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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Senhor dos Passos de Estremoz


Fig. 1 - Altar da Capela de D. Fradique de Portugal, no interior
da Igreja do Convento de São Francisco de Assis, em Estremoz.
Fotografia de Álvaro Azevedo Moura.

SENHOR DOS PASSOS DE ESTREMOZ
Em Estremoz, na Igreja do Convento de São Francisco de Assis, actual sede da Paróquia de Santo André, existe uma capela, chamada de D. Fradique de Portugal (Fig. 1). Segundo Monsenhor Mendeiros: “(…) já havia sido rasgada, no século de Quinhentos, a Capela de D. Fradique de Portugal, filho dos Condes de Faro, Odemira e Vimieiro, instituída para panteão da sua família, que teve o senhorio de Estremoz.” (4) “Esta pequena capela, aberta no terceiro tramo do flanco Sul do corpo da Igreja do Convento de São Francisco, é a principal obra manuelina da actual cidade de Estremoz, não apenas pela qualidade artística que evidencia, mas, sobretudo, pela figura cimeira da história europeia que a mandou construir e no seu interior se fez sepultar.” (3)
“Consagrada de princípio a S. FRANCISCO, depois ao SANTO CRISTO CRUCIFICADO, na segunda metade do séc. XVII, a consentimento dos donatários, nela se instalou a IRMANDADE DO SENHOR JESUS DOS PASSOS, que lhe concedeu a invocação persistente.” (2)
O retábulo do altar está dividido em três planos, com pinturas referentes à Paixão de Cristo. No plano superior destaca-se a imagem do Senhor Crucificado, ladeado pelas imagens em madeira estofada, representando S. Pedro de Verona e S. João de Capristano. No plano médio sobressai a imagem do Senhor dos Passos, ladeado pelas imagens de roca, de Nossa Senhora das Dores e de S. João Evangelista.
Sobre o altar diz o prior Fr. Fernando Roberto de Gouveia na “Memória sobre a Freguesia de Santo André de Estremoz”, redigida a 20 de Junho de 1758”: “O seu altar é de talha dourada, em que há muitas imagens, sendo as principais a do Senhor dos Passos, que por tradição se diz ser angelical e é uma das mais formosas de toda a Hespanha; a imagem perfeitíssima de Cristo Crucificado, em cujo lado se expõe(m) o Sacramento.” (1)
“No camarim forrado com placas de entalhe dourado, expõe-se a devotíssima imagem do padroeiro esculpido em lenho encarnado, de singular devoção dos antigos povos estremocenses.” (2)
“A imagem do Senhor dos Passos é a de maior devoção em Estremoz e considerada uma das mais artísticas do País.” (4) O Senhor dos Passos é uma invocação de Jesus Cristo que faz memória ao caminho por ele percorrido desde a sua condenação à morte no Pretório de Pôncio Pilatos até ao seu enterro, após ter sido crucificado no Calvário. Trata-se de uma devoção muito especial na Igreja Católica.
Em Estremoz, a Procissão do Senhor dos Passos, tem lugar no domingo anterior ao Domingo de Ramos ou seja duas semanas antes do Domingo de Páscoa. O trajecto da Procissão passa pelas Capelas dos Passos existentes na cidade, mandadas construir no início do séc. XVIII pela Irmandade do Senhor Jesus dos Passos. Inicialmente eram cinco, tendo desaparecido em 1960, a que estava junto da extinta Igreja de Santo André. As restantes, estão situadas na Rua da Porta da Lage (Bairro de Santiago), na embocadura da Rua Alexandre Herculano com o Largo do Espírito Santo, no alçado exterior direito da Igreja de São Francisco e do lado esquerdo da frontaria do Convento das Maltesas.
A Procissão do Senhor dos Passos, se num ano tem início na Igreja de Santa Maria do Castelo e termina na Igreja do Convento de São Francisco de Assis, no ano seguinte segue o trajecto inverso. Quando sai da Igreja de Santa Maria, o trajecto da Procissão é o seguinte: Largo de D. Dinis, Rua do Arco de Santarém, Rua Direita, Rua da Freirinha, Rua da Porta da Lage, Rua Alexandre Herculano, Largo do Espírito Santo, Rua Magalhães de Lima (antiga Rua das Freiras), Rua Vasco da Gama, Praça Luís de Camões, Largo da República e Rossio Marquês de Pombal (passagem frente à Igreja dos Congregados, seguida de viragem à esquerda e paragem junto ao Paço do Convento das Maltesas, para depois virar à esquerda, em direcção ao Passo da Igreja de São Francisco, onde para, para depois prosseguir em direcção à Igreja do Convento de São Francisco de Assis, no Largo dos Combatentes da Grande Guerra, onde termina.

ICONOGRAFIA DO SENHOR DOS PASSOS DE ESTREMOZ
É variada a iconografia do Senhor dos Passos de Estremoz. Assim, no Programa das Festas à Exaltação da Santa Cruz de 1902, editado pela Tipografia Samuel, de Estremoz, aparece uma gravura (Fig. 2) da autoria de Francisco Pastor, representando aquela imagem.

Fig. 2 - Gravura de Francisco Pastor, impressa no programa
das Festas da Exaltação da Cruz de 1902,
representando o Senhor dos Passos de Estremoz.

Saliente-se que Francisco Pastor (1850-1922), foi um notável gravador espanhol, que em Madrid foi discípulo de Severini. Em 1873 abriu um “Atelier de Gravura” na Rua do Ouro, 243-2º, em Lisboa. Ilustrador do “Diário Ilustrado” e do “Correio da Europa”. Criou uma editora própria que publicou obras de grande envergadura, entre as quais o “Dicionário Ilustrado” de Francisco de Almeida, para o qual abriu mais de três mil gravuras, assim como foi editor do “Almanach Ilustrado” que no ano de 1895 ia no 13º ano e custava 200 réis.
Foi com registo do Senhor dos Passos de Estremoz da autoria de Francisco Pastor, que “O falar das Mãos de Guilhermina Maldonado” criou a lâmina da Fig. 3. O registo impresso a preto sobre papel branco amarelecido pelo tempo, contém a legenda “Vera Effigie do Senhor Jesus dos Passos d’Estremoz”. As matérias-primas utilizadas foram: cartão, vidro, espelho, seda, frio prateado, canotilho de prata, flores de prata, galões, arame e fita de seda. O resto foi a paciência, o requinte, a delicadeza, a sensibilidade e a mensagem de Paz e Harmonia sempre presentes, que nos fazem render à Arte de Guilhermina Maldonado. A lâmina tem as seguintes dimensões 31,5cm x 34, 5 cm x 4,5 cm.

Fig. 3 - Lâmina com registo do Senhor dos Passos de Estremoz da autoria
de Francisco Pastor, que “O falar das Mãos de Guilhermina Maldonado” criou.
Dimensões: 31,5cm x 34, 5 cm x 4,5 cm.
Colecção do autor

Conhecemos igualmente medalhas de barro vermelho representando o Senhor dos Passos de Estremoz. Trata-se de medalhas comemorativas das Festas da Exaltação da Santa Cruz de 1963 (Fig. 4) e de 1964 (Fig. 6). Qualquer delas tem de módulo 5,8 cm, 4 mm de espessura sem o relevo e pesa 20g. Ao centro a imagem do Senhor dos Passos de Estremoz. À esquerda, distribuída por três linhas a legenda: “FESTAS DA EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ / EM ESTREMOZ / ANO”. À direita da imagem do Senhor dos Passos, um ramo de sobreiro carregado de bolotas. Na parte superior, as medalhas têm um orifício para passar um fio, uma fita ou um alfinete-de-ama. A de 1963 apresenta no verso, a marca “OLARIA ALFACINHA / ESTREMOZ / PORTUGAL “ distribuída por três linhas e ocupando uma superfície de 1, 2 cm x 3 cm (fig. 5). Já a de 1964, ostenta a marca “ OLARIA ALFACINHA / ESTREMOZ “ inscrita numa coroa circular de 1,5 cm e 2 cm de diâmetro, com a palavra “PORTUGAL”, ao centro (Fig. 7).

 Fig. 4 - Medalha de barro vermelho, comemorativa das Festas da Exaltação da Santa Cruz
em Estremoz, no ano de 1963, representando o Senhor dos Passos de Estremoz.
Módulo: 5,8 cm; Espessura: 4 mm, sem o relevo; Peso: 20g.
Fabrico da Olaria Alfacinha.
Colecção do autor.

Fig. 5 - No verso da medalha anterior, a marca “OLARIA ALFACINHA / ESTREMOZ / PORTUGAL “
distribuída por três linhas e ocupando uma superfície de 1, 2 cm x 3 cm.

Fig. 6 - Medalha de barro vermelho, comemorativa das Festas da Exaltação da Santa Cruz
em Estremoz, no ano de 1964, representando o Senhor dos Passos de Estremoz.
Módulo: 5,8 cm; Espessura: 4 mm, sem o relevo; Peso: 20g.
Fabrico da Olaria Alfacinha. 
Colecção do autor.

Fig. 7 - No verso da medalha anterior, a marca “ OLARIA ALFACINHA / ESTREMOZ “ inscrita
numa coroa circular de 1,5 cm e 2 cm de diâmetro, com a palavra “PORTUGAL”, ao centro.

Também no figurado de Estremoz encontramos representações do Senhor do Passos, como é o caso da imagem da Fig. 8, da autoria da barrista Maria Luísa da Conceição. À semelhança da imagem sagrada, Jesus é aqui representado envergando túnica roxa, carregando a cruz, com o joelho direito assente no solo e com a túnica a mostrar o pé esquerdo. Na cabeça, um esplendor e uma coroa de espinhos. A imagem assenta num andor sensivelmente quadrado, decorado à frente com flores.

Fig. 8 - Andor com o Senhor dos Passos de Estremoz,
da autoria da barrista estremocense Maria Luísa da Conceição.

Os exemplares da iconografia local do Senhor dos Passos, mais que objectos decorativos, são objectos de veneração e de oração dos fiéis.


BIBLIOGRAFIA

(1) – COSTA, Mário Alberto Nunes. Estremoz e o seu concelho nas “Memórias Paroquiais de 1758”. Separata do Boletim da Biblioteca da Universidade de Coimbra, Vol. XXV. Coimbra, 1961.
(2) - ESPANCA, Túlio. Inventário Artístico de Portugal-Distrito de Évora, Vol.VIII. Academia Nacional de Belas Artes. Lisboa, 1975.
(3) – IGESPAR
(4) - MENDEIROS, José Filipe. Património Religioso de Estremoz. Câmara Municipal de Estremoz. Estremoz, 2001.

Publicado inicialmente em 21 de Setembro de 2012

terça-feira, 6 de novembro de 2012

Aclénia Pereira, bonequeira de Estremoz

Aclénia Pereira (1927-2012), artesã polifacetada e bonequeira de Estremoz.

NASCIMENTO E NOME
Em 21 de Abril do presente ano, faleceu com a idade de 85 anos na Casa de Saúde do Montepio Rainha D. Leonor, na Freguesia de Nossa Senhora do Pópulo nas Caldas da Rainha, Aclénia Pereira (Fig. 1), artesã polifacetada e barrista estremocense, que tive o privilégio de conhecer nos anos 50 do século passado, em virtude de ser amiga de minha prima Adozinda Pacífico Carmelo da Cunha, que era íntima da casa de seus pais e que me levava a passear com ela.
Aclénia nasceu às 21 horas do dia 26 de Fevereiro de 1927 no nº 12 da Rua Magalhães de Lima, Freguesia de Santo André de Estremoz. Filha legítima de Carlota Rita Capeto Pereira, 23 anos, doméstica, casada com Ricardo de Jesus Pereira Ventas, 26 anos, conceituado relojoeiro e ourives da nossa praça (a) , natural como sua mulher da Freguesia de Santo André, concelho de Estremoz.
A criança então nascida era neta paterna de Joaquim Abílio Ventas e de Adelaide do Nascimento Pataco e, neta materna de Estevão da Silva Capeto e de Perpetua Rosa Polido Capeto
A recém-nascida foi registada a 21 de Março de 1927, no Registo Civil de Estremoz. Apadrinharam o acto, José Joaquim Pereira Ventas, sapateiro, maior e Maria Antónia Pulido Capeto, doméstica, maior, ambos residentes em Estremoz.
A menina recebeu o nome de Aclénia Risolete Capeto Ventas.
Em 1945 o pai de Aclénia foi autorizado superiormente a mudar o nome para Ricardo de Jesus Pereira, pelo que a filha com a idade de 18 anos foi também autorizada a alterar o nome para Aclénia Risolete Capeto Pereira.
Em 28 de Dezembro de 1960, com a idade de 33 anos, casou na Igreja de Nossa Senhora da Conceição de Vila Viçosa, com Pedro Paulo de Oliveira e Noronha, de 30 anos, natural de vale de Santarém, Santarém, onde o casal passaria a residir. O nome da noiva passaria então a ser Aclénia Risolete Capeto Pereira e Noronha.

INFÂNCIA E JUVENTUDE
Aclénia cresceu sem problemas e frequentou o Ensino Primário Elementar em Estremoz, tendo sido aprovada no exame de 2º grau em 1939, com a idade de 12 anos.
Com a idade de 13 anos, Aclénia inscreveu-se em 1940 na Escola Industrial António Augusto Gonçalves (b), situada na rua da Pena nº 11 em Estremoz, no local onde funcionaria mais tarde a Ala nº 2 da Mocidade Portuguesa Masculina e depois o Salão Paroquial de Santa Maria. Era então director José Maria de Sá Lemos (1892–1971). A organização do Ensino Técnico-Profissional era então regida pelo Decreto nº 20.420 de 20 de Outubro de 1931. Na Escola era ministrado o ensino dos seguintes ofícios: canteiro civil, canteiro artístico, oleiro e tapeceira, sendo o pessoal docente desta Escola composto por 1 professor e 3 mestres.
Aclénia inscreveu-se no Curso de Tapeceira cuja carga horária era a seguinte:


Aclénia frequentou a Escola com aproveitamento até ao 3º ano, tendo realizado todos os exames e frequências constantes do currículo. Não frequentou todavia o 4º ano.
Na oficina de tapeçaria aprendeu com Mestra Joana Maria de Albuquerque Simões e na oficina de Olaria com Mestre Mariano Augusto da Conceição (1902-1959). A oficina de tapeçaria era no 1º andar e a oficina de olaria, logo à entrada da Escola, do lado direito.
Com as mão sábias e experientes de Mestra Joana aprendeu o ponto de Arraiolos, a bordar, a recortar autênticas filigranas em papel e o deslumbramento da Arte Conventual. Por sua vez, Mestre Mariano, já consagrado pela sua luminosa participação na Exposição do Mundo Português, ocorrida nesse ano em Lisboa, soube-lhe transmitir no trabalho do barro informe, a destreza de mãos herdada da dinastia dos Alfacinhas a que ele próprio pertencia, bem como os gestos ancestrais das bonequeiras de oitocentos que na década de 30 do século passado, aprendera com ti Ana das Peles, com a supervisão do director, o escultor José Maria de Sá Lemos.
Com tais mestres e dotada de rara habilidade e fina sensibilidade, Aclénia aprendeu a dominar os materiais e a criar artefactos que nos deleitam o espírito.
Depois de ter saído da Escola Industrial António Augusto Gonçalves terá frequentado a Escola do Magistério Primário de Évora, após o que passou a desempenhar funções de Professora do Ensino Primário, o que fez até á altura da sua aposentação.
Após o casamento em 1960, deixou de morar na Avenida Dr. Marques Crespo, nº 23, em Estremoz, para onde entretanto mudara e transferiu-se para Santarém.
Em 1983 participou na I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz, cujo stand 5,6,7 ocupou. Dela diz o catálogo (4): Natural de Estremoz e residente em Santarém, dedica-se de há longos anos à prática variadíssmas técnicas, às artes popular e conventual. Com barro, tecidos, papel, metal, organiza pequenas obras de arte preenchendo da melhor maneira os lazeres da sua vida doméstica e profissional.”. De acordo com o jornal “Brados do Alentejo”(6), Aclénia participou no certame nas secções de “Barro”, “Papel” e “Têxteis”. Ainda de acordo com o catálogo, partilhou o stand com sua tia Ernestina Capeto de Matos (c) que apresentou trabalhos de arte conventual.
Aclénia está representada com os seus bonecos de Estremoz em colecções particulares e no Museu Rural da Casa do Povo de Estremoz.

OS BONECOS DE ACLÉNIA
Aclénia reproduziu as figuras que aprendera com Mestre Mariano: figuras que têm a ver com a realidade local, figuras intimistas que têm a ver com o quotidiano doméstico, figuras que são personagens da faina agro-pastoril das herdades alentejanas, figuras alegóricas e imagens religiosas.

Primavera de arco da autoria de Aclénia Pereira.
3,5 cm x 5,5 cm x 17 cm.
 Exemplar pertencente a colecção do Museu Rural
da Casa do Povo de Santa Maria, Estremoz. 
Procissão do Senhor dos Passos de Estremoz.
Conjunto escultórico em barro da autoria de Aclénia Pereira,
 pertencente a colecção do Museu Rural
da Casa do Povo de Santa Maria, Estremoz. 
O andor do senhor dos Passos. Figura da autoria de Aclénia Pereira,
 pertencente à Procissão do Senhor dos Passos de Estremoz
 e que integra a colecção do Museu Rural
 da Casa do Povo de Santa Maria, Estremoz.

Os bonecos de Aclénia são inconfundíveis, a meu ver pela ingenuidade e simplicidade dos traços do rosto, que com a sua rara sensibilidade feminina lhes soube transmitir.
Todos têm estampada na base a marca de identificação da barrista: “Tanagra”, manuscrita dentro de um rectângulo de 1 cm x 3 cm (Fig. 3). Quase todos têm igualmente estampada na base a marca de identificação do local de produção: “ESTREMOZ / PORTUGAL”, em maiúsculas e em duas linhas, dentro de um rectângulo de 1 cm x 2,7 cm (Fig. 4).


Marca de identificação da barrista: “Tanagra”, manuscrita dentro de um rectângulo de 1 cm x 3cm.
Marca de identificação do local de produção: “ESTREMOZ / PORTUGAL”,
em maiúsculas e em duas linhas, dentro de um rectângulo de 1 cm x 2,7 cm.


PORQUÊ TANAGRA?
Azinhal Abelho, referindo-se aos bonecos de Estremoz, diz na página 24 do seu livro (1): “Outros atestam o exuberante poder de concepção e fantasia do povo. A “Primavera”, tanagra plebeia de mocidade é sumamente típica com o arco de flores preso nos ombros, passando-lhe sobre a cabeça como auréola.” É claro que o livro de Azinhal Abelho foi dado à estampa em 1964 e a utilização da marca “Tanagra” por Aclénia é anterior a essa data, pelo que não esteve na origem da escolha deste nome como marca de identificação da barrista. A origem terá sido outra, pelo que se impôs uma consulta aos nossos lexicógrafos, por ordem cronológica:
- Raphael Bluteau (4), sobre “Tanagra” diz textualmente: “Cidade da Livadia, na Turquia Europeia, perto do rio Asopo. Escreve Ateneu, que uma baleia de prodigiosa grandeza, que por este rio foi dar de fronte da cidade, deu lugar ao provérbio, Cetus Tanagreus, quando se fala num corpo extraordinariamente grande. Hoje chamam-lhe Anatoria, outros lhe chamaram Orops e Gephyra.”
- Viterbo (13), Cândido de Figueiredo (7) e Silva Bastos (3) não registam o termo “Tanagra”.
- José Pedro Machado (10) regista o termo “Tánagra”, substantivo que diz provir do grego Tânagra, topónimo na Beócia. O mesmo autor (11) regista o termo “Tânagra”, substantivo feminino que designa “Estatueta feita na cidade de Tânagra”, bem como “Qualquer estatueta fina e elegante”.
- Houaiss (9) regista o termo “Tánagra”, substantivo feminino que designa “Pequena estatueta feita com barro cozido e, encontrada em Tânagra, cidade da Beócia, região da antiga Grécia ao Norte e noroeste da Ática”. Segundo o mesmo autor, o termo “Tánagra”, designa por extensão “Qualquer estatueta fina e elegante” e por analogia “Moça bonita e tão elegante como as estatuetas”.
- Segundo a WIKIPÉDIA (14), "Tanagra" (em grego antigo Τάναγρα / Tanagra) é uma antiga cidade grega da Beócia, situada não muito longe de Platéia, a 20 km de Tebas, perto da fronteira com a Ática. É identificada com Grée, citada por Homero no “Catálogo dos navios” da “Ilíada”. Foi palco de duas batalhas entre atenienses e a Liga do Peloponeso, em 457 a.C.and 426 a.C.. Foi arrasada pela vizinha Tebas nos anos 370-360 a.C. e depois reconstruída. Na mitologia grega, "Tanagra" era filha de Éolo ou do deus fluvial Asopo e de Metope. Incitados por Afrodite e Eros, os deuses principais raptaram as filhas de Asopo, sendo Ares o que seduziu Tanagra. Finalmente casou-se com Poimandros, de quem teve os filhos Leucipo e Efipo.
- De acordo com TANAGRA (12) as "tanagras" são estatuetas de barro fabricadas com moldes que foram descobertas em túmulos antigos na cidade de Tanagra e representam a maior parte das vezes, mulheres graciosas cobertas com vestidos elegantes, jovens e mais raramente crianças. Estiveram em voga desde o séc. IV a.C. até ao fim do século III d.C.
As tanagras tornaram-se a encarnação da graça feminina e por extensão, a palavra tanagra serve para adjectivar uma jovem fina e graciosa.
Vestígios de tinta sugerem que estas estatuetas foram pintadas em tons cinzento, azul-cinzento, azul, azul celeste, rosa, roxo e verde. No entanto, com o decurso do tempo, essas supostas cores deram origem a tonalidades de ocre e de branco.
O facto de se terem encontrado as tanagras em túmulos antigos é indicativo de que elas tinham uma função funerária.

UMA INTERPRETAÇÃO POSSÍVEL
O facto de Aclénia como barrista usar a palavra “ Tanagra” como marca de identificação é revelador de que sabia que a palavra era sinónimo de estatueta fina e elegante. Todavia vamos mais longe, como Aclénia era uma mulher bela e elegante, poderá ter escolhido aquela marca de identificação, porque se considerar ela própria uma “Tanagra”. É uma hipótese absolutamente plausível e que partilhamos com o leitor.

BIBLIOGRAFIA
(1) - ABELHO, Azinhal – Barros de Estremoz. Lisboa: Edições Panorama, 1964.
(2) - AULETE, Caldas. Diccionario Contemporâneo da Língua Portuguesa (1ª edição). Parceria António Maria Pereira, Lisboa, 1881.
(3) - BASTOS, J.T. da Silva. Diccionário Etymológico, Prosódico e Orthográphico da Língua Portugueza (2ª edição). Parceria António Maria Pereira, Lisboa, 1928.
(4) - BLUTEAU, Raphael. Vocabulario portuguez & latino: aulico, anatomico, architectonico ... 8 volumes. Collegio das Artes da Companhia de Jesus. Coimbra, 1712 - 1728. 8 v.
(5) - Catálogo da I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz. Câmara Municipal de Estremoz. Estremoz, 15 a 17 de Julho de 1983.
(6) - FIGUEIREDO, Cândido de. Novo Diccionário da Língua Portuguesa (1ª edição). Vol.II. Editora Tavares Cardoso & Irmão, 1899.
(7) - I Feira de Arte Popular e Artesanato do Concelho de Estremoz in Brados do Alentejo, 3ª série, nº 93. Estremoz, 15 de Julho de 1983.
(8) - INSTITUTO ANTÓNIO HOUAISS DE LÍNGUA PORTUGUESA. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Tomo VI. Círculo de Leitores. Lisboa, 2003.
(9) - MACHADO, José Pedro Machado. Dicionário Etimológico da Língua Portuguesa (5ªedição). Vol.V. Livros Horizonte. Lisboa, 1989.
(10) - MACHADO, José Pedro Machado. Grande Dicionário da Língua Portuguesa. Vol.VI. Publicações Alfa. Lisboa, 1991.
(11) - TANAGRA (http://www.tanagra-art.com/).
(12) - VITERBO, Joaquim de Santa Rosa de. Elucidário das Palavras, Termos e Frases. Edição Critica de Mário Fiúza. Vol. 2. Livraria Civilização. Porto, 1966. (d)
(13) - WIKIPÉDIA (http://pt.wikipedia.org/wiki/Tanagra).

(a) - A relojoaria e ourivesaria do pai de Aclénia situava-se no Largo da República, 44-A, em Estremoz, no local onde funciona hoje o Plaza-Pronto-A-Vestir. Lembro-me de quando era rapaz ver expostas na montra do estabelecimento por altura do Natal, figurinhas de presépio confeccionadas por Aclénia. O seu pai era tio e padrinho de Inácio Augusto Basílio, com relojoaria e ourivesaria até à pouco tempo no Rossio Marquês de Pombal, 98, em Estremoz.
(b) - Esta Escola resultou da elevação a Escola Industrial, pelo Decreto nº 18.420 de 4 de Junho de 1930, da Escola de Artes e Ofícios de Estremoz, criada pela Lei nº 1.609 de 18 de Dezembro de 1924.
(c) - Ernestina além de artesão era proprietária de um bem afreguesado salão de cabeleireira, no Largo da República, 9-A, em Estremoz.
(d) - A 1ª edição é de 1798, 1799.

terça-feira, 30 de julho de 2024

Carlos Alberto Alves, um barrista de Estremoz na Feira de Artesanato de Vila do Conde


Procissão do Senhor Jesus dos Passos de Estremoz (em 1º plano)

O barrista Carlos Alberto Alves encontra-se a participar na 46ª Feira Nacional de Artesanato de Vila do Conde, desde o passado dia 20 de Julho e até ao termo da Feira, em 4 de Agosto. Fá-lo em stand próprio, na condição de barrista independente, que se inscreveu por sua própria iniciativa e se deslocou pelos seus próprios meios.

Trata-se da segunda participação do barrista nestas condições, já que no ano transacto esteve presente na 45ª Feira Nacional de Artesanato de Vila do Conde, por convite da Organização da Feira. Foi então o único bonequeiro de Estremoz presente na mesma, uma vez que a prevista participação colectiva do Município de Estremoz, a convite da Organização da Feira, foi cancelada por aquele Município e não se concretizou, ao contrário do que acontecera no ano anterior.

Este ano, para além do barrista Carlos Alberto Alves, participaram também em stand próprio, as barristas Inocência Lopes bem como Maria Isabel Catarrilhas Pires conjuntamente com Sara Sapateiro, o que aconteceu na primeira semana da Feira.

Desde 2010 que venho acompanhando o trabalho do barrista Carlos Alberto Alves, sobre o qual comecei por escrever uma pequena nota biográfica no meu livro BONECOS DE ESTREMOZ, publicado em 2018, a qual pode ser lida aqui.

Desde 2021 que o barrista tem a sua produção certificada pela ADERE-CERTIFICA, único organismo de certificação acreditado pelo IPAC - Instituto Português de Acreditação. Significa isto que os Bonecos de Estremoz produzidos por Carlos Alberto Alves estão de acordo com o MANUAL DE CERTIFICAÇÃO “BONECOS DE ESTREMOZ”, publicado pela ADERE-CERTIFICA em 2018. De acordo com aquele manual, os Bonecos de Estremoz de Carlos Alberto Alves, obedecem à TÉCNICA DE PRODUÇÃO e à ESTÉTICA DO BONECO DE ESTREMOZ.

O acompanhamento do trabalho deste barrista tem-me levado a elaborar textos sobre algumas das suas criações, nomeadamente: Carlos Alves certificado como bonequeiro de Estremoz – 2021 (ler aqui), Carlos Alves e o pastor de tarro e manta  - 2021 (ler aqui), Carlos Alves e a Cozinha dos Ganhões – 2021 (ler aqui), Presépio de Carlos Alves – 2022 (ler aqui) e FEIRA INTERNACIONAL DE ARTESANATO 2024 / Carlos Alberto Alves distinguido com Menção Honrosa – 2024 (ler aqui)

Recentemente, o barrista Carlos Alberto Alves foi distinguido com uma Menção Honrosa atribuída pelo Júri do Concurso de Artesanato da FIA - Feira Internacional de Artesanato, certame que decorreu em Lisboa, entre 29 de Junho e 7 de Julho. A distinção do Júri ocorreu na modalidade de Artesanato Tradicional e incidiu sobre a figura composta do Figurado de Estremoz, designada por “Cante Alentejano”. Não me surpreende a distinção concedida ao barrista, pois como já tive oportunidade de dizer e escrever, encaro tal facto como um tributo ao mérito, que decerto o estimulará a não ficar por aqui. Foi o que aconteceu com a certificação do seu trabalho pela ADERE-CERTIFICA em 2021, que o incentivou a um aperfeiçoamento maior do seu trabalho em termos globais. São factos indesmentíveis, observados por quem tem acompanhado a sua produção ao longo dos tempos.

Da sua participação na 46ª feira de Artesanato de Vila do Conde, destacam-se e fazem regalar a vista, a espectacular “Procissão do Senhor Jesus dos Passos de Estremoz”, a “Cozinha dos Ganhões” e o “Cante alentejano”. São composições que honram o barrista e com ele a barrística popular estremocense. É caso para dizer:

- PARABÉNS, CARLOS ALBERTO ALVES!


Cozinha dos ganhões

Cante Alentejano

quinta-feira, 18 de abril de 2013

Estremoz - Rota do Azulejo


Batalha do Ameixial em 1663 (séc. XVIII). Painel de azulejos de uma das salas do Palácio Tocha,
construído no início do século XVIII para residência do capitão Barnabé Henriques e sua família.
No interior sobressaem azulejos que representam cenas campestres, mitológicas ou de batalhas
da História Regional. O actual proprietário é Joe Berardo e o edifício classificado como de
interesse municipal, está encerrado ao público, não sendo visitável.


Ao longo de mais de cinco séculos, o azulejo tem sido usado em Portugal, como elemento associado à arquitectura, não só como revestimento de superfícies, mas também como elemento decorativo.
Pela sua riqueza cromática e pelo seu poder descritivo, o azulejo ilustra bem a mentalidade, o gosto e a História de cada época, sendo muito justamente considerado como uma das criações mais singulares da Cultura Portuguesa e um paradigma da nossa Identidade Cultural Nacional.
O património azulejar da cidade de Estremoz é riquíssimo e está maioritariamente distribuído pelos seguintes edifícios: Convento dos Congregados do Oratório de São Filipe de Néri, Ermida de Santo Cristo, Convento das Maltesas, Convento de São Francisco, Palácio Tocha, Igreja do Anjo da Guarda, Antigo Hospital da Misericórdia, Convento de Nossa Senhora da Consolação, Passos da Irmandade do Senhor Jesus dos Paços, Armaria de D. João V (Pousada da Rainha Santa Isabel), Igreja de Santa Maria, Capela da Rainha Santa Isabel, Igreja de São Tiago, Estação da CP de Estremoz, Quinta de Nossa Senhora do Carmo, Ermida de Nossa Senhora da Conceição e Ermida de Nossa Senhora dos Mártires.
A apetência dos turistas nacionais e estrangeiros para visualizarem e apreciarem os nossos painéis azulejares é grande. Um indicador disso é a página do Facebook “AZULEJOS PORTUGUESES”, dos quais sou um dos gestores, que até hoje já recebeu 19104 “gostos” e que num dia já recebeu 10740 visitas.
Estremoz é uma cidade de serviços e precisa de turistas para animar a frágil economia local, tal como um esfomeado necessita de pão para a boca. Nesta ordem de ideias, não seria possível o Município organizar uma “Rota do Azulejo” e divulgá-la através dos seus Serviços de Imprensa? Aqui fica o alvitre, seguido de algumas sugestões: Um técnico do Município com valência em História de Arte elaborava um guião a ser seguido nas visitas guiadas pelo técnico de turismo que acompanhasse os turistas. Estes, deslocar-se-iam em autocarro do Município e pagariam o serviço que lhes era prestado, incluindo o serviço de Guia. O percurso da rota do azulejo abrangeria a manhã e a tarde e seria interrompido para almoço, confirmado logo de manhã. O almoço-tipo podia ser servido em locais a visitar tais como a Pousada da Rainha Santa Isabel ou a Quinta de Nossa Senhora do Carmo. No final era conferido a cada turista um certificado comprovativo de que tinha conhecido e apreciado o património azulejar de Estremoz.
Como os edifícios, uns são públicos, outros religiosos e outros privados, haveria que limar algumas arestas e estabelecer pontes de entendimento entre as entidades intervenientes. Nada que não possa ser feito. É caso para dizer:
- MÃOS À OBRA! VAMOS DINAMIZAR O TURISMO!

Hernâni Matos
(Publicado no jornal Brados do Alentejo, de 18 de Abril de 2013)

O Milagre das Rosas. Painel de azulejos (126x173,5 cm) de meados do séc. XVIII,
da autoria de Policarpo de Oliveira Bernardes (1695-1778), pintor e azulejista alentejano,
pertencente ao chamado ciclo dos mestres, período em que se produziram as melhores peças
azulejares, do barroco português. Sacristia da Igreja do Convento de S. Francisco, Estremoz. 
Cena de caça (séc. XVIII). Painel de azulejos do Convento dos Congregados de S. Filipe Nery,
actual edifício dos Paços do Concelho de Estremoz. 
Dar de beber a quem tem sede (séc. XVIII). Um dos painéis de azulejos com as
virtudes Cardeais e Teologais, existentes na antiga Igreja da Misericórdia de Estremoz.
Adão e Eva no Paraíso (Séc. XVIII). Painel existente na Capela dos Passos
situada  no alçado exterior direito da Igreja do Convento de São Francisco. 
Milagre da criança salva das águas (c. 1725). Teotónio dos Santos (?). Painel de
azulejos  (2,60 m x 2,40 m). Capela da Rainha Santa Isabel do Castelo de Estremoz.
 Painel de azulejos (séc. XVIII) da Real Fábrica de Cerâmica de Estremoz.
Museu Municipal de Estremoz.
Painel de azulejos policromos de temática mariana (c. 1669).
Ermida de Nossa Senhora da Conceição, templo maneirista
situado nos arredores de Estremoz, edificado no último quartel
do século XVI. 
Painéis de azulejos (meados do século XVIII), saídos de uma grande
oficina lisboeta, cuja temática iconográfica é inteiramente dedicada
a cenas da vida da Virgem e da Infância de Jesus. Ermida de Nossa
Senhora dos Mártires, cuja origem remonta ao reinado de D. Fernando
e terminada pelo Condestável Dom Nuno Álvares Pereira, Senhor
da Vila de Estremoz.
 Estremoz – Mercado de Sábado (1940). Painel azulejar policromático da autoria
de Alves de Sá (1878-1972), fabricado na Fábrica de Cerâmica da Viúva Lamego,
em Lisboa. Estação da CP em Estremoz.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

Nossa Senhora dos Mártires de Estremoz


Imagem do Museu Municipal de Estremoz. Fotografia de Isabel Água.

Quem procura quer achar
A inventariação e catalogação do figurado em barro de Estremoz está longe de estar completa e ser definitiva. É o que ocorre com exemplares dos sécs. XVIII e XIX, para os quais se desconhece a autoria e data de manufactura, aliada à coexistência de designações distintas para o mesmo espécime.
Caso em estudo
Na Exposição “Barristas do Alentejo” (1) realizada em Évora no ano de 1962, esteve patente ao público um Boneco de Estremoz, ao qual foi atribuído o número 288, identificado como sendo do séc. XVIII, pertença do Eng.º Júlio dos Reis Pereira. A designação atribuída à figura exposta foi a de “Dama orando”. Passo de imediato à sua descrição.
Trata-se de uma figura antropomórfica feminina de mãos postas e levantadas. Traja um vestido comprido com mangas, que lhe encobre os pés e é de cor castanha avermelhada, decorado com motivos florais em cuja composição entra o verde, o vermelho e o zarcão. O vestido apresenta uma gola branca ornamentada por dois folhos igualmente brancos que lhe cobrem os ombros. A cabeça está coberta com uma touca branca com folhos à frente e que lhe cobre o cabelo castanho quase na totalidade. Sobre os punhos do vestido assenta uma toalha branca. A figura enverga um manto com um grande capuz, qualquer deles de cor verde escura e com uma orla denteada, simulando galão dourado. Do lado esquerdo do manto e à altura dos joelhos é visível um enfeite em relevo, constituído por uma flor cor de zarcão e quatro folhas verdes.
A imagem assenta numa peanha paralelepipédica de base quadrada e topo cor de zarcão, a qual configura um andor. As faces laterais são de cor verde e encontram-se ornamentadas com motivos florais centrados e cuja constituição integra o verde, o vermelho e o zarcão. À excepção das arestas da base, todas as outras apresentam uma orla em relevo, de cor amarela dourada e com incisões perpendiculares às arestas. Em cada um dos quatro vértices do topo da peanha são visíveis furos que poderão ter servido de encaixe a arames que suportavam decorações fitomórficas, tal como acontece noutras imagens.
Nomes e mais nomes
A “Dama orando” integra a colecção de Bonecos que a Câmara Municipal de Estremoz adquiriu ao Eng.º Júlio dos Reis Pereira e faz parte do acervo do Museu Municipal. Joaquim Vermelho (7) manteve a designação atribuída por Reis Pereira àquela figura. Também eu (5) possuo na minha colecção um exemplar análogo ao descrito, ainda que sem toalha, pelo que subscrevi igualmente aquela designação.
Actualmente, o exemplar descrito está exposto no Museu Municipal sob a designação “Senhora com Manto / Maria?”, a qual gera dúvidas por ser ambivalente.
Por outro lado, já ouvi alguém sugerir que possa ser uma imagem de “Nossa Senhora das Dores” assente num andor, à semelhança da imagem de Nosso Senhor Jesus dos Passos. Creio que quem produziu o alvitre se baseou no facto de ambos os andores integrarem a Procissão do Senhor dos Passos.
O facto de a figura em estudo ter recebido diferentes designações ao longo do tempo, é revelador da necessidade de aprofundar o estudo da imagem para ver qual das designações é a mais adequada. Foi o que fiz.
Valha-me Frei Agostinho
Não aceitei de bom grado a designação de “Nossa Senhora das Dores”, já que iconograficamente esta é representada com um ou mais dos seguintes atributos: - Uma expressão dolorosa; - Ferida por sete espadas no seu coração imaculado (algumas vezes, uma só espada), visto ter sido trespassada por sete espadas de dor, quando da Paixão e Morte de Jesus; - O Rosário das Lágrimas (ou Terço das Lágrimas) com 49 contas brancas divididas em sete partes de sete contas cada; - Um lenço para limpar as lágrimas (seguro por uma ou pelas duas mãos ou assente num dos braços, quando a senhora tem as mãos postas em atitude de oração).
Todavia, não excluí a hipótese de se tratar de uma imagem devocional de Nossa Senhora, a quem a intensa devoção dos católicos levou a atribuir-lhe inúmeros títulos.
Pensei de imediato consultar o “Santuario Mariano” (6) e a consulta do tomo VI conduziu-me à leitura proveitosa do “TITULO XXXXII - Da milagrosa Imagem de N. Senhora dos Martyres, da Villa de Estremoz”.
A imagem de Nossa Senhora dos Mártires
Frei Agostinho de Santa Maria (6) menciona a construção do Templo de Nossa Senhora dos Mártires, mas relativamente à miraculosa imagem da Padroeira afirma não ter conseguido apurar nada acerca da sua origem e como apareceu no local. Refere que a imagem é formosíssima, com vestidos, estando a Senhora de pé e de mãos levantadas. Alude que o povo tem pela imagem uma grande devoção, recorrendo a ela nos seus apertos e necessidades, retribuindo a Santa com as suas petições bem despachadas, o que o leva a oferecer-lhe lembranças pelos benefícios recebidos.
Nas Memórias Paroquiais de 1758 (2), Frei João Afonso Magro, prior da freguesia de Santa Maria de Estremoz, referindo-se à Igreja de Nossa Senhora dos Mártires, relata que no Altar-mor se venera a sagrada, milagrosa e formosíssima imagem de Nossa Senhora dos Mártires, de roca, composta com vestidos, de 6 palmos de altura e que tem as mãos postas e levantadas. Narra ainda que ao Templo concorre todo o povo pela devoção que tem com a Senhora, a quem procura nas suas necessidades e apertos, confiante nos milagrosos despachos às suas petições.
António Henriques da Silveira (4) refere-se à imagem de Nossa Senhora dos Mártires, declarando que: “A imagem da Senhora é perfeitíssima, e de notável veneração”.
Túlio Espanca (3) diz que a imagem de Nossa Senhora dos Mártires não foi alienada na profanação da Igreja em 1912 e é uma imagem de roca, com vestes ricas de tecelagem bordada.
Milagre de Nossa Senhora do Mártires
Frei Agostinho de Santa Maria (6) conta que os milagres de Nossa Senhora dos Mártires são inumeráveis, mas há um em que resplandece a grande piedade da Mãe de Deus para com os miseráveis e pobres pecadores, relatando-o.
Uma mulher nobre da Vila de Estremoz, devota de Nossa Senhora, em sinal de agradecimento por graça recebida, confeccionou uma toalha em pano rico, guarneceu-a com uma renda igualmente rica e ofereceu-a para o Altar de Nossa Senhora, pondo-a com as suas próprias mãos.
Outra mulher, pobre e cheia de necessidade, implorou a Nossa Senhora que lhe valesse e lhe acudisse. Estando sozinha na Igreja e vendo a toalha no Altar, dirigiu-se a Nossa Senhora mais ou menos nestes termos: Bem vedes da minha pobreza e da necessidade que padeço com os meus filhos. Dai-me licença para que vos tire e leve a toalha e a venda para com o valor dela acudir à minha necessidade. Assim na suposição que vós ma dais, tiro-a do vosso Altar e levo-a.
A mulher tomou então a toalha e levou-a consigo, sem que ninguém visse. Como tinha que arranjar quem a comprasse, calhou a ir a casa da devota mulher que a tinha oferecido a Nossa Senhora. À nobre mulher pareceu que a toalha era a sua, mas temendo errar, não disse nada à pobre mulher, dando-lhe alguma coisa para a entreter e mandando-a voltar no dia seguinte, para lhe dar o resto do valor que tinham combinado. Depois, mandou uma criada à Igreja, para ver se no Altar estava a toalha que tinha oferecido a Nossa Senhora. A criada depois de chegar ao Altar achou que a toalha era aquela que a sua ama lhe pusera e regressou a casa para dar conta desse facto à ama. Esta foi certificar-se que era a sua toalha que estava no Altar e depois de a examinar muito bem, concluiu que era. A pobre mulher recebeu então inteiramente o valor da toalha e remediou a seus filhos. Compreendeu-se a piedade que Nossa Senhora usara com a pobre mulher aflita, mandando pôr outra no Altar pelas mãos dos Anjos, tão parecida que não se pudesse julgar que a pobre mulher a tinha furtado. Creu-se assim que tinha ocorrido um Milagre de Nossa Senhora dos Mártires.
Acerto de agulhas
É natural que o “Milagre da toalha” tenha sido perpetuado na iconografia de Nossa Senhora dos Mártires e em particular na barrística popular de Estremoz. Daí que exista uma figura antropomórfica feminina, envergando um manto com um grande capuz, de mãos postas em atitude de oração, tendo ou não uma toalha branca assente sobre os punhos do vestido. A meu ver, deverá ser designada por “Nossa Senhora dos Mártires”, abandonando-se designações como: “Dama orando”, “Senhora com Manto”, “Maria” e “Nossa Senhora das Dores”.
A imagem devocional aqui estudada não possui nenhum dos atributos de Nossa Senhora das Dores. Sobre os punhos do vestido assenta aquilo que para mim configura ser uma toalha e não um lenço. A ser um lenço, segurá-lo-ia numa ou nas duas mãos, ou tê-lo-ia apoiado num braço. Logicamente e por analogia humana, nunca iria apoiar uma extremidade do tecido branco num punho do vestido e enfiar o braço debaixo, a fim de que a extremidade oposta do tecido ficasse apoiada no outro punho do vestido.
A meu ver, o que está representado na imagem devocional simboliza a oferta de uma toalha que foi feita a Nossa Senhora. E aqui entra o Milagre de Nossa Senhora dos Mártires, que envolve essa oferta.
A imagem já não é a mesma
A Capela de Nossa Senhora do Mártires, começou a construir-se em 1371 por iniciativa de D. Fernando I e terminou com D. Nuno Álvares Pereira, tendo sofrido modificações no reinado de D. Manuel I e de D. João V. Foi classificada como Monumento Nacional em 1922 e sofreu múltiplas intervenções no decurso do tempo, reabrindo ao culto em 1972. Pelo caminho ficou a primitiva imagem de Nossa Senhora dos Mártires de mãos postas e levantadas. Foi substituída por outra imagem também de roca, que segura o Menino Jesus ao colo e nada tem a ver com a imagem que está na génese do presente texto e cujo “Milagre da toalha” foi perpetuado na barrística popular de Estremoz.
Existem duas fotografias antigas da moderna imagem de Nossa Senhora dos Mártires: uma é do SIPA (1947) e outra de MÁRIO NOVAIS (1954). Curiosamente, qualquer delas está cercada por um arco com flores, à semelhança do arco com fita bordada que envolve a imagem congénere pertencente ao comendador Berardo e que está exposta no Museu Municipal.

BIBLIOGRAFIA
1 – Catálogo da Exposição “Barristas do Alentejo” realizada de 24 de Junho a 15 de Julho de 1962 no Palácio de D. Manuel em Évora. Grupo Pró-Évora. Évora, 1962. (págs. 26 e 34)   
2 – COSTA, Mário Alberto Nunes. Estremoz e o seu concelho nas “Memórias Paroquiais de 1758”. Separata do Boletim da Biblioteca da Universidade de Coimbra, Vol. XXV. Coimbra, 1961. (pág. 57)
3 - ESPANCA, Túlio. Inventário Artístico de Portugal - VIII. Distrito de Évora. Concelhos de Arraiolos, Estremoz, Montemor-o-Novo, Mora e Vendas Novas. Vol. I. Academia Nacional de Belas Artes. Lisboa, 1975. (pág. 91)
4 - FONSECA, Teresa. António Henriques da Silveira e as Memórias analíticas da vila de Estremoz. Câmara Municipal de Estremoz. Estremoz, 2003 (pág. 180).
5 - MATOS, Hernâni. Bonecos de Estremoz. Afrontamento. Estremoz / Póvoa de Varzim, 2018. (pág. 16)
6 - SANTA MARIA, Frei Agostinho de. Santuario Mariano, tomo VI. Na Officina de António Pedrozo Galram. Lisboa, 1718. (págs. 147, 148 e 149)
7 - VERMELHO, Joaquim. Barros de Estremoz. Limiar. Porto, 1990. (págs. 84 e 106)
Estremoz, 31 de Janeiro de 2020
(Jornal E nº 239, de 06-02-2020)
Publicado pela 1ª vez no blogue a 07-02-2020

Nossa Senhora dos Mártires. Fotografia SIPA (1947).

Nossa Senhora dos Mártires. Fotografia Mário Novais (1954).