sábado, 24 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 028



Elegia do Amor
Teixeira de Pascoaes (1877-1952)
  
Lembras-te, meu amor,
Das tardes outonais,
Em que íamos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
Alegre e dos casais,
Onde só Deus pudesse
Ouvir-nos conversar?
Tu levavas, na mão,
Um lírio enamorado,
E davas-me o teu braço;
E eu, triste, meditava
Na vida, em Deus, em ti...
E, além, o sol doirado
Morria, conhecendo
A noite que deixava.
Harmonias astrais
Beijavam teus ouvidos;
Um crepúsculo terno
E doce diluía,
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos...
Erravam, pelo Azul,
Canções do fim do dia.
Canções que, de tão longe,
O vento vagabundo
Trazia, na memória...
Assim o que partiu
Em frágil caravela,
E andou por todo o mundo,
Traz, no seu coração,
A imagem do que viu.

Olhavas para mim,
Às vezes, distraída,
Como quem olha o mar,
À tarde, dos rochedos...
E eu ficava a sonhar,
Qual névoa adormecida,
Quando o vento também
Dorme nos arvoredos.
Olhavas para mim...
Meu corpo rude e bruto
Vibrava, como a onda
A alar-se em nevoeiro.
Olhavas, descuidada
E triste... Ainda hoje escuto
A música ideal
Do teu olhar primeiro!
Ouço bem tua voz,
Vejo melhor teu rosto
No silêncio sem fim,
Na escuridão completa!
Ouço-te em minha dor.
Ouço-te em meu desgosto
E na minha esperança
Eterna de poeta!
O sol morria, ao longe;
E a sombra da tristeza
Velava, com amor,
Nossas doridas frontes.
Hora em que a flor medita
E a pedra chora e reza,
E desmaiam de mágoa
As cristalinas fontes.
Hora santa e perfeita,
Em que íamos, sozinhos,
Felizes, através
Da aldeia muda e calma,

Mãos dadas, a sonhar,
Ao longo dos caminhos...
Tudo, em volta de nós,
Tinha um aspecto de alma.
Tudo era sentimento,
Amor e piedade.
A folha que tombava
Era alma que subia...
E, sob os nossos pés,
A terra era saudade,
A pedra comoção
E o pó melancolia.
Falavas duma estrela
E deste bosque em flor;
Dos ceguinhos sem pão,
Dos pobres sem um manto.
Em cada tua palavra,
Havia etérea dor;
Por isso, a tua voz
Me impressionava tanto!
E punha-me a cismar
Que eras tão boa e pura,
Que, muito em breve — sim!
Te chamaria o céu!
E soluçava, ao ver-te
Alguma sombra escura,
Na fronte, que o luar
Cobria, como um véu.
A tua palidez
Que medo me causava!
Teu corpo era tão fino
E leve (oh meu desgosto!)
Que eu tremia, ao sentir
O vento que passava!
Caía-me, na alma,
A neve do teu rosto.

Como eu ficava mudo
E triste, sobre a terra!
E uma vez, quando a noite
amortalhava a aldeia,
Tu gritaste, de susto,
Olhando para a serra:
— Que incêndio! — E eu, a rir,
Disse-te — É a lua cheia!...
E sorriste também
Do teu engano. A lua
Ergueu a branca fronte,
Acima dos pinhais,
Tão ébria de esplendor,
Tão casta e irmã da tua,
Que eu beijei sem querer,
Seus raios virginais.
E a lua, para nós,
Os braços estendeu.
Uniu-nos num abraço,
Espiritual, profundo,
E levou-nos assim,
Com ela, até ao céu
Mas, ai, tu não voltaste
E eu regressei ao mundo.

Teixeira de Pascoaes (1877-1952)

As duas Igrejas

Um copo de vinho.
Alessandro Sani (1856-1927).
Óleo sobre tela (38 x 45.7 cm).
Colecção particular.

Os problemas sociais modernos merecem a atenção da Igreja Católica, que através de encíclicas e pronunciamentos papais, procura dar um conjunto de ensinamentos que integram a Doutrina Social da Igreja. Esta aborda múltiplos temas capitais como: “ - a pessoa humana, sua dignidade, seus di­reitos e suas liberdades; - a família, sua vo­ca­ção e seus direitos; - inserção e participação responsável de cada homem na vida social; - o bem comum e sua pro­mo­ç­ão, no respeito dos princípios da solidariedade e subsidiaridade; ­- o destino universal dos bens da natureza e cui­dado com a sua preservação e de­fe­sa do ambiente; - o desenvolvimento in­tegral de cada pessoa e dos povos; - o primado da justiça e da caridade. Tais ensinamentos sobre os problemas sociais modernos, encontram na encíclica “Rerum Novarum” (1891) de Leão XIII (1810-1903) a sua carta magna.
Apesar da sua postura actual, a Igreja Católica nem sempre foi assim. Durante a Idade Média (476-1453) conquistou e manteve grande poder económico, político, jurídico e social, não permitindo opiniões contrárias aos seus dogmas. Aqueles que se atreviam a fazê-lo eram perseguidos e punidos pela Inquisição, que prendeu, torturou e queimou na fogueira milhares de pessoas. Na Idade Moderna (1453-1789) e mesmo na Idade Contemporânea (de 1789 em diante), a Igreja Católica caminhou lado a lado com o Estado, com um interregno em Portugal durante a I República (1910-1926), mas retomando o caminho anterior no decurso do Estado Novo (1926-1974).
Ao longo dos séculos, o espírito crítico da arraia-miúda nunca viu com bons olhos, a postura de certos membros da hierarquia da Igreja Católica. Essa desconfiança ficou registada na memória colectiva sob a forma de provérbios, que podemos sistematizar em 3 grandes grupos:
- FRADES: Basta um frade ruim para dar que falar a um convento. Contratos com frades, nem por boca nem por escrito. Daquilo que bem lhe sabe, não reparte o frade. Em traseira de mula e dianteira de frade, ninguém se fie. Frade e mulher, duas garras do diabo. Frade Nabiça tudo que vê, cobiça. Frade onde canta, aí janta. Frade que pede para Deus, pede para dois. Guarda-te do frade e do cão que não sai da grade. Hábito de frade e saia de mulher, chega onde quer. Ladrão que anda com frade, ou o frade será ladrão, ou o ladrão frade. Mais depressa se torna o frade ladrão do que o ladrão frade. Não dá o frade o que bem lhe sabe, nem a freira o que bem lhe cheira. Nem a chocarreiro nem a frade fora do mosteiro, dês do teu dinheiro. O frade por onde anda, não lhe falta pão na manga. Qual é o frade que não tem dois capotes? Treze é a dúzia do frade.
- FREIRAS: Biscoito de freira, fanga de trigo. Casar ou meter a freira. Em caso de necessidade, casa a freira com o frade. Frade, freira e mulher rezadeira, são três pessoas distintas e nenhuma verdadeira. Freiras e frieiras é coçá-las e deixá-las. Não dá o frade o que bem lhe sabe, nem a freira o que bem lhe cheira. Quando a abadessa é careca, as freiras são pouco encabeladas.
- PADRES: Dos três pp livre-me Deus: padre, pombo e parente. Feliz que nem filho de padre. O padre ganha-o a cantar. Ódio de padre não respeita comadre. Padre de versos, padre de netos. Padre e cão olham para a mão. Padre mouco não confessa. Padre muito rezador, mulher muito beata, homem muito cortês, é livrar de todos três. Padre novo e bonito, aqui d'el-rei que eu grito. Padres e patos, nunca estão satisfeitos. Padres, músicos e foliões são caros pelo que apanham pelo dente. Um padre a pecar conta a dobrar.

Ode à Paz - Natália Correia




ODE À PAZ
Natália Correia (1923-1993)

Pela verdade, pelo riso, pela luz, pela beleza, 
Pelas aves que voam no olhar de uma criança, 
Pela limpeza do vento, pelos actos de pureza, 
Pela alegria, pelo vinho, pela música, pela dança, 
Pela branda melodia do rumor dos regatos, 

Pelo fulgor do estio, pelo azul do claro dia, 
Pelas flores que esmaltam os campos, pelo sossego dos pastos, 
Pela exactidão das rosas, pela Sabedoria, 
Pelas pérolas que gotejam dos olhos dos amantes, 
Pelos prodígios que são verdadeiros nos sonhos, 
Pelo amor, pela liberdade, pelas coisas radiantes, 
Pelos aromas maduros de suaves outonos, 
Pela futura manhã dos grandes transparentes, 
Pelas entranhas maternas e fecundas da terra, 
Pelas lágrimas das mães a quem nuvens sangrentas 
Arrebatam os filhos para a torpeza da guerra, 
Eu te conjuro ó paz, eu te invoco ó benigna, 
Ó Santa, ó talismã contra a indústria feroz. 
Com tuas mãos que abatem as bandeiras da ira, 
Com o teu esconjuro da bomba e do algoz, 
Abre as portas da História, 
                               deixa passar a Vida! 

Natália Correia (1923-1993)

Hernâni Matos
Publicado inicialmente em 24 de Outubro de 2015

#Poesia Portuguesa - 005

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 027


Fim
Mário de Sá Carneiro (1890-1916)

Quando eu morrer batam em latas,
Rompam aos saltos e aos pinotes,
Façam estalar no ar chicotes,
Chamem palhaços e acrobatas!

Que o meu caixão vá sobre um burro
Ajaezado à andaluza...
A um morto nada se recusa,
Eu quero por força ir de burro.

Mário de Sá Carneiro (1890-1916)


quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 026


Química
José Saramago (1922-2010)

Sublimemos, amor. Assim as flores
No jardim não morreram se o perfume
No cristal da essência se defende.
Passemos nós as provas, os ardores:
Não caldeiam instintos sem o lume
Nem o secreto aroma que rescende.

José Saramago (1922-2010)

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 025


Versos do trinco da porta
António Sardinha (1887-1925)

Versos do trinco da porta,
- Louvado seja o Senhor!
A casa é Deus quem ma guarda,
Ninguém a guarda melhor!

Batem os pobres à porta,
- Batem com ar de humildade.
"Eu sei que é pouco irmãozinho!
É pouco, mas de vontade!"

Quem é que a porta abriria,
Com modos de atrevimento?
São coisas da criadagem!
Não foi ninguém, - é o vento!

Mexem no trinco da porta.
- "Levante, faça favor!"
A entrada nunca se nega
Seja a visita quem for!

Não vês a porta batendo?
Que aragem essa que corta!
Em toda a volta do dia,
Não pára o trinco da porta!

Trinco da porta caindo
Sobre a partida de alguém...
Oh, quantos vão e não voltam?!
São os que a morte lá tem!

António Sardinha (1887-1925)

terça-feira, 20 de outubro de 2015

Bonecos de Estremoz, de Ricardo Fonseca

 1 - Cartaz da Exposição. 

Bonecos de Estremoz, de Ricardo Fonseca
Galeria Municipal D. Dinis
9 de Outubro a 5 de Dezembro de 2015
Exposição de cerca de 30 figuras, distribuídas por grupos temáticos.

De acordo com o Génesis, no sexto dia da criação do Mundo, Deus moldou o primeiro homem a partir do barro. Foi com esse mesmo barro que as bonequeiras de setecentos começaram a criar aquilo que se convencionou chamar “Bonecos de “Estremoz”. Trata-se de uma manufactura “sui-generis” que a distingue de todo o figurado português. Nela, o todo é criado a partir das partes, recorrendo a três geometrias distintas: a bola, o rolo e a placa. São elas que com tamanhos variáveis são utilizadas na gestação de cada boneco. Para tal são coladas umas às outras, recorrendo a barbutina e afeiçoadas pelas mãos mágicas dos artesãos, que lhes transmitem vida e significado.
A técnica ancestral de produção de “Bonecos de “Estremoz” transmitiu-se ao longo dos séculos e tem em Ricardo Fonseca o benjamim dos barristas. Natural de Estremoz, onde nasceu há 29 anos, o artesão tem o 12º ano de escolaridade, tendo cursado Artes na Escola Secundária Rainha Santa Isabel, onde adquiriu saberes no âmbito da Pintura, da Escultura e da História de Arte.
Sobrinho de peixe sabe nadar. O seu tio Ilídio foi oleiro na Olaria Alfacinha, onde ainda trabalhava em 1983. As irmãs Flores, suas tias, são bonequeiras. A Maria Inácia desde 1972 e a Perpétua desde 1976. Não admira pois que se tenha sentido fascinado pela plasticidade do barro e pelas transmutações que ele permite, já que como diz o poeta António Simões: “Barro incerto do presente, / Vai moldar-te a mão do povo / Vai dar-te forma diferente, / Para que sejas barro novo.” Daí que Ricardo tenha começado a manusear o barro aí pelos doze anos, fazendo a aprendizagem com as sua tias. Aos quinze anos já fazia pequenos presépios e algumas imagens que vendia aos turistas, assegurando assim a mesada para os seus gastos juvenis. 
Ao sair da Escola em 2005, começou a trabalhar com as tias na oficina-loja do Largo da República. Foi então que a manufactura de bonecos deixou de ser uma brincadeira e passou a ser o seu mester. A execução das figuras continuou, todavia, a ser feita com imenso prazer e igual paixão, pois como diz o adagiário “O trabalho é o mestre do ofício” e “O prazer no trabalho aperfeiçoa a obra”.
Trabalha muitas vezes por encomenda, o que é caso para dizer “A boa obra, se vai pedida, já vai comprada e bem vendida”. Confecciona espécimes dentro e fora do núcleo base do figurado de Estremoz. Entre os modelos que registam maior procura figuram: “O Amor é Cego”, “Primavera”, “Rainha Santa Isabel” e “Presépios”. São de sua criação, figuras como “O professor”, “Fernando Pessoa”, “Cavaleiro Tauromáquico”, “Forcado”, “Rainha Santa Isabel alimentando um pobre”, “Santiago”, “Senhor dos Passos com Nossa Senhora” e “Paliteiros zoomórficos”.
A procura de coleccionadores leva-o a criar variantes de muitos exemplares, o que acontece sobretudo com “Presépios”, mas também com imagens como “Santo António”, “Nossa Senhora da Conceição” e “Rainha Santa Isabel”, o que se torna estimulante, sob um ponto de vista criativo. De resto e por auto-desafio vai criando peças cada vez mais complexas, sem abandonar porém, os cânones intrínsecos ao figurado de Estremoz. É caso para dizer que: “Aprende por arte e irás por diante”.
De parceria com as tias tem executado exemplares como “Coreto Municipal”, “Presépio de Galinheiro” e “Jogador de bilhar”.
É sabido que cada barrista tem o seu próprio modo de observar o mundo que o cerca e de o interpretar, legando traços de identidade pessoal nas peças que manufactura e que são marcas indeléveis que permitem identificar o seu autor. Lá diz o adagiário: “As obras mostram quem cada um é” e “Pela obra se conhece o artesão”. No caso de Ricardo, o perfeccionismo está-lhe na massa do sangue, o que o leva a dedicar-se aos pormenores, não só na pintura, como na própria manufactura do rosto, das mãos, dos pés e dos enfeites que adornam as figuras.
Quanto às suas marcas de autor são múltiplas: - “Ricardo Fonseca” com ou sem data ou com data e “Estremoz”, manuscritas e com iniciais maiúsculas; - RF com ou sem data, pintado em cor variável.
Ricardo tem participado em exposições colectivas, não só em Estremoz, como em Espanha e Itália, assim como em Feiras de Artesanato (FIAPE e a FATACIL), no stand das tias. Ganhou o 1º Prémio no Concurso de Barrística “Rainha Santa Isabel”, promovido pelo Município de Estremoz no decurso da FIAPE 2011.
Apesar de por opção própria trabalhar na oficina-loja das tias, Ricardo não é um aprendiz, é um barrista de corpo inteiro, que por ser deles o benjamim, tem nas suas mãos a pesada herança de assegurar o futuro do figurado de Estremoz. Força, Ricardo! “Parar é morrer” e “Para a frente é que é caminho”.    


CRÉDITOS DAS FOTOGRAFIAS
Maria Miguéns (2 e 3), Hernâni Matos (4), Ricardo Fonseca (5 a 30).  

 2 - Aspecto geral da Exposição. 
3 - Ricardo Fonseca no acto inaugural da Exposição.  
4 - Ricardo Fonseca a trabalhar.  
5 - Pastor de manta.  
6 - Ceifeira.  
7 - Aguadeira.  
 8 - Lavrador rico
9 - Primavera de arco.  
10 - Bailadeira. 
 11 - Primavera de plumas. 
12 - Primavera de plumas.  
 13 - Primavera de plumas. 
14 - Amor é cego.  
15 - Amor é cego.  
 16 - Rei negro. 
  17 - Rei negro.
  18 - Xéxé.
  19 - Folião.
 20 - Cavaleiro tauromáquico 
21 - Presépio de trono ou de altar. 
22 - Presépio de 6 figuras. 
23 - Menino Jesus. 
24 - Senhor dos Passos com Nossa Senhora
25 - Nossa Senhora da Conceição.
26 - Nossa Senhora da Conceição.
27 - Nossa Senhora da Conceição.
28 - Santo António.
29 - Rainha Santa Isabel.
30 - Santiago.