domingo, 19 de maio de 2013

Rogério Ribeiro homenageado em Estremoz

Rogério Ribeiro (1930-2008) na Fábrica Viúva Lamego. Fotografia de Rosa Reis.

REGISTO TOPONÍMICO
Ontem dia 18 de Maio, o Município de Estremoz homenageou a título póstumo e pela segunda vez um dos seus filhos mais ilustres. Trata-se do pintor Rogério Ribeiro (1930-2008) que a partir de ontem ficará perpetuado na toponímia local.
A cerimónia presidida pelo Presidente da Câmara Municipal, Luís Mourinha, desenrolou-se a partir das 18 horas e contou com a presença de autarcas, munícipes, amigos, admiradores, camaradas e familiares do homenageado. Foram estes que descerraram a placa toponímica envolta com a bandeira verde do Mnicípio.
A Rua “Mestre Rogério Ribeiro” situa-se paralelamente à antiga estação da CP de Estremoz, fazendo a ligação da Avenida 9 de Abril à Avenida Rainha Santa Isabel e à Zona Industrial.
Anteriormente, em 2006, o Município de Estremoz, então presidido por José Aberto Fateixa, já outorgara ao artista plástico e a título póstumo, a Medalha de Mérito Municipal - Grau Ouro.

EXPOSIÇÃO DE PINTURA E DESENHO
Ainda ontem, dia 18 de Maio, pelas 18 horas 30 minutos, teve lugar na Galeria Municipal D. Dinis, em Estremoz, a inauguração da exposição “Evocação e Memória. Pintura e Desenho de Rogério Ribeiro”, que no Dia Internacional dos Museus assinalou o 30º aniversário da constituição do acervo de desenho, designado “Galeria de Desenho”, organizado e realizado em Estremoz por Rogério Ribeiro, Armando Alves, José Aurélio, Joaquim Vermelho, Pedro Borges e Barros de Carvalho.
O certame, organizado pelo Museu Municipal de Estremoz, estará patente ao público até 14 de Julho. Foi comissariado pela família do homenageado e teve catálogo com design de Carlos Alves.
Na oportunidade registaram-se intervenções de Hugo Guerreiro (Director do Museu, Ana Isabel Ribeiro (filha e biógrafa do homenageado), José Trindade (Vereador do Pelouro da Cultura) e Luís Mourinha (Presidente do Município).

A INFÂNCIA ALENTEJANA
Diz-nos a sua filha e biógrafa Ana Isabel Ribeiro (2):
"Rogério Ribeiro nasce em Estremoz, em 1930, na antiga Rua das Freiras. Filho de Rosil da Silva Ribeiro e de Celeste dos Anjos Chouriço Ribeiro.
O seu pai, funcionário público, foi o 16° filho de Narciso Ribeiro que, com 12 anos, chega a Estremoz vindo de Cardigos (distrito de Castelo Branco) e que, começando a trabalhar como marçano, chegou a Presidente da Câmara. Promoveu, na vila, a construção do lavadouro público, de esgotos, abriu uma avenida para a estação de camínhos-de-ferro e, de acordo com a memória de alguns, durante as vagas de fome no Alentejo, inventou trabalho para os camponeses que, diariamente, enchiam as brancas escadarias de mármore do município. A sua avó paterna, Amália Ribeiro, era oriunda de uma família de Borba. Dotada de um imenso pragmatismo, encarando com enorme lucidez os sobressaltos e alguns enganos da vida, orientou 13 dos 16 filhos que teve, já que três faleceram ainda menores.
A sua mãe casou aos 18 anos, vinha de uma família de nove irmãos, onde todos trabalhavam. O pai, João de Deus Chouriço, vendia lotaria, sendo também contínuo e guarda da Sociedade Recreativa "Os Artistas", onde se reuniam os agrários e a burguesia da vila. Magra e altiva, senhora da sua condição, a sua avó materna, Teresa de Jesus Chouriço, ocupava-se dos filhos, fazia a limpeza da Sociedade e preparava as ceias para os Jogadores que aí permaneciam noite fora.
Rogério Ribeiro, vive a sua primeira infância por terras do Alentejo "sem memórias maiores do que amplas cozinhas, quartos caiados, ruas de terra batida ladeadas por casas rentes ao chão, brincadeiras de rua (sem recordar o rosto ou o nome dos companheiros), fins de tarde tenros mastigando conversas de adultos".
Cerca de uma década depois já se encontra em Lisboa, cidade onde passa a residir.

PERCURSO DE VIDA
Fez a sua formação académica em pintura, na ESBAL - Escola Superior de Belas-Artes de Lisboa.
Desenvolveu intensa actividade como gravador na Sociedade Cooperativa de Gravadores Portugueses, da qual foi sócio-fundador em 1956.
Em 1961 iniciou a sua actividade como professor de Pintura e Tecnologia na Escola de Artes Decorativas António Arroio (Lisboa). São de 1964 os primeiros trabalhos no âmbito do Design de Equipamento e Gráfico e a colaboração com vários arquitectos nos estudos de cor e integração de materiais e trabalhos artísticos.
A partir de 1970 foi professor da ESBAL, onde em 1974, coordenou o grupo de trabalho de reestruturação do currículo escolar na área do Design.
Expôs colectivamente desde 1950 e individualmente desde 1954. Está representado em diversas colecções particulares, instituições privadas e museus, tanto em Portugal como no estrangeiro.
Trabalhou em cerâmica e em tapeçaria por encomenda de particulares, empresas e organismos oficiais.
Autor de cartões de tapeçaria, começou a colaborar com a Manufactura de Tapeçarias de Portalegre em 1961.
Desenvolveu intenso labor no âmbito da azulejaria, sendo de destacar as obras:
A estação de metro da Avenida - Lisboa (1959); O átrio Norte da estação de metro dos Anjos - Lisboa (1982); O painel “Azulejos para Santiago” para a Estação Santa Lucía do Metro de Santiago do Chile (1996); O painel “Mestre Andarilho” para o Fórum Romeu Correia - Almada (1997); Um painel para a estação de caminhos-de-ferro de Sete Rios - Lisboa (1999); Um painel para o Arquivo Histórico Municipal de Usuqui - Japão (1999); O painel “O Lugar da Água”, no Espaço Museológico da Ra do Sembrano, em Beja; O “Monumento à Mulher Alentejana”, inaugurado em 8 de Março de 2008, no Parque da Cidade, em Beja.
No sector da ilustração de livros, destacamos os títulos: Minas de S. Francisco, de Fernando Namora (1955); Casa da Malta, de Fernando Namora (1956); A vida mágica da sementinha: uma breve história do trigo, de Alves Redol (1956); Histórias do Zaire, de Alexandre Cabral (1956); Praça da Canção, de Manuel Alegre (1998); Até Amanhã Camaradas, de Manuel Tiago (2000); A Flor da Utopia, de Urbano Tavares Rodrigues (2003);
A nível de projectos foi co-autor do projecto da Galeria de Desenho do Museu Municipal de Estremoz, com Armando Alves, Joaquim Vermelho, José Aurélio e outros (1983); São da sua autoria ainda: O projecto e montagem da Casa Museu Manuel Ribeiro de Pavia, em Pavia (1985); O projecto museológico da Fortaleza de Peniche (1987).
Dirigiu, desde 1988, a Galeria Municipal de Arte de Almada e, a partir de 1993 foi Director da Casa da Cerca — Centro de Arte Contemporânea, em Almada.
Na morte de Rogério Ribeiro, o elogio fúnebre do seu partido, o PCP, refere (1):
“Rogério Ribeiro é uma das figuras maiores da arte portuguesa. Excepcional e multifacetada personalidade criadora, ao legado da sua imensa obra plástica junta-se o do seu incansável trabalho de construtor e dinamizador cultural, o do pedagogo entusiasta, o do combatente político pelas causas da emancipação humana, o do resistente e dirigente comunista. Sendo certamente uma das mais destacadas e originais personalidades criadoras enraizadas no movimento neo-realista, a sua obra é uma riquíssima e complexa construção e reflexão sobre o devir humano, sobre o seu tempo e sobre uma humanidade em certos aspectos intemporal. Nas nossas memórias visuais ficarão para sempre gravadas as suas ilustrações para o livro «Até amanhã camaradas» de Manuel Tiago.”.
Acerca da morte de Rogério Ribeiro disse o professor universitário, crítico literário e artista plástico Rocha de Sousa (3):
“E assim o país se apaga um pouco mais, por cada morte aqui anunciada, por cada perda de personalidades cuja vida e obra constituem valores inestimáveis da nossa identidade. Rogério Ribeiro foi (e será sempre porque nem todo o país amolece de esquecimentos) um grande artista em várias disciplinas do pensamento e da acção criadora, nos últimos tempos senhor de uma obra fascinante, de pureza, de denúncia, de testemunho e espírito humanista. As frentes da actual cultura portuguesa têm dividido a presença na nossa memória de gente desta estirpe, a montante do fio incendiário dos anos oitenta. Contra isso temos lutado, porque não basta lembrar Sousa Cardozo, por exemplo, passando por Paula Rego ou Júlio Pomar, e enfatizando, por fim, tudo o que acabou de aparecer, como se o mundo não tivesse outras verdades e uma remota genética universalizante. Pois aqui se deseja afirmar que o Portugal moderno, para se reconhecer e progredir, tem de homenagear pessoas como Rogério Ribeiro, que nos ajudaram a vencer o tempo e os bloqueios da mediocridade. Aqui fica apenas uma pintura, uma peça que exprime bem o despojamento e a riqueza do homem na trajectória que tem de inventar contra a irremediável e absurda escassez de si mesmo.”
A sua participação na luta política foi salientada pelo PCP:
“Destacado participante nas lutas do MUD Juvenil e nas lutas estudantis de 1962, Rogério Ribeiro estabeleceu contactos com o PCP desde 1953, tendo a ele aderido em 1975. Preso pela PIDE em 1958 vê-lhe negada a autorização para exercer o cargo de assistente da Escola Superior de Belas Artes de Lisboa. Rogério Ribeiro que foi membro do Comité Central do PCP desde 1983 até Dezembro de 1992, deu durante três décadas uma elevada contribuição para a concepção e realização da Festa do Avante, da qual foi membro da sua comissão organizadora e para muitas outras realizações do Partido, das quais se destaca a exposição comemorativa dos 60 anos de vida do PCP.”.

BIBLIOGRAFIA
(1) - PCP, Secretariado do Comité Central do PCP. Nota de 10 de Março de 2008.
(2) - RIBEIRO, Ana Isabel. Biografia. In PORFÍRIO, José Luís. Rogério Ribeiro. Campo das Letras. Porto, 2003.
(3) - SOUSA, Rocha de. A MORTE DO PINTOR ROGÉRIO RIBEIRO in DESENHAMENTO. 11 de Março de 2008 (http://rochasousa.blogspot.pt/2008/03/na-morte-do-pintor-rogrio-ribeiro.html).

Hernâni Matos 

Sem Título (1958).
Rogério Ribeiro.
Linoleogravura . 
Ilustração (1956) de Rogério Ribeiro para o livro “Histórias do Zaire
de Alexandre Cabral editado pela Orion. 
Serigrafia de Rogério Ribeiro que serviu como ilustração
para o romance de Manuel Tiago "Até Amanhã, Camaradas". 
Só quando a terra for nossa, meu amor, teremos Pátria.
Rogério Ribeiro.
Serigrafia.
Figuras (1986).
Rogério Ribeiro.
Serigrafia. 
Abandono (1992).
Rogério Ribeiro.
Desenho sobre papel (49 x 63 cm).
Colecção particular. 
Família (1951).
Rogério Ribeiro.
Óleo sobre cartão.
Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.
Alentejo.
Rogério Ribeiro.
Cartão para Tapeçaria de Portalegre (119x200 cm).  
Briga.
Rogério Ribeiro.
Litografia. 
Pormenor do revestimento azulejar do átrio Norte
da estação de metro dos Anjos - Lisboa (1982).
Intervenção plástica de Rogério Ribeiro.
Fotografia dex Roberto Santandreu. 
Pormenor do revestimento azulejar da estação de metro da Avenida - Lisboa.
Intervenção plástica de Rogério Ribeiro.
Fotografia de J. J. Amarante. 
O Cão Voador (1990)
Rogério Ribeiro.
Óleo sobre Tela (27x36 cm).
Colecção particular. 
Um Quadro Azul (1993-1994).
Rogério Ribeiro.
Óleo sobre tela (99x99 cm).
Colecção particular.