sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Senhor dos Passos de Estremoz

Fig. 1 - Altar da Capela de D. Fradique de Portugal, no interior
da Igreja do Convento de São Francisco de Assis, em Estremoz.
Fotografia de Álvaro Azevedo Moura.

SENHOR DOS PASSOS DE ESTREMOZ
Em Estremoz, na Igreja do Convento de São Francisco de Assis, actual sede da Paróquia de Santo André, existe uma capela, chamada de D. Fradique de Portugal (Fig. 1). Segundo Monsenhor Mendeiros: “(…) já havia sido rasgada, no século de Quinhentos, a Capela de D. Fradique de Portugal, filho dos Condes de Faro, Odemira e Vimieiro, instituída para panteão da sua família, que teve o senhorio de Estremoz.” (4) “Esta pequena capela, aberta no terceiro tramo do flanco Sul do corpo da Igreja do Convento de São Francisco, é a principal obra manuelina da actual cidade de Estremoz, não apenas pela qualidade artística que evidencia, mas, sobretudo, pela figura cimeira da história europeia que a mandou construir e no seu interior se fez sepultar.” (3)
“Consagrada de princípio a S. FRANCISCO, depois ao SANTO CRISTO CRUCIFICADO, na segunda metade do séc. XVII, a consentimento dos donatários, nela se instalou a IRMANDADE DO SENHOR JESUS DOS PASSOS, que lhe concedeu a invocação persistente.” (2)
O retábulo do altar está dividido em três planos, com pinturas referentes à Paixão de Cristo. No plano superior destaca-se a imagem do Senhor Crucificado, ladeado pelas imagens em madeira estofada, representando S. Pedro de Verona e S. João de Capristano. No plano médio sobressai a imagem do Senhor dos Passos, ladeado pelas imagens de roca, de Nossa Senhora das Dores e de S. João Evangelista.
Sobre o altar diz o prior Fr. Fernando Roberto de Gouveia na “Memória sobre a Freguesia de Santo André de Estremoz”, redigida a 20 de Junho de 1758”: “O seu altar é de talha dourada, em que há muitas imagens, sendo as principais a do Senhor dos Passos, que por tradição se diz ser angelical e é uma das mais formosas de toda a Hespanha; a imagem perfeitíssima de Cristo Crucificado, em cujo lado se expõe(m) o Sacramento.” (1)
“No camarim forrado com placas de entalhe dourado, expõe-se a devotíssima imagem do padroeiro esculpido em lenho encarnado, de singular devoção dos antigos povos estremocenses.” (2)
“A imagem do Senhor dos Passos é a de maior devoção em Estremoz e considerada uma das mais artísticas do País.” (4) O Senhor dos Passos é uma invocação de Jesus Cristo que faz memória ao caminho por ele percorrido desde a sua condenação à morte no Pretório de Pôncio Pilatos até ao seu enterro, após ter sido crucificado no Calvário. Trata-se de uma devoção muito especial na Igreja Católica.
Em Estremoz, a Procissão do Senhor dos Passos, tem lugar no domingo anterior ao Domingo de Ramos ou seja duas semanas antes do Domingo de Páscoa. O trajecto da Procissão passa pelas Capelas dos Passos existentes na cidade, mandadas construir no início do séc. XVIII pela Irmandade do Senhor Jesus dos Passos. Inicialmente eram cinco, tendo desaparecido em 1960, a que estava junto da extinta Igreja de Santo André. As restantes, estão situadas na Rua da Porta da Lage (Bairro de Santiago), na embocadura da Rua Alexandre Herculano com o Largo do Espírito Santo, no alçado exterior direito da Igreja de São Francisco e do lado esquerdo da frontaria do Convento das Maltesas.
A Procissão do Senhor dos Passos, se num ano tem início na Igreja de Santa Maria do Castelo e termina na Igreja do Convento de São Francisco de Assis, no ano seguinte segue o trajecto inverso. Quando sai da Igreja de Santa Maria, o trajecto da Procissão é o seguinte: Largo de D. Dinis, Rua do Arco de Santarém, Rua Direita, Rua da Freirinha, Rua da Porta da Lage, Rua Alexandre Herculano, Largo do Espírito Santo, Rua Magalhães de Lima (antiga Rua das Freiras), Rua Vasco da Gama, Praça Luís de Camões, Largo da República e Rossio Marquês de Pombal (passagem frente à Igreja dos Congregados, seguida de viragem à esquerda e paragem junto ao Paço do Convento das Maltesas, para depois virar à esquerda, em direcção ao Passo da Igreja de São Francisco, onde para, para depois prosseguir em direcção à Igreja do Convento de São Francisco de Assis, no Largo dos Combatentes da Grande Guerra, onde termina.

ICONOGRAFIA DO SENHOR DOS PASSOS DE ESTREMOZ
É variada a iconografia do Senhor dos Passos de Estremoz. Assim, no Programa das Festas à Exaltação da Santa Cruz de 1902, editado pela Tipografia Samuel, de Estremoz, aparece uma gravura (Fig. 2) da autoria de Francisco Pastor, representando aquela imagem.

Gravura de Francisco Pastor, impressa no programa
das Festas da Exaltação da Cruz de 1902,
representando o Senhor dos Passos de Estremoz.

Saliente-se que Francisco Pastor (1850-1922), foi um notável gravador espanhol, que em Madrid foi discípulo de Severini. Em 1873 abriu um “Atelier de Gravura” na Rua do Ouro, 243-2º, em Lisboa. Ilustrador do “Diário Ilustrado” e do “Correio da Europa”. Criou uma editora própria que publicou obras de grande envergadura, entre as quais o “Dicionário Ilustrado” de Francisco de Almeida, para o qual abriu mais de três mil gravuras, assim como foi editor do “Almanach Ilustrado” que no ano de 1895 ia no 13º ano e custava 200 réis.
Foi com registo do Senhor dos Passos de Estremoz da autoria de Francisco Pastor, que “O falar das Mãos de Guilhermina Maldonado” criou a lâmina da Fig. 3. O registo impresso a preto sobre papel branco amarelecido pelo tempo, contém a legenda “Vera Effigie do Senhor Jesus dos Passos d’Estremoz”. As matérias-primas utilizadas foram: cartão, vidro, espelho, seda, frio prateado, canotilho de prata, flores de prata, galões, arame e fita de seda. O resto foi a paciência, o requinte, a delicadeza, a sensibilidade e a mensagem de Paz e Harmonia sempre presentes, que nos fazem render à Arte de Guilhermina Maldonado. A lâmina tem as seguintes dimensões 31,5cm x 34, 5 cm x 4,5 cm.

Fig. 3 - Lâmina com registo do Senhor dos Passos de Estremoz da autoria
de Francisco Pastor, que “O falar das Mãos de Guilhermina Maldonado” criou.
Dimensões: 31,5cm x 34, 5 cm x 4,5 cm.
Colecção do autor.

Conhecemos igualmente medalhas de barro vermelho representando o Senhor dos Passos de Estremoz. Trata-se de medalhas comemorativas das Festas da Exaltação da Santa Cruz de 1963 (Fig. 4) e de 1964 (Fig. 6). Qualquer delas tem de módulo 5,8 cm, 4 mm de espessura sem o relevo e pesa 20g. Ao centro a imagem do Senhor dos Passos de Estremoz. À esquerda, distribuída por três linhas a legenda: “FESTAS DA EXALTAÇÃO DA SANTA CRUZ / EM ESTREMOZ / ANO”. À direita da imagem do Senhor dos Passos, um ramo de sobreiro carregado de bolotas. Na parte superior, as medalhas têm um orifício para passar um fio, uma fita ou um alfinete-de-ama. A de 1963 apresenta no verso, a marca “OLARIA ALFACINHA / ESTREMOZ / PORTUGAL “ distribuída por três linhas e ocupando uma superfície de 1, 2 cm x 3 cm (fig. 5). Já a de 1964, ostenta a marca “ OLARIA ALFACINHA / ESTREMOZ “ inscrita numa coroa circular de 1,5 cm e 2 cm de diâmetro, com a palavra “PORTUGAL”, ao centro (Fig. 7).

 Fig. 4 - Medalha de barro vermelho, comemorativa das Festas da Exaltação da Santa Cruz
em Estremoz, no ano de 1963, representando o Senhor dos Passos de Estremoz.
Módulo: 5,8 cm; Espessura: 4 mm, sem o relevo; Peso: 20g.
Fabrico da Olaria Alfacinha.
Colecção do autor.
Fig. 5 - No verso da medalha anterior, a marca “OLARIA ALFACINHA / ESTREMOZ / PORTUGAL “
distribuída por três linhas e ocupando uma superfície de 1, 2 cm x 3 cm.
Fig. 6 - Medalha de barro vermelho, comemorativa das Festas da Exaltação da Santa Cruz
em Estremoz, no ano de 1964, representando o Senhor dos Passos de Estremoz.
Módulo: 5,8 cm; Espessura: 4 mm, sem o relevo; Peso: 20g.
Fabrico da Olaria Alfacinha. 
Colecção do autor.
Fig. 7 - No verso da medalha anterior, a marca “ OLARIA ALFACINHA / ESTREMOZ “
inscrita numa coroa circular de 1,5 cm e 2 cm de diâmetro, com a palavra “PORTUGAL”, ao centro.

Também no figurado de Estremoz encontramos representações do Senhor do Passos, como é o caso da imagem da Fig. 8, da autoria da barrista Maria Luísa da Conceição. À semelhança da imagem sagrada, Jesus é aqui representado envergando túnica roxa, carregando a cruz, com o joelho direito assente no solo e com a túnica a mostrar o pé esquerdo. Na cabeça, um esplendor e uma coroa de espinhos. A imagem assenta num andor sensivelmente quadrado, decorado à frente com flores.

Fig. 8 - Andor com o Senhor dos Passos de Estremoz,
da autoria da barrista estremocense Maria Luísa da Conceição.

Os exemplares da iconografia local do Senhor dos Passos, mais que objectos decorativos, são objectos de veneração e de oração dos fiéis.


BIBLIOGRAFIA

(1) – COSTA, Mário Alberto Nunes. Estremoz e o seu concelho nas “Memórias Paroquiais de 1758”. Separata do Boletim da Biblioteca da Universidade de Coimbra, Vol. XXV. Coimbra, 1961.
(2) - ESPANCA, Túlio. Inventário Artístico de Portugal-Distrito de Évora, Vol.VIII. Academia Nacional de Belas Artes. Lisboa, 1975.
(3) – IGESPAR
(4) - MENDEIROS, José Filipe. Património Religioso de Estremoz. Câmara Municipal de Estremoz. Estremoz, 2001.

8 comentários:

  1. Porque é que não há comentários ?... Hernâni não desistas da tua persistente prestação de ser útil culturalmente. Escrevemos sempre para alguém: embora essa dádiva tenha algum ostracismo e não o merecimento do apurado dar...um abraço para ti !

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  2. José:
    Os comentários são à medida da vontade das pessoas. E nem sempre os posts mais lidos são os mais comentados ou com mais g+.
    Eu quando tiver tempo, faço um post sobre isso. Todavia em 276 posts publicados, ter 1005 comentários, corresponde a ter recebido 3,6 comentários por post.

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  3. Dr.Hernani
    Meu avo, Francisco Antonio Amaral, foi membro da Irmandade do Senhor dos Passos durante alguns anos. Possuo vaga memoria disto pois era muito novita.
    Possuo medalhas de barro sem data mas que devem ser anteriores a decada de 60 e outras em metal tambem comemorativas das Festas da Exaltacao da Santa Cruz que sao de uma enorme beleza, apesar de serem muito leves. Conservo-as com muito carinho.
    Cumprimentos
    M Ceu Meira

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    1. D. Maria do Céu:
      Ando a fazer um levantamento da medalhística de Estremoz, tendo já publicado no post "MEDALHAS DE BARRO DE ESTREMOZ
      http://dotempodaoutrasenhora.blogspot.pt/2012/11/medalhas-de-barro-de-estremoz.html
      o que sei, com base nas medalhas de barro da minha colecção.
      Muito grato lhe fico se me puder facultar uma imagem digitalizada com scanner das suas medalhas de barro, bem como de qualquer marca que elas tenham no verso, assim como dimensões e peso em balança digital.
      No caso de lhe ser possível facultar-me estes elementos, pode enviar-mos para o meu e-mail hernanimatos@gmail.com .
      Continuo a aprofundar o estudo que esteve na origem do post “SENHOR DOS PASSOS DE ESTREMOZ”. Obtive na semana passada no Arquivo Municipal de Estremoz, uma fotocópia dos Estatutos da hoje inexistente Irmandade do Senhor Jesus dos Passos, fundada a 28 de Abril de 1913. Hei-de ir ao Arquivo da Diocese para ver se conheço qual era outrora o cerimonial da Procissão do Senhor Jesus dos Passos. Hoje vou com uma colega e um amigo, fazer fotografias e filmagem vídeo da procissão, que corre o risco de não se realizar devido ao estado do tempo. Se assim for, só haverá cerimónias em Santa Maria, das quais faremos igualmente reportagem.
      Sobre a Rainha Santa já escrevi o post “RAINHA SANTA ISABEL, PADROEIRA DE ESTREMOZ” http://dotempodaoutrasenhora.blogspot.pt/2012/11/rainha-santa-isabel-padroeira-de.html, também já tenho os Estatutos da hoje inexistente Irmandade e irei seguir igual procedimento.
      Queira receber os meus respeitosos cumprimentos.

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  4. Dr. Hernani
    Logo volte a Minha casa em Portugal terei o maior gosto em lhe enviar o que tiver sobre as medalhas, quer de barro, quer de metal (?).
    Os meus cumprimentos

    M Ceu Meira

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    1. D. Maria do Céu:

      Muito obrigado pela sua valiosa colaboração.
      Os meus melhores cumprimentos.

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    2. A título de curiosidade e claro que a propósito da imagem do Senhor dos Passos de Estremoz revelo aquilo que muito provavelmente pouca gente sabe, mesmo a nível da paróquia. O manto bordado a ouro que a imagem usa nos dias da Procissão foi oferecido, por vias de uma promessa feita pela minha bisavó, Maria da Graça Reynolds da Graça Zagalo. Também a cabeleira da imagem foi fruto da mesma promessa e deixado crescer para o efeito pela minha avó Maria Isabel R. Zagalo Pacheco, cuja saúde suscitou grande preocupação o que deu origem à promessa da sua mãe. A prova viva da fé vivida e demonstrada pela forma como se faziam e cumpriam estas promessas, assim como de geração em geração se perpetuam as histórias das terras e das familias que nelas foram criando raízes entrecruzando aambas as histórias.

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    3. Maria Isabel:
      Seria interessante saber a data de nascimento e falecimento da sua bisavó, para poder balizar temporalmente as suas referências. Suponho que tenha a árvore genealógica da família. Se não tiver, eu posso pesquisar no registo funerário do Cemitério de Estremoz ou no Arquivo Distrital de Évora.
      Os meus melhores cumprimentos.

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