quarta-feira, 7 de outubro de 2026

DIA NACIONAL DOS CASTELOS


Castelo de Estremoz.


A 7 de Outubro comemora-se o DIA NACIONAL DOS CASTELOS, efeméride Instituída em 1984, com o objectivo de promover em todo o País, acções que visem a reflexão sobre o Património fortificado, uma vez que os castelos, testemunhos da memória colectiva dos povos, constituem uma valorosa referência arquitectónica, histórica, cultural e simbólica de uma comunidade.

Neste dia são desenvolvidas actividades pedagógicas e lúdicas inteiramente dedicadas ao mundo dos castelos, para miúdos e graúdos, explorando as suas características próprias e evocando histórias, personagens e acontecimentos.

Outrora os castelos tinham funções defensivas e residenciais. Hoje perpetuam as memórias de um povo "conquistador" e fazem parte do imaginário infantil, tantos nos contos de princesas como nas construções de areia que o mar teima em derrubar.


Castelo de Estremoz.

quinta-feira, 1 de outubro de 2026

Artes do Vagar e Mestres do Saber-fazer / 6 - ROBERTO CARREIRAS (1930-2017)

 

01 - Roberto Carreiras (1930-2017)


CRÉDITOS FOTOGRÁFICOS
Cortesia do Arquivo Fotográfico da CME
(Roberto Carreiras) e Luís Dias (peças)
.


Natural da Veiros (Estremoz), onde nasceu na Quinta do Leão. Aqui começou como vaqueiro e ali trabalhou toda a vida até se reformar.

Iniciou-se na Arte Pastoril como forma de ocupar o tempo enquanto guardava a manada. Os materiais usados começaram por ser a madeira, a cortiça, a cabaça, a cana, o buinho e o chifre. Estes eram trabalhados usando técnicas como a escultura ou o baixo-relevo. Todavia, viria a utilizar outros materiais como o arame, o xisto ou o mármore, nos quais expressava toda a sua imaginação criadora. De resto, era muito diversificada a temática das suas criações: brinquedos, antigas profissões, história, religião, touradas, etc.

Participou nas feiras de artesanato de Estremoz desde 1983. 

Hernâni Matos


02 - Colheres antropomórficas (par). Madeira. Cabos com decoração antropomórfica
obtida por vazamento, configurando um homem e uma mulher, de corpo inteiro. 42 x 6 cm.

03 - Colher e garfo. Madeira. Cabos com decoração incisa, fitomórfica e cordiforme. 35 x 5 cm.

04 - Rainha Santa Isabel. Madeira. Decoração incisa. 28 x 8 cm.

05 - Nossa Senhora do Rosário. Escultura em madeira. 27 x 5,5 cm.

Publicado no jornal E nº 387, de 2 de Outubro de 2026


segunda-feira, 28 de setembro de 2026

RUI SIMÕES ALVES (1956-2026) - Nota de pesar da Academia Portuguesa de Cinema




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É com profunda tristeza que a Academia Portuguesa de Cinema manifesta o seu pesar pelo falecimento de Rui Alves, profissional de cinema, cenógrafo, aderecista, artista plástico e homem de múltiplos talentos, cuja longa carreira ficou marcada por uma extraordinária dedicação ao cinema e às artes.

Nascido em Estremoz, em 1956, Rui Alves frequentou o Curso de Artes Gráficas da Escola António Arroio e iniciou, em 1975, um percurso profissional que se estenderia por várias décadas e por diferentes áreas da criação artística. Cinema, fotografia, teatro, publicidade, decoração, adereços, efeitos especiais, pintura e escultura fizeram parte de uma atividade marcada pela curiosidade, pela versatilidade e por uma permanente disponibilidade para criar.

No cinema, construiu um percurso particularmente rico, trabalhando em diferentes funções ligadas à cenografia, aos adereços e à construção dos universos visuais dos filmes. Desde os primeiros trabalhos como assistente de cenografia, no final da década de 1970, colaborou em produções portuguesas e internacionais, assumindo ao longo dos anos responsabilidades como aderecista, aderecista de plateau, assistente de decoração e responsável pela construção de adereços.

O seu nome encontra-se associado a numerosas produções, entre as quais O Conde de Monte Cristo, Le Cercle des Passions, La Lettre Voullè, To Catch a King, Giovanni Toscanini, Arsène Lupin, L'Accompagnatrice e Fado pour une jeune fille, revelando desde cedo a dimensão internacional do seu percurso profissional.

Ao longo da sua carreira, Rui Alves colaborou igualmente em importantes obras do cinema português. Foi responsável pela construção de adereços em Non ou a Vã Glória de Mandar, de Manoel de Oliveira, e trabalhou como aderecista de plateau e em efeitos especiais em Sinais de Fogo, entre muitos outros filmes.

A sua relação com o cinema estendeu-se ainda à cenografia e à decoração. Em A Moura Encantada, de Manuel Costa e Silva, surge creditado como aderecista e cenógrafo, testemunhando a amplitude das competências que colocou ao serviço das produções em que participou.

Mas a sua atividade artística não se limitou ao cinema. Rui Alves foi também pintor e escultor, desenvolvendo uma obra própria em que explorou formas, volumes, cores e texturas. Expôs regularmente o seu trabalho, apresentando, entre outras, a exposição Casas, em Lisboa, e mostras realizadas em Estremoz, Évora e Aveiro.

Essa multiplicidade de interesses e saberes definia também a sua presença profissional: um artista capaz de transitar entre o trabalho manual e a criação plástica, entre a construção de objetos e a composição de espaços, colocando a sua experiência e imaginação ao serviço das histórias que o cinema procurava contar.

Ao longo de uma carreira iniciada ainda nos anos 70, Rui Alves deixou uma marca discreta mas profunda nos bastidores de numerosas produções. O seu trabalho, muitas vezes invisível aos olhos do espectador, foi essencial para dar corpo, matéria e autenticidade aos mundos criados pelo cinema.

A Academia Portuguesa de Cinema presta homenagem ao seu percurso e ao importante contributo que deu ao cinema português, recordando um profissional de grande versatilidade e um artista cuja generosidade criativa se manifestou em múltiplos campos.

Aos seus familiares, amigos, colegas e a todos aqueles que com ele partilharam tantos anos de trabalho e amizade, a Academia Portuguesa de Cinema apresenta as suas mais sentidas condolências.




quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Ser híbrido triplo - Um Picasso invulgar

 

Ser híbrido triplo. Jarra moldada de Estremoz. 44cm de altura.
Sem marca de autor. Colecção Hernâni Matos.


Adquiri recentemente uma peça olárica em barro vermelho de Estremoz, inteiramente polida, de 44 cm de altura, sem marca de autor, pertencente à classe das peças moldadas de feição modernista, vulgarmente designada por Picassos.

Trata-se de uma jarra invulgar, constituída por uma figura extremamente bela e elegante, assente numa base hexagonal.

A imagem configura ser a representação de um ser híbrido triplo, com cabeça e torso humano, as asas de uma ave e uma cauda de peixe. Não sei nem quero especular sobre a real intenção que na mente do oleiro presidiu à concepção desta figura. Apenas posso passar em revista marcos históricos que de algum modo têm a ver com a representação de seres. híbridos.

Na História da Arte, a representação de figuras híbridas é uma das marcas mais fortes do Surrealismo, o qual revolucionou a arte através da libertação do inconsciente, dos sonhos e da imaginação, rejeitando o controlo da razão, da lógica e das convenções sociais ou morais. Tais criaturas híbridas desafiam a lógica da realidade e combinam elementos que, no mundo real, nunca existiriam juntos.

Na Idade Média, os Bestiários, os Saltérios e os Livros de Horas também continham ilustrações com seres híbridos, as quais misturavam o ar, a terra e o mar para chocar o leitor. De acordo com o Genesis, Deus tinha separado o céu, a terra e as águas, mas o Diabo tentava baralhar e fundir essas fronteiras. Ver este híbrido triplo naqueles livros lembrava ao leitor o caos que o aguardava no Inferno.

Esse hibridismo triplo simbolizava uma criatura que rompia as barreiras da Criação divina. Em vez de respeitar a ordem estabelecida por Deus, misturava planos opostos (o céu da ave e o abismo do peixe), tornando-se uma representação do caos e da subversão espiritual.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

Bonecos de Estremoz liliputianos - 5

 

Pomba no choco com arco (9,5 cm). Ana das Peles.
Colecção Hernâni Matos.

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Figuras de assobio

Os assobios (figuras de assobio) são Bonecos de Estremoz com morfologia e funcionalidade muito próprias, que os tornaram simultaneamente instrumentos musicais e brinquedos. Tradicionalmente eram agrupados em três grandes categorias: zoomórficos, antropomórficos e compostos.

Os assobios confeccionados por cada barrista, independentemente das marcas identitárias própria de cada um, resumiam-se a cerca de 15 exemplares, naturalmente que com variantes e incluíam apenas aves, cestos de ovos, sargentos, peraltas e senhoras de pezinhos, montados a cavalo ou apeados. Houve quem achasse isto monótono e talvez tenha pensado no soneto de Camões que proclama que: “Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades, / Muda-se o ser, muda-se a confiança; / Todo o mundo é composto de mudança, / Tomando sempre novas qualidades.” Vá daí que, sem fugirem à técnica de produção e à estética do Boneco de Estremoz, tenham criado novos exemplares nos quais a decoração das figuras de assobios é de tipo novo: Imagens devocionais (Ana Catarina Grilo), Peças de Olaria Enfeitada (Inocência Lopes) e Instrumentos Musicais Populares (Carlos Alberto Alves). Tratou-se de uma inovação temática, a qual pessoalmente destaco e valorizo.

À semelhança do que se passa com o núcleo central do Figurado de Estremoz, também as figuras de assobio podem de igual modo e muito legitimamente ser designados por Bonecos de Estremoz liliputianos. Para tal, basta não ultrapassarem os 15 cm de altura.

Hernâni Matos

Pombos na árvore (7,3 cm). Irmãs Flores.
Colecção Hernâni Matos.

Menino Jesus Bom Pastor (5 cm) Ana Catarina Grilo.
Colecção Hernâni Matos.

Cantarinha enfeitada (10 cm). Inocência Lopes.
Colecção Hernâni Matos.

Harmónio (4,3 cm). Carlos Alberto Alves. 
Colecção Hernâni Matos.

domingo, 20 de setembro de 2026

Bonecos de Estremoz liliputianos - 4

 

Figuras de presépio de maquineta da autoria de Ricardo Fonseca. Pastor ofertante
(5,8 cm),  pastora ofertante (5,4 cm), vaca (3,8 cm), burro (3,5 cm) e ovelha (2,7 cm).
Colecção Hernâni Matos.


Figuras de Presépio de maquineta

Uma maquineta de Presépio é um armário ou caixa de tamanho variável, a qual guarda e protege figuras de Presépio, tanto da poeira como do manuseio.

As maquinetas de Presépio têm origem conventual, uma vez que o conceito, a técnica de fabrico e a estética destas peças, nasceu e desenvolveu-se nos conventos femininos portugueses no decurso dos séculos XVII e XVIII.

São conhecidas maquinetas de diferentes épocas, tipologias e materiais.

Podem assumir a forma de armário em madeira entalhada, pintada ou dourada, com uma frente e até mesmo as partes laterais envidraçadas, permitindo a visualização do interior. O armário aloja uma cenografia relativa à Natividade, com figuras de Presépio, que no caso que nos interessa, são minúsculos Bonecos de Estremoz.

Podem ainda adoptar a forma de caixa de vidro com geometria variável assente numa base de madeira com pés, em cujo interior uma cenografia alusiva à Natividade enquadra figuras de Presépio, os quais podem ser minúsculos Bonecos de Estremoz.

As maquinetas de Presépio são simultaneamente objectos de devoção doméstica e peças decorativas de prestígio e mesmo objectos de luxo, comuns em antigas casas senhoriais ou em lares burgueses.

O facto de as figuras de Presépio de Estremoz que integram maquinetas terem dimensões minúsculas, levam-me a classifica-las como Bonecos de Estremoz liliputianos.


Maquineta construída e decorada por Guilhermina Maldonado (1937-2019) com Presépio
 de Bonecos de Estremoz liliputianos, incluindo cenas de Natividade,   Adoração dos
Magos e  Adoração dos Pastores, da autoria das  Irmãs Flores. 25 x 14 x 20 cm. 
Colecção Hernâni Matos.

Maquineta construída e decorada por Guilhermina Maldonado
(1937-2019) com Menino Jesus liliputiano da autoria das Irmãs
Flores. 13,3 x 6,8 x 14,2 cm.
Colecção Hernâni Matos.

sábado, 19 de setembro de 2026

Bonecos de Estremoz liliputianos - 3

 

Enfeite de rolha - Bailadeira (2015). Maria Luísa da Conceição (1934-2015).
Colecção Jorge da Conceição.



Enfeites de rolha

Uma garrafa vale por si, não só pela elegância da sua morfologia, como pela beleza da sua decoração ou pela harmonia do seu cromatismo. Todavia e para além disso, uma garrafa vale igualmente pelo líquido que encerra em si. Tanto pode ser um vinho solarengo e telúrico, como uma aguardente envelhecida em cascos de carvalho ou um licor aveludado e envolvente.

A conservação do tempo e da alma do conteúdo de uma garrafa exige que esta seja selada com a nobreza da cortiça alentejana, o que é concretizado através de uma rolha.

Alguns barristas de Estremoz têm criado enfeites de rolha com cabeças de figuras que integram o Figurado de Estremoz e reflectem a identidade cultural alentejana.

Os enfeites de rolha que ilustram o presente texto, foram criados pela barrista Maria Luísa da Conceição (1934-2015) e têm cerca de 5 cm de altura, pelo que podem ser considerados Bonecos de Estremoz liliputeanos. São eles: Bailadeira, Camponês e Preta. Remontam todos a 2015 e pertencem à colecção particular de seu filho, Mestre Jorge da Conceição. 



Enfeite de rolha - Camponês (2015). Maria Luísa da Conceição (1934-2015).
Colecção Jorge da Conceição.

Enfeite de rolha - Preta (2015). Maria Luísa da Conceição (1934-2015).
Colecção Jorge da Conceição.