terça-feira, 22 de maio de 2012

O professor

O PROFESSOR - Figura masculina, bem encabelada e de bigode. De pé, segurando na mão esquerda uma cantarinha de Estremoz, enquanto a direita parece acompanhar a conversação. Veste fato cinzento -escuro, com casaco de jaquetão. Usa camisa branca e gravata às listas brancas, vermelhas e azuis. Os sapatos são pretos. A figura assenta sobre base quadrangular de fundo verde - escuro. Os cantos da base estão cortados em bisel. Dimensões (cm): altura: 24; base: 6,8 x 6,8.
Boneco da autoria das irmãs Flores e de Ricardo Fonseca, seu sobrinho, confeccionado segundo a técnica tradicional dos bonecos de Estremoz.
Trata-se duma peça que foi oferecida ao autor num almoço-convívio de amigos, realizado no passado dia 6 de Maio, no restaurante Cadeia Quinhentista, em Estremoz e em que participaram entre outros: Hugo Guerreiro (director de Museu), Joaquim Rolo (artesão da madeira, chifre e cortiça), Irmãs Flores e Ricardo Fonseca (artesãos do barro), Guilhermina Maldonado (arte conventual), António Moreira (artesão do ferro), José Cartaxo (fotógrafo), Mateus Maçaneiro (poeta), Augusto Fitas e Francisca Matos (professores). O almoço tratou-se de um testemunho de amizade com o autor, como reflexo de actividades conjuntas que têm sido desenvolvidas, bem como de cumplicidades que têm partilhado.

O PROFESSOR

Desde os longínquos tempos do bibe e do pião que é recolector de objectos materiais que fazem vibrar as tensas cordas de violino da sua alma. Nessa conjuntura se tornou filatelista, cartofilista, bibliófilo, ex-librista e seareiro nos terrenos da arte popular, muito em especial a arte pastoril e a barrística popular de Estremoz.
Respigador nato, cão pisteiro, farejador de coisas velhas, o seu olhar cirúrgico procede sistemática e metodicamente ao varrimento de scanner no mercado das velharias em Estremoz, no qual é presença habitual e onde recolecta objectos que duma forma virtual, pré-existiam no seu pensamento.
O fascínio da ruralidade e o culto da tradição oral, levam-no a procurar o convívio de camponeses, artesãos e poetas populares, com os quais procura aprender e partilhar saberes.
A arte pastoril, um dos traços mais marcantes da identidade cultural alentejana, integra as suas memórias materiais de recolector. Para além do acto da colheita e mais que o fascínio da posse, importa-lhe a possibilidade de dissecação de cada peça recolhida e a cumplicidade com o autor no próprio acto de criação, constituindo um registo para memória futura e uma afirmação vigorosa da identidade cultural transtagana.
Perfilha há muito a ideia de que é necessário estabelecer pontes de entendimento entre as pessoas, já que a partilha cúmplice de ideias e valores comuns, viabiliza a edificação conjunta de arquitecturas, facto que induzirá e consolidará laços de união entre os intervenientes.
Uma das muitas coisas que partilha com os outros é a escrita, instrumento de libertação do Homem. Filho de alfaiate, aprendeu a alinhavar palavras, que permitem cerzir ideias com que se propagam doutrinas. Esse o sentido da sua intervenção cultural e cívica. É isso que gosta de fazer. O seu posto é aí. Por isso, não se quer reformar da vida.
Houve um poeta que leu na sua juventude e que falava de alguém com pena de morrer na cama, embrulhado em pus e algodão em rama. Pela sua parte, ainda que seja difícil a escolha da morte, gostaria de morrer em combate, isto é fazendo aquilo que gosta de fazer: a defesa, preservação e fomento da cultura popular. Por isso, não se pode reformar. Como combatente não se pode render, ou seja, tal como diz no seu blogue “Um homem nunca se rede, mesmo de fato e gravata”.
Escritor, jornalista e blogger intervém em domínios como a História Postal, a História Popular de Estremoz, a Etnografia e a Cultura Popular Alentejana, publicando textos, apresentando comunicações e montando exposições temáticas e iconográficas. Furiosamente independente, incisivo e cáustico quanto baste, mas sempre preciso. Procura levar tudo às últimas consequências e como franco-atirador do pensamento e da acção, busca fazer o varrimento da transversalidade dos saberes. Depois disso, a síntese dialéctica é um ovo de Colombo nascido no cu da galinha da sua cabeça.