quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 032


O Amor e o Tempo
António Feijó (1859-1917)

Pela montanha alcantilada
Todos quatro em alegre companhia,
O Amor, o Tempo, a minha Amada
E eu subíamos um dia.

Da minha Amada no gentil semblante
Já se viam indícios de cansaço;
O Amor passava-nos adiante
E o Tempo acelerava o passo.

— “Amor! Amor! mais devagar!
Não corras tanto assim, que tão ligeira
Não pode com certeza caminhar
A minha doce companheira!”

Súbito, o Amor e o Tempo, combinados,
Abrem as asas trémulas ao vento...
— “Porque voais assim tão apressados?
Onde vos dirigis?” — Nesse momento,

Volta-se o Amor e diz com azedume:
— “Tende paciência, amigos meus!
Eu sempre tive este costume
De fugir com o Tempo... Adeus! Adeus!”

António Feijó (1859-1917)

terça-feira, 27 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 031


Nirvana
Antero de Quental (1842-1891)

Viver assim: sem ciúmes, sem saudades,
Sem amor, sem anseios, sem carinhos,
Livre de angústias e felicidades,
Deixando pelo chão rosas e espinhos;

Poder viver em todas as idades;
Poder andar por todos os caminhos;
Indiferente ao bem e às falsidades,
Confundindo chacais e passarinhos;

Passear pela terra, e achar tristonho
Tudo que em torno se vê, nela espalhado;
A vida olhar como através de um sonho;

Chegar onde eu cheguei, subir à altura
Onde agora me encontro - é ter chegado
Aos extremos da Paz e da Ventura!

Antero de Quental (1842-1891)

segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 030


Sátira aos Penteados Altos
Nicolau Tolentino (1740-1811)

Chaves na mão, melena desgrenhada,
Batendo o pé na casa, a mãe ordena
Que o furtado colchão, fofo e de pena,
A filha o ponha ali ou a criada.

A filha, moça esbelta e aperaltada,
Lhe diz coa doce voz que o ar serena:
- “Sumiu-se-lhe um colchão? É forte pena;
Olhe não fique a casa arruinada...”

- “Tu respondes assim? Tu zombas disto?
Tu cuidas que, por ter pai embarcado,
Já a mãe não tem mãos?” E, dizendo isto,

Arremete-lhe à cara e ao penteado.
Eis senão quando (caso nunca visto!)
Sai-lhe o colchão de dentro do toucado!...

Nicolau Tolentino (1740-1811)

Os frades de Alessandro Sani

Ganância divina.
Óleo sobre tela (29,2 x 25,3 cm).

Allesandro Sani (1856-1927) foi um prolífico pintor italiano do séc. XIX, sobre o qual são escassas as informações biográficas. Sabe-se todavia que esteve activo em Florença entre 1869 e 1915, dedicando-se nas galerias daquela cidade, à cópia de pinturas antigas destinadas ao mercado internacional. De 1871 a 1880 participou em exposições em Florença e Génova, assim como na Exposição Universal de Viena, em 1873.
Muitos dos seus quadros são sátiras à vida doméstica, nomeadamente de frades. Estes não são apresentados em cenas de contemplação e de serviço a Deus, reveladoras de desapego aos bens materiais. Pelo contrário são representados em situações que configuram mais o profano que o religioso e que poderão sugerir mesmo o cometimento de alguns pecados capitais. Daí que a pintura de Sani, possa ser encarada por alguns como uma pintura anti-clerical.

Dia de mercado. 
Óleo sobre tela (33 x 42,5 cm).
Dia de marcado.
Óleo sobre tela (30,5 x 39,4 cm).
Inspeccionando a refeição.
Óleo sobre tela (58,4 x 73,7 cm).
O fedor do peixe.
Óleo sobre tela (50 x 61,5 cm).
Presentes da quinta.
Óleo sobre tela (40 x 56 cm).
Um monge na prova diária.
Óleo sobre tela (64 x 49 cm).
A degustação.
Óleo sobre tela (51,4 x 61,6 cm).
Testando a receita .
Óleo sobre tela (36,8 x 49,5 cm).
Monge e Chefe de cozinha.
Óleo sobre tela.
Frade na cozinha.
Óleo sobre tela (58,4 x 43,2 cm).
O prato favorito.
Óleo sobre tela (40 x 56 cm).
Macarrão.
Óleo sobre tela (95 x 14,8 cm).
Uma refeição de boas vindas.
Óleo sobre tela (74,9 x 102,9 cm).
Cena alegre na taberna.
Óleo sobre painel de madeira (26,04 x 39,37 cm).
Um copo de vinho.
Óleo sobre tela (38 x 45,7 cm).
A nova colheita.
Óleo sobre tela (22,9 x 17,8 cm).
Uma boa colheita.
Óleo sobre tela (62 x 47 cm).
O degustador de vinhos.
Óleo sobre tela (58,5 x 71 cm).
O monge e a donzela.
Óleo sobre tela (47,9 x 37.5 cm).
As notícias do dia.
Óleo sobre tela (42,5 x 54,6 cm).
 
Um jogo de xadrez.
Óleo sobre tela (47 x 63 cm).
O jogo de cartas.
Óleo sobre tela (34,5 x 43,5 cm).
Na biblioteca do Mosteiro.
Óleo sobre tela (57,5 x 75,5 cm).

domingo, 25 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 029



Mudam-se os Tempos, Mudam-se as Vontades
Luís Vaz de Camões (1524-1580)

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

Luís Vaz de Camões (1524-1580) 

sábado, 24 de outubro de 2015

Poesia Portuguesa - 028



Elegia do Amor
Teixeira de Pascoaes (1877-1952)
  
Lembras-te, meu amor,
Das tardes outonais,
Em que íamos os dois,
Sozinhos, passear,
Para fora do povo
Alegre e dos casais,
Onde só Deus pudesse
Ouvir-nos conversar?
Tu levavas, na mão,
Um lírio enamorado,
E davas-me o teu braço;
E eu, triste, meditava
Na vida, em Deus, em ti...
E, além, o sol doirado
Morria, conhecendo
A noite que deixava.
Harmonias astrais
Beijavam teus ouvidos;
Um crepúsculo terno
E doce diluía,
Na sombra, o teu perfil
E os montes doloridos...
Erravam, pelo Azul,
Canções do fim do dia.
Canções que, de tão longe,
O vento vagabundo
Trazia, na memória...
Assim o que partiu
Em frágil caravela,
E andou por todo o mundo,
Traz, no seu coração,
A imagem do que viu.

Olhavas para mim,
Às vezes, distraída,
Como quem olha o mar,
À tarde, dos rochedos...
E eu ficava a sonhar,
Qual névoa adormecida,
Quando o vento também
Dorme nos arvoredos.
Olhavas para mim...
Meu corpo rude e bruto
Vibrava, como a onda
A alar-se em nevoeiro.
Olhavas, descuidada
E triste... Ainda hoje escuto
A música ideal
Do teu olhar primeiro!
Ouço bem tua voz,
Vejo melhor teu rosto
No silêncio sem fim,
Na escuridão completa!
Ouço-te em minha dor.
Ouço-te em meu desgosto
E na minha esperança
Eterna de poeta!
O sol morria, ao longe;
E a sombra da tristeza
Velava, com amor,
Nossas doridas frontes.
Hora em que a flor medita
E a pedra chora e reza,
E desmaiam de mágoa
As cristalinas fontes.
Hora santa e perfeita,
Em que íamos, sozinhos,
Felizes, através
Da aldeia muda e calma,

Mãos dadas, a sonhar,
Ao longo dos caminhos...
Tudo, em volta de nós,
Tinha um aspecto de alma.
Tudo era sentimento,
Amor e piedade.
A folha que tombava
Era alma que subia...
E, sob os nossos pés,
A terra era saudade,
A pedra comoção
E o pó melancolia.
Falavas duma estrela
E deste bosque em flor;
Dos ceguinhos sem pão,
Dos pobres sem um manto.
Em cada tua palavra,
Havia etérea dor;
Por isso, a tua voz
Me impressionava tanto!
E punha-me a cismar
Que eras tão boa e pura,
Que, muito em breve — sim!
Te chamaria o céu!
E soluçava, ao ver-te
Alguma sombra escura,
Na fronte, que o luar
Cobria, como um véu.
A tua palidez
Que medo me causava!
Teu corpo era tão fino
E leve (oh meu desgosto!)
Que eu tremia, ao sentir
O vento que passava!
Caía-me, na alma,
A neve do teu rosto.

Como eu ficava mudo
E triste, sobre a terra!
E uma vez, quando a noite
amortalhava a aldeia,
Tu gritaste, de susto,
Olhando para a serra:
— Que incêndio! — E eu, a rir,
Disse-te — É a lua cheia!...
E sorriste também
Do teu engano. A lua
Ergueu a branca fronte,
Acima dos pinhais,
Tão ébria de esplendor,
Tão casta e irmã da tua,
Que eu beijei sem querer,
Seus raios virginais.
E a lua, para nós,
Os braços estendeu.
Uniu-nos num abraço,
Espiritual, profundo,
E levou-nos assim,
Com ela, até ao céu
Mas, ai, tu não voltaste
E eu regressei ao mundo.

Teixeira de Pascoaes (1877-1952)

As duas Igrejas

Um copo de vinho.
Alessandro Sani (1856-1927).
Óleo sobre tela (38 x 45.7 cm).
Colecção particular.

Os problemas sociais modernos merecem a atenção da Igreja Católica, que através de encíclicas e pronunciamentos papais, procura dar um conjunto de ensinamentos que integram a Doutrina Social da Igreja. Esta aborda múltiplos temas capitais como: “ - a pessoa humana, sua dignidade, seus di­reitos e suas liberdades; - a família, sua vo­ca­ção e seus direitos; - inserção e participação responsável de cada homem na vida social; - o bem comum e sua pro­mo­ç­ão, no respeito dos princípios da solidariedade e subsidiaridade; ­- o destino universal dos bens da natureza e cui­dado com a sua preservação e de­fe­sa do ambiente; - o desenvolvimento in­tegral de cada pessoa e dos povos; - o primado da justiça e da caridade. Tais ensinamentos sobre os problemas sociais modernos, encontram na encíclica “Rerum Novarum” (1891) de Leão XIII (1810-1903) a sua carta magna.
Apesar da sua postura actual, a Igreja Católica nem sempre foi assim. Durante a Idade Média (476-1453) conquistou e manteve grande poder económico, político, jurídico e social, não permitindo opiniões contrárias aos seus dogmas. Aqueles que se atreviam a fazê-lo eram perseguidos e punidos pela Inquisição, que prendeu, torturou e queimou na fogueira milhares de pessoas. Na Idade Moderna (1453-1789) e mesmo na Idade Contemporânea (de 1789 em diante), a Igreja Católica caminhou lado a lado com o Estado, com um interregno em Portugal durante a I República (1910-1926), mas retomando o caminho anterior no decurso do Estado Novo (1926-1974).
Ao longo dos séculos, o espírito crítico da arraia-miúda nunca viu com bons olhos, a postura de certos membros da hierarquia da Igreja Católica. Essa desconfiança ficou registada na memória colectiva sob a forma de provérbios, que podemos sistematizar em 3 grandes grupos:
- FRADES: Basta um frade ruim para dar que falar a um convento. Contratos com frades, nem por boca nem por escrito. Daquilo que bem lhe sabe, não reparte o frade. Em traseira de mula e dianteira de frade, ninguém se fie. Frade e mulher, duas garras do diabo. Frade Nabiça tudo que vê, cobiça. Frade onde canta, aí janta. Frade que pede para Deus, pede para dois. Guarda-te do frade e do cão que não sai da grade. Hábito de frade e saia de mulher, chega onde quer. Ladrão que anda com frade, ou o frade será ladrão, ou o ladrão frade. Mais depressa se torna o frade ladrão do que o ladrão frade. Não dá o frade o que bem lhe sabe, nem a freira o que bem lhe cheira. Nem a chocarreiro nem a frade fora do mosteiro, dês do teu dinheiro. O frade por onde anda, não lhe falta pão na manga. Qual é o frade que não tem dois capotes? Treze é a dúzia do frade.
- FREIRAS: Biscoito de freira, fanga de trigo. Casar ou meter a freira. Em caso de necessidade, casa a freira com o frade. Frade, freira e mulher rezadeira, são três pessoas distintas e nenhuma verdadeira. Freiras e frieiras é coçá-las e deixá-las. Não dá o frade o que bem lhe sabe, nem a freira o que bem lhe cheira. Quando a abadessa é careca, as freiras são pouco encabeladas.
- PADRES: Dos três pp livre-me Deus: padre, pombo e parente. Feliz que nem filho de padre. O padre ganha-o a cantar. Ódio de padre não respeita comadre. Padre de versos, padre de netos. Padre e cão olham para a mão. Padre mouco não confessa. Padre muito rezador, mulher muito beata, homem muito cortês, é livrar de todos três. Padre novo e bonito, aqui d'el-rei que eu grito. Padres e patos, nunca estão satisfeitos. Padres, músicos e foliões são caros pelo que apanham pelo dente. Um padre a pecar conta a dobrar.