sábado, 5 de dezembro de 2015
sexta-feira, 4 de dezembro de 2015
Poesia Portuguesa - 069
(Poema dedicado a Catarina Eufémia)
Papiniano Carlos (1918-2012)
Papiniano Carlos (1918-2012)
Na fome verde das searas roxas
passeava sorrindo Catarina.
Na fome verde das searas roxas
ai a papoula cresce na campina!
Na fome roxa das searas negras
que levas, Catarina, em tua fronte?
Na fome roxa das searas negras
ai devoravam os corvos o horizonte!
que levas, Catarina, em tua fronte?
Na fome roxa das searas negras
ai devoravam os corvos o horizonte!
Na fome negra das searas rubras
ai da papoula, ai de Catarina!
Na fome negra das searas rubras
trinta balas gritaram na campina.
ai da papoula, ai de Catarina!
Na fome negra das searas rubras
trinta balas gritaram na campina.
Trinta balas
te mataram a fome, Catarina.
Papiniano
Carlos (1918-2012)
quinta-feira, 3 de dezembro de 2015
Poesia portuguesa - 068
Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)
O primeiro tema da reflexão grega é a justiça
E eu penso nesse instante em que ficaste exposta
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente
Estavas grávida porém não recuaste
Porque a tua lição é esta: fazer frente
Pois
não deste homem por ti
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método obíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E não ficaste em casa a cozinhar intrigas
Segundo o antiquíssimo método obíquo das mulheres
Nem usaste de manobra ou de calúnia
E
não serviste apenas para chorar os mortos
Em que era preciso que alguém não recuasse
E a terra bebeu um sangue duas vezes puro
Porque eras a mulher e não somente a fêmea
Eras a inocência frontal que não recua
Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste
quarta-feira, 2 de dezembro de 2015
O Cavaleiro da Esperança
Desde sempre a direita procurou “Dividir para
reinar”. Todavia esqueceu-se “…que o sonho comanda a vida, / que sempre que um
homem sonha / o mundo pula e avança / como bola colorida entre as mãos de uma
criança.” (António Gedeão). Daí lhes “Sair o tiro pela culatra”. É que as
hostes da esquerda tiveram a capacidade de se afastarem das árvores para verem
a floresta. E porque “A falar é que a gente se entende” tiveram consciência de
que “A união é força, como a divisão é fraqueza”. Daí que PS, BE, PCP e PEV
tenham constituído uma maioria parlamentar, que se assume como alternativa de
esquerda sólida e para a totalidade da legislatura, que visa assegurar uma
"convergência capaz de virar a página das políticas de austeridade",
bem como um "Governo estável, responsável, coerente e duradouro, na
perspectiva de uma legislatura". Daí que o Presidente da República não
tenha tido outra solução que a de convocar António Costa, a fim de o convidar a
formar Governo. Foi um gigantesco sapo que engoliu e cuja digestão lhe custará
o resto da vida. É que sabia antecipadamente que tal Governo iria passar na
Assembleia da República, suportado pela maioria de esquerda.
Anteriormente aquela estava dividida. Porém, “Nunca
é tarde para nos corrigirmos”, o que tem de ser feito com coragem. “A coragem é
meia batalha ganha”. Todos tiveram de meter algumas metas na gaveta e de
assumir compromissos, pois “Palavra é palavra” e “O tratado é sagrado”. As
conversações foram longas, já que “Quem conversa, não conta horas” e “O
trabalho tudo vence”. De resto, “Atrás do tempo, tempo vem” e “Com tempo e
esperança, tudo se alcança”.
Vão ser tempos de mudança: “Mudam-se os tempos,
mudam-se as vontades, / Muda-se o ser, muda-se a confiança: / Todo o mundo é
composto de mudança, Tomando sempre novas qualidades.”; “Continuamente vemos
novidades, / Diferentes em tudo da esperança: / Do mal ficam as mágoas na
lembrança, / E do bem (se algum houve) as saudades.” (Camões).
Acredito que "Enquanto há vida, há
esperança" e "A esperança é a última a morrer", já que “É
horrível assistir à agonia de uma esperança.” (Simone de Beauvoir) e “A
esperança é uma arma poderosa e nenhum poder no mundo pode privar-te dela.”
(Nelson Mandela).
Parafraseando o título do livro de Jorge Amado,
dedicado a Luís Carlos Prestes, é caso para dizer que as políticas do XXI
Governo Constitucional de António Costa, que irão substituir as anteriores
políticas de austeridade da coligação de direita, são “O Cavaleiro da
Esperança” do povo português.
A direita continua a fazer a cena do ladrão que
grita “Agarra que é ladrão”, mesmo depois de ter perdido tanto no “terreno” como
na “secretaria”.
A direita é torta e ignora que “Quem tem direito a
ser torto é o anzol”. A direita embriaga-se com as suas próprias palavras,
esquecida de que “Pela boca morre o peixe”.
Poesia Portuguesa - 067
O Senhor Morghado
António de Macedo Papança (1852-1913)
(Conde de Monsaraz)
(Conde de Monsaraz)
O
senhor morgado
vai
no seu murzelo,
todo
impertigado,
é
um gosto vê-lo
próspero,
anafado,
véstia
alentejana,
calça
de riscado:
Homem
duma cana!
Vai,
todo se ufana
de
ir tão bem montado.
E
ela na janela...
Seja
Deus louvado!
O
senhor morgado
vai
nas próprias pernas,
todo
bandeado;
Tem
palavras ternas
para
cada lado.
Quando
passa, sente
que
é temido e amado;
Fala
a toda a gente.
Topa
um influente:
"Sou
um seu criado..."
Eleições
à porta,
Seja
Deus louvado!
O
senhor morgado
vai
na sege rica
todo
repimpado
ai
que bem lhe fica
o
chapéu armado
e
a comenda ao peito
e
o espadim ao lado!
Que
homem tão perfeito!
Deputado
eleito
muito
bem votado,
vai
para o Te-Deum,
Seja
Deus louvado!
António de Macedo Papança (1852-1913)
(Conde de Monsaraz)
António de Macedo Papança (1852-1913)
(Conde de Monsaraz)
terça-feira, 1 de dezembro de 2015
Poesia Portuguesa - 066
Quanto mais amada mais desisto
Natália Correia (1923-1993)
De amor nada mais resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto:
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.
E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.
Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.
Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.
Natália Correia (1923-1993)
Fabrico dos Chocalhos é Património da Humanidade
O chocalheiro António Augusto Sim-Sim, de Estremoz, mostra o
maior chocalho feito por si.
Fotografia NUNO VEIGA/LUSA.
Transcrevo com regozijo e com a devida vénia,
a notícia do Município de Viana do Alentejo
(http://www.cm-vianadoalentejo.pt/)
de 1 de Dezembro de 2015.
O fabrico dos chocalhos, uma arte em vias de
desaparecer, foi classificado pela UNESCO como Património Cultural Imaterial
com Necessidade de Salvaguarda Urgente.
A distinção foi aprovada, hoje, dia 1 de dezembro,
pelo Comité Intergovernamental para a Salvaguarda do Património Cultural
Imaterial reunido na Namíbia.
A conquista desta distinção facilitará a
preservação e proteção desta arte secular, apostando em medidas de salvaguarda
e promoção da mesma.
De salientar que a candidatura do fabrico dos
chocalhos a Património da Humanidade foi entregue na UNESCO em maio de 2014.
Durante a fase de análise, no passado mês de novembro, o parecer da UNESCO
classificou o dossiê da candidatura, um “modelo” a seguir e recomendou a
inscrição do fabrico dos chocalhos na Lista do Património Cultural Imaterial
com Necessidade de Salvaguarda Urgente.
Recorde-se que o processo de candidatura que teve
âmbito nacional, coordenado pelo antropólogo Paulo Lima, foi liderado pela
Turismo do Alentejo e Ribatejo, em colaboração com a Câmara Municipal de Viana
do Alentejo e a Junta de Freguesia de Alcáçovas.
A classificação do fabrico dos chocalhos vem
juntar-se aos 3 selos de Património Mundial que a região Alentejo já tinha:
Centro Histórico de Évora (1986), as Fortificações de Elvas (2012) e o Cante
Alentejano (2014).
O fabrico dos chocalhos era uma das 43 candidaturas
em análise na Namíbia.
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