Adquiri recentemente uma peça
olárica em barro vermelho de Estremoz, inteiramente polida, de 44 cm de altura,
sem marca de autor, pertencente à classe das peças moldadas de feição
modernista, vulgarmente designada por Picassos.
Trata-se de uma jarra invulgar, constituída
por uma figura extremamente bela e elegante, assente numa base hexagonal.
A imagem configura ser a
representação de um ser híbrido triplo, com cabeça e torso humano, as asas de uma ave e
uma cauda de peixe. Não sei nem quero especular sobre a real intenção que na
mente do oleiro presidiu à concepção desta figura. Apenas posso passar em revista
marcos históricos que de algum modo têm a ver com a representação de seres. híbridos.
Na História da Arte, a representação
de figuras híbridas é uma das marcas mais fortes do Surrealismo, o qual revolucionou
a arte através da libertação do inconsciente, dos sonhos e da imaginação,
rejeitando o controlo da razão, da lógica e das convenções sociais ou morais.
Tais criaturas híbridas desafiam a lógica da realidade e combinam elementos
que, no mundo real, nunca existiriam juntos.
Na Idade Média, os Bestiários,
os Saltérios e os Livros de Horas também continham
ilustrações com seres híbridos, as quais misturavam o ar, a terra e o mar para
chocar o leitor. De acordo com o Genesis, Deus tinha separado o céu, a
terra e as águas, mas o Diabo tentava baralhar e fundir essas fronteiras. Ver
este híbrido triplo naqueles livros lembrava ao leitor o caos que o aguardava
no Inferno.

Sem comentários:
Enviar um comentário