quinta-feira, 17 de maio de 2012

Gíria popular do nada


(…) E se um dia hei-de ser pó, cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar... 
Florbela Espanca (1894 - 1930)

Na sequência da nossa pesquisa em cerca de duas dezenas de fontes bibliográficas distintas, sete delas citadas na bibliografia, reunimos a presente colectânea de “dizeres” sobre o “nada”, o que é revelador da criatividade da gíria popular:

- Antes de mais nada = Em primeiro lugar [5]
- Daqui a nada = Daqui a brevíssimo tempo [1]
- Dar em nada = Não ter grandes resultados [2]
- Dar em nada = Referência a empreendimento que fracassa [5]
- De nada = Insignificante [2]
- De nada = Não tem de quê [5]
- Deixar um bocado a nada (Minho) = Deixar uma área de terreno sem cultivo, para recreio do gado, que aí se alimenta de vegetação selvagem [7]
- Há nada = Há momentos atrás [5]
- Nada = Não [1]
- Nada = Pouca quantidade [2]
- Nada = Pouco tempo [6]
- Nada d’ iscas = Nada disso [3]
- Nada de = Não é permitido [5]
- Nada de costas e nada de peito = Referência a uma mulher excessivamente magra e sem seios [8]
- Nada de nada = Absolutamente nada [5]
- Nada de novo = Sem novidades [2]
- Nada disso = De forma alguma [2] 
- Nada feito! = Rejeito! = Discordo! [5] 
- Nada mais, nada menos que = Expressão qualificativa que antecede a descrição de algo de inesperado, surpreendente ou espantoso [5]
- Nada mal = Bastante bem [5] 
- Nada na manga = Jogo liso, sem falcatruas [3]
- Nada, é peixe = Réplica zangada a quem dá como resposta a palavra “nada” [4]
- Nadinha = Pouco tempo [6]
- Não dar nada por alguém = Referência a quem não se atribui qualquer consideração ou valor [5]
- Não dar por nada = Não se aperceber [5]
- Não digo nada! = Exclamação que precede o relato de factos invulgares [5] 
- Não dizer nada = Não despertar qualquer interesse, recordação ou comentário [5]
- Não faltava mais nada = Exclamação usada perante algo que ultrapassa os limites da paciência, da compreensão ou da resistência de uma pessoa [5] 
- Não ficar a dever nada a = Ser equivalente a [5]
- Não ficar nada atrás de = Ser equiparável a [5]
- Não olhar a nada = Não se preocupar [5]
- Não pescar nada de = Não perceber de [5]
- Não prestar para nada = Não ter qualquer utilidade, préstimo ou mérito [5]
- Não ter nada a ver com = Ser estranho a [5]
- Não ter nada de = Não ter nenhuma característica de [5]
- Não ter nada de seu = Ser bastante pobre [5]
- Partir do nada = Começar a vida muito pobre [5]
- Pequenos nadas = Pormenores que passam despercebidos [5] 
- Por nada = De graça [1] 
- Por nada = Sem razão [1]
- Por um nada = Por pequena diferença [5] 
- Ter em nada = Não atribuir qualquer consideração, valor ou importância [5]
- Tirar alguém do nada = Ajudar uma pessoa a sair da miséria, ignorância ou obscuridade [5]
- Tirar do nada = Criar [5] 
- Um tudo nada = Muito pouco [5] 
- Vir do nada = Ter origem humilde [5]
- Viver do nada = Comer pouco [5]

BIBLIOGRAFIA

[1] - BLUTEAU, Raphael. Vocabulario Portuguez & Latino (10 vol.). Coimbra, 1712-1728.
[2] - HOUAISS, António e al. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa  (6 vol.). Círculo de Leitores. Lisboa, 2003.
[3] – LAPA. Albino. Dicionário de Calão. Edição do Autor. Lisboa, 1959.
[4] – NEVES, Orlando. Dicionário de Expressões Correntes. Editorial Notícias, Lisboa, 1998.
[5] – SANTOS, António Nogueira. Novos dicionários de expressões idiomáticas. Edições João Sá da Costa. Lisboa, 1990.
[6] – SOUSA. Luís de. Dizeres da Ilha da Madeira. Palavras e Locuções. Edição do autor. Funchal, 1950.
[7] - TAVARES DA SILVA, D. A. Esboço Dum Vocabulário Agrícola Rgional. Separata dos Anais do Instituto Superior de Agronomia, Vol. XI. Lisboa, 1942.