terça-feira, 14 de outubro de 2014

10 – Põe o chapéu. Tira a carapuça.

 
Matança do porco.
José Moreira (1926-1991).
Colecção particular.

No Alentejo, o vestuário do trabalhador do campo, incluía nos finais do séc. XIX, em vez do chapéu e principalmente de Inverno, o barrete, também chamado gorro (Tolosa, Barrancos) ou carapuço(a) (Estremoz, Alandroal, Montemor-o-Novo).
O cancioneiro popular alentejano refere o uso do gorro preto: “Ó rapaz da cinta verde, / Ó rapaz do gorro preto, / Vou cantar uma cantiga, /E vai ser a teu respeito.”. Refere igualmente o uso do gorro verde: “Ó rapaz do gorro verde, / Quem te mandou cá entrar? / Se não cantas ‘ma cantiga, / Já te podes retirar.”. 
Consta também que no início do século XIX, havia o costume de as raparigas do campo, oferecerem aos namorados, um gorro de linha azul, por si confeccionado com cinco agulhas, no decurso dos longos serões de Inverno. Provavelmente haveria rapazes que usavam gorro azul, sem este lhe ter sido oferecido pela namorada. Daí que alguma rapariga interessada no “enganador”, lhe pudesse dizer por gracejo: “Ó rapaz do gorro azul, / Está-te bem, porque és trigueiro, / Diz-me quanto te custou, / Quero-te dar o dinheiro.”. O uso do gorro preto ou vermelho, está ainda referenciado como tradição popular alentejana, documentada também por bilhetes-postais ilustrados referentes a múltiplas actividades agro-pastoris.
Daí não ser de estranhar que no figurado de Estremoz existam imagens que ilustram o uso do barrete no Alentejo. Caso de figuras como: “Pastor a fazer as migas sentado”, “Pastor a fazer as migas deitado” e “Matança do porco”. Todos os barristas do século XX e XXI cobriram a cabeça desses bonecos com o tradicional barrete. Apenas um, José Moreira (1926-1991), irreverente e inovador, substituiu nessas imagens, a partir de certa altura, o barrete pelo tradicional chapéu aguadeiro, conforme ilustra a sua “Matança do porco". Trata-se de uma maneira própria de observar o mundo e de o interpretar, deixando traços de identidade pessoal nas peças que manufactura e que são marcas indeléveis que permitem identificar o seu autor. Ao substituir a carapuça pelo chapéu, José Moreira fez afinal o contrário do que reza a tradicional lengalenga popular: “Doutor / Da mula ruça / Tira o chapéu. /Põe a carapuça.”