quinta-feira, 24 de setembro de 2026

Ser híbrido triplo - Um Picasso invulgar

 

Ser híbrido triplo. Jarra moldada de Estremoz. 44cm de altura.
Sem marca de autor. Colecção Hernâni Matos.


Adquiri recentemente uma peça olárica em barro vermelho de Estremoz, inteiramente polida, de 44 cm de altura, sem marca de autor, pertencente à classe das peças moldadas de feição modernista, vulgarmente designada por Picassos.

Trata-se de uma jarra invulgar, constituída por uma figura extremamente bela e elegante, assente numa base hexagonal.

A imagem configura ser a representação de um ser híbrido triplo, com cabeça e torso humano, as asas de uma ave e uma cauda de peixe. Não sei nem quero especular sobre a real intenção que na mente do oleiro presidiu à concepção desta figura. Apenas posso passar em revista marcos históricos que de algum modo têm a ver com a representação de seres. híbridos.

Na História da Arte, a representação de figuras híbridas é uma das marcas mais fortes do Surrealismo, o qual revolucionou a arte através da libertação do inconsciente, dos sonhos e da imaginação, rejeitando o controlo da razão, da lógica e das convenções sociais ou morais. Tais criaturas híbridas desafiam a lógica da realidade e combinam elementos que, no mundo real, nunca existiriam juntos.

Na Idade Média, os Bestiários, os Saltérios e os Livros de Horas também continham ilustrações com seres híbridos, as quais misturavam o ar, a terra e o mar para chocar o leitor. De acordo com o Genesis, Deus tinha separado o céu, a terra e as águas, mas o Diabo tentava baralhar e fundir essas fronteiras. Ver este híbrido triplo naqueles livros lembrava ao leitor o caos que o aguardava no Inferno.

Esse hibridismo triplo simbolizava uma criatura que rompia as barreiras da Criação divina. Em vez de respeitar a ordem estabelecida por Deus, misturava planos opostos (o céu da ave e o abismo do peixe), tornando-se uma representação do caos e da subversão espiritual.

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