terça-feira, 20 de julho de 2010

O vinho na literatura oral


OS BÊBADOS ou FESTEJANDO O S. MARTINHO,  óleo sobre tela executado em 1907
pelo pintor naturalista José Malhoa (1855-1933),
existente no Museu José Malhoa, nas Caldas da Rainha.

A cultura da vinha e a produção de vinho desempenham há muito um papel importante na economia portuguesa, pela mão de obra que empregam e pela riqueza que criam. Daí não admira que o Estado Novo tenha em 1935 lançado o slogan “Beber vinho é dar de comer a um milhão de portugueses”.
A tradição da cultura da vinha e da produção do vinho no nosso país reflecte-se na toponímia. Assim há lugares designados por: Adega do Chão, Adega, Adeganha, Adegar, Adegas, Antelagar, Arruda dos Vinhos, Bacelar, Bacelares, Bacelinhos, Bacelo Pequeno, Bacelo, Bacelos de Gaio, Bacelos, Castelo de Vide, Cuba, Cubal, Cubalhão, Cubas, Figueiró dos Vinhos, Lagar Novo, Lagar, Lagarelhos, Lagares de Cima, Lagares e Montes, Lagares, Lagariça, Lagarinho, Lagarinhos da Levada, Lagarinhos de Figueiredo, Lagarinhos de Lama, Lagarinhos, Lata, Latadas de Baixo, Latadas de Cima, Latadas, Latas, Parra, Parral, Parreira e Lareira, Parreira, Parreiras, Parreirinha, Pipa de Cima, Pipa, Ramada Alta, Ramada da Rainha, Ramada, Ramadas, Ribeira de Vide, Rio Vide, Uva, Uveira Velha, Uveira, Uveiras, Vidago, Vidais, Vidal, Vide entre Vinhas, Vide, Videira, Vides, Vinha da Borrega, Vinha da Alagoa, Vinha da Bouça, Vinha da Portela, Vinha da Rainha, Vinha da Velha, Vinha de Além, Vinha de Amarante, Vinha de Loureiro, Vinha de Três, Vinha do Bacelo, Vinha do Mato, Vinha do Pé, Vinha do Souto, Vinha Grande, Vinha Nova, Vinha Pereira, Vinha Redonda, Vinha Velha, Vinha, Vinhaça, Vinhadama, Vinhadeira, Vinhães, Vinhais, Vinhal, Vinharias, Vinhas de Vale de Maceira, Vinhas do Bicheiro, Vinhas, Vinhateiro, Vinheiro, Vinheiros, Vinhó de Baixo, Vinhó de Cima, Vinho Vai, Vinhó, Vinhós, Vinhota. [2],[5].
Na poesia erudita portuguesa, o vinho foi tema abordado por poetas como António Correia de Oliveira, António Sardinha, Conde de Monsaraz e Silva Tavares. O próprio Fernando Pessoa (1888-1935), que também gostava da pinga e de que maneira, em poema sobre Salazar datado de 29 de Março de 1935, diz a certa altura:
…………………………..

Coitadinho
Do tiraninho!
Não bebe vinho.
Nem sequer sozinho...

Bebe a verdade
E a liberdade.
E com tal agrado
Que já começam
A escassear no mercado”.
…………………………….

FERNANDO PESSOA, bebendo um copo de vinho
na Adega de Abel Pereira da Fonseca,
na baixa lisboeta, em 1929.

Foi Fernando Pessoa que disse que “A quadra é o vaso de flores que o Povo põe à janela da sua alma”. Daí não admirar que o vinho esteja também registado no cancioneiro popular, já que Portugal como país europeu do sul sempre teve uma cultura báquica, que é o mesmo que dizer que Portugal desde sempre foi um país de amantes da pinga. De acordo com o cancioneiro popular, o vinho dá alívio, alegria e mesmo força:
“Aqui d’el-rei, peixe frito!
Caia-me aqui um pão mole,
Chovam garrafas de vinho
Tudo ao meu ò Redol.“ [7]
       (Tolosa, concelho de Nisa)
“Para cantar dói-me um dente,
Trabalhar. Dói-m’uma perna,
Quando tenho algum alívio
É à porta da taberna.“ [7]
                               (Nisa)
“Venha o copo, venha a pinga,
Venha mais meia canada,
Eu sem o copo não bebo
Sem a pinga não sou nada.“ [7]
(Vila Verde de Ficalho, concelho de Serpa)
“Dizem que um copo de vinho,
Quando é bom, dá força à gente,
É mentira certamente,
Tal não posso acreditar.
Eu já hoje bebi treze
E, senhores, não posso andar!“ [7]
                                         (Elvas)
Beber demais conduz naturalmente à bebedeira, imortalizada por mestre José Malhoa no quadro “Festejando o São Martinho”.
Reza a tradição algarvia que em 383, São Martinho de Tours, solicitou ao imperador Máximo ajuda material para a construção de um convento. Foi bem recebido pelo imperador e participou num banquete com os membros da corte. No banquete bebeu-se em demasia e foram tantas as bebedeiras que o banquete foi desde logo, classificado como martinhada. Segundo consta, esta terá sido a origem de São Martinho ser o patrono dos bêbados, embora nada permita afirmar que tenha sido daqueles que se excederam na bebida.
São Martinho é festejado a 11 de Novembro, dia em que por tradição se prova o vinho novo, pois São Martinho é pretexto para molhar a goela.
A língua portuguesa é rica em sinónimos:
- VINHO: briol, chá de parreira, murraça, pinga, pomada, vinhaça, etc.
- BÊBADO: alegre, avinhado, bêbedo, bebedolas, beberrão, borracho, casco, copofone, dorna, ébrio, embriagado, entrado, esponja, grosso, pipa, tocado, tonel, etc.
- BEBEDEIRA: açorda, bêbeda, borracheira, cardina, carraspana, carga, carapuça, dose, embriagês, fornada, grossura, gatosa, osga, piela, perua, pifão, tachada, torta, trabuzana, vinho, vinhaça, etc.
No Alentejo são conhecidas alcunhas atribuídas a visados conhecidos por serem bêbados: Barril, Bêbado da quarta, Bêbado, Bebe à perna, Bebedinhas, Camadas, Camadinhas, Vinhaça, Vinho tinto. [3].
É rico o adagiário português relativo aos bêbados:
- “A bebedor não lhe falte vinho e à fiandeira linho.“
 “A bem comer ou mal comer, três vezes beber.“
- “A bom comer ou mau comer, três vezes beber.“
- “A bom ou mau comer, três vezes beber.“
- “Antes e depois da sopa molha-se a boca.“
- “Ao bêbado e ao tolo, dá-se o caminho todo.“
- “Ao bêbado não falta vinho, nem à fiandeira linho.“
 “Ao bom comer ou ao mau comer, três vezes beber.“
- “Ao menino e ao borracho põe-lhe Deus a mão por baixo.“
- “Atravessado é pior que bêbedo.“
- “Bebe por alegria, não por tristeza.“
- “Bebe vinho branco de manhã e tinto de tarde para teres sangue.“
- “Beber vinho não é beber siso.“
- “Bebes de mais? Tropeças e cais.“
- “Bebeu, jogou, furtou; beberá, jogará, furtará.“
- “Bebidas fartas, homens fracos.
- “Bom comer, três vezes beber.“
- “Comer e beber, deita a casa a perder.“
- “Comer sem beber não é comer.“
- “Depois de melão, de vinho um tostão.“
- “Diz o borrachão o que tem no coração.“
- “Entra o beber, sai o saber.“
- “Ir com muita sede ao pote.“
- “João cambão, borracha de vinho.“
- “Jogo e bebida, casa perdida.“
- “Ladra só, bêbeda só e puta só.“
- “Mais homens se afogam no copo que no mar.“
- “Mais homens se afogam no vinho do que no mar.“
- “Manta e cobertor, não para bom bebedor.“
- “Não bebe: embebe.“
- “Não há função nem brincadeira que não acabe em bebedeira.“
- “O bebedão diz tudo o que lhe vai no coração.“
- “O pródigo e o bebedor de vinho nunca têm casa nem moinho.“
- “O que havemos de fazer? Descansar e tornar a beber.“
- “O que o sábio guarda no coração, tem na boca o beberrão.“
- “O último calcinho é que deita o juízo abaixo.“
- “O último calcinho é que deita um homem abaixo.“
- “Onde entra o beber, sai o saber.“
- “Por um morto de sede, morrem mil, de beber.“
- “Por um que morre de sede, morrem cem mil por beber.“
- “Quem almoça vinho, janta água.“
- “Quem bebe antes do almoço, chora depois do sol-posto.“
- “Quem bebe de mais, representa três animais: macaco ou porco ou leão.“
- “Quem bebe tudo num dia, no outro assobia.“
- “Quem come na taberna, duas casa governa.“
- “Quem come salgado, bebe dobrado.“
- “Quem é amigo do vinho, de si mesmo é inimigo.“
- “Quem muito bebe, nunca paga o que deve.“
- “Quem muito bebe, tarde paga o que deve.“
- “Quem não sabe beber, não sabe viver.“
- “Quem passa o dia a beber, no dia seguinte tem de fazer.“
- “Sábado a chover e bêbados a beber, nunca ninguém os pode vencer.“
- “Se bêbado te vieres a sentir, foge à companhia e vai dormir.“
- “Se bêbado te vires sentir, foge à companhia e vai dormir.“
- “Se bebes de mais, tropeças e cais.“
- “Se bebes para esquecer, paga antes de beber.“
- “Se bebes vinho, não bebas o siso.“
- “Se chovesse vinho é que se conheciam os bêbados.“
À riqueza linguística do adagiário popular há que acrescentar a riqueza de múltiplas imagens metafóricas, usadas na gíria portuguesa:
“Beber como um funil = Beber em larga escala“ [1]
Beber como uma esponja = Idem “ [1]
“Beber como um odre = Idem “ [1]
“Beber de caixão à cova = Beber até cair”[4]
“Andar aos SS = Estar bêbado“ [8]
“Andar aos ziguezagues = Estar bêbado“ [8]
“Cor de vinho = Cor roxa“ [6]
“Encher uma rua = Estar bêbado“ [8]
“Estar a cair = Estar bêbado“ [8]
"Estar com ela = Estar bêbado“ [8]
“Estar com o vinho = Estar bêbado“ [6]
“Estar tocado da pinga = Estar bêbado“ [8]
“Ir a medir as estradas = Estar bêbado“ [8]
“Não ir só = Estar bêbado“ [8]
“Ter mau vinho = Fazer tropelias quando está bêbados“ [6]
“Ter o vinho alegre = Ficar alegre quando está bêbado“ [6]
“Ter o vinho triste = Ficar triste quando está bêbado“ [6]
“Ter os olhos pequenos = Estar bêbado“ [8]
“Ter um grãozinho na asa = Estar bêbado [8]
“Ter uma pontinha de vinho = Começar a estar bêbado“ [6]
“Trocar o passo = Estar bêbado“ [8]
Os bêbados seguem à risca os dez mandamentos que lhe dizem respeito e que em Mogadouro são:
“1º - Beber com assesto (sossego).
  2º - Esgotar os copos até o fundo.
  3º - Fazer da garganta um ribeiro.
  4º - Beber até ficar farto.
  5º - Beber do branco e do tinto.
  6º - Beber a qualquer pretexto.
  7º - Beber do seu e de empréstimo.
  8º - Beber até ficar como um cravo.
  9º - Beber no Inverno, Primavera, Estio e Outono.
10º - Beber até ficar em créscimo.” [8]
Estes dez mandamentos podem ser resumidos a dois:
“1º - Beber sempre.
  2º - Nunca deixar de beber.”
Os dez mandamentos podem, finalmente, ser resumidos num único que diz:
- “Pregar os beiços na torneira e nunca deixar de beber”.
Penso que este mandamento único, sintetiza duma forma magistral, o carácter báquico da cultura portuguesa.

Publicado inicialmente a 20 de Julho de 2010


BIBLIOGRAFIA
[1] – BESSA, Alberto. A Gíria Portugueza. Livraria Central de Gomes de Carvalho. Lisboa, 1901.
[2] – FRAZÃO, A. C. Amaral. Novo Dicionário Corográfico de Portugal. Editorial domingos Barreira. Porto, 1981.
[3] – RAMOS, Francisco Martins & SILVA, Carlos Alberto da. Tratado das Alcunhas Alentejanas. 2ª edição. Edições Colibri. Lisboa, 2003.
[4] – SANTOS, Maria Alice dos. Dicionário de Provérbios. Porto Editora. Porto, 2000.
[5] - SILVEIRA, Joaquim da. Toponímia Portuguesa in Revista Luzitana, Vol. XXXY. Lisboa, 1937.
[6] – VÁRIOS. Grande Enciclopédia Luso-Brasileira.
[7] – VASCONCELLOS, J. Leite de. Cancioneiro Popular Português. Volume II. Acta Universitatis Conimbrigensis. Coimbra,1979.
[8] – VASCONCELLOS, J. Leite de. Etnografia Portuguesa. Vol. VI. Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Lisboa, 1975.

sábado, 17 de julho de 2010

O vinho na mitologia greco-latina

DIONISO E SÁTIRO - pintura sobre vaso grego, atribuída a Makron, cerca de 490 - 480 a.C. Antikenmuseen, Berlin.

Dioniso ou Baco, filho de Zeus e da princesa Semele, era o deus grego das festas, do vinho, da fecundidade, do lazer e do prazer, símbolo do desencadeamento ilimitado dos desejos e da libertação de qualquer inibição. É representado geralmente como um jovem imberbe, risonho e de ar festivo, de longa cabeleira, pegando um cacho de uvas ou uma taça numa das mãos e empunhando na outra um tirso (bastão envolvido em hera e ramos de videira e encimado por uma pinha). Tem sido sugerido o carácter fálico do tirso, no qual a pinha seria o símbolo do sémen.
Dioniso é por vezes figurado com o corpo coberto por um manto de pele de leão ou de leopardo, com uma coroa de pâmpanos na cabeça e conduzindo um carro puxado por leões. Pode igualmente ser apresentado sentado num tonel, segurando numa das mais uma taça donde absorve a embriaguez que o faz cambalear.
Dioniso é normalmente representado na companhia de outros bebedores:
- Sileno – Tutor de Dioniso, companheiro fiel e o mais velho, sábio e beberrão dos seus seguidores, que embriagado tinha o poder da profecia. Representado quase sempre bêbado, amparado por sátiros ou carregado por um burro.
- Sátiros - divindades menores da natureza com aspecto humano, cabelos eriçados, com grande cauda e orelhas bicudas de bode, pequenos cornos na testa, narizes achatados, lábios grossos, barbas longas e órgãos sexuais de proporções sobre-humanas, frequentemente mostrados em estado de erecção. Viviam nos campos e nos bosques, onde tinham relações sexuais frequentes com as Ninfas e as Ménades, que a eles se juntavam no cortejo de Dioniso, além de copularem com mulheres e rapazes humanos, cabras e ovelhas. A embriaguês era a fonte inesgotável da sua perpétua jovialidade e lubricidade.
- Ménades (ou Bacantes) - mulheres apaixonadas por Dioniso e entregues com fervor ao seu culto. Levadas à loucura pelo deus do vinho, que provocava nelas um estado de êxtase absoluto, entregavam-se a desmedida violência, derramamento de sangue, sexo, embriaguez e auto-flagelação. Representadas nuas ou vestidas com véus ligeiros, coroadas de hera e segurando um tirso ou um cântaro, por vezes tocavam flauta de dois tubos ou tamboril e entregavam-se a uma dança livre e lasciva (orgia ou menadismo), em total concordância com as forças mais primitivas da natureza. Vagueavam por montanhas e campinas e entregavam-se aos sátiros que também integravam o cortejo de Dioniso.
- Ninfas – jovens mulheres que povoavamm o campo, os bosques e as águas. São os espíritos dos campos e da natureza em geral, de que personificam a fecundidade e a graça. Apesar de serem consideradas divindades secundárias, a elas se dirigiam orações e por elas se nutria temor. Eram frequentemente alvo da luxúria dos sátiros.
O culto a Dioniso não tinha santuário fixo, sendo praticado onde quer que existissem adoradores do deus, na sua maioria mulheres (Ménades ou Bacantes). Os festivais realizados em homenagem do deus, eram basicamente festas da Primavera e do vinho. As danças frenéticas a que se entregavam as mulheres, davam-lhes uma sensação de liberdade e força, sendo-lhes atribuídos actos impressionantes como desenraizar árvores. As mulheres caçavam também animais que consumiam crus, acreditando que com este acto adquirissem a vitalidade e a imortalidade do deus. Os Gregos consideraram este culto nocivo e muitos governantes das cidades-estado procuraram proscrevê-lo.
Em 370 a.C., o culto a Dioniso (Baco) penetrou em Roma e tinha sacerdotisas conhecidas por bacantes. As festas, de natureza ritual, em homenagem ao deus Baco, conhecidas por bacanais eram nocturnas, secretas e frequentadas exclusivamente por mulheres durante três dias no ano. Posteriormente, os homens foram admitidos e as comemorações passaram a ocorrer cinco vezes por mês. A promiscuidade conjugada ao furor báquico no qual todos se entregavam a excessos de vinho e de sexo, estiveram na origem do saldo destas festas se saldarem por envenenamentos, testamentos falsos, desaparecimento de homens e mulheres, etc. Ao invadirem as ruas de Roma, dançando, soltando gritos estridentes e atraindo adeptos do sexo oposto em número crescente, os bacanais tornaram-se factor de desordem e de escândalo, o que levou à publicação de um decreto por parte do Senado, em 186 a.C., proibindo as bacanais em toda a Itália. Contudo, mesmo com a proibição, o culto não desapareceu naquele tempo.



DIONISOS E SÁTIRO – pintura sobre vaso grego, atribuída a Makron, cerca de 490-480 a.C. Museu de Belas Artes de Boston.

JUVENTUDE DE BACO - pintura de William-Adolphe Bouguereau (1825–1905), executada em 1884.

BACO - óleo sobre tela de Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571 - 1610), executada em 1593-1594. Galeria dos Ofícios, em Florença.


TRIUNFO DE BACO E ARIADNA - fresco de Annibale Carracci (1560-1609), executado entre 1597 e 1600 na abóbada do Palácio Farnesio, Roma.


BACO SENTADO NUM TONEL - Óleo sobre tela de Peter Paul Rubens (1577-1640). Galeria dos Ofícios, em Florença.

O BÊBADO SILENO - óleo sobre madeira de Peter Paul Rubens (1577-1640), executado cerca de 1616-17. Alte Pinakothek, Munique.

SÁTIRO – pintura sobre vaso grego, atribuída a Epiktetos, cerca de 510 - 500 a.C. Museu de Belas Artes de Boston.

DOIS SÁTIROS – óleo sobre madeira de Peter Paul Rubens (1577-1640), executada em 1618-1629. Alte Pinakothek, Munique.

MÉNADE -  fragmento de uma taça da autoria de Macron, cerca de 480 a.C., Atenas - Departamento de Antiguidades Gregas, Etruscas e Romanas do Museu do Louvre.

BACANTE - óleo sobre tela de William-Adolphe Bouguereau (1825–1905), executado em 1894. Colecção particular.

NINFAS, óleo sobre tela de William-Adolphe Bouguereau (1825–1905), executado em 1878. The Haggin Museum, Stockton, California.


NINFAS E SÁTIRO, óleo sobre tela de William-Adolphe Bouguereau (1825–1905), executado em 1873. Sterling and Francine Clark Art Institute, Williamstown, Massachusetts.
DIANA E AS SUAS NINFAS SURPREENDIDAS PELOS FAUNOS - óleo sobre tela de Peter Paul Rubens (1577-1640), executada em 1638-40. Museu do Prado, Madrid.

domingo, 4 de julho de 2010

A Experiência dos Hemisférios de Magdeburgo


    Experiência dos Hemisférios de Magdeburgo – Azulejos Barrocos Joaninos (1744-1749) da
Aula de Física da Universidade do Espírito Santo (hoje sala 120 da Universidade de Évora)
e que atesta a preocupação dos jesuítas com a modernização do ensino científico.


A EXPERIÊNCIA DOS HEMISFÉRIOS DE MAGDEBURGO
A experiência dos Hemisférios de Magdeburgo foi efectuada em 8 de Maio de 1654, em Magdeburgo (Alemanha), pelo burgomestre da cidade, o jurista e físico Otto Von Guericke (1602-1686), perante o Imperador Friedrich Wilhelm von Brandenburg (1620-1688) e a sua corte.

Otto von Guericke, gravura de Anselm van Hulle (1601-1674).

A experiência visava a separação de dois hemisférios de cobre, de 51 centímetros de diâmetro, unidos por contacto comum com um anel de couro, formando uma área fechada, da qual foi extraído o ar com recurso a uma bomba de vácuo, inventada pelo próprio Von Guericke. Em cada hemisfério existiam anéis para prender cabos ou correntes que eram puxados em sentidos opostos.
Os espectadores ficaram completamente surpreendidos ao verificar que diferentes grupos de homens, puxando com toda sua força em sentidos opostos, não conseguiram separar os hemisférios. O mesmo aconteceu com dois grupos de 8 cavalos puxando em sentidos opostos. Só depois dum grande esforço da parte dos cavalos, é que foi possível separar os hemisférios, o que só foi conseguido por não ser perfeito o vácuo alcançado através da rudimentar bomba de vácuo de Von Guerick. Em contrapartida, deixando entrar o ar para o interior dos hemisférios através duma torneira de admissão, era possível separar os hemisférios sem qualquer dificuldade.

Gravura de Gaspar Schott (1608 - 1666), executada em 1657, reproduzindo a experiência dos hemisférios de Magdeburgo, realizada em 1654. Publicada no livro de Otto Von Guericke “ Experimenta nova (ut vocantur) Magdeburgica de vacuo spatio”, editado em 1672.

A experiência seria repetida ainda no mesmo ano em Berlim, com 24 cavalos.
Com esta experiência Von Guerick demonstrou:
- a imensa força que a atmosfera podia exercer sobre os corpos;
- a existência de pressão atmosférica sobre os corpos;
- a existência do vazio.
A interpretação corrente do resultado experimental é a de que os hemisférios não se separam enquanto a pressão atmosférica for superior à pressão do ar no interior dos hemisférios. Uma vez conseguida a igualdade de pressões, através da entrada de ar, é fácil a separação dos hemisférios.
Com a sua experiência, Von Guerick pôs fim, de forma espectacular às ideias que vinham sendo defendidas desde Aristóteles (384 a.C. – 322 a.C.) e segundo as quais a Natureza teria “horror ao vácuo”, preenchendo imediatamente, a todo custo, qualquer espaço que fosse deixado sem matéria.
A UNIVERSIDADE DE ÉVORA
A criação da Universidade de Évora data de 18 de Outubro de 1558, por Bula de Paulo IV e a abertura solene das aulas ocorreu no dia 1 de Novembro de 1559, sendo 1º Reitor o Padre Leão Henriques.
A Universidade de Évora foi suprimida em 1759 pelo Marquês de Pombal, quando da expulsão da Companhia de Jesus. No período que medeia entre 1841 e 1979, o edifício esteve ocupado pelo Liceu Nacional André de Gouveia. Após um hiato de 200 anos, ocorreu uma reestruturação em 1973, primeiro, como Instituto Universitário, e pelo Decreto de 14 de Dezembro de 1979, como Universidade de Évora.
Na Universidade de Évora cursaram, no período áureo, vultos da Cultura Humanística Universal como Luís de Molina, Sebastião Barradas, Francisco Suarez, Pedro da Fonseca, Manuel Álvares Baltazar Teles, Francisco da Fonseca, António Franco, S. Francisco de Borja, padre António Vieira, D. Afonso Mendes, Patriarca da Abissínia e o arcebispo de Braga D. José, filho de D. Pedro II.
Na volumosa construção trabalharam alguns dos maiores arquitectos quinhentistas: Afonso Alvares, Manuel Pires, Diogo de Torralva e Cristóvão de Torres.
Do seu conjunto monumental e artístico destacam-se silhares de azulejos historiados, de temática bíblica, mitológica, literário-poética (Virgílio, Platão, Arquimedes, Aristóteles), do Humanismo e das leis naturais, que revestem todas as aulas quinto-joaninas (1744-49).

Publicado inicialmente a 4 de Julho de 2010

BIBLIOGRAFIA
ESPANCA, Túlio. Évora – Arte e História. 2º edição. Câmara Municipal de Évora. Évora, 1987.
ESPANCA, Túlio. Évora – Encontro com a Cidade. Câmara Municipal de Évora. Évora, 1988.

sábado, 3 de julho de 2010

Provérbios de Julho


Cena da Vida Rural. Alentejo, década de 40.
Fotografia de Artur Pastor (1922-1999).

- A jeira de Maio vale os bois e o carro, e a de Julho vale os bois e o jugo.
- Água de Julho no rio não faz barulho.
- Água de Julho, no rio não faz barulho.
- Água de Julho, no rio não faz barulho.
- Aí por Sant' Ana limpa a pragana.
- Aí por Santa Marinha vai ver tua vinha; qual a achares, tal a vindima.
- Aí por Santa Marinha vai ver tua vinha; tal a acharás, tal a vindimarás.
- Ao quinto dia verás que mês terás.
- Chuva de Julho que não faça barulho.
- Chuva de Julho, por Santa Marinha, vem com a cabacinha; por São Tiago traz o canado.
- Chuva de Julho, Sant'Ana vem com a cabacinha e Santiago traz o canado.
- Chuva de Julho: Santa Marinha vem com a cabacinha e S. Tiago com o canado.
- Chuva de Julho: Santa Marinha vem com a cabacinha e S. Tiago com o canado.
- Chuva de Santa Marinha vem com a cabacinha e pelo São Tiago traz o canado.
- Deus ajudando, vai em Julho mercando.
- Dezembro com Julho ao desafio traz Janeiro frio.
- Dia de São Tiago, pinta o bago.
- Dia de São Tiago, vai à vinha e acharás bago.
- Dia de São Tiago, vai à vinha e prova o bago.
- Em dia de São Tiago, vai à vinha e acharás baço.
- Em dia de São Tiago, vai à vinha e acharás bago.
- Em Julho abafadiço, fica a abelha no cortiço.
- Em Julho ceifo o trigo e debulho e, em o vento soprando, o vou limpando.
- Em Julho eu o ceifo e o debulho.
- Em Julho eu o ceifo e o debulho.
- Em Julho faz vasculho.
- Em Julho já há pouco gorgulho.
- Em Julho nunca a água do rio fez barulho.
- Em Julho tudo farás, só o teu verde não ceifarás.
- Em Julho tudo farás, só o teu verde não ceifarás.
- Em Julho, ao quinto dia verás que mês terás.
- Em Julho, ceifa o trigo e faz o debulho. E, em o vento soprando, vai-o limpando.
- Em Julho, ceifo o trigo e o debulho, e em o vento soprando o vou limpando.
- Em Julho, esperam-se à água.
- Em Julho, eu o ceifo e o debulho.
- Em Julho, foice na mão.
- Em Julho, prepara o vasculho.
- Em Julho, reina o gorgulho.
- Em Julho, tudo farás, só o teu verde não ceifarás.
- Em Junho, Julho e Agosto, senhora não sou vosso.
- Frio em Julho, abrasa em São Tiago.
- Janeiro gear, Fevereiro chover. Março encanar, Abril espigar, Maio engrandecer, Junho ceifar, Julho debulhar. Agosto engravelar, Setembro vindimar. Outubro revolver. Novembro semear. Dezembro nascer.
Janeiro gear. Fevereiro chover. Março encanar, Abril espigar, Maio engrandecer. Junho ceifar, Julho debulhar, Agosto engravelar. Setembro vindimar, Outubro revolver. Novembro semear, Dezembro nasceu Deus para nos salvar.
- Julho abafadiço, fica a abelha no cortiço.
- Julho abafadiço: abelhas no cortiço.
- Julho calmoso faz o ano formoso.
- Julho claro como olho de gado.
- Julho debulhar; Agosto engravelar.
- Julho é o mês das colheitas, Agosto é o mês das festas.
- Julho é o mês das colheitas, Agosto o mês das festas.
- Julho fresco, Invemo chuvoso, estio perigoso.
- Julho fresco, pouco vinho no teu copo.
- Julho passado sempre foi melhor.
- Julho pela manhã, recorre à lua figueira.
- Julho quente traz o Diabo no ventre.
- Julho quente, seco e ventoso, trabalha sem repouso.
- Julho sem pulgas no cão, vento norte e muito frio é sinal de pouco pão.
- Julho, ceifa-se o trigo e a debulha.
- Julho, debulhar.
- Julho, debulhar; Agosto, engravelar.
- Julho, o verde e o maduro.
- Junho, como punho; Julho, já fazem barulho; Agosto, mudam o rosto.
- Junho, Julho e Agosto, senhora não sou vosso.
- Junho, Julho, Agosto, senhora, não sou vosso.
- Luar de Janeiro, sol de Julho.
- Maio engrandecer, Junho ceifar, Julho debulhar.
- Não há maior amigo do que Julho com seu trigo.
- Nevoeiro de S. Pedro, põe em Julho o vinho a medo.
- Não há maior amigo que Julho com seu trigo.
- Não há maior amigo que o Julho com seu trigo.
- Não há maior inimigo que Julho com seu trigo.
- Não há melhor amigo que Julho com o seu trigo.
- Nevoeiro de S. Pedro, põe em Julho o vinho a medo.
- Nevoeiro de São Pedro põe em Julho o vinho a medo.
- No dia de São Tiago, a velha vai ao bago.
- No São Tiago pinta o bago.
- O mês de Julho dá o pão e o gorgulho.
- Outubro, revolver; Novembro, semear; Dezembro, nasceu um Deus para nos salvar; Janeiro, gear; Fevereiro, chover; Março, encanar; Abril, espigar; Maio, engrandecer; Junho, ceifar; Julho, debulhar; Agosto, engravelar; Setembro, vindimar.
- Passado Julho, o celeiro atulho.
- Pela Madalena recorre à tua figueira.
- Pelo S. Tiago pinta o bago e cada pinga vale um cruzado.
- Pelo São Tiago cada pingo vale um cruzado.
- Pelo São Tiago pinta o bago e cada pinga vale um cruzado.
- Pelo São Tiago pinta o bago.
- Pelo São Tiago vai à vinha e apanha o bago.
- Pelo São Tiago vai à vinha e prova o bago.
- Pelo São Tiago, na vinha acharás bago; se não for maduro, será inchado.
- Por muito que Julho queira ser, pouco há-de chover.
- Por muito que queira Julho ser, pouco há-de chover.
- Por Sant’Ana limpa a pragana.
- Por Santa Maria vai ver a tua vinha e qual a achares tal a vindima.
- Por Santa Maria vai ver a tua vinha.
- Por Santa Marinha visita a tua vinha; tal a acharás, tal vindima farás.
- Por São Tiago na vinha pinta o bago.
- Por São Tiago, vai à vinha e acharás bago.
- Por todo o mês de Julho, o celeiro atulho.
- Quando Julho está a começar, as cegonhas começam a voar.
- Quem em Julho ara e fia, ouro cria.
- Quem trabalha em Julho, para si trabalha.
- Se Julho for abafadiço, fica a abelha no cortiço.

Publicado inicialmente em 3 de Julho de 2010

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Julho, mês das colheitas


A ceifa no Alentejo. Alberto de Souza (1880-1961). Aguarela sobre papel (14x20 cm).

O mês de Julho era anteriormente conhecido por Quintilis em latim, uma vez que era o quinto mês do calendário romano, que começava em Março.
Em 46 a.C., Júlio César, reformou o calendário romano, acrescentando dois meses, Unodecembris e Duocembris, no final do ano de 46 a.C., deslocando assim Januarius e Februarius para o começo do ano de 45 a.C. Os dias dos meses foram fixados numa sucessão de 31, 30, 31, 30... de Januarius a Decembris, à excepção de Februarius, que ficou com 29 dias e que, a cada três anos, teria 30 dias. Com tais mudanças, o calendário anual passou a ter doze meses que perfaziam 365 dias.
Em 44 a.C., Júlio César foi homenageado pelo Senado, que mudou o nome do mês Quintilis para Julius, visto ser o mês em que César nasceu.
Julho tem 31 dias e é o sétimo mês do calendário juliano e também do caledndário gregoriano, utilizado na maior parte do mundo e que foi promulgado pelo Papa Gregório XIII a 24 de Fevereiro do ano 1582, para substituir o calendário juliano.
É, em média, o mês mais quente na maior parte do Hemisfério Norte (onde é o segundo mês de Verão) e o mês mais frio em grande parte do Hemisfério Sul (onde é o segundo mês de Inverno). A segunda metade do ano começa em Julho. No Hemisfério Sul, Julho é o equivalente sazonal de Janeiro no Hemisfério Norte.
Julho começa no mesmo dia da semana que Abril de um ano comum e que Janeiro em anos bissextos. Num ano comum nenhum outro mês termina no mesmo dia da semana que Julho, enquanto que num ano bissexto, Julho termina no mesmo dia da semana que Janeiro.
Os Signos do Zodíaco que correspondem ao mês de Julho são:
- Caranguejo (21 de Junho a 22 de Julho;
- Leão (23 de Julho a 22 de Agosto).
A pedra zodiacal de Julho é o rubi.
Como noutros meses há datas especiais a assinalar. Temos Dias Internacionais (ONU):
- 1º sábado de Julho - Dia Internacional das Cooperativas;
- 11 de Julho - Dia Mundial da População.
Temos também outras datas comemorativas:
-  Primeiro Domingo de Julho – Dia Mundial do Salvamento.
- 1 de Julho - Dia da Região e das Comunidades Madeirenses;
                      Dia Mundial da Arquitectura;
                      Dia da Mulher Portuguesa;
                      Dia da Força Aérea Portuguesa;
                      Dia do Antigo Estudante de Coimbra;
                      Dia das Bibliotecas.
- 2 de Julho – Dia da Polícia de Segurança Pública.
- 4 de Julho - Dia Mundial do Salvamento.
- 7 de Julho - Dia das Cooperativas.
- 8 de Julho - Dia da Marinha.
- 11 de Julho - Dia Mundial da População.
- 12 de Julho - Dia Mundial contra o Trabalho Infantil.
- 13 de Julho - Dia do Agricultor;
                       Dia Mundial do Rock.
- 14 de Julho – Dia do Doente;
                       Dia Mundial da Liberdade de Expressão.
- 20 de Julho – Dia Internacional da Amizade.
- 22 de Julho – Dia do Cantor Lírico.
- 25 de Julho - Dia do Exército Português.
- 26 de Julho - Dia Mundial dos Avós.
- 28 de Julho – Dia Nacional da Conservação da Natureza.
Temos ainda datas patrióticas (Portugal):
- 25 de Julho (1139) - Trava-se a Batalha de Ourique. D. Afonso Henriques derrota os reis mouros da Península, o que se traduz na Reconquista Cristã de Portugal. A data é assinalada no Dia do Exército Português.
- 25 de Julho (1415) - Parte do Tejo a Armada de D. João I, para a conquista de Ceuta.
- 26 de Julho (1139) – Afonso, conde portucalense é aclamado rei de Portugal e proclama a sua independência face a Leão.
No calendário Mariano, Nossa Senhora, Mãe de Deus, é honrada com muitos e muitos títulos e festejada ao longo do ano. No mês de Julho temos:
- Dia 1 de Julho – Dia de Nossa Senhora do Bom Sucesso.
- Dia 13 de Julho - Dia de Nossa Senhora da Rosa Mística.
- Dia 16 de Julho - Dia de Nossa Senhora do Carmo.
- Dia 29 de Julho - Dia de Nossa Senhora da Ajuda.

Publicado inicialmente em 1 de Julho de 2010

sábado, 26 de junho de 2010

D. Carlos I, Fotógrafo Amador‏

Fotografia obtida pelo Monarca. Fundação da Casa de Bragança – Palácio Ducal de Vila Viçosa.

1. EXPOSIÇÃO DE FOTOGRAFIA "D. CARLOS I, FOTÓGRAFO AMADOR"

Numa iniciativa do Museu-Biblioteca da Casa de Bragança esteve patente ao público na Sala de Exposições Temporárias do Castelo de Vila Viçosa, entre 20 de Junho e 20 de Setembro de 2010, uma exposição de fotografia, designada “D. Carlos I, Fotógrafo amador”. As fotos pertenciam ao Arquivo Fotográfico do Paço Ducal de Vila Viçosa, constituído por:
- um núcleo de cerca de cinquenta álbuns de família (cerca de 2000 fotos), muitos deles organizados pelo próprio Rei a bordo do Yacht Amélia;
- um conjunto de maços com cerca de 1000 fotografias idênticas de D. Carlos I, destinadas a serem oferecidas;
- álbuns e os maços de fotografias (cerca de 7000), das visitas reais, das fotografias oficiais e das cerimónias protocolares oferecidas pelos melhores fotógrafos da época.
Deste vasto conjunto apenas estiveram em exposição, reproduções de sessenta espécies, principalmente da autoria de D. Carlos I, distribuídas por quatro temas:
- As mais antigas (1887), as experiências (1888) e as ofertas;
- As fotografias para apoio à pintura e que serviriam de modelo ao quadro que surgiria mais tarde;
- As reportagens com títulos que ilustram o tema abordado;
- Uma família de fotógrafos.
A mostra visava divulgar um arquivo que é desconhecido da maioria dos investigadores e simultaneamente dar uma nova perspectiva da vida e dos interesses da Família Real, nos últimos anos da Monarquia.
O respeito que me merece a memória daquele a quem Ramalho Ortigão apelidou de “O martyrisado”, levou-me a que, pensando nos meus leitores, fizesse aqui o traçado fiel do perfil biográfico do Monarca.

2. SINOPSE DUM REINADO

D. Carlos I, mais tarde cognominado “O Diplomata”, nasceu no Palácio da Ajuda, a 28 de Setembro de 1863, sendo baptizado ria igreja de S. Domingos em 19 de Outubro do mesmo ano, recebendo o nome de Carlos Fernando Luís Maria Vítor Miguel Rafael Gabriel Gonzaga Xavier Francisco de Assis José Simão de Bragança Sabóia Bourbon Saxe-Coburgo-Gotha. É filho primogénito de El-Rei D. Luís I e da rainha senhora D. Maria Pia de Sabóia; neto paterno de D. Fernando de Saxe-Coburgo-Gotha e da rainha D. Maria II; neto materno do rei de Itália Vítor Manuel.
Casou em Lisboa, na Igreja de S. Domingos, a 22 de Maio de 1886 com a princesa Maria Amélia Luísa Helena de Orléans (28-9-1865, 25-10-1951), neta de Luís Filipe, rei de França e filha de Luís Filipe Alberto, conde de Paris e duque de Orléans, e de sua esposa, Maria Isabel Francisca de Assis, infanta de Espanha.
Do casamento nasceram:
1. D. Luís Filipe (21-3-1887, 1-2-1908), vítima como o pai do regicídio;
2. D. Maria Ana (14-12-1887, 14-12-1887), falecida à nascença;
3. D. Manuel II (15-11-1889, 2-7-1932), que sucedeu no trono a D. Carlos I e viria a ser o último rei de Portugal, tendo recebido os cognomes de “O Patriota” e “O Bibliógrafo”.
O reinado de D. Carlos I, iniciado em 19 de Outubro de 1889, por morte de D. Luís I, decorreu num ambiente efervescente, marcado por uma série de graves acontecimentos:
 O “Ultimatum” inglês, apresentado ao governo português, em 11 de Janeiro de 1890, motivado pelo traçado do chamado “mapa cor-de-rosa”, acerca de limites territoriais em Africa;
 A tentativa gorada de Revolução Republicana de 31 de Janeiro de 1891, associada à revolta militar do Porto, na sequência da enorme agitação causada pelo “Ultimatum” inglês;
- O recrescimento das lutas políticas entre republicanos e monárquicos;
- A Ditadura de João Franco (2-5-1907 a 4-2-1908).
- A eclosão de revoltas por todo o Ultramar;
- Nova tentativa gorada de Revolução Republicana, em 21 de Janeiro de 1908;
- E, finalmente, a 1 de Fevereiro de 1908, quando a Família Real regressava de Vila Viçosa com destino a Lisboa, D. Carlos I, sofre um atentado republicano em pleno Terreiro do Paço, sendo vitimado, bem como o filho mais velho, o Príncipe herdeiro D. Luís Filipe. O segundo filho, D. Manuel II, é aclamado Rei de Portugal pelas Cortes, a 6 de Maio de 1908. Dois anos mais tarde é implantada a República (5-10-1910) e a Família Real embarca na Ericeira (6-11-1910), no iate real "Amélia IV”, para o exílio em Inglaterra.
D. Carlos I foi educado para ser rei, revelando desde muito jovem cedo uma forte aptidão para as artes, para o desporto e para a observação da natureza, dedicando-se com notável êxito a um conjunto variado de actividades de que sobressaem, a Arte, a Oceanografia, a Ornitologia e o Desporto (caça, pesca e equitação).

3. O ARTISTA

Como pintor, D. Carlos I foi discípulo do pintor aragonês Mestre Henrique Casanova (1850-1913) e apesar de ter experimentado várias técnicas, especializou-se sobretudo na aguarela e no pastel, sendo as temáticas predominantes, o mar, a paisagem alentejana e a fauna. Do seu trabalho como artista merece referência a opinião do escritor Ramalho Ortigão (1836-1915) (8): “Idealmente refugiado no culto da pintura, em que foi eximio, attingiu uma das mais altas eminências a que póde ascender o espírito. Foi consagrado “artista”". De D. Carlos I – artista, disse o naturalista e seu assistente nas Campanhas Oceanográficas Albert Girard (4): “Como Artista estou a vêr os Seus pasteis, as Suas aguarellas, os Seus desenhos à penna, as Suas gravuras, as reproducções d'essas obras que tantas revistas nacionaes e estrangeiras illustraram; a facilidade da Sua maneira, a profusão do Seu pincel, por tal forma espalhado que difficil seria, senão impossível, reunir todas as Suas obras; os Seus triumphos nas exposições do Grémio Artístico, na ultima Exposição universal de Paris, na Sociedade Nacional de Bellas Artes, na Exposição universal de S. Luiz, na de Bellas Artes de Barcelona; e ainda, ha bem pouco, Société Artistique dés Amateurs.
É que Elle tinha a expontaneidade do artista de raça, que n'um traço a lápis affirma a sua individualidade.”

“O Sobreiro”, pastel sobre cartão, executado pelo Rei
em 1905. Fundação da Casa de Bragança – Palácio
Ducal  de Vila Viçosa.

Sobre a obra artística de D. Carlos I diz também o seu biógrafo, o escritor e jornalista Rocha Martins (7): “Fialho de Almeida, republicano, no tempo em que criticou D. Carlos como governante, irreverrente ao referir-se às obras dos pintores, depois chegados à supremacia, não poude deixar d’analisar, com respeito e louvor, certo trabalho do chefe de estado monárquico que conquistara na arte uma realeza”.

4. O OCEANÓGRAFO

Aos estudos oceanográficos dedicou D. Carlos I, a sua mais profunda atenção. Assim, em 1 de Setembro de 1896, nasceu a Oceanografia portuguesa, quando D. Carlos iniciou, a bordo do seu primeiro iate “Amélia”, uma série de 12 Campanhas Oceanográficas ao longo da costa atlântica de Portugal que se prolongariam até 1906, com o objectivo principal de inventariar e estudar a fauna marinha da costa portuguesa, acção que para além do inegável interesse científico se revelava de bastante interesse prático, por permitir maximizar o rendimento da indústria e do comércio da pesca, dada a enorme importância económica da indústria piscatória em Portugal. O monarca efectuou ainda o estudo das correntes e o reconhecimento da topografia dos fundos oceânicos.
Os resultados dessas investigações receberam amplos elogios de cientistas estrangeiros e estão compilados em quatro seguintes livros publicados. Em 1897: Yacht «Amelia» – Campanha oceanographica de 1896. Em 1899: ¬Pescas maritimas – I – A pesca do atum no Algarve em 1898. Em 1902: Rapport préliminaire sur les Campagnes de 1896 à 1900 – Fascicule I – Introduction – Campagne de 1896. Em 1904: Ichthyologia – II – ¬Esqualos obtidos nas costas de Portugal durante as campanhas de 1896 a 1903.
A divulgação científica das Campanhas Oceanográficas oceanográficas de D. Carlos foi ainda efectuada através da participação em exposições públicas nacionais e internacionais, onde figuravam espécimes recolhidos, redes e instrumentos utilizados, bem como desenhos.
O mérito da sua obra científica de D. Carlos I foi internacionalmente reconhecido, como o atesta a profusão de diplomas que lhe foram outorgados pelas mais prestigiadas instituições científicas de antanho.
Para o Professor Luís Saldanha (1937-1997) (6), um dos mais conhecidos biólogos marinhos portugueses “A actividade oceanográfica do Rei D. Carlos de Bragança abriu as portas a uma disciplina completamente nova em Portugal” , pelo que muito justamente considera “D. Carlos de Bragança, pai da oceanografia portuguesa”. Para Maria Manuela da Câmara Falcão (3) “Assim, Carlos I de Portugal e Alberto I de Mónaco fundaram a Oceanografia e com ela abriram à Humanidade a última fronteira do Planeta, os Oceanos”.

        D. Carlos de Bragança, a bordo iate Amélia II. Aquário Vasco da Gama, Lisboa.

5. O NATURALISTA

De acordo com o naturalista e colaborador Alberto Girard (4), D. Carlos I ”…tinha a memoria da vista: forma, cor, tom, tudo apprehendia rapidamente e para sempre fixava com a Sua inexcedível memória…”, De acordo com o biólogo, Professor Mário Ruivo (11) “Temos aqui dois elementos de base, para suportar, potencialmente, a personalidade de um Naturalista, sobretudo no campo da Sistemática”. É assim que D. Carlos I, publica em 1903 um primeiro fascículo do “Catálogo illustrado das aves de Portugal”, a que se segue em 1907 um segundo fascículo, onde ainda segundo Mário Ruivo (11) “…são referidas algumas dezenas de espécies portuguesas, com a referida nomenclatura científica e sinonímia mais importante, e os respectivos nomes vulgares em português, francês, espanhol, inglês e, italiano, sendo acompanhadas de breves indicações sobre a suas distribuição geográfica, arribações, e nalguns casos, comportamento”, o que representa uma contribuição fundamental para o inventário da nossa fauna ornitológica. Contudo, a obra de D. Carlos I, como naturalista, ficaria sobretudo ligada ao inventário da fauna marinha da costa portuguesa.

Projecto de D. Carlos para a capa da sua obra “Estudos
Ornitológicos”. Aquário Vasco da Gama, Lisboa

6. UM BALANÇO

No reinado de D. Carlos I, há a destacar eventos como:
- As vitórias na campanha de África, contra o Gungunhana e namarrais;
- As celebrações do V Centenários do nascimento do Infante D. Henrique, no Porto (1894), e do IV Centenário do descobrimento do caminho marítimo para a Índia, em Lisboa (1898);
- Um certo desenvolvimento das colónias;
- A ligação das ilhas dos Açores ao continente pelo cabo submarino;
- As visitas a Portugal de soberanos estrangeiros: Eduardo VII de Inglaterra (1903), Afonso XIII de Espanha (1905), Guilherme II da Alemanha (1905) e do Presidente República Francesa, Emile Loubet (1905), visitas que foram retribuídas e que correspondem a um notável trabalho diplomático.
Apesar de todos estes aspectos positivos do seu reinado e da notoriedade que alcançou a nível científico, tanto nacional como internacionalmente, D. Carlos I não conseguiu resolver os graves problemas políticos resultantes, por um lado, de uma profunda crise interna e do ambiente internacional, favorável ao desaparecimento das monarquias na Europa.
Em entrevista ao Diário francês “Le Temps” de Novembro de 1907, dizia D. Carlos: “Nunca esqueci, um instante sequer, quais são os meus deveres para com a minha coroa e para com o meu querido país”. Entendimento diferente tinham os republicanos, daí ser vítima de um atentado perpetrado em pleno Terreiro do Paço, a 1 de Fevereiro de 1908, quando regressava de Vila Viçosa. Os regicidas, os republicanos, Alfredo Costa e Manuel Buíça, mortos no próprio local do atentado, foram elevados à categoria de heróis nacionais. Diz-nos Margarida Magalhães Ramalho (10): “No dia seguinte, poucos jornais tarjaram de preto e a notícia foi dada displicentemente. Sobre D. Carlos pouco se disse. No estrangeiro, mesmo na França republicana, o atentado é condenado veementemente e em toda a imprensa estrangeira a figura do rei desaparecido é largamente enaltecida, lembrando-se o político, o artista e o homem de ciência. Por cá, são as figuras de Costa e Buiça que merecem o carinho do público, abrindo-se mesmo subscrições para os órfãos deste último”.
Para o jurista e jornalista Miguel Sousa Tavares (14) “Se a Maçonaria matou El-Rei D. Carlos, cada português, todos os portugueses, mataram El-Rei segunda vez, na escura cobardia colectiva, na estranha aceitação do crime e das suas consequências políticas”.
Em entrevista publicada pelo jornal “Correio da Manhã”, no dia dia 27 de Janeiro de 2008, o então Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano - Maçonaria Portuguesa (GOL), António Reis, esclareceu que “Por doutrina, a Maçonaria não é contra a monarquia, mas contra as monarquias absolutas e contra as ditaduras, por violarem um dos grandes princípios da Maçonaria que é a Liberdade”. Porém e de acordo com ele “A Maçonaria combateu a monarquia concreta de D. Carlos que com o governo de João Franco, de 1906 a 1908, teve uma deriva ditatorial, cuja responsabilidade pertence ao próprio rei. Foram estas circunstâncias que levaram a Maçonaria a preparar o derrube da monarquia”. Apesar de tudo e segundo o Grão-Mestre do GOL, “A Maçonaria “não interveio, nem directa, nem indirectamente” no regicídio de 1908, com o qual não concordou”.

7. A FOTOGRAFIA E A CARTOFILIA

D. Carlos I foi um amante da fotografia, arte a viver os seus primeiros tempos de pioneirismo e que também cultivou, registando para a posteridade, reportagens das múltiplas actividades em que se viu envolvido (campanhas oceanográficas, caçadas, regatas, comboios, etc).
É no reinado de D. Carlos que são introduzidos em Portugal os bilhetes-postais ilustrados.
O primeiro bilhete-postal ilustrado português foi emitido pelos correios e data de 4 de Março de 1894, quando da comemoração do 5° Centenário do Nascimento do Infante D. Henrique. Seguiu-se-lhe o do VIl Centenário do Nascimento de Santo António, em 1895, e os do IV Centenário da Índia, em 1898.
O primeiro bilhete-postal ilustrado português de fabrico não oficial, exigindo a colagem de um selo de franquia ordinária, foi editado em 1895 pela Companhia Nacional Editora, a propósito do Centenário de Santo António.
Desde então para cá, correios e particulares nunca mais pararam na emissão e edição de bilhetes-postais ilustrados para comemorar efemérides, homenagear personalidades, fazer propaganda oficial ou religiosa, divulgar monumentos, paisagens ou costumes regionais e evocar acontecimentos históricos.
Com o aparecimento dos bilhetes-postais surgiu o seu coleccionismo (Cartofilia) e os coleccionadores (cartófilos).
Naturalmente que D. Carlos e com ele a família real seriam tema de edições particulares de postais ilustrados, o mesmo acontecendo com as visitas de soberanos estrangeiros, atrás referidas. Alguns desses bilhetes-postais ilustrados circularam com o selo do lado da imagem e são designados por TCV’s – timbre-cotê-vues.

Bilhete-postal ilustrado, edição privada, não identificada, 
reproduzindo sua Majestade, envergando a farda de
Almirante General da Armada, cerca de 1906. Porte de
10 reis. Expedido de LISBOA para BRUXELAS no dia
16-3-1906. Colecção Hernâni Matos.

8. BIBLIOGRAFIA

1. AQUÁRIO VASCO DA GAMA. El-Rei D. Carlos. A história de um dos pioneiros mundiais no estudo da Oceanografia.
4. GIRARD, Alberto (1909). Elogio Académico de Sua Majestade El-Rei o Senhor D. Carlos I, Presidente da Academia Real das Sciencias de Lisboa. Lisboa: Typographia da Academia.
5. MARQUES, Oliveira (1954). História do Selo Postal Português. Volume I – Continente. Porto: Mercado Filatélico.
7. MARTINS, Rocha (1926). D. Carlos, História do seu Reinado. Lisboa; A.B.C.
8. ORTIGÃO, Ramalho (1908). REI D. CARLOS – O Martyrisado. Lisboa: Typographia “A Editora”.
9. RAMALHO, Margarida Magalhães (2003). Cadernos de Desenho – D. Carlos de Bragança. Lisboa: Edições INAPA.
10. RAMALHO, Margarida Magalhães (2001). FOTOBIOGRAFIAS SÉCULO XX – REI D. CARLOS. Lisboa: Círculo de Leitores.
11. RUIVO, Mário (1958). D. Carlos de Bragança – Naturalista e Oceanógrafo. Lisboa: Fundação da Casa de Bragança.
12. SERRÃO, J. Veríssimo (1986). História de Portugal, Volume X. Lisboa: Verbo.
13. SERRÃO, Joel (1976). Pequeno Dicionário de História de Portugal. Lisboa: Iniciativas Editoriais.
14. TAVARES, Francisco Sousa Tavares (1960). Combate Desigual. Lisboa: Edição de Autor.

Publicado inicialmente em 26 de Junho de 2010