sexta-feira, 6 de abril de 2018

Bonecos de Estremoz


Otelo Lapa (Director de Cena da Fundação Calouste Gulbenkian)

Quando o professor Hernâni Matos me convidou a escrever umas palavras sobre os bonecos de Estremoz, confesso que pensei que nada tinha a acrescentar ao tema e que tudo já tinha sido escrito. Nessa noite, quando já estava em casa, olhei a minha pequena colecção e esperei que me dissessem alguma coisa, que falassem comigo… e assim foi.
Os bonecos de Estremoz fazem parte das minhas memórias de infância. Na nossa rua havia, até há bem pouco tempo, um lugar maravilhoso onde a família Conceição criou e produziu milhares destes bonecos. Sendo eu colega do Jorge da Conceição Palmela, muito cedo acompanhei de perto este mundo maravilhoso, vi a sua Mãe, a sua Avó, a sua tia Sabina e ele próprio, sentados à volta de uma mesa, com as mãos envoltas no barro e numa panóplia de tacinhas, com diversas tintas que davam cor à indumentária tão garrida e característica destes bonecos. Eu pasmava a ver todo aquele processo, até que um dia, eu próprio, me atrevi a experimentar, ainda existe em casa de meus pais um boneco feito por mim.
Estes bonecos simples e populares, tem uma narrativa dramática muito rica, encarnam e representam profissões, algumas já desaparecidas, a fé popular e o mundo fantástico. São de grande riqueza etnográfica, na medida em que imortalizam os hábitos populares, a forma como se vestiam e até as tarefas do lar. Os meus preferidos são “A Primavera”, “O Amor é Cego” a “Rainha Santa” o  “Presépio em Trono” que é inigualável   (diz-se, que os reis de Espanha têm um exemplar) e a  “Nossa Senhora do Ó”. 
O Figurado de Estremoz ou Bonecos de Estremoz, são um presépio pagão de usos e costumes, salvando assim um “Tempo” perdido no tempo.
Estes patuscos e delicados bonecos, que encarnam a vida dos alentejanos, pelo menos desde o séc. XVII, são um tesouro nacional e merecem ter um Museu em exclusivo, que fosse sendo sempre enriquecido com aquisições aos novos artesãos artistas que perpetuam esta remota tradição de Estremoz.

(Texto publicado no jornal E nº 197, de 05-04-2018)