quarta-feira, 6 de maio de 2015

25 - Os bonecos de Estremoz na literatura oral

Amazona (Apito).
Ti Ana das Peles [Ana Rita da Silva (1870-1945)].
Colecção particular.

O núcleo tradicional do figurado de Estremoz incorpora entre outros apitos, três figuras a cavalo: Peralta a cavalo, Sargento a cavalo e Amazona. Estas imagens têm base rectangular e o apito está localizado na cauda do cavalo. Um rolo de barro foi aí colado com barbutina e depois furado com um arame grosso da base exterior do rolo para o interior, até cerca de metade do comprimento. Na parte superior do rolo foi depois efectuado outro furo, até encontrar o primeiro. Esta particularidade da manufactura dos apitos induziu a que no domínio dos ditos e ápodos colectivos, aplicados aos estremocenses, se dissesse “Têm o apito no cú” (DAVID DE MORAIS 2006). Daí que quando alguém disparava um traque, acompanhando ou não de pestilenta semeadura de fedores fecais, se dissesse: “És como os de Estremoz: tens o apito no cú” (DAVID DE MORAIS 2006). Outro dito e ápodo colectivo aplicado aos estremocenses era o de “Bonecos” (SOEIRO DE BRITO 1938) numa clara alusão à produção do figurado de Estremoz. De acordo com este autor, quando faltava qualquer coisa, costumava dizer-se. “Então o que quer que lhe faça? Quer que o mande vir de Estremoz?”
A nível de cancioneiro popular é conhecida a moda alentejana “Se eu quisesse amar bonecos”, recolhida em Reguengos de Monsaraz (POMBINHO JÚNIOR 1936):

Se eu quisesse amar bonecos,
Mandav’òs vir de ‘Stremôris,
Vergonha da minha cara
Se eu contigo tinha amôris.

Se eu contigo tinha amôris,
Se eu era o namorado,
Mandav’òs vir de ‘Stremôris,
Mandav’òs vir do Chiado!

Os exemplos apontados mostram bem como os bonecos de Estremoz estão perpetuados na literatura oral, um filão com potencial que urge explorar, para bem da cultura popular.

 BIBLIOGRAFIA
– DAVID DE MORAIS, J.A. Ditos e Ápodos Colectivos. Edições Colibri. Lisboa, 2006.
- POMBINHO JÚNIOR, J.A. Cantigas Populares Alentejanas e seu subsídio para o léxico  português. Edições Maranus. Porto, 1936.
- SOEIRO DE BRITO, J.M. Ditados Tópicos Alentejanos. Tipografia Progresso. Elvas, 1938.