonecos que fizera muitos anos antes. E foi ela que, com a persistência férrea de Sá Lemos, acompanhado pela mestria e entusiamo do mestre de Olaria da escola, Mariano da Conceição, ajudou a reerguer os Bonecos de Estremoz das cinzas a que pareciam estar condenados.

De tal forma que, em 1940 e por mérito próprio,os Bonecos de Estremoz já marcaram forte presença no “Pavilhão da Vida Popular” durante a Exposição do Mundo Português, o que lhes conferiu visibilidade e permitiu, definitivamente, virar a página da mais que provável extinção.

O Hernâni Matos conta-nos depois a biografia dos “Continuadores”, e são muitos, felizmente. Alguns, ainda hoje moldam e trabalham o barro vermelho, produzindo não apenas os “Bonecos da Tradição” – cuja descrição e caracterização pormenorizada constitui uma das partes mais importantes do livro – mas também os da “Inovação” porque a arte, quando é verdadeira, não é estática e muito menos rígida. Evolui, tal como os próprios artesãos.

Estão aqui também documentadas de forma exaustiva as marcas pessoais e as formas muito próprias como cada artesão fez e faz os Bonecos, bem como a técnica de base da sua feitura, os utensílios e as matérias-primas utilizadas.

E depois vem aquela que me parece ser a parte mais importante da obra: a que regista a biografia de cada um dos artesãos que, ao longo de gerações, tem dado identidade e uma alma muito própria a estes Bonecos, assim contribuindo para a sua preservação. Incluindo aqui as circunstâncias muito particulares que levaram cada um deles a fazer os Bonecos e o modo como aprenderam a fazê-los: por necessidade de subsistência, por circunstâncias familiares, por gosto pessoal, ou outros. E sublinho ainda um aspeto que me parece ser muito pertinente: a forma como a complexa teia de relações familiares, profissionais ou de afinidade entre os diversos artesãos permitiu perpetuar esta arte ao longo do tempo. No fundo, a tal “escola”de que falava Sá Lemos em 1935: aquela que implica haver quem ensine, quem aprenda, quem pratique a arte, mas também quem a valorize e a preserve. A “escola” que todos esperamos não volte a fechar portas para que os Bonecos de Estremoz continuem a povoar as nossas memórias e, sobretudo, a interpelar a nossa imaginação com a sua profusão colorida. Julgo ser esse o grande objetivo do Hernâni Matos ao escrever este livro.

Julgo sobretudo que, com este livro, o Hernâni Matos oferece aos seus conterrâneos a partilha generosa de um conhecimento aprofundado e consolidado por anos de pesquisa e descoberta, sedo este, sem qualquer dúvida, o seu maior e mais importante legado.

Francisca de Matos
Estremoz, 5/1/2019

[1] in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013, [consultado em 02-01-2019].

Sem comentários:

Enviar um comentário