sábado, 24 de outubro de 2015

As duas Igrejas

Um copo de vinho.
Alessandro Sani (1856-1927).
Óleo sobre tela (38 x 45.7 cm).
Colecção particular.

Os problemas sociais modernos merecem a atenção da Igreja Católica, que através de encíclicas e pronunciamentos papais, procura dar um conjunto de ensinamentos que integram a Doutrina Social da Igreja. Esta aborda múltiplos temas capitais como: “ - a pessoa humana, sua dignidade, seus di­reitos e suas liberdades; - a família, sua vo­ca­ção e seus direitos; - inserção e participação responsável de cada homem na vida social; - o bem comum e sua pro­mo­ç­ão, no respeito dos princípios da solidariedade e subsidiaridade; ­- o destino universal dos bens da natureza e cui­dado com a sua preservação e de­fe­sa do ambiente; - o desenvolvimento in­tegral de cada pessoa e dos povos; - o primado da justiça e da caridade. Tais ensinamentos sobre os problemas sociais modernos, encontram na encíclica “Rerum Novarum” (1891) de Leão XIII (1810-1903) a sua carta magna.
Apesar da sua postura actual, a Igreja Católica nem sempre foi assim. Durante a Idade Média (476-1453) conquistou e manteve grande poder económico, político, jurídico e social, não permitindo opiniões contrárias aos seus dogmas. Aqueles que se atreviam a fazê-lo eram perseguidos e punidos pela Inquisição, que prendeu, torturou e queimou na fogueira milhares de pessoas. Na Idade Moderna (1453-1789) e mesmo na Idade Contemporânea (de 1789 em diante), a Igreja Católica caminhou lado a lado com o Estado, com um interregno em Portugal durante a I República (1910-1926), mas retomando o caminho anterior no decurso do Estado Novo (1926-1974).
Ao longo dos séculos, o espírito crítico da arraia-miúda nunca viu com bons olhos, a postura de certos membros da hierarquia da Igreja Católica. Essa desconfiança ficou registada na memória colectiva sob a forma de provérbios, que podemos sistematizar em 3 grandes grupos:
- FRADES: Basta um frade ruim para dar que falar a um convento. Contratos com frades, nem por boca nem por escrito. Daquilo que bem lhe sabe, não reparte o frade. Em traseira de mula e dianteira de frade, ninguém se fie. Frade e mulher, duas garras do diabo. Frade Nabiça tudo que vê, cobiça. Frade onde canta, aí janta. Frade que pede para Deus, pede para dois. Guarda-te do frade e do cão que não sai da grade. Hábito de frade e saia de mulher, chega onde quer. Ladrão que anda com frade, ou o frade será ladrão, ou o ladrão frade. Mais depressa se torna o frade ladrão do que o ladrão frade. Não dá o frade o que bem lhe sabe, nem a freira o que bem lhe cheira. Nem a chocarreiro nem a frade fora do mosteiro, dês do teu dinheiro. O frade por onde anda, não lhe falta pão na manga. Qual é o frade que não tem dois capotes? Treze é a dúzia do frade.
- FREIRAS: Biscoito de freira, fanga de trigo. Casar ou meter a freira. Em caso de necessidade, casa a freira com o frade. Frade, freira e mulher rezadeira, são três pessoas distintas e nenhuma verdadeira. Freiras e frieiras é coçá-las e deixá-las. Não dá o frade o que bem lhe sabe, nem a freira o que bem lhe cheira. Quando a abadessa é careca, as freiras são pouco encabeladas.
- PADRES: Dos três pp livre-me Deus: padre, pombo e parente. Feliz que nem filho de padre. O padre ganha-o a cantar. Ódio de padre não respeita comadre. Padre de versos, padre de netos. Padre e cão olham para a mão. Padre mouco não confessa. Padre muito rezador, mulher muito beata, homem muito cortês, é livrar de todos três. Padre novo e bonito, aqui d'el-rei que eu grito. Padres e patos, nunca estão satisfeitos. Padres, músicos e foliões são caros pelo que apanham pelo dente. Um padre a pecar conta a dobrar.