quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Morreu António Canoa, artesão da ruralidade


Morreu no passado dia 7 de Fevereiro, na freguesia de São Lourenço de Mamporcão, António Canoa, antigo abegão, artesão da ruralidade, poeta popular, ex-autarca e figura muito querida da população local.


Tinha o destino marcado
António Henrique Canoa era natural de Veiros, onde nasceu a 4 de Julho de 1926, filho de Henrique António Canoa e de Maria da Ascensão Zagalo. Seu pai era moiral de parelhas na Quinta do Leão e sua mãe era doméstica. Era o filho mais velho de cinco filhos do casal e casado com Maria Catarina Surra Canoa, doméstica, de quem teve uma filha, Maria Ana Silveira Canoa Monteiro.
Quando acabou a instrução primária aos 13 anos, começou a trabalhar como aprendiz de abegão, tendo como Mestre seu tio e padrinho, Miguel Lopes, que trabalhava no Monte da Sofia, em Veiros, pertencente à Casa Agrícola José de Matos Cortes.
Desde miúdo que o António se entretinha na oficina do tio, mostrando interesse e apetência pelo trabalho deste, a quem procurava imitar, brincando. O tio desde sempre disse:
- Hás-de ser carpinteiro como eu!
E assim foi. Cumpriu-se a profecia. Como diz o fado, o António “Tinha o destino marcado".
Seu tio, foi igualmente seu Mestre dos 13 aos 17 anos, período durante o qual decorreu uma aprendizagem gratuita, já que os aprendizes tinham que pagar aos Mestres para poderem aprender o ofício. O tirocínio decorreu durante dois anos no Monte da Sofia e outros dois num casão em Veiros. Foram quatro anos durante os quais aprendeu, trabalhando sem receber e a seco, tal como o Mestre, seu tio. Era um trabalho de sol a sol, incluindo os sábados, só descansando aos domingos, o que por vezes, só era concretizado na parte da tarde.
Quando terminou o aprendizado, começou a trabalhar como abegão, conjuntamente com quatro companheiros, para Dona Judite Cortes Maldonado, no Monte Novo, Freguesia de Santo Amaro, em Sousel. O trabalho era também de sol a sol. Recebia um ordenado de 6$00 por dia, a comida era à conta da patroa, que também disponibilizava um casão para servir de dormitório.
Aos 18 anos foi para a tropa, tendo permanecido ano e meio em Caçadores 8, em Elvas. Quando saiu da vida militar, esteve quase um ano desempregado, até que foi para a Herdade do Montinho, em São Bento de Ana Loura, trabalhar como abegão para o lavrador José de Matos Cortes. Ao todo eram cinco companheiros.
Trabalhou lá seis anos, sempre de sol a sol e aos sábados. O salário era 13$50 por dia, mais a comida. Quando de lá saiu, esteve quase um ano sem trabalhar, tirando um mês em que laborou como carpinteiro de cofragens, nas obras do Colégio de São Joaquim, em Estremoz. Seguidamente foi trabalhar como abegão para a Quinta do Leão, de D. Duarte Borges Coutinho. Aí tinha mais cinco companheiros a trabalhar consigo. Ganhava então 120$00 por mês, mais as comedorias mensais: cerca de 40 Kg de farinha para fazer pão, 15 queijos, azeite, linguiça, farinheira e toucinho que lá iam dando para as necessidades. Por ano, tinha ainda direito a duas carradas de lenha e podia semear para si, oito alqueires de aveia, dois de grão e um de favas.
Esteve na Quinta do Leão até 1962, ano em que foi para Évora, trabalhar para a construção civil, sector onde trabalhou também em Estremoz e Portalegre, por conta de vários construtores civis, sempre na procura de melhores condições de vida, até se reformar em 1991, com 65 anos de idade e 36 anos de trabalho de sol a sol, pois a vida era madrasta.
Actividade cívica
Pela sua postura, pela sua capacidade de empreendimento e de liderança cívica, António Canoa, foi sempre uma figura muito respeitada, não só em Veiros, como igualmente em S. Lourenço, para onde foi morar e onde vivia. De tal modo, que Jorge Maldonado, Presidente da Câmara Municipal de Estremoz (1971-1974), o forçou contra sua vontade, a integrar a Junta de Freguesia, antes do 25 de Abril.
Lutador antifascista, participou em 1958 na campanha do General Humberto Delgado para a Presidência da República e nessa condição foi incomodado pela GNR. Quando Abril nos abriu as portas, o Partido Comunista foi o partido que escolheu com a sua vivência e o seu coração.
Por granjear o respeito e a estima da maioria dos seus conterrâneos, foi eleito pela CDU por duas vezes, sendo Presidente da Junta nos mandatos de 1977-1982 e de 1990-1993 e, ainda em vida, por decisão democrática dos seus conterrâneos, passou a ter na freguesia uma rua com o seu nome.
Balanço de uma vida
Fazendo um balanço da vida de António Canoa, é caso para dizer que aos 17 anos era já um abegão de corpo inteiro e nessa condição começou a trabalhar de sol a sol, para as grandes casas agrícolas do concelho de Estremoz. Da destreza das suas mãos nasceram carros, carroças e trens para o transporte de bens e pessoas, assim como alfaias agrícolas como arados e araveças, bem como trilhos, grades, pás, forquilhas, escadas, malhos, cangalhas, etc., etc. As matérias-primas eram o azinho, o freixo, o eucalipto e o choupo, que as suas mãos afeiçoavam com o auxílio de serras, machados, enxós, formões, martelos, arpoas e trados. E como abegão era um artista no sentido mais completo do termo. As suas obras eram decoradas com tintas confeccionadas com cores minerais já utilizadas pelos artistas rupestres de Lascaux e Altamira no Paleolítico, mas aqui diluídas em óleo e secante. O almagre, o zarcão, o azul do Ultramar e a terra de Sena, marcas identitárias das claridades do Sul, estavam sempre presentes no remate de obras nascidas das suas mãos mágicas de carpinteiro das grandes herdades.
Depois de se reformar, a ruralidade que continuava a transportar na alma e os bichos carpinteiros que lhe iam na massa do sangue, levaram-no a confeccionar numa escala reduzida, miniaturas de tudo aquilo que lhe saiu das mãos em tamanho natural e que cumpria as missões para que foi criado, nas fainas agro-pastoris da primeira metade do século XX e mesmo mais além.
Foram essas miniaturas que António Canoa, ex-abegão e artesão da ruralidade, residente em São Lourenço de Mamporcão, em 2012 mostrou ao público na Sala de Exposições da Associação Filatélica Alentejana, no Centro Cultural Dr. Marques Crespo, em Estremoz. Foi uma Mostra importante, não só pelo deleite da nossa vista, como pela importância de que se revestiu o facto de ela refrescar a memória do Alentejo do passado, das vivências e sentires da gente do campo.
António Canoa presente
António Canoa partiu. Todavia, perdurará nas nossas memórias e nos nossos corações, a lembrança do grande homem que foi e inevitavelmente uma grande saudade. Fica a sua obra de excepcional artesão da ruralidade. Trata-se de uma obra digna de figurar num museu antropológico que perpetue a sua memória e a memória dos campos. O mesmo há a dizer da sua oficina de abegão, a qual deverá ser preservada e divulgada. Assim haja coragem e clarividência para o fazer.

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