quarta-feira, 26 de novembro de 2014

13 – Rebaptizemos, pois!


 Barbeiro sangrador.
Mariano da Conceição (1903-1959).
Colecção Particular.


No figurado de Estremoz há uma peça que no decurso do tempo recebeu nomes distintos, atribuídos por diferentes individualidades. Trata-se de uma figura composta por dois personagens trajando à moda do séc. XVIII e que representa um paciente a ser submetido a uma sangria. A investigadora francesa Solange Parvaux (1959) chamou-lhe “cirurgião", enquanto que o médico calipolense João do Couto Jardim (1962), a designou por “operação cirúrgica”. Por sua vez, Joaquim Vermelho, estudioso da barrística popular estremocense, começou por lhe chamar “cirurgião” (1990), referindo tratar-se de uma “paródia ao barbeiro numa operação de sangria” e posteriormente evoluiu para a designação “barbeiro cirurgião” (1995), que me parece mais aceitável, embora eu prefira a designação de “barbeiro sangrador”, como passo a justificar.
No século XVIII, os médicos portugueses guiados pelos desígnios da medicina antiga, prescreviam sangrias e a aplicação de sanguessugas, visando escoar os humores perniciosos que circulavam em áreas afectadas do corpo humano. Tais tarefas eram executadas por barbeiros, cumulativamente com o corte de cabelo, a feitura de barbas e a extracção de dentes, dada a sua grande habilidade manual.
Em Lisboa, a partir de 1572, por regulamento outorgado pelo Senado Municipal, o desempenho das funções de “barbeiro sangrador” oficial, actuando por conta própria, exigia experiência comprovada de dois anos de actividade, o que permitia vir a receber a carta de examinação do cirurgião-mor. Alguns barbeiros podiam até realizar cirurgias, eram os “barbeiros cirurgiões”. A aprendizagem do ofício processava-se por conhecimento oral e empírico, adquirido nas tendas de mestres barbeiros. O ofício estava subordinado às regras da Confraria de São Jorge e aos regulamentos da Câmara Municipal de Lisboa.
Segundo Manoel Leitam (1667), cirurgião do Hospital Real de Todos os Santos, em Lisboa, a médicos e cirurgiões competia a prescrição das sangrias e a barbeiros sangradores e barbeiros cirurgiões, a sua execução. Deste modo, a execução da sangria representada na peça, apenas legitima a meu ver, a atribuição da designação de “barbeiro sangrador”, uma vez que não está a ser executada qualquer cirurgia.
É caso para dizer:
- Rebaptizemos, pois!