terça-feira, 10 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 045


Vida
Agostinho da Silva (1906-1994)

Três votos fará aquele
que não ser tolo decida
e venha deles primeiro
o de obediência à vida

será o segundo a vir
o de não querer ser rico
o muito passe de largo
o pouco lhe apure o bico

não violar-se a si próprio
como principal o veja
alto ou baixo gordo ou magro
assim nasceu assim seja.

Agostinho da Silva (1906-1994)

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 044


Eu falo das casas e dos homens
Adolfo Casais Monteiro (1908-1972)

Eu falo das casas e dos homens,
dos vivos e dos mortos:
do que passa e não volta nunca mais...
Não me venham dizer que estava materialmente
previsto,
ah, não me venham com teorias!
Eu vejo a desolação e a fome,
as angústias sem nome,
os pavores marcados para sempre nas faces trágicas
das vítimas.

E sei que vejo, sei que imagino apenas uma ínfima,
uma insignificante parcela da tragédia.
Eu, se visse, não acreditava.
Se visse, dava em louco ou profeta,
dava em chefe de bandidos, em salteador de estrada,
- mas não acreditava!

Olho os homens, as casas e os bichos.
Olho num pasmo sem limites,
e fico sem palavras,
na dor de serem homens que fizeram tudo isto:
esta pasta ensanguentada a que reduziram a terra inteira,
esta lama de sangue e alma,
de coisa a ser,
e pergunto numa angústia se ainda haverá alguma esperança,
se o ódio sequer servirá para alguma coisa...

Deixai-me chorar - e chorai!
As lágrimas lavarão ao menos a vergonha de estarmos vivos,
de termos sancionado com o nosso silêncio o crime feito instituição
e enquanto chorarmos talvez julguemos nosso o drama,
por momentos será nosso um pouco do sofrimento alheio,
por um segundo seremos os mortos e os torturados,
os aleijados para toda a vida, os loucos e os encarcerados,
seremos a terra podre de tanto cadáver,
seremos o sangue das árvores,
o ventre doloroso das casas saqueadas,
- sim, por um momento seremos a dor de tudo isto...

Eu não sei porque me caem as lágrimas,
porque tremo e que arrepio corre dentro de mim,
eu que não tenho parentes nem amigos na guerra,
eu que sou estrangeiro diante de tudo isto,
eu que estou na minha casa sossegada,
eu que não tenho guerra à porta,
- eu porque tremo e soluço?
Quem chora em mim, dizei - quem chora em nós?

Tudo aqui vai como um rio farto de conhecer os seus meandros:
as ruas são ruas com gente e automóveis,
não há sereias a gritar pavores irreprimíveis,
e a miséria é a mesma miséria que já havia...
E se tudo é igual aos dias antigos,
apesar da Europa à nossa volta, exangue e mártir,
eu pergunto se não estaremos a sonhar que somos gente,
sem irmãos nem consciência, aqui enterrados vivos,
sem nada senão lágrimas que vêm tarde, e uma noite à volta,
uma noite em que nunca chega o alvor da madrugada...

Adolfo Casais Monteiro (1908-1972)

domingo, 8 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 043


A uma bicicleta desenhada na cela
Luís Veiga Leitão (1912-1987)

Nesta parede que me veste
Da cabeça aos pés, inteira,
Bem hajas, companheira,
As viagens que me deste.

Aqui,
Onde o dia é mal nascido,
Jamais me cansou
O rumo que deixou
O lápis proibido…
Bem-haja a mão que te criou!
Olhos montados no selim
Pedalei, atravessei
E viajei
Para além de mim.

Luís Veiga Leitão (1912-1987)

sábado, 7 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 042



Cantiga do ódio
Carlos de Oliveira (1921-1981)

O amor de guardar ódios
agrada ao meu coração,
se o ódio guardar o amor
de servir a servidão.
Há-de sentir o meu ódio
quem o meu ódio mereça:
ó vida, cega-me os olhos
se não cumprir a promessa.
E venha a morte depois
fria como a luz dos astros:
que nos importa morrer
se não morrermos de rastros?

Carlos de Oliveira (1921-1981)

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

NÃO PASSARÃO!

Pedro Passos Coelho e Paulo Portas na Assembleia da República

As recentes eleições legislativas revelaram através dos votos entrados nas urnas, que a maioria dos portugueses rejeitou as propostas políticas da coligação de direita PSD-CDS, a qual nos desgovernou nos últimos quatro anos. Significa isso que não quer nem Coelho nem Portas, já que está farta de Miguéis de Vasconcelos e de Duquesas de Mântua.
Aqueles que têm sido obrigados a pagar a crise, quiseram alterar o estado de coisas, pois entendem que a pátria de Camões deve ser a sua pátria e não uma coutada dos “senhores disto tudo”, das agências de rating, dos mercados, da especulação bolsista, da troika e do FMI.
A maioria do país real entendeu que era a altura de dizer basta, pelo que concentrou os seus votos em três partidos, PS, BE E CDU, que no seu conjunto obtiveram mais votos e mais mandatos que a coligação de direita. Trata-se de partidos diferentemente posicionados na esquerda e com projectos políticos distintos, mas com linhas de força comuns em múltiplos aspectos, com especial realce para a política social do Estado. Tal facto levou os dirigentes daqueles partidos a sentarem-se à mesa das negociações, em busca de um entendimento que conduzisse a um Programa de Governo, sustentado no Orçamento para 2016. Foi com cuidado e determinação que foram negociados e assumidos compromissos estruturais que são para honrar. Em termos constitucionais, o Presidente da República chamou o líder do partido mais votado para formar Governo, o que foi feito por Passos Coelho. Todavia, o Programa de Governo que irá apresentar, precisa de ser aprovado na Assembleia da República, o que não acontecerá, já que nela existe uma maioria de esquerda que não se revê naquele Programa. Deste modo, o Chefe de Estado terá de ouvir novamente os partidos com assento parlamentar. Ora, é sabido que António Costa, leader do PS, apresentará uma alternativa de Governo, com o apoio parlamentar do BE e da CDU. Assim, contra aquilo que era a sua vontade, Cavaco Silva terá de engolir um descomunal elefante, mas não lhe restará outra solução senão empossar o Governo que venha a ser apresentado por António Costa. Aquele, tal como o seu Programa, passará na Assembleia da República com os votos favoráveis dos deputados da maioria de esquerda.
Cavaco Silva sai no mínimo chamuscado desta situação. É que considerava que BE e CDU não poderiam integrar um Governo, o que constitui um espezinhar da Constituição. Na verdade, constitucionalmente e perante a lei, não há nem cidadãos, nem eleitores, nem deputados, nem partidos de primeira e partidos de segunda. Ao admiti-lo, Cavaco Silva deixou de ser Presidente de todos os portugueses, já que se identificou com os propósitos da coligação de direita. Estes, como é sabido, eram ver o seu Governo e o seu Programa passarem na Assembleia da República. Todavia, a maioria de esquerda ali presente não podia trair o seu eleitorado e decidiu:
- NÃO PASSARÃO!

Hernâni Matos              

Poesia Portuguesa - 041



Trova do vento que passa
Manuel Alegre (1936-  )
  
Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.

Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.

Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.

Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que morro por meu país.

Pergunto à gente que passa
por que vai de olhos no chão.
Silêncio -- é tudo o que tem
quem vive na servidão.

Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.

E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.

Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.

Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).

Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.

E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.

Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.

E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.

Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.

Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.

Mesmo na noite mais triste
em tempo de sevidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.

Manuel Alegre (1936-  )

quinta-feira, 5 de novembro de 2015

Poesia Portuguesa - 040

 Desenho de Azinhal Abelho (1911-1979)

Comoção Rural
Azinhal Abelho (1911-1979)

Já não há quem queira dar
uma filha a um ganhão…
Senhor Pai, senhora mãe,
que grande desolação.

Já bati a sete portas
por mais de mil e uma vez;
Vá-se embora seu ganhão,
disseram com altivez…
A minha filha é prendada,
não é para qualquer tunante,
sabe ler, sabe escrever
e todo o seu consoante.
O que é que tem um ganhão?
Um azinho dum pau torto;
só vive das tristes ervas,
não tem onde cair morto.

Os olhos já não são olhos,
estão estão desfeitos em chorar,
porque a um pobre ganhão
já não há quem queira dar
nem mulher para dormir
nem a filha para mulher;
nem quem o ajude a vestir,

nem quem o ajude a morrer.
Ramos secos, estéreis flores,
pedras de arestas cortantes
perdidas num vendaval,
perdidas numa aflição…
Eu já não posso gritar;
Senhor Pai, senhora Mãe,
que grande desolação
nestes matagais com longes,
aonde os anjos se afundam
em humus e punição!

Azinhal Abelho (1911-1979)